O ROUBO DE PETRÓLEO E AS “REFINARIAS” CLANDESTINAS NA NIGÉRIA

A fireman targets his water hose at the base of a fire after a pipeline fire erupted in Ijegun area of Lagos

Em junho de 2003, centenas de moradores da pequena vila Amaoke Oghughe, na região Sudeste da Nigéria, se aglomeravam ao redor do vazamento de um dos muitos oleodutos que atravessam o país. Como é cotidiano na Nigéria, um grupo criminoso especializado no roubo de petróleo fez um furo na tubulação e instalou uma derivação para levar parte do óleo para uma “refinaria clandestina” nas proximidades. A instalação improvisada deixava vazar uma grande quantidade de óleo, o que atraiu muitos moradores locais, que queriam aproveitar para também faturar uns trocados enchendo baldes e latas com o petróleo.  

De repente, ocorreu uma grande explosão, seguida por um intenso incêndio (vide foto). As autoridades locais imaginam que foi uma fagulha, provavelmente criada por uma motocicleta que passou no local, que provocou essa enorme explosão. De acordo com informações da Cruz Vermelha, pelo menos 105 pessoas morreram na tragédia, além de centenas que sofreram queimaduras e ferimentos causados por estilhaços. 

Longe de ser um acontecimento isolado, esse tipo de acidente é frequente na Nigéria – se você fizer uma pesquisa na internet, encontrará dezenas de casos semelhantes nos últimos anos. Além das precárias condições de manutenção dos sistemas de oleodutos no país, é o roubo de petróleo um dos principais causadores desse tipo de tragédia na Nigéria. De acordo com dados oficiais, cerca de 10% do petróleo produzido no país é perdido, seja através de vazamentos, que são muitos, seja por causa do roubo realizado por esses grupos especializados

modus operandi das quadrilhas é quase sempre o mesmo – utilizando de informações fornecidas por comparsas que trabalham nas empresas petrolíferas do país, as quadrilhas sabem com antecedência os momentos em que o bombeamento do petróleo nos dutos vai ser desligado para a realização de algum tipo de manutenção. Perfurar uma tubulação de óleo pressurizada é extremamente perigoso – o óleo poderia incendiar com o calor do atrito da broca e, muito pior, o vazamento de um jato de óleo sob alta pressão pode até matar alguém que esteja no caminho. 

Com o oleoduto despressurizado, as quadrilhas conseguem furar as tubulações com alguma segurança e adaptar de forma precária tubulações para desviar o óleo. Como o encaixe dessas tubulações não é preciso, quase sempre eles têm vazamentos e estão na origem de muitas das explosões de oleodutos que citamos. As tubulações instaladas pelas quadrilhas normalmente levam o petróleo roubado para pequenas refinarias clandestinas, onde o óleo será “refinado” e transformado em querosene, gasolina e óleo diesel, produtos que serão vendidos por toda uma rede de pequenos comerciantes do país.  

Esses combustíveis “genéricos”, apesar de ter uma qualidade duvidosa e causar uma série de problemas nos motores dos veículos, são bem mais baratos que os derivados de petróleo produzidos pelas grandes empresas petroquímicas do país e, por essa razão, tem um forte apelo no grande mercado popular. 

O petróleo bruto ou cru é formado por dezenas de substâncias químicas, água, metais, além de diversas impurezas do solo. Durante o processo de refino, o petróleo primeiro é decantado para separar a água e as impurezas mais pesadas, Depois, o petróleo passa por processos químicos onde se obtém as frações do petróleo, que são a base dos diferentes derivados. Entre os processos químicos usados para o refino do petróleo destacam-se a destilação fracionada, a destilação a vácuo, o craqueamento térmico ou catalítico e a reforma catalítica

O processo de refino do petróleo utilizado pelas quadrilhas da Nigéria é uma adaptação da destilação fracionada. Nesse processo, o petróleo é colocado em uma espécie de “panela de pressão”, que depois é colocada no fogo gerado pela queima de petróleo. Com o aumento da temperatura e da pressão, os elementos mais leves do petróleo começam a migrar para a superfície do óleo e são retirados por meio de uma tubulação. O gás é sempre o primeiro derivado a desprender do petróleo. Na sequência vem o querosene, a gasolina e o óleo diesel. Os elementos mais pesados – o óleo combustível e o piche ficam para o final. 

As grandes refinarias de petróleo são dotadas de equipamentos e infraestruturas projetadas especialmente para a realização desses processos; todas as etapas do refino são realizadas com absoluta segurança e cuidadosamente monitoradas por uma série de sensores e por profissionais especializados em petroquímica. Nas refinarias clandestinas da Nigéria, os equipamentos usados são fabricados a partir de sucatas, velhos barris metálicos, canos de água e mangueiras de jardim, sem maiores sofisticações técnicas e sujeitos a todos os tipos de problemas e falhas ao longo dos processos de refino. Os “operadores” dessas destilarias não tem qualquer formação técnica e ficam sujeitos a explosões, incêndios, inalação de vapores tóxicos entre outros tipos de acidentes. Não são raros os casos de mortes e os acidentes com queimaduras graves nessas refinarias. 

As autoridades civis e militares sabem onde ficam essas destilarias – grandes colunas de fumaça negra, resultante da queima do petróleo, indicam claramente a sua localização. De acordo com os trabalhadores dessas refinarias, as autoridades costumam fazer vista grossa mediante o recebimento de algum suborno. Mesmo quando um fiscal ou um militar bem-intencionado leva o dono de uma dessas refinarias até uma delegacia ou quartel militar, basta uma boa conversa com alguma promessa de pagamento futuro de vantagem para conseguir a liberação. 

Em meio ao caos criado por essas atividades clandestinas, populações que moram em vilarejos próximos sofrem com a forte poluição do ar. As nuvens de fumaça e de vapores tóxicos invadem as casas, provocando graves problemas respiratórios, especialmente em crianças e idosos. Os resíduos mais pesados do petróleo, que se acumulam no fundo dos destiladores improvisados e não tem valor comercial para esses grupos, são descartados no meio ambiente, se juntando ao petróleo que vaza das tubulações, comprometendo águas e solos. 

