O CANADÁ E SEUS GRANDES INCÊNDIOS FLORESTAIS

Na última postagem falamos dos incêndios florestais que estão consumindo grandes áreas de florestas nos Estados Unidos. De acordo com informações do National Interagency Fire Center do último dia 19, eram 104 grandes incêndios florestais ativos, especialmente na região Oeste do país, mobilizando mais de 25 mil bombeiros. 

O Canadá, o grande vizinho do Norte dos Estados Unidos, também enfrentou uma temporada de incêndios devastadores neste ano, porém, as coisas por lá já estão bem mais controladas. A Colúmbia Britânica, província mais Ocidental do país, chegou a ter 300 focos de incêndios florestais no mês de julho. Segundo as informações disponíveis, mais de 3 mil km² de florestas foram queimadas, uma área três vezes maior que a média dos últimos anos

O Oeste canadense sofre dos mesmos males vividos pelo Oeste dos Estados Unidos – mudanças climáticas estão alterando as precipitações de chuva e de neve. Com menos umidade, a vegetação fica mais seca e altamente inflamável. Com a ação dos ventos, qualquer foco de fogo, com origem natural ou decorrente de ação humana, rapidamente se alastra e se transforma em um grande incêndio florestal.  

No final do mês de junho, o Oeste do Canadá enfrentou uma fortíssima onda de calor, o que aumentou, e muito, o surgimento de focos de fogo. Um exemplo que citamos em uma postagem há época foi o caso da pequena cidade de Lytton, localizada na Colúmbia Britânica, que registrou no dia 27 de junho, a incrível temperatura de 46,6° C.  

Três dias depois de bater esse recorde, Lytton foi devastada por um forte incêndio que avançou desde uma área de floresta e que formou chamas com até 4 metros de altura na cidade. Os pouco mais de 250 moradores tiveram apenas 15 minutos para evacuar a cidade após o alerta emitido pela prefeitura. A imagem abaixo mostra o que sobrou da área central da cidade.

O Norte do Canadá também vem sofrendo com um fenômeno que está sendo chamado de “incendios zumbis” pelos cientistas. São grandes áreas da vegetação de taiga e da tundra que aparecem queimadas de uma hora para outra. Esse “fenômeno” não é novo e já vem sendo observado há várias décadas. Porém, a frequência passou a aumentar muito nos últimos anos. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, o Ártico vem passando por um processo acelerado de aumento das suas temperaturas. Nos meses de verão, temperaturas próximas aos 40° C, muito comuns aqui em nosso país, estão se tornando perigosamente frequentes em muitas regiões ao redor do Ártico. 

Uma das definições geográficas para delimitar o Ártico é a linha das árvores árticas, uma faixa que marca a divisão entre as árvores da taiga, ou floresta boreal, e a tundra ártica. Uma das características dessa região é o permafrost, onde a água dos solos fica permanentemente congelada e os torna extremamente duros. Esse tipo de solo se estende para regiões vizinhas ao redor Ártico.

Com o aumento das temperaturas em todo o Ártico, esses solos estão descongelando gradativamente e perdendo a sua resistência. As árvores da taiga, espécies que sofreram um processo evolutivo para se adaptar as condições físicas dessa região, possuem um sistema de raízes muito pequeno e caem aos milhares ao longo do verão. São essas grandes massas de madeira que acabam queimando naturalmente nos “incêndios zumbis”. No caso da tundra, as altas temperaturas secam a vegetação rasteira, que fica propensa aos incêndios.

Estudos científicos indicam que a incidência desses incêndios nas áreas da taiga são as maiores dos últimos 3 mil anos, época em que as florestas boreais se formaram. É possível que sejam os maiores incêndios nessa região nos últimos 10 mil anos. No início da década de 2000, esses incêndios aumentaram 50%; entre os anos 2010 e 2020, esse aumento foi ainda maior. 

O aquecimento do Ártico também está propiciando o aumento de pragas florestais no Norte do Canadá e também no Alasca, território que pertence aos Estados Unidos. Na Colúmbia Britânica, a maior ameaça é o besouro-do-pinheiro-da-montanha (Dendroctonus ponderosae). Em outras áreas do bioma as ameaças atendem por nomes como mosquito-do-lariço, lagarta-dos-pinheiros (Choristoneura fumiferana), entre muitos outras. O ataque dessas pragas pode levar as árvores a uma morte precoce, aumentando o risco de incêndios naturais. 

Além dos grandes impactos ao meio ambiente, o aumento gradativo dos incêndios florestais representa um sério problema para a economia do Canadá. O país é um dos maiores produtores mundiais de papel e celulose e também o maior exportador de madeiras do mundo. O clima do país sempre foi um fator impeditivo para o crescimento da agricultura e a exploração madeireira sempre teve uma importância fundamental na história do país. 

O Canadá é um dos países com a maior cobertura florestal do mundo. Cerca de metade do território do país é coberto por florestas, onde se encontram mais de 140 mil espécies vegetais, animais e microrganismos. São aproximadamente 180 espécies de árvores nativas. Esse imenso patrimônio natural nos dá uma ideia dos grandes riscos ambientais que estão sendo criados pelas mudanças climáticas. 

O Governo e as empresas do ramo florestal do Canadá se esforçam para manter a sustentabilidade dessas atividades. Em 2010, as 19 maiores empresas do setor e 6 organizações ambientais assinaram o Acordo da Floresta Boreal do Canadá visando o uso racional e sustentável dos recursos florestais do país. Esse Acordo obriga as empresas a reflorestar as áreas exploradas com mudas de espécies nativas, o que garante a regeneração total das florestas em até 80 anos. 

Apesar desses aparentes bons resultados, muitos especialistas e ambientalistas ainda tem sérias dúvidas sobre a recuperação completa dessas áreas reflorestadas. O aumento das temperaturas provocados pelas mudanças climáticas e o aumento dos grandes incêndios florestais no país trazem ainda mais incertezas para o futuro dessas florestas e de toda a sua fauna. 

Uma das grandes preocupações desses ambientalistas são os grandes volumes de carbono “estocados” nos solos e nas árvores das florestas boreais canadenses. Mesmo com a exploração racional e altamente controlada dos recursos florestais, esses solos vão ficar expostos por vários anos até o crescimento das árvores, espaço de tempo onde grande parte desse carbono deixará de ser estocado nas árvores e nos solos. 

Além dos enormes riscos para a saúde e segurança das populações que vivem no entorno nessas regiões florestais e também para a fauna silvestre, esses incêndios também podem atingir em cheio os bolsos dos canadenses. Isso é ou não um bom motivo para ficar mais preocupado com os efeitos das mudanças climáticas? 

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