OS GRANDES RISCOS CRIADOS PELOS INCÊNDIOS FLORESTAIS EM PORTUGAL

Todos os anos, quando chega a temporada da seca nas regiões da Amazônia e do Cerrado, a grande maioria dos brasileiros costuma assistir pelos telejornais cenas de grandes incêndios nas matas, com enormes labaredas de fogo e grossas nuvens de fumaça cobrindo o horizonte. Isso acontece por que essas regiões ficam distantes milhares de quilômetros das principais cidades do Brasil. 

Essa “confortável” distância entre a maior parte de nossa população e as grandes queimadas mudou em 2019, ano em que uma combinação de fatores climáticos trouxe a fumaça das queimadas para grandes centros urbanos da Região Sudeste. No dia 19 de setembro daquele ano, a cidade de São Paulo assistiu ao escurecimento do céu no meio da tarde e a uma chuva com águas escuras com um tom de chá mate – tudo culpa da fumaça vinda desde grandes queimadas no Pantanal Mato-grossense, de trechos da Amazônia brasileira e boliviana, e também do Paraguai. 

Em um país pequeno como Portugal, a proximidade entre as cidades e as áreas florestais é enorme e qualquer incêndio afeta e ameaça grandes contingentes populacionais. Só para relembrar: nosso país irmão tem uma área total pouco maior que 92 mil km² e conta com uma população com cerca de 10 milhões de habitantes. 

Um exemplo desses grandes riscos foi o que aconteceu no último mês de junho na região Pedrógão Grande, quando um raio deu início a um grande incêndio florestal (vide foto) – ao menos 57 pessoas que circulavam por uma rodovia através da floresta morreram vitimadas pelas chamas e/ou pela fumaça e outras 60 ficaram feridas. 

Outro exemplo que podemos citar foi o grande incêndio que atingiu ao menos 9 mil hectares de matas na região do Algarve e que começou no dia 16 deste mês. Foram atingidas áreas nos municípios de Castro Marim, Vila Real de Santo Antônio e Tavira. Preventivamente, mais de 80 moradores de 12 aldeias da região tiveram de ser removidos de suas casas. Mais de 630 bombeiros e 208 viaturas foram empregados no combate às chamas. 

A autoestrada A22, que liga o Algarve à província espanhola de Huelva também foi fechada para evitar incidentes como os ocorridos no incêndio florestal de Pedrógrão Grande. A rodovia nacional N-125 também acabou sendo fechada. Devido ao clima quente e ao ar seco naquela, semana, as Autoridades portuguesas decretaram alerta de alto risco de incêndio florestal em 14 dos 18 distritos do país. 

Portugal possui uma das maiores áreas florestais da Europa em termos percentuais relativos ao seu território – cerca de 38% da superfície continental do país é coberta por florestas. Cerca de 85% dessas florestas ficam em áreas particulares e apenas 3% estão localizadas em áreas do Governo Federal. As áreas restantes ficam em terrenos baldios ou pertencem aos municípios. 

Perto de metade das áreas florestais de Portugal são dominadas por apenas duas espécies: o pinheiro-bravo (Pinus pinaster), uma espécie nativa do país e que responde por 30% da vegetação, e pelo eucalipto branco (Eucalyptus globulus), uma espécie exótica introduzida em terras lusitanas no início do século XX, que ocupa cerca de 20% das áreas florestais. 

Uma outra espécie florestal importante de Portugal é o sobreiro (Quercus suber), que ocupa cerca de 21,3% das florestas do país. O sobreiro é uma espécie de carvalho a partir do qual se extrai a cortiça usada na produção de rolhas para vinhos, espumantes e outras bebidas. Portugal é o maior produtor mundial de cortiça, respondendo por 50% da produção. O setor emprega mais de 12 mil trabalhadores no país e gera um faturamento de US$ 7.6 bilhões. 

A extração da casca do sobreiro, a matéria prima da cortiça, possui uma rigorosa legislação no país. Após a retirada da casca, a árvore deve passar por um período de regeneração de 9 anos, ou seja, um tempo adequado para a árvore formar uma nova casca. Caso uma dessas árvores seja atingida pelas chamas de um incêndio florestal, é até possível que a planta possa sobreviver, porém, serão necessários muitos anos para recuperar a produção da cortiça.  

No total, atividades florestais empregam mais de 160 mil pessoas em Portugal, o que corresponde a aproximadamente 3,3% da população economicamente ativa. Esse rápido resumo demonstra a importância econômica e social da preservação da cobertura florestal no país, além de explicitar o tamanho dos riscos representados pelos grandes incêndios. A questão ambiental, que também é importantíssima, não entrou nessa conta. 

forte onda de calor vinda do Deserto do Saara e que causou a quebra de recordes de temperatura em diversas regiões do Sul da Europa e no Norte da África também se refletiu em altas temperaturas na Península Ibérica. Em Portugal, os termômetros bateram na casa dos 36º C em Lisboa e em 43º C em Évora. As Autoridades do país temem que essa onda de calor gere um grande aumento nos focos de incêndios. 

Em 2017, os incêndios florestais devastaram mais de 50 mil hectares de florestas no país e provocaram a morte de, pelo menos, 117 pessoas. Em 2018, as perdas foram de aproximadamente 38 mil hectares e de cerca de 41 mil hectares em 2019. Em 2020 foram registrados 9.690 incêndios em áreas rurais do país, com uma perda total de 67 mil hectares de matas. 

De acordo com especialistas, a localização geográfica e a influência dos fortes ventos vindos do Oceano Atlântico favorecem o surgimento de grandes incêndios florestais em Portugal. Também entram na equação o aumento das temperaturas no país e em toda a Europa, as secas prolongadas e também a falta de estratégias eficazes para a mitigação dos incêndios florestais por parte das Autoridades locais. 

Uma crítica importante feita por muitos especialistas em meio ambiente e por ambientalistas faz referência ao grande aumento das plantações de eucalipto no país, impulsionadas pelo forte crescimento das indústrias de papel e celulose. Segundo esses profissionais, essas florestas comerciais de eucaliptos são altamente inflamáveis. 

Apesar das Autoridades locais afirmarem que houve uma importante redução no número total de incêndios e na área devastada por esses eventos desde de 2016, os portugueses ainda terão muitos problemas e também novos temores a cada verão. Devido ao aquecimento global, as fortes ondas de calor no país tendem a se tornar recorrentes e, com isso, mais áreas de florestas estarão à mercê da ocorrência de grandes e desastrosos incêndios florestais. 

Como estamos sempre repetindo aqui em nossas postagens, as mudanças climáticas estão criando novos e complicados tempos na Europa e em todo o mundo. 

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