As grandes multinacionais petrolíferas que atuam no país, como a anglo-holandesa Shell, afirmam que seguem as “melhores práticas de engenharia e de segurança em seus sistemas de oleodutos” – para essas empresas, as organizações criminosas é quem são as responsáveis pelos acidentes e pela poluição do ar, da água e dos solos. Esse é um argumento fraco: quando o número de acidentes em instalações petrolíferas dessas empresas na Nigéria é comparado com os que ocorrem em seus países de origem, os números são bem maiores. Essas empresas também alegam que a lucratividade de suas operações na Nigéria é muito baixa e que, por essa razão, não dispõem de grandes recursos para modernizar suas instalações petrolíferas no país. 

Nesse jogo de empurra-empurra, milhões de nigerianos ficam expostos a condições de vida das mais degradantes, ilhados em meio a pobreza extrema, condições de trabalho sem os mínimos padrões de segurança e cercados por poluição generalizada. Estudos indicam que essas populações têm uma expectativa de vida de apenas 40 anos, o que é menos da metade do esperado nos países sede dessas grandes multinacionais

Alguma coisa está muito errada nesse processo todo… 

OS VAZAMENTOS DE PETRÓLEO NA NIGÉRIA E A DESTRUIÇÃO DO DELTA DO RIO NÍGER

Manguezal do Delta do rio Níger

Na nossa última postagem fizemos uma breve apresentação da indústria petrolífera na Nigéria, conhecida como a “Grande Nação Africana”. Desde 2013, a Nigéria ocupa a primeira posição entre as economias da África e é o país mais populoso do continente – são essas as duas características que justificam a alcunha dada ao país. A base da economia da Nigéria é a exploração do petróleo, atividade responsável por 40% do PIB – Produto Interno Bruto, e por 80% das receitas do Governo Federal

Infelizmente, como não é incomum nos países africanos, a distância entre a riqueza e o caos é muito pequena. A exploração selvagem desse recurso transformou algumas das mais belas paisagens do país em terras e águas mortas, cobertas por resíduos de óleo e de piche. Os vazamentos de petróleo nos gasodutos são frequentes, contaminando grandes áreas e, especialmente, alguns dos mais importantes rios do país. Esse descaso pode ser visto com toda a sua intensidade na outrora fabulosa região do Delta do rio Niger

Com cerca de 4.180 km de extensão, o rio Níger é o terceiro maior rio da África, só ficando atrás dos rios Nilo e Congo. Sua bacia hidrográfica tem aproximadamente 2,2 milhões de km² e abrange cinco países: Guiné, Mali, Níger, Benim e Nigéria. Conforme se aproxima da sua foz no Oceano Atlântico, o rio Níger se abre num grande delta com cerca de 70 mil km². Cerca de 31 milhões de pessoas vivem nessas áreas férteis, habitadas desde tempos imemoriais. 

A primeira grande “riqueza” explorada pelos comerciantes europeus a partir do final do século XV no Delta do rio Níger foram os negros escravizados, que eram vendidos a altos preços nas colônias que começaram a surgir no Novo Mundo, especialmente no Brasil, Antilhas e Estados Unidos. A escravização e a venda de seres humanos na África já eram milenares naqueles tempos, sendo resultado das infinitas guerras entre as diferentes etnias. A navegação pelo rio Níger permitia o transporte de grandes comboios de embarcações repletas de escravos, o que transformou as costas da Nigéria num grande mercado para esse tipo de “produto”. 

Um segundo produto local que aos poucos começou a conquistar mercados pelo mundo foi o azeite de palma, mais conhecido como azeite de dendê. A palma ou dendezeiro é uma árvore nativa da costa Oeste da África e, conforme já apresentamos em postagens anteriores, é a planta que produz a maior quantidade de óleo vegetal por hectare plantado, superando com muita folga a soja e o milho. Além dos usos na culinária, o azeite de palma era um importante combustível, usado principalmente para iluminação de residências e vias públicas no passado. 

Em décadas bem mais recentes, foi o petróleo que se transformou na grande riqueza da Nigéria, uma atividade que durante muito tempo foi dominada por grandes empresas petrolíferas internacionais. E como sempre aconteceu ao longo da história, empresas fortes dominam facilmente Governos fracos – em busca de lucro rápido e fácil, essas empresas passaram a explorar o petróleo de modo selvagem, sem maiores preocupações com a qualidade de vida das populações locais e com o meio ambiente. 

Grandes unidades de prospecção e de perfuração de petróleo começaram a aparecer por todos os cantos, sem que se realizassem estudos de impacto ao meio ambiente ou se mostrassem maiores preocupações com as comunidades vizinhas. Grandes sistemas de oleodutos passaram a rasgar os territórios, sem maiores esforços com a manutenção das tubulações ou reparos de pequenos vazamentos – enquanto o petróleo chegasse em grandes quantidades aos terminais de embarque e garantisse bons lucros para as empresas, pequenas perdas ao longo das linhas de tubulações seriam toleradas. 

Essa mentalidade persistiu por várias décadas, transformando muitos corpos d’água da Nigéria em depósitos de resíduos de petróleo. Gradativamente, esses vazamentos de óleo começaram a escorrer na direção do Delta do rio Níger, hoje tomado por poças de óleo. Grupos ambientalistas calculam que, nos últimos 50 anos, mais de 10 milhões de barris de petróleo vazaram na Nigéria e poluíram grandes extensões de terras e águas. Para efeito de comparação, o grande derrame de petróleo no Alasca provocado pelo navio petroleiro Exxon Valdez em 1989 ficou entre 250 mil e 750 mil barris. Porém, muito diferente da grande repercussão midiática daquele acidente, esses vazamentos de óleo na Nigéria são silenciosos. 

De acordo com um estudo feito pelo PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, as maiores vítimas dessa poluição são as populações do Delta do rio Níger, que consomem água contaminada por hidrocarbonetos. Amostras de água recolhidas em rios, córregos e poços encontraram grandes concentrações de produtos químicos associados ao petróleo. Um exemplo é o benzeno, um elemento cancerígeno que chegou a ser encontrado em algumas amostras recolhidas em poços com uma concentração 900 vezes superior ao limite máximo permitido internacionalmente

Para o meio ambiente, esses volumes de vazamentos de petróleo são devastadores. O Delta do rio Níger apresenta a maior concentração de manguezais de todo o continente africano. Os mangues são ecossistemas de transição entre os oceanos e a terra seca, concentrando uma enorme biodiversidade vegetal e animal. Cerca de 70% das espécies de peixes e crustáceos marinhos de grande valor comercial dependem dos manguezais para reproduzir. Com a poluição das águas por resíduos de petróleo, toda essa riqueza acaba prejudicada, comprometendo a fonte de trabalho e de renda de milhares de pescadores e a fonte de alimentação de milhões de pessoas. 

