ÍNDIA: DO TEMPLO DOS ADORADORES DE RATOS DE KARNI MATA AOS CACADORES DE RATOS DE MUMBAI

Conforme comentamos em uma postagem anterior, os ratos são a segunda espécie animal mais exitosa na colonização do nosso planeta – a raça humana ocupa a primeira posição. Originários da estepes do Norte da Ásia, os ratos aprenderam a conviver com os agrupamentos humanos há dezenas de milhares de anos. Os inteligentes roedores descobriram que podiam viver segura e confortavelmente se alimentando de restos de comida ou dos estoques de alimentos dessas populações. Após essa “domesticação” espontânea, os ratos passaram a seguir os humanos em suas migrações pelo mundo.

As três espécies mais difundidas no mundo são o rato-preto ou de telhado (Rattus rattus), o rato-marrom ou ratazana, conhecido como gabiru em muitas regiões (Rattus norvegicus) e os camundongos (Mus musculus), espécie de ratos pequenos, que vivem em residências. As três espécies são transmissoras de doenças, onde destaco a leptospirose e a peste bubônica, também chamada de Peste Negra, doença que matou entre 75 e 200 milhões de pessoas na Europa do século XIV. 

A imensa maioria dos seres humanos – onde eu me incluo, tem verdadeira aversão aos ratos. Uma das raras exceções é encontrada na cidade de Deshnok, no Rajastão, Estado do Norte da Índia e distante pouco mais de 500 km de Nova Délhi. Nessa cidade encontramos Karni Mata, um templo dedicado aos ratos e seus adoradores. O templo abriga centenas e mais centenas de ratos-brancos, animais considerados sagrados e que recebem a proteção dos fieis e dos sacerdotes.

Karni Mata foi uma mulher sábia hindu que viveu entre os séculos XIV e XVI (as diversas fontes divergem sobre a data do seu nascimento). Ela viveu uma vida ascética e foi altamente venerada pelos fieis durante a sua vida. A construção do templo começou a pedido do Marajá de Bikaner logo após o misterioso desaparecimento da mulher, que de uma hora para outra sumiu de sua casa e nunca mais foi vista. Os ratos começaram a se estabelecer no templo e rapidamente passaram a ser considerados uma reencarnação de Karni Mata.

Os fieis levam jarros com leite e outros alimentos até o templo, que são imediatamente oferecidos aos animais. A foto que ilustra esta postagem mostra um grupo desses ratos se servindo do leite dispensado em uma grande bacia. O templo também é aberto para a visitação pública, porém, não são todos os visitantes que tem coragem de entrar e ficar tão próximos de uma quantidade imensa de ratos. Para esses, ratos não são sagrados – são animais nojentos.

Já em Mumbai, a maior cidade da Índia, os ratos são considerados como uma grande praga urbana e os administradores locais não poupam esforços para eliminar esses animais, empregando, inclusive, um verdadeiro exército de caçadores de ratos. A Prefeitura local possui um departamento com funcionários especializados na caça aos ratos. São cerca de 40 funcionários públicos concursados e alocados especificamente para essa função. Essas vagas são bastante disputadas, atraindo milhares de candidatos – ser funcionário público em um país como a Índia é um grande privilégio. 

Além dos caçadores oficiais de ratos, a Prefeitura de Mumbai também contrata centenas de caçadores free lancer. Esses caçadores têm como meta abater, pelo menos, 30 ratos a cada noite, recebendo um pagamento equivalente a US$ 0.10 por cabeça – para os padrões salariais da Índia, esse é um ótimo rendimento. Se você gosta de cinema, recomendo o filme indiano Dhobi Ghat (Mumbai Diaries) que, entre seus personagens, conta o drama de um jovem dalit (casta mais baixa da sociedade indiana) que trabalha como lavador de roupas durante o dia e como caçador de ratos a noite, e que acaba se apaixonando por uma jovem milionária. 

Com aproximadamente 18 milhões de habitantes, Mumbai tem grande parte de sua mancha urbana formada por um labirinto de ruas e vielas, onde a população pobre teima em sobreviver e superar as grandes dificuldades do dia a dia. Existem cerca de 100 mil pequenas oficinas instaladas em fundos de quintais e casas, que produzem de tudo e até chegam a exportar seus produtos para países vizinhos. Apesar de sustentar e gerar empregos para grande parte da população, essas microempresas também geram grandes volumes de resíduos sólidos, que se juntarão aos resíduos domiciliares e esgotos domésticos que abundam nas ruas. 

Perto de 55% da população da cidade vive em favelas, como é o caso de Dharavi, a “favela celebridade” da Índia, que foi um dos cenários do filme “Quem quer ser um milionário” (Slumdog Milionaire – 2008). Ocupando uma área superior a 1,75 milhão de metros quadrados e com uma população estimada em 1 milhão de habitantes, essa favela virou um ponto turístico de Mumbai. 

De acordo com dados de 2012, Mumbai gera mais de 6% de todos os resíduos sólidos da Índia, resíduos que são depositados a céu aberto em quatro grandes lixões ao redor da cidade. Um verdadeiro exército de homens, mulheres e crianças passam suas vidas nesses lixões garimpando resíduos com algum valor. Os jovens protagonistas do filme “Quem quer ser um milionário” passam parte de suas vidas trabalhando em um desses lixões. 

Outro grave problema de Mumbai, que aliás é comum em toda a Índia, são os esgotos domésticos. Os mais de 1,34 bilhão de indianos produzem cerca de 40 bilhões de litros de águas residuais ou esgotos a cada dia. Cerca de 80% de todo esse volume de esgotos é despejado em riachos, rios e mares sem nenhum tipo de tratamento. A Índia tem 8 mil municípios e, de acordo com um estudo feito em 2011 pelo Conselho Central de Controle de Poluição, apenas 160 municípios do país contavam com centrais de tratamento de esgotos. Nos últimos anos foram feitos grandes investimentos em saneamento básico no país, mas essa situação evoluiu muito pouco.

O somatório de todos esses problemas de saneamento básico transformou a cidade de Mumbai em um verdadeiro paraíso para os ratos, que procriam sem qualquer controle e infestam todos os cantos da cidade. Ratoeiras, armadilhas e iscas envenenadas, são usadas intensivamente pela população numa tentativa de controlar essa verdadeira praga urbana.

A crescente classe média indiana fica indignada a cada nova produção cinematográfica do país que teime em mostrar todas as mazelas e os gravíssimos problemas sociais dos pobres do país. A Índia é, disparada, a maior produtora de filmes do mundo. Contando com 26 línguas oficias e mais de 400 línguas e dialetos minoritários, o país é uma verdadeira linha de produção de filmes. Bollywood, a versão indiana de Hollywood, fica em Mumbai e concentra a maior parte das produções. Os indianos mais ricos gostam mesmo é dos romances açucarados, musicais e filmes épicos, que mostram toda a beleza, a cultura e a história do país. 

Esses endinheirados sentem um imenso orgulho dos grandes avanços tecnológicos da Índia, com suas inúmeras centrais nucleares, poderosas forças armadas, bombas atômicas e, é claro, das altas taxas de crescimento econômico e da iminente trajetória do país rumo à terceira posição entre as maiores economias do mundo. Falar de pobres que ganham a vida caçando ratos, de esgotos, de lixo ou da falta de banheiros no país, é vergonhoso demais para eles. 

A realidade, porém, é muito mais forte que os desejos românticos desses “novos ricos” e os ratos teimam em continuar ocupando o seu lugar na Índia – seja no templo de Karni Mata seja nas ruas e vielas de Mumbai…

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