MANDIOCA: UMA ESPÉCIE SUL-AMERICANA QUE É INVASORA EM TERRAS DA ÁFRICA E DA ÁSIA

A mandioca (Manihot esculenta), também conhecida como macaxeira, aipim, castelinha, uapi, madioca-doce, mandioca-mansa, maniva, miniveira, pão-de-pobre, mandioca-brava e mandioca-amarga, entre muitos outros nomes, é um dos alimentos mais consumidos do mundo. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a mandioca faz parte da alimentação básica de mais de meio bilhão de pessoas em todo o mundo

Nas regiões tropicais, a cultura é a terceira mais importante fonte de carboidratos, ficando atrás apenas do arroz e do milho. A mandioca é plantada em mais de 100 países, especialmente na África, e no Sul e Sudeste Asiático. Entre os maiores produtores destaca-se a Nigéria, maior produtor mundial, Tailândia, Indonésia, Brasil, Angola, Moçambique, Timor-Leste e Sao Tome e Príncipe.

Para você que sempre imaginou que a mandioca era uma planta 100% brasileira, fica aqui a nossa dica – sim, a planta é tupiniquim de corpo e alma. A mandioca selvagem é originária da América do Sul e foi doméstica desde tempos imemoriais pelos nossos indígenas. Em estado natural, a mandioca é rica em cianeto de hidrogênio, um composto volátil e altamente tóxico. Os indígenas descobriram que o cozimento da mandioca eliminava o excesso de cianeto, tornando o produto seguro para o consumo. 

Através de inúmeros experimentos com muitos erros e alguns acertos, esses povos desenvolveram as melhores técnicas de plantio e as diferentes etapas para a preparação da farinha de mandioca, um alimento que foi e ainda continua sendo fundamental para populações de todo o Brasil e de muitos países pelo mundo afora. 

De acordo com diversas fontes históricas e literárias -cito como exemplo o livro Casa-Grande e Senzala de Gilberto Freire, um verdadeiro clássico brasileiro, os colonizadores europeus ficaram fascinados com a grande fartura de farinha de mandioca entre os grupos indígenas e com a sua facilidade de produção quando comparada à farinha de trigo. Entre a população colonial brasileira, a farinha de mandioca era ingrediente de uma infinidade de pratos como bolos, sopas, angus, farofas e muitos outros.  

O tubérculo cozido em água podia ser consumido in natura apenas com a adição de sal ou preparado com diversos tipos de carnes, formando pratos típicos de nossa culinária com a “vaca atolada”. O polvilho, um tipo de farinha da fécula muito fina, se transformou num dos ingredientes fundamentais dos bijus, das tapiocas e do pão de queijo. 

Arte complexa que nos legaram os indígenas, a produção das farinhas assumiu cores e sabores regionais, dando alma à culinária brasileira de Norte a Sul, de Leste a Oeste, de Nordeste a Sudeste. Existe uma infinidade de tipos de farinhas: mais finas, mais grossas, seca, d’água, de biju, brancas, amarelas, cada uma com um sabor e uma diferente gama de aplicações nos mais diferentes e deliciosos pratos.  

Ainda no século XVI, a farinha de mandioca começou a conquistar o mundo – primeiro nas naus portuguesas como alimento de longa conservação nas suas viagens ao redor do mundo, depois como escambo na troca por escravos na África. Em 1593, os navios do famoso pirata inglês Richard Hawkins tomaram um navio português de 400 toneladas no Rio da Prata e descobriram que parte da carga era farinha de mandioca. Hawkins dedicou várias páginas do seu diário de bordo falando da farinha de mandioca e revelou que um tipo de panqueca feita com o produto “tornou-se a comida preferida de toda a tripulação dos nossos navios“

Os caminhos feitos pela farinha de mandioca acabaram sendo seguidos pela planta, que acabou sendo levada para a África e para a Ásia por naus portuguesas e de outras nações. Encontrando condições climáticas semelhantes aquelas encontradas nas principais áreas de produção do Brasil, a mandioca rapidamente foi conquistando novos territórios e consumidores. 

Entre as razões para esse grande sucesso da mandioca pelo mundo afora destacamos a alta produtividade da planta. De acordo com dados da FAO do ano de 2010, a produtividade média da mandioca em todo o mundo era de 12,5 toneladas por hectare. Em fazendas com alta produtividade na Índia, essa média de produção chegou a incríveis 34,8 toneladas por hectare nesse mesmo ano. 

Outro fator chave para o sucesso da cultura é o ciclo de produção, com alguns cultivares chegando ao ponto de colheita em apenas seis meses. Após atingir o ponto ideal da colheita, as raízes podem permanecer sob o solo por períodos superiores a um ano sem estragar, formando uma reserva de alimentos fundamental para as populações de regiões extremamente pobres e sujeitas a fortes ciclos de seca. 

Até o ano de 2006, foram catalogadas mais de 4 mil cultivares diferentes da mandioca apenas aqui no Brasil. Essa ampla variedade genética é fruto dos trabalhos de seleção e de conservação feitos por agricultores em suas lavouras. Essas variedades costumam ser chamadas de “crioulas” e despertam grande interesse entre os pesquisadores e instituições de pesquisa. Esses diferentes tipos de cultivares tem ciclos de produção entre 6 e 36 meses. 

Além do consumo da raiz do tubérculo, em muitos países africanos é comum o consumo das folhas da mandioca moídas em um pilão com alho. Essa farinha de folhas secas é depois cozida com mariscos, caranguejos ou camarões. Em Moçambique esse prato recebe o nome de matapa, sendo considerado um ícone da culinária local. Em Angola, esse prato é chamado de kissaca. Aqui no Brasil, curiosamente, as folhas da planta só são aproveitadas em algumas localidades da Região Norte.  

Nas Filipinas, um prato muito popular é o bolo de mandioca, conhecido localmente como kakanin cassava bibingka. Ele é feito a partir da mandioca ralada, que depois de devidamente lavada para a remoção do excesso de cianeto, é misturada com leite de coco, açúcar, ovos e manteiga, recebendo depois uma cobertura feita com leite cremoso. 

Entre os nossos vizinhos sul-americanos, um exemplo de prato feito a partir da mandioca é a carimañola colombiana, um bolinho em forma de torta. Há registros da preparação desse prato entre membros do povo de Saliva na Província de Casanare no início de 1856. 

Como se nota, não são apenas espécies exóticas que são introduzidas em território brasileiro e se transformam em grandes problemas na competição com as espécies locais. Espécies brasileiras, animais e vegetais, também são “exportadas” para outros países e podem se transformar em um grande problema para as espécies locais dessas regiões. 

Como diria uma ex-presidente brasileira, “vamos saudar a mandioca”… 

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