Extensas áreas de manguezais no Delta do rio Níger não têm mais folhas e as suas raízes estão cobertas por uma camada de óleo (vide foto). As inúmeras espécies marinhas que buscavam essas áreas no passado desapareceram, transformando suas águas em verdadeiros desertos sem vida. Uma espécie emblemática que costumava viver nas águas dos canais do Delta e no rio Níger é o peixe-boi marinho africano (Trichechus senegalensis), primo-irmão do peixe-boi marinho que vive nas costas do Nordeste brasileiro e primo em segundo grau do peixe-boi amazônico.  

Essa espécie marinha, que já encontra em situação altamente vulnerável por causa da caça predatória, costumava encontrar refúgio e alimentos nos inúmeros canais do Delta do rio Níger. Com a intensa destruição desses habitats, o futuro desse peixe-boi é cada vez mais incerto. Incerto também é o futuro de dezenas de milhões de seres humanos que vivem nessa extensa região. 

O Governo da Nigéria vem buscando indenizações e reparações através de processos judiciais movidos contra os grandes grupos petrolíferos que atuam no país. As empresas, é claro, alegam que seguem todas as normas de segurança e de respeito ao meio ambiente; segundo suas defesas, esses vazamentos são consequência direta dos roubos de petróleo nos oleodutos e da enorme rede de “refinarias clandestinas” que se espalham por todo o país. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

NIGÉRIA: O SEGUNDO MAIOR PRODUTOR DE PETRÓLEO DA ÁFRICA

Refinaria ilegal na Nigéria

Ao longo de várias décadas, a imagem dos maiores produtores de petróleo do mundo esteve associada aos países do chamado “Mundo Árabe”, com territórios cobertos por grandes dunas de areia e dirigidos por sheiks bilionários vestidos com seus trajes típicos extravagantes. Recentemente, essa imagem mudou muito – os dois maiores produtores de petróleo da atualidade são, respectivamente, os Estados Unidos e a Rússia, países que fogem completamente ao estereótipo popular. Até mesmo o nosso Brasil, que até meados do século XX não produzia um único barril de petróleo, já se encontra na lista dos dez maiores produtores do planeta e, dentro de poucos anos, deverá ocupar a quinta posição desse ranking

No continente africano, a situação dos países produtores também foge da imagem tradicional. O grande Deserto do Saara, com suas areias escaldantes no Norte da África, e de forte tradição árabe, ocupam um plano secundário entre os grandes produtores de petróleo – Angola é o maior produtor da África, seguido bem de perto pela Nigéria, país onde a produção é cada vez maior. A produção nigeriana atual está na casa de 1,8 milhão de barris/dia e só não é maior devido à cota de produção imposta pela OPEP – Organização dos Países Produtores de Petróleo, o grande cartel de produtores, do qual a Nigéria é membro

Mesmo repleta de problemas sociais e econômicos, a Nigéria é a maior economia da África e também a nação mais populosa do continente, com cerca de 190 milhões de habitantes. O país é habitado por mais de 250 grupos étnicos, divididos em dois grandes blocos religiosos – muçulmanos ao Norte e cristãos ao Sul, além de diversas minorias praticantes de religiões tradicionais africanas como jgbo (ou Ibo) e iorubá. Esses diferentes grupos religiosos vivem em um estado de tensão permanente, o que é agravado pela extrema pobreza em que vive a grande maioria dos nigerianos. 

Ao longo dos séculos, toda a região da África Ocidental assistiu o apogeu e a decadência de diferentes reinos e impérios como o de CanemBornuOió e Benim. A partir das últimas décadas do século XV, com a chegada dos comerciantes europeus, principalmente portugueses, toda a costa Oeste da África acabou sendo transformada em fornecedora de escravos para o mercado mundial, situação que se manteve até o século XIX e influenciou na conformação de diferentes territórios e grupos nacionais. A região do Delta do rio Niger acabou sendo ocupada pelos britânicos no final do século XIX e, após fundir diferentes protetorados, os ingleses formaram a colônia britânica da Nigéria em 1914. 

A exploração do petróleo na Nigéria foi iniciada na década de 1930, mas a descoberta de grandes reservas só se consolidou na década de 1950, quando foi iniciada a produção em larga escala. Grandes empresas multinacionais do setor como a Shell, Mobil (atual ExxonMobil), Gulf (atual Chevron), AgipSarap (atual Elf) e Texaco, entre outras, passaram a dominar a indústria petrolífera local. Em 1964, a Nigéria atingiu a expressiva produção diária de 120 mil barris de petróleo. Essa crescente produção seria prejudicada anos depois por uma guerra civil, mais conhecida como a Guerra do Biafra, que se estendeu de 1967 a 1970. Terminado o conflito, a produção de petróleo rapidamente voltou a crescer e, em 1973, já se encontrava na casa dos 2 milhões de barris/dia. 

A Guerra do Biafra, também conhecida como Guerra Civil da Nigéria e Guerra Nigéria-Biafra, foi uma consequência de uma tentativa de independência de províncias do Sudeste da Nigéria, que se autodenominavam como República do Biafra. Apesar de pouco conhecido entre nós brasileiros, esse foi um conflito violento, que fez cerca de 200 mil vítimas entre as tropas oficias do Governo da Nigéria e perto de 1 milhão do lado dos rebeldes do Biafra, entre civis e militares.

Até o início da década de 1970, a indústria petrolífera da Nigéria foi muito favorável à entrada de empresas estrangeiras, quando a Lei do Petróleo determinava que apenas 35% dos ganhos com a exploração e exportação do óleo eram devidos ao Governo local. Essa situação, que já vinha mudando lentamente desde a independência do país em 1960, mudou radicalmente após a entrada da Nigéria na OPEP em 1971. A mudança se consolidou em 1977, com a criação da Nigeria National Petroleum Corporation, uma empresa estatal que passaria a regulamentar e controlar a produção, a exportação e a concessão de blocos de exploração. Essa estatal também passou a ser a responsável pelos acordos de parceria do Governo com as empresas multinacionais do setor. 

