A “BATALHA” DOS ESQUILOS-CINZENTOS CONTRA OS ESQUILOS-VERMELHOS NA GRÃ-BRETANHA

De acordo com dados do projeto DAISIE – Delivering Alien Invasive Species Inventories for Europe ou Inventários de Espécies Invasoras Alienígenas para a Europa, numa tradução livre, 10.992 espécies invasoras foram identificadas no continente desde o ano de 2002. Nessa impressionante lista estão incluídas espécies animais e vegetais, o que nos dá uma vaga ideia do tamanho dos problemas criados por espécies invasoras.

Entre os “destaques” na lista dos invasores estão os ratões-do-banhado, uma espécie de roedor encontrado na região Sul do Brasil, no Sul do Estado de São Paulo (inclusive nas águas poluídas dos rios Tiete e Pinheiros), além de algumas regiões do Uruguai e da Argentina. Também podemos citar o lagostim da Luisiana, a truta-do-arroio, o mexilhão-zebra e o bernache, uma espécie de pato selvagem norte-americano que vem se propagando na Europa. Vamos começar falando de um invasor muito simpático e “fofo”: os esquilos-cinzentos.

O esquilo-cinzento ou esquilo-cinza-oriental (Sciurus carolinensis) é nativo da América do Norte, onde seus domínios se estendem ao longo da faixa Leste e partes das regiões centrais dos Estados Unidos e parte Sul das províncias centrais do Canadá. Normalmente, a espécie possui uma pelagem na cor cinza, podendo ser encontrados indivíduos com uma cor mais para o castanho. Esses esquilos tem um comprimento de corpo (incluindo a cabeça) entre 23 e 30 cm, com uma cauda entre 19 e 25 cm. O peso de um animal adulto varia entre 400 e 600 gramas.

Segundo algumas fontes históricas, os esquilos-cinzentos foram introduzidos na Inglaterra em meados do século XIX por um banqueiro chamado Thomas Brocklehust. Segundo as informações disponíveis, esse banqueiro possuía uma grande casa de campo no interior do país e, sabe-se lá o porque, imaginou que a soltura dos roedores norte-americanos em suas terras ajudaria a embelezar o jardim. Não se considerou há época o tamanho dos impactos da introdução da espécie exótica nas populações do esquilo-vermelho, a espécie animal correspondente da fauna local.

O esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris), também conhecido como esquilo-vermelho-euroasiático, é encontrado em toda a Europa e Norte da Ásia. Essa espécie é menor que o esquilo-cinzento, apresentando um corpo (incluindo a cabeça) com um comprimento entre 19 e 23 cm, além de uma cauda entre 15 e 20 cm. O peso se situa entre 250 e 340 gramas. Os animais europeus ocupam exatamente o mesmo nicho ecológico dos esquilos norte-americanos e, num confronto direto por habitats, encontraram uma enorme desvantagem competitiva.

Apesar de compartilharem ancestrais comuns com os esquilos-vermelhos, os esquilos-cinzentos evoluíram em um ambiente mais inóspito, o que tornou os animais maiores, mais fortes e com um massa de gordura corporal mais alta. Os animais tem ninhadas com mais filhotes e conseguem se adaptar facilmente a novos ambientes, o que resultou num enorme crescimento populacional. De acordo com as mais recentes estimativas populacionais, existem cerca de 160 mil esquilos-vermelhos na Grã-Bretanha, concentrados principalmente no Sul da Escócia – já a população de esquilos-cinzentos é estimada em 3 milhões de animais, .

A verdadeira explosão populacional dos esquilos-cinzentos acabou dizimando os esquilos-vermelhos da maior parte da Inglaterra e do País de Gales. De acordo com grupos conservacionistas locais, a espécie poderá ser extinta num prazo de 20 anos. Para agravar a situação, grande parte dos esquilos-cinzentos é portadores do Parapoxvírus, um vírus que pode ser fatal para os esquilos-vermelhos.

Autoridades britânicas vem buscando formas de conter o avanço dos esquilos norte-americanos, onde se incluem o uso de armadilhas, iscas ou simplesmente o abate dos animais por caçadores. Uma alternativa promissora foi encontrada por pesquisadores da Universidade Nacional da Irlanda. De acordo com estudos realizados na região de Galway na Irlanda, a marta-do-pinheiro-europeia se mostrou um predador eficiente dos esquilos. Esse carnívoro é natural das ilhas britânicas e, segundo as observações realizadas ao longo do estudo, passou a dar preferencia a caça dos esquilos-cinzentos da região. Muito provavelmente, essa preferencia se deve ao fato dos esquilos dessa espécie serem maiores que os esquilos-vermelhos.

A boa notícia tem alguns problemas – devido aos intensos desmatamentos e a caca predatória, a marta-do-pinheiro-europeia desapareceu da maior parte dos países, apresentando pequenas populações na Escócia e na Irlanda. Ou seja, para conseguir conter o avanço das populações de esquilos-cinzentos, os britânicos precisarão fazer enormes esforços para repovoar os poucos fragmentos florestais restantes com as martas ou, melhor ainda, terão de fazer grandes esforços para aumentar suas áreas florestais e criar habitats para a reintrodução dos carnívoros predadores de esquilos.

A Inglaterra já foi um país completamente coberto por florestas e que hoje tem algo como 2% da cobertura vegetal original, o que nos dá uma ideia do tamanho do problema. Um exemplo do nível dos desmatamentos no país – a famosa Floresta de Sherwood, que já foi o esconderijo do lendário Robin Hood, hoje em dia não passa de um pequeno bosque, que lembra muito um parque urbano. Outro grave problema – devido aos mesmo problemas, os esquilos-cinzentos estão concentrados em pequenos fragmentos florestais em áreas interioranas, parques urbanos e também em árvores nos quintais de casas e condomínios. Imaginar que as martas se aproximarão dessas áreas para caçar os esquilos-cinzentos é uma “forçação de barra”, como costumamos dizer aqui no meu bairro.

Vejam o que um simples capricho de um aristocrata inglês do século XIX desencadeou – um problema praticamente sem solução.

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