A EXPANSÃO DO DESERTO DO SAARA E SUA INFLUÊNCIA NA FORTE ONDA DE CALOR NA EUROPA

Regiões do Sul da Europa estão enfrentando uma forte onda de calor nesses últimos meses e uma das consequências mais visíveis do fenômeno são os fortes incêndios florestais que estão destruindo grandes extensões de matas na Itália, na Grécia e na Turquia, entre outras regiões. 

Uma parte considerável do avanço dessa forte onda de calor se deve a mudanças climáticas no Saara, o maior deserto do mundo e “vizinho” próximo da Europa. Estudos recentes feitos por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, concluíram que o Saara cresceu cerca de 7 mil km² a cada ano entre 1920 e 2013. Com isso, o Saara ficou cerca de 10% maior em apenas um século. 

Essa expansão é mais visível rumo ao Sul, onde as areias do Saara avançam cada vez mais sobre o Sahel, uma extensa faixa de clima semiárido que atravessa toda a África no sentido Leste-Oeste. Segundo os pesquisadores, essas mudanças foram influenciadas por “variações naturais do clima, como alterações na temperatura superficial do Atlântico e na circulação de ventos quentes, explicariam parte (dois terços) da redução das chuvas e do avanço do Saara. O terço restante pode ser consequência das alterações no clima causadas por influência humana”

Segundo os pesquisadores, as mudanças climáticas em andamento no Deserto do Saara podem resultar numa amplificação da circulação de ventos quentes rumo ao Norte, o que seria a causa da forte onda de calor na Europa. Isso também seria um indicativo de uma provável expansão do deserto rumo ao Norte. 

Essas mudanças climáticas no Saara não são novas – elas vêm ocorrendo há cerca de 20 mil anos e começaram após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente. Naqueles tempos, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes. Alguns especialistas acreditam que o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito, o Sudão e outros países, correndo de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, antigamente atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico.  

Grande parte do território que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca era coberto por densas florestas – as partes “mais secas” eram cobertas por vegetação de savana, muito parecida com o nosso Cerrado. Todos os animais africanos que você costuma ver nos documentários como elefantes, girafas, zebras, antílopes, rinocerontes, hipopótamos, macacos e aves de todos os tipos se espalhavam por todo esse território.  

Pinturas rupestres deixadas pelos antigos habitantes da região em pedras espalhadas por todo o deserto do Saara mostram cenas onde aparecem todos esses animais. Se você pudesse viajar no tempo e desembarcasse no meio desse território, nada lhe lembraria a imagem atual do Saara. 

Esse clima e vegetação permaneceram inalterados até um período entre 8 e 10 mil anos atrás, quando o nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, o que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Alguns cientistas afirmam que essa mudança ocorreu há menos tempo – cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram.  

É aqui que entra em cena uma tese interessante, resultado de uma série de pesquisas publicadas nos últimos anos, para a qual devemos prestar atenção: o processo de desertificação do Norte da África que levou ao surgimento do Saara foi acelerado por ações humanas – evidências arqueológicas indicam que o avanço da criação e pastoreio de animais a partir de 10 mil anos atrás foi acompanhado de um processo de substituição de trechos de matas por pastagens (qualquer semelhança com a queima de árvores da nossa Caatinga Nordestina para a formação de campos não é mera coincidência).  

Sem a proteção dessas matas e com o avanço das mudanças climáticas naturais, além da redução das chuvas, essas regiões tiveram um processo mais rápido de desertificação. Na região do Sahel, onde o Saara avança com maior velocidade, houve um processo semelhante de devastação da vegetação por ações humanas. O resto é história e geografia. 

Uma evidencia histórica das mudanças climáticas no Saara pode ser visto no Lago Chade, aquele que já foi o maior lago do Norte da África. Há cerca de 2 mil anos atrás, uma expedição de legionários romanos que mapeava a região encontrou um lago gigantesco, descrito com um tamanho equivalente ao Alemanha ou cerca de 350 mil km². Daqueles tempos para cá, o Lago não parou de diminuir de tamanho, um fenômeno que se acelerou muito nas últimas décadas

Entre 1966 e 1973, a superfície ocupada pelo Lago Chade passou de 22 mil km² para 15,4 mil km². Em 1982, a superfície total do Lago estava reduzida a 2.276 km². Em 1994, imagens de satélite mostravam o Lago com 1.756 km², uma área que vem se mantendo nos últimos anos. Grande parte dessa redução da área ocupada pelo Chade em décadas recentes se deve a super exploração das águas por atividades agrícolas e pastoris nas áreas de entorno do lago. 

Para que todos tenham uma ideia do tamanho da influência do Deserto do Saara no clima mundial – estudos da NASA – Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, indicam que cerca de 180 mil toneladas de poeira do Saara são carregadas pelos ventos que cruzam o Oceano Atlântico todos os anos. Cerca de 28 milhões de toneladas desse pó caem sobre a Floresta Amazônica. Esse pó saariano é rico em fósforo, um importante nutriente para as plantas, ou seja, o Deserto do Saara fertiliza a nossa Amazônia! 

Fica fácil perceber quão grande é a influência do clima do Saara na Europa – o Sul da Espanha, citando um exemplo, está a cerca de 50 km do trecho marroquino do Deserto. Com as mudanças climáticas e com o aumento das temperaturas no planeta, essa influência deverá crescer ainda mais e poderá alterar completamente o clima de grande parte do continente europeu dentro de poucas décadas.  

As ondas de calor e os grandes incêndios florestais que assistimos hoje são apenas os primeiros capítulos dessas mudanças climáticas na Europa… 

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