As atividades de exploração, refino e exportação de petróleo respondem atualmente por 40% do PIB – Produto Interno Bruto, da Nigéria e pela geração de cerca de 80% das arrecadações de impostos do Governo local. Pode-se afirmar, sem sombra de dúvidas, que essa grande nação africana é movida, literalmente, a base do petróleo. 

Se, por um lado, a indústria petrolífera é tão importante para o país, ela é, ao mesmo tempo, a principal responsável pela degradação de importantes recursos naturais da Nigéria. Vazamentos de petróleo ocorrem sistematicamente no país há mais de 50 anos, com uma relativa conivência e falta de providencias das autoridades locais. De acordo com cálculos de organizações ambientalistas, cerca de 10 milhões de barris de petróleo vazaram de dutos e de unidades de processamento de petróleo do país nas últimas décadas, atingindo e contaminando rios e cursos d’água do território – a importante região do Delta do Rio Niger é uma das áreas mais atingidas

O roubo de petróleo é uma das atividades criminosas que mais crescem na Nigéria e, de acordo com muitos especialistas, uma das grandes responsáveis pelos vazamentos de óleo no país. As autoridades locais calculam que cerca de 10% da produção local de petróleo é roubada por esses grupos, que se valem de desvios feitos nas tubulações dos oleodutos. Os dutos de transporte de petróleo são perfurados e tubulações improvisadas são instaladas para desviar o óleo cru para inúmeras “refinarias clandestinas de petróleo” (vide foto). Esses desvios normalmente geram vazamentos de óleo no meio ambiente, o que muitas vezes acaba resultando em explosões e grandes incêndios. Todos os anos, o Exército da Nigéria fecha centenas dessas “refinarias”, que rapidamente voltam a funcionar em outros locais. 

A partir do início da década de 1990, com a descoberta de grandes reservas petrolíferas na plataforma marítima da Nigéria, teve início a exploração offshore, que responde atualmente por metade da produção de petróleo do país. Essa nova modalidade de produção contribuiu para a redução da exploração em terra e, consequentemente, pela redução dos roubos nos oleodutos e instalações petrolíferas. Ainda assim, a situação contínua sendo muito grave. 

Na próxima postagem, vamos falar mais desses roubos e vazamentos de petróleo, além de todo um conjunto de problemas ambientais que eles geram na Nigéria. 

O DRAMÁTICO ACIDENTE COM O NAVIO PETROLEIRO EXXON VALDEZ NO ALASCA EM 1989

Exxon Valdez

Os leitores que têm mais de quarenta anos devem lembrar do gravíssimo acidente com o navio petroleiro Exxon Valdez em 1989. Após ser carregado com petróleo e sair do Porto de Valdez, que fica no Sul do Estado americano do Alasca, o navio Exxon Valdez colidiu com rochas subterrâneas na Enseada do Príncipe Guilherme, no Golfo do Alasca. O acidente abriu um grande rasgo no casco da embarcação, através do qual vazaram entre 257 mil e 759 mil barris de petróleo. Uma gigantesca mancha de óleo atingiu as costas da região, provocando o maior desastre ambiental por derramamento de petróleo até então. Vamos entender o acidente: 

O Alasca é o maior Estado norte-americano, com uma área de mais de 1,7 milhão de km². Para efeito de comparação, o Amazonas, o maior Estado brasileiro, tem uma área de 1,56 milhão de km². Até 1867, o Alasca era um território da Rússia, quando foi comprado pelo Governo dos Estados Unidos. Nos últimos anos do século XIX, com a descoberta de reservas de ouro, a região viveu a chamada “Corrida do Ouro”, o que atraiu um grande número de aventureiros para então Território do Alasca. Em poucos anos, com o esgotamento das reservas de ouro, o gelado Alasca acabou sendo praticamente esquecido pela maioria dos norte-americanos. 

A grande virada na história do Alasca veio em 1968, quando a maior reserva de óleo cru dos Estados Unidos foi descoberta. Desde então, a exploração do petróleo se transformou na espinha dorsal da economia do Estado, respondendo por cerca de 80% das receitas financeiras e pela geração da maior parte dos empregos locais. Em 1977, foi inaugurado um oleoduto com 1.300 km de extensão, ligando a Baía de Prudhoe, a maior região produtora de petróleo, ao terminal petrolífero do Porto de Valdez, no Sul do Estado, através do qual toda a produção “alaskan” de óleo é exportada. 

O intenso tráfego de navios petroleiros no Golfo do Alasca mudaria radicalmente no dia 24 de março de 1989. Após ser carregado com mais de 400 mil toneladas de petróleo, O Exxon Valdez saiu do Porto e se dirigiu para as águas abertas do Oceano Pacífico através do complicado Golfo do Alasca. Segundo os relatórios da época, o capitão do navio, Joseph Hazelwood, abandonou o comando da embarcação e foi para a sua cabine preencher “alguns documentos” – as investigações demonstraram que os tais “documentos” eram na verdade uma garrafa de whisky. O comando da embarcação de 330 metros de comprimento foi deixado sob a responsabilidade de um tripulante com pouca experiência

Passavam poucos minutos da meia noite quando a irresponsabilidade do capitão cobraria um alto preço – a embarcação atingiu um bloco de recifes submersos, o que rasgou o casco simples do petroleiro (os atuais navios petroleiros são construídos com um casco “duplo”) e teve início um grande vazamento de óleo nas águas oceânicas. Ao longo das oito semanas seguintes ao acidente, uma grande mancha de óleo foi espalhada pelas fortes correntes oceânicas através de mais de 750 km, afetando aproximadamente 2 mil km da costa irregular do Sul do Alasca. Algumas das praias atingidas ficaram cobertas com uma grossa camada de piche com até 90 cm de espessura. 

A empresa Exxon, uma das maiores companhias petrolíferas do mundo e dona da embarcação, foi obrigada a mobilizar um verdadeiro exército para a contenção do vazamento e limpeza ambiental. Foram 11 mil homens, 1.400 embarcações, 85 aviões e milhares de máquinas e equipamentos para uso na sucção do óleo e lavagem de rochas. Os trabalhos se estenderiam até 1992, com um custo total na casa de US$ 2 bilhões

Entre as trágicas imagens que passaram a ocupar grandes espaços nos telejornais e causaram extrema indignação ao mundo, destacam-se os animais resgatados com os corpos completamente cobertos com petróleo. Esses animais eram lavados com solventes para a remoção do óleo e eram encaminhados para centros de tratamento intensivo e recuperação, coordenados por médicos veterinários e biólogos. Apesar de todos os cuidados médicos, os índices de mortalidade eram altíssimos.  De acordo com estimativas oficiais, a tragédia provocou a morte de mais de 260 mil aves marinhas, 2.800 lontras-marinhas, 250 águias e 22 orcas, além de dezenas de milhares de peixes, crustáceos e moluscos marinhos

Vazamento de petróleo no Alasca

Após o acidente, todas as atividades ligadas à pesca, a segunda atividade econômica mais importante do Alasca, foram paralisadas no Sul do Estado, afetando diretamente uma população de 32 mil pessoas ligadas direta e indiretamente ao setor. Após um longo e tumultuado processo judicial, a empresa Exxon foi condenada a pagar uma indenização total de US$ 5 bilhões, valor que seria dividido entre todas as pessoas afetadas pelo desastre. Após recorrer da decisão em todas as instâncias da Justiça norte-americana, a Exxon teve uma apelação aceita pela Suprema Corte e as indenizações foram reduzidas para US$ 500 milhões

Passados 30 anos, o derramamento de óleo no Sul do Estado do Alasca ainda afeta a vida de milhares de pescadores da região. A produtividade pesqueira da região não é mais a mesma – os volumes de salmão, bacalhau, pollock e caranguejos, as espécies de maior importância comercial das águas da região, ainda são inferiores aos números de antes do vazamento. A captura de várias espécies de crustáceos e moluscos que vivem no fundo oceânico e que estão sujeitas à contaminação por resíduos remanescentes de petróleo continuam proibidas. Para estes pescadores, esse acidente acabou saindo “muito barato” para os cofres da Exxon

A tragédia com o navio petroleiro Exxon Valdez teve um conjunto de desdobramentos, provocando uma série de mudanças na legislação ambiental dos Estados Unidos. As normas de segurança para a extração, processamento e transporte de petróleo e seus derivados ficaram mais rigorosas, sendo inclusive proibido o uso de petroleiros de casco simples – essa norma acabou sendo adotada pelos principais países do mundo. As multas e indenizações a serem pagas pelos infratores também aumentaram substancialmente – no acidente com a plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México em 2010, a empresa responsável, a BP –British Petroleum, teve de arcar com multas da ordem de US$ 20 bilhões. 

Exxon Valdez conseguiu ser resgatado e passou por uma grande reforma, sendo depois transferido para operações na Ásia, continente onde as regras para o transporte de petróleo eram bem menos rigorosas que nos Estados Unidos. Para não chamar a atenção, o navio foi rebatizado com o nome de Mediterranean. Em 2007, o navio passou por uma grande reforma e foi transformado em navio graneleiro para o transporte de minerais, quando recebeu um novo nome – Dong Fang Oceanuma mistura de chinês e inglês que significa algo como “Oceano Oriental”. 

Em 2011, o navio foi retirado do serviço e vendido como sucata para uma empresa da Índia. Em 2012, a trágica história do Exxon Valdez chegou ao final – o navio foi completamente desmontado num processo que durou 4 meses e parte dos seus equipamentos e maquinarias passaram a ser utilizados por outras embarcações; a sucata foi encaminhada para reprocessamento em usinas siderúrgicas locais. 

Um detalhe irônico da história do Exxon Valdez é que, nos seus últimos anos de atividade, ele singrou os mares da Ásia com o singelo nome de Oriental Nicetyque pode ser traduzido como “Escrúpulo Oriental”. 

O GIGANTESCO VAZAMENTO DE PETRÓLEO NAS ÁGUAS DO GOLFO DO MÉXICO EM 2010

Plataforma Deepwater Horizon

Em meio as notícias preocupantes que nos falam das manchas de petróleo que estão atingindo as praias da Região Nordeste, uma notícia semelhante passou desapercebida da maior parte da população: quatro praias do Estado de Tabasco, no México, foram tomadas por manchas de petróleo. O caso dessas misteriosas manchas de petróleo lembra muito o caso das nossas praias nordestinas – ninguém sabe a origem do óleo. A situação mexicana é muito preocupante – o Estado de Tabasco fica ao lado da Península de Yucután, o “paraíso caribenho do turismo”, onde fica a famosa cidade de Cancún. Em 2018, Cancún recebeu 4,2 milhões de visitantes, o que injetou cerca de US$ 21,3 bilhões na economia local, números que dão uma ideia das preocupações do Governo mexicano com essa tragédia ambiental.

As preocupações dos mexicanos são bem fundamentadas – com uma área de aproximadamente 1,6 milhão de km², o Golfo do México possui grandes reservas de petróleo, onde estão instaladas centenas de plataformas de exploração. Somente as empresas americanas produzem cerca de 1,9 milhão de barris de petróleo/dia nas águas da região, o que corresponde a 15% da produção total dos Estados Unidos. Além dos riscos de acidentes nas operações das plataformas de exploração, no carregamento de navios tanques e em vazamentos dos sistemas de oleodutos, que podem resultar em grandes vazamentos de óleo, a região do Golfo do México enfrenta tempestades e furacões cada vez mais fortes a cada ano

O maior acidente com petróleo no Golfo do México aconteceu em 2010, quando a plataforma Deepwater Horizon da empresa BP – British Petroleum explodiu e afundou. No acidente, 22 trabalhadores ficaram feridos e 11 morreram (vide foto). Com o naufrágio da plataforma, três dutos de óleo localizados a uma profundidade de 1.525 metros começaram a vazar, lançando cerca de 800 mil litros de petróleo por dia nas águas do Golfo do México. Esse vazamento durou 87 dias e lançou uma mancha de óleo que se espalhou por 1.500 km do litoral Sul dos Estados Unidos

A plataforma Deepwater Horizon operava a cerca de 80 km da costa do Estado da Lousiania, a região atingida com maior intensidade pelo vazamento. A mancha contínua de óleo que se formou após o acidente cobria uma área equivalente a onze vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro. Diferente do vazamento de um navio tanque, que transporta um volume finito de petróleo, o vazamento que se seguiu ao colapso dessa plataforma era contínuo, com o óleo jorrando diretamente dos poços abertos no fundo oceânico. 

A importante região do Delta do rio Mississipi foi uma das áreas mais impactadas por esse grande vazamento de petróleo. Essa região é formada por pântanos com vegetação densa, conhecidos localmente como Bayou, e abriga cerca de 40% dos pântanos e manguezais dos Estados Unidos, número que nos dá uma ideia da sua importância ambiental para a flora e a fauna locais.  

Uma espécie local que foi seriamente ameaçada pelas manchas de óleo foi pelicano-marrom, ave ameaçada de extinção e símbolo do Estado da Louisiania. Essas aves precisam mergulhar para capturar os peixes e crustáceos que formam a sua dieta e acabavam ficando com as penas cobertas de óleo, o que as impede de regular a temperatura corporal, podendo resultar na morte dos animais por hipotermia.  

Equipes especializadas de resgate passaram a recolher as aves contaminadas, que passavam depois por uma lavagem com doses de solventes para a remoção do óleo e eram encaminhadas para áreas de recuperação. Apesar desses esforços, muitas aves que estavam escondidas em meio a densa vegetação do Bayou acabaram morrendo por falta de socorro. 

O Golfo do México também é o refúgio de inúmeras espécies migratórias como baleias e cachalotes, que migram para a região durante o inverno, buscando suas águas quentes para procriar. O Golfo também possui uma grande fauna local com peixes, golfinhos e quatro espécies de tartarugas-marinhas. Todas essas espécies foram afetadas pelos vazamentos de petróleo, embora seja bastante difícil de quantificar as perdas de indivíduos e os impactos da contaminação no longo prazo. 

O óleo também afetou profundamente a produção de crustáceos do Delta do Mississipi, principalmente os caranguejos, camarões e lagostins, iguarias famosas da culinária cajun da Louisiania. Criadores de camarão em cativeiro tiveram de suspender as suas atividades, o que causou prejuízos milionários. O Estado da Louisiania é o maior produtor de camarões dos Estados Unidos. 

De acordo com estudos coordenados pela Virginia Tech University dos Estados Unidos e publicados em 2017, o vazamento de petróleo da plataforma causou prejuízos aos recursos naturais da região calculados em mais de US$ 17 bilhões. A BP declarou ter gasto cerca de US$ 14 bilhões nos trabalhos de limpeza e mitigação dos efeitos do vazamento. A empresa também foi condenada pela Justiça do Estado da Louisiania em 2016 a pagar uma multa de US$ 20,8 bilhões por danos econômicos e ambientais. De acordo com informações da British Petroleum, os danos globais do acidente representaram perdas de US$ 53 bilhões aos cofres da empresa

Além dos danos ambientais e econômicos contabilizados na região do Golfo do México, existem danos difusos e incalculáveis que podem ter atingido uma extensa área que vai do Estreito da Flórida até o Mar Báltico e a Islândia, em território da Europa. As águas quentes do Golfo do México formam uma forte corrente marítima, conhecida como Corrente do Golfo (ou Gulf Stream, em inglês), e que segue através do Atlântico Norte na direção da Europa. Grandes quantidades de óleo podem ter sido espalhadas por essa corrente oceânica e podem estar criando problemas ainda não detectados em diversos ecossistemas. Ou seja, os problemas decorrentes desse vazamento podem ser muito maior do que se imagina até agora.

Até então, o maior acidente com vazamento de petróleo em território americano havia sido o naufrágio do navio petroleiro Exxon Valdez em 1989, que trataremos na próxima postagem. Nesse acidente, o navio colidiu com rochas submersas, que resultaram em um grande rasgo no casco da embarcação – um volume entre 257 mil e 759 mil barris de petróleo vazou no mar e contaminou uma extensa área do litoral do Estado do Alasca. 

Passados quase dez anos desde o acidente com a plataforma Deepwater Horizon, as consequências ao meio ambiente ainda são sentidas pelas populações. Pescadores locais afirmam que a atual produção pesqueira nas águas do Golfo do México é menor do que em anos anteriores. Ecologistas também afirmam que populações locais de aves, peixes, mamíferos aquáticos e de tartarugas-marinhas, que foram duramente afetadas pela tragédia ambiental, ainda não recuperaram o número total de indivíduos que viviam nos ecossistemas locais de antes do acidente. 

Esse acidente no Golfo do México é apenas mais um dos trágicos capítulos da exploração do petróleo em alto mar e dos acidentes que podem acontecer, com todas as suas consequências previsíveis e imprevisíveis.

O SUCATEAMENTO DA INDÚSTRIA PETROLÍFERA NA VENEZUELA

Lago Maracaibo

Nos últimos dois meses, as notícias sobre as manchas de óleo em praias da Região Nordeste se tornaram diárias, com novas localidades sendo atingidas diariamente. Nos últimos dias, fragmentos de óleo foram encontrados no Norte do Estado do Espírito Santo, felizmente em quantidades bem pequenas. De acordo com análises feitas em laboratórios em dezenas de amostras, esse óleo é uma mistura de, pelo menos, três tipos diferentes de petróleo de origem venezuelana. 

A Venezuela fica ao Norte da América do Sul, fazendo fronteira com a Amazônia brasileira ao Sul, com a Colômbia a Oeste e com a Guiana a Leste. O país tem uma área com mais de 910 mil km² e possui as maiores reservas confirmadas de petróleo e gás do mundo, superando inclusive a poderosa Arábia Saudita. Essas reservas petrolíferas se concentram na região do Lago Maracaibo e na bacia hidrográfica do rio Orinoco (ou Orenoco), a maior do país. As reservas de petróleo da Venezuela foram descobertas no início do século XX e sua exploração comercial teve início em 1922, se transformando na espinha dorsal da economia do país desde então. 

Durante várias décadas, a exploração do petróleo na Venezuela foi feita exclusivamente por empresas estrangeiras, onde os lucros com as vendas do produto eram divididos com o Governo do país. Em 1973, uma votação determinou a nacionalização da indústria petrolífera e em 1976 foi criada a PDVSA – Petróleos de Venezuela, estatal que passou a comandar a exploração, refino e as exportações do petróleo e seus derivados. A PDVSA cresceu rápido e em poucos anos se transformou em uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, se tornando cada vez mais independente do Governo. Na década de 1990, a empresa iniciou um processo de abertura do capital e atração de investidores estrangeiros, como forma de aumentar consolidar o seu crescimento e sua posição no mercado mundial. 

Em 1999, com a eleição de Hugo Chávez para a Presidência da República, a PDVSA inverteu sua curva de crescimento e iniciou um gradual processo de declínio. Chávez, que em 1992 comandou um frustrado golpe de estado, implantou o chamado Bolivarianismo na Venezuela, uma espécie de socialismo sul-americano piorado. Entre outras medidas populistas, o Governo passou a limitar os investimentos e a participação de grupos estrangeiros na PDVSA a partir de 2001, além de criar todos os tipos de empecilhos para a atuação de empresas estrangeiras no país.  

Apesar do forte processo de desindustrialização e da necessidade cada vez maior de importação de alimentos e bens de consumo de todos os tipos, os altos preços do petróleo no mercado internacional permitiam a prática de fortes políticas para a redução da pobreza e de intervenção do Estado na economia do país. O Governo da Venezuela “surfou nessa onda” enquanto pode. O barril de petróleo, que no ano de 2008 chegou a valer perto de US$ 160.00, despencou bruscamente para pouco mais de US$ 40.00 em 2009. Sem essas receitas externas do petróleo que irrigavam e nutriam a economia, a Venezuela iniciou sua caminhada rumo ao colapso atual

Além da queda nos preços internacionais, a Venezuela já vinha sofrendo uma redução sistemática da produção de petróleo, onde a raiz do problema está na má gestão da PDVSA, que passou a ser comandada por “companheiros” Bolivarianos. No início da década de 2000, a Venezuela apresentava uma produção diária de mais de 3 milhões de barris de petróleo – atualmente, a produção do país mal consegue superar a barreira de 1 milhão de barris/dia. As unidades de extração e produção de petróleo também vêm diminuindo gradativamente – no início de 2016, o país dispunha de 70 plataformas de exploração de petróleo e, hoje, são pouco mais de 20 unidades. Essa queda brusca da produção e exportação do petróleo e seus derivados está ligada diretamente às sanções econômicas internacionais enfrentadas pela Venezuela. 

Além da queda nas vendas e a redução das receitas externas do país, o que devastou a economia da Venezuela, o país passou a enfrentar dificuldades para a importação da nafta, um produto químico essencial para a produção local de petróleo. O petróleo bruto venezuelano é muito denso, apresentando uma consistência quase sólida. Para tornar o produto viscoso e fluído para o bombeamento em tubulações e oleodutos, o petróleo venezuelano precisa receber a adição de diluentes químicos como a nafta. O maior fornecedor de nafta para a Venezuela eram os Estados Unidos, país que também ocupava a posição de maior comprador de petróleo da Venezuela e que acabou alçado à condição de grande inimigo do país pelo regime Bolivariano. 

Com a decadência da PDVSA, veio o sucateamento de toda a indústria petrolífera da Venezuela. Um exemplo dessa situação pode ser visto nitidamente no Lago de Maracaibo, um dos maiores centros de produção de petróleo do país. Com mais de 13 mil km² de área, as águas verdes do Lago de Maracaibo estão sendo tomadas por manchas de óleo. Há cerca de dez anos, a produção local de petróleo era da ordem de 1 milhão de barris/dia e, atualmente, essa produção mal consegue superar a barreira dos 160 mil barris/dia. Com a queda da produção e das receitas, a PDVSA ficou sem recursos para a manutenção das plataformas e das tubulações – há vazamentos de petróleo por todos os lados (vide foto). 

De acordo com análises feitas em laboratório, metade das espécies aquáticas do Lago de Maracaibo, que vão de peixes e crustáceos até espécies locais de botos e peixes-boi, apresentam sinais de contaminação por óleo. Essa contaminação atinge em cheio os milhares de ribeirinhos que vivem na região e que dependem da pesca para a sua sobrevivência e alimentação. A Venezuela, vale lembrar, é um dos países com uma das maiores biodiversidades do mundo e que apresenta a maior concentração de espécies justamente na região da bacia hidrográfica do rio Orinoco, o maior centro de produção de petróleo do país. Com o sucateamento das instalações petrolíferas, toda essa biodiversidade está ameaçada pelos vazamentos de petróleo. 

Infelizmente, esse sucateamento da indústria petrolífera não fica limitado apenas ao território da Venezuela. Com as sanções econômicas enfrentadas pelo país, o que entre outras coisas cria inúmeras dificuldades para a venda legal de petróleo no mercado internacional, foi criado um perigoso “mercado negro” para a venda do óleo local. Navios petroleiros “fantasmas” passaram a frequentar os terminais petrolíferos do país para o embarque e o transporte do produto para uns poucos compradores internacionais – a Índia é um exemplo e compra aproximadamente a metade da atual produção petrolífera da Venezuela. 

Os navios petroleiros “fantasmas” são famosos por navegar pelos oceanos com o transponder desligado. Esses equipamentos, que também são usados nos aviões, permitem o rastreamento e o acompanhamento do posicionamento geográfico das embarcações nos oceanos em tempo real. Caso ocorra algum acidente ou vazamento de petróleo no mar, as Guardas Costeiras ou Marinhas dos países afetados pela mancha de óleo podem identificar a embarcação responsável. No caso das manchas de óleo que atingiram a costa do Nordeste brasileiro, uma das suspeitas em investigação foi o uso de um desses navios petroleiros “fantasmas” para o transporte do petróleo até águas internacionais no Oceano Atlântico, onde a carga foi transferida para uma embarcação legalizada em alto mar, numa operação conhecida como ship-to-ship

Ao que tudo indica, ocorreu uma falha durante essa operação de transferência e um grande volume de petróleo cru caiu no mar. A mancha de óleo que se formou foi arrastada pelas correntes oceânicas na direção da costa do Nordeste e resultou nesse grande desastre ambiental que assistimos em nossas praias. As autoridades brasileiras já identificaram um navio de bandeira grega supostamente envolvido nessa operação – a empresa proprietária nega qualquer participação no vazamento de petróleo. A Venezuela também nega que tenha vendido ou embarcado petróleo ilegalmente em petroleiros “fantasmas”. 

Como se nota, também estamos sendo vítimas e estamos pagando um alto preço por causa do sucateamento da indústria petrolífera da Venezuela. Lamentável. 

O VAZAMENTO DE 4 MILHÕES DE LITROS DE PETRÓLEO NO RIO IGUAÇU NO ANO 2000. LEMBRA?

Vazamento de petróleo no rio Iguaçu

Existe uma fala popular que diz que “o brasileiro tem memória curta”. Muita gente pode até discordar dessa expressão, mas a nossa “capacidade” de esquecer fatos de nossa história, inclusive acontecimentos bem recentes do ponto de vista histórico, é muito grande. Um exemplo dessa memória curta foi um grave derramamento de petróleo na Refinaria Presidente Getúlio Vargas, a REPAR, em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, no ano 2000. Esse acidente foi considerado como o maior desastre ambiental já ocorrido no Estado do Paraná e um dos maiores da história da Petrobras. A mancha de poluição cobriu uma grande área do rio Iguaçu. Apesar de toda essa gravidade, é bem provável que você nem se lembre desse ocorrido. 

O Iguaçu, conforme já apresentamos em postagens aqui no blog, é o maior e mais importante rio do Estado do Paraná. Com nascentes na Serra do Mar e foz nas mundialmente conhecidas Cataratas do Iguaçu, o rio percorre aproximadamente 1.300 km, com uma área total da bacia hidrográfica correspondendo a 70 mil km², englobando 109 municípios e onde vivem 4,4 milhões de habitantes – 33% do território e 42% da população do Estado do Paraná. A história geológica e as características físicas do rio Iguaçu o transformam numa espécie de primo-irmão do rio Tietê de São Paulo. Infelizmente, essas semelhanças familiares têm seu preço: o Iguaçu é o segundo rio mais poluído do Brasil, só ficando atrás do rio Tietê

A REPAR faz parte do conjunto de refinarias de petróleo da Petrobras e foi inaugurada em 1977. A unidade tem capacidade para processar mais de 200 mil barris por dia, o que corresponde a cerca de 12% da produção de derivados de petróleo do Brasil. A REPAR é considerada a maior planta industrial da Região Sul do Brasil e abastece os mercados do Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e parte do Estado de São Paulo, além de fornecer combustíveis para o Paraguai e a Bolívia.  

Entre outras instalações, a refinaria possui dois terminais marítimos, um no litoral do Paraná e outro em Santa Catarina, além de um sistema de oleodutos entre a refinaria e o Estado de Santa Catarina. Foi justamente uma falha nesse sistema de oleodutos que levou ao vazamento de petróleo. No dia 16 de julho de 2000, um rompimento nas tubulações de um oleoduto desse sistema em Araucária terminou com o vazamento de 4 milhões de litros de petróleo cru, um volume equivalente ao de 115 piscinas olímpicas. O óleo atingiu inicialmente o Arroio Saldanha, chegando depois aos rios Barigui e Iguaçu. A mancha de óleo cobriu uma extensão de águas com aproximadamente 100 km. 

Esse acidente aconteceu num momento particularmente tenso da história da Petrobras no Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Os partidos de oposição ao Governo afirmavam que a Petrobras estava sendo sucateada, tendo em vistas um futuro processo de privatização da empresa. Houve inclusive, nessa mesma época, uma proposta para mudar o nome da empresa para PetroBrax, palavra mais fácil de ser pronunciada por estrangeiros e que facilitaria a internacionalização da empresa – para os partidos de oposição, essa mudança era um argumento a mais para a venda da empresa para grupos estrangeiros. O clima tenso na Petrobras teve seu auge no início de 2001, quando explosões seguidas por um incêndio levaram a Plataforma P-36 a naufragar na Bacia de Campos, litoral do Estado do Rio de Janeiro. 

Logo após o vazamento de óleo, centenas de trabalhadores da REPAR foram designados para os trabalhos de limpeza dos rios, munidos apenas de baldes e de pás para recolher o óleo que vazou. Sem treinamento para atuar nesse tipo de situação e sem EPIs – Equipamentos de Proteção Individual, muitos trabalhadores passaram mal durante as operações de limpeza e não contavam com um atendimento médico adequado. Um dos trabalhadores dessas frentes de serviço, inclusive, viria a falecer meses depois em consequência da exposição aos elementos químicos tóxicos do petróleo. Houve também o caso de um outro trabalhador de uma das equipes que desenvolveu doenças neurológicas logo após esses trabalhos e ficou paraplégico. 

Além da falta de equipamentos básicos de segurança para as equipes de limpeza, a Petrobras também não conseguiu disponibilizar a mínima infraestrutura para as refeições dos trabalhadores, que eram feitas nas margens dos rios, com solos e vegetação cobertos por óleo e sem as mínimas condições de higiene. A Petrobras foi duramente criticada na época pela falta de preparo das equipes de emergência para o enfrentamento desse tipo de acidente. 

De acordo com levantamentos do IAP – Instituto Ambiental do Paraná, a flora e a fauna dos trechos de rios afetados pelo vazamento de óleo foram completamente devastadas. Dados do Instituto indicam que para cada oito animais resgatados das águas, apenas um conseguiu sobreviver. O abastecimento de água em toda a Região Metropolitana de Curitiba também foi fortemente prejudicado – apesar dos problemas de poluição, o rio Iguaçu é o maior manancial de abastecimento regional. 

Já se passaram quase 20 anos desde a ocorrência desse acidente e as causas ainda não estão claras. Relatórios internos da REPAR afirmam que houve um problema em uma das válvulas das tubulações e que foi seguida por falhas na operação e no desrespeito aos procedimentos de segurança. Já para o CREA – Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, do Estado do Paraná, um acidente de tal magnitude não poderia ser explicado simplesmente por uma falha em equipamentos e em procedimentos de segurança, mas também em “falhas e/ou fragilidades estruturais e organizacionais, o que inclui as decisões gerenciais.” 

As operações de limpeza se estenderam por vários meses e se concentraram na remoção de manchas de óleo superficiais e impregnadas em troncos de árvores e em pedras. Barreiras de contenção instaladas no leito do rio Iguaçu evitaram que as manchas de óleo se espalhassem ainda mais pela calha dos rios. Perícias e testes que são feitos até hoje por determinação da Justiça, dentro do processo jurídico que levou a Petrobras à condenação e ao pagamento de uma multa bilionária, ainda detectam a evaporação de gases associados ao petróleo que afundou no leito dos rios. Além de poluir o ar, esses gases podem causar uma série de problemas aos seres vivos que habitam as águas e margens desses rios, inclusive as populações humanas. 

Os efeitos negativos e os impactos ao meio ambiente no longo prazo criados por um vazamento de petróleo devem sempre nos lembrar dos cuidados e procedimentos de segurança que sempre devem ser seguidos durante a exploração, transporte e processamento desse óleo. Qualquer falha ou erro trará consequências para muitas e muitas gerações de seres vivos.

Se a nossa memória é curta, a da natureza não é.