A INVASÃO DO KUWAIT PELO IRAQUE EM 1990, O INCÊNDIO DE POÇOS E O DESPEJO PROPOSITAL DE 500 MILHÕES DE BARRIS DE PETRÓLEO NO MAR

Vazamentos de petróleo no Kuwait

Quando se fala em derrame de petróleo no mar, é obrigatório citar o despejo intencional de 500 milhões de barris por tropas do exército do Iraque ao longo da desastrosa invasão do Kuwait entre 1990 e 1991. Esse gigantesco derramamento de petróleo é considerado o maior da história da humanidade e suas consequências nas águas do Golfo Pérsico são sentidas até hoje. Para entender a origem do conflito entre o Iraque e o Kuwait, é preciso relembrarmos um pouco da história do antigo Império Otomano:

A partir do final do século XIII, começou a se formar na região da Anatólia, na Turquia, aquele que seria conhecido no mundo todo como o Império Otomano. Esse Império foi fundado pelo líder tribal Oguz Osmã I por volta do ano 1299. Ocupando inicialmente todo o território da Turquia, o Império Otomano começou a se expandir em direção ao Cáucaso, Sudeste da Europa, Ásia Ocidental, Norte da África e também na região conhecida como Chifre da África. Esse grande Império sobreviveu até 1922 – os turcos se aliaram aos alemães na I Guerra Mundial e, terminado o conflito, grande parte do território do derrotado Império Otomano acabou na mão das Potencias Aliadas vencedoras da Grande Guerra Mundial. 

As fronteiras atuais do Iraque e do Kuwait foram demarcadas pela Sociedade das Nações em 1920, quando foi assinado o Tratado de Sèvres, acordo internacional para a divisão dos territórios do Império Otomano entre os Aliados (Reino da Grécia, Reino da Itália, Império Britânico e República Francesa). Essa região ficou submetida a autoridade do Reino Unido, onde foi criado o Mandato Britânico da Mesopotâmia. Essa divisão foi feita de forma a atender os interesses econômicos dos Britânicos, entenda-se aqui a exploração do petróleo, e não levou em conta os povos que viviam nesses territórios desde a antiguidade. 

Historicamente, a região onde foi formado o Kuwait fazia parte de uma grande região ocupada por tribos sunitas, o principal grupo étnico do Iraque. Em 1932, o Iraque conquistou sua “independência” do Império Britânico e, desde então, a ideia de integrar o Kuwait ao território iraquiano passou a ser gestada. O Kuwait se manteve como um protetorado independente do Império Britânico até 1961, o que inibiu por muito tempo as intenções expansionistas do Iraque. 

Em agosto de 1990, quando o Iraque era dirigido pelo sanguinário ditador Saddam Hussein, tropas do país invadiram o Kuwait, que foi transformado em uma província do Iraque. As justificativas de Saddam para essa invasão citavam a ligação histórica da região e dos seus habitantes ao Iraque, falavam de roubo de petróleo do subsolo iraquiano pelo Kuwait e que estava sendo vendido abaixo do preço do mercado internacional, entre outras desculpas esfarrapadas. Segundo muitos analistas internacionais, a real intenção do Governo do Iraque era se livrar de uma grande dívida junto Kuwait, resultante de um empréstimo tomado durante a Guerra Irã-Iraque, conflito que se estendeu de 1980 a 1988 e que arrasou a economia do país.

O grande “golpe de mestre” de Saddam Hussein não durou muito tempo – uma grande coalizão militar liderada pelos Estados Unidos e com a participação de 30 países aliados foi formada com autorização do Conselho de Segurança da ONU – Organização das Nações Unidas. Vigorosas sanções econômicas foram impostas ao Iraque, que foi intimado a sair do Kuwait até o início de janeiro de 1991. O Iraque não atendeu aos apelos da ONU. 

No dia 17 de janeiro de 1991 teve início a chamada “Operação Tempestade no Deserto”, também chamada de I Guerra do Golfo. Essa foi a maior operação militar desde o final da II Guerra Mundial e foi transmitida ao vivo por televisões de todo o mundo. Quem é um pouco mais velho deve se lembrar dos poderosos mísseis Tomahawk lançados pelos navios de guerra americanos, que iluminavam as noites do deserto com suas explosões. Os iraquianos respondiam os ataques lançando seus antiquados mísseis Scud. Caças bombardeiros dos países aliados decolavam a todo momento de porta-aviões e bases áreas próximas, atingindo com “precisão cirúrgica” as posições iraquianas. Dados históricos falam de 85 mil toneladas de bombas lançadas nesse conflito. 

O poderio desproporcional das forças aliadas levou o Iraque a abandonar o Kuwait em 26 de fevereiro. As estimativas falam de baixas entre as tropas do Iraque entre 60 mil e 200 mil, além de um número de civis iraquianos mortos estimados entre 40 mil e 180 mil. Entre os kuwaitianos, as estimativas falam de 4 mil a 7 mil mortos. As forças aliadas perderam 148 soldados em combate, além de 145 mortes por motivos diversos, entre eles o chamado “fogo amigo”. Essa retirada vergonhosa dos iraquianos não foi gratuita –Saddam Hussein ordenou a abertura de todas as válvulas dos reservatórios de petróleo, oleodutos e navios petroleiros do Kuwait, o que levou ao vazamento de cerca de 500 mil barris de óleo nas águas do Golfo Pérsico. O ditador talvez imaginasse incendiar todo esse óleo, de forma a prejudicar as ações militares das forças aliadas.  

Outra ordem dada por Saddam Hussein a seus soldados foi a de destruir e incendiar todos os poços de petróleo em operação no Kuwait (vide foto). Essa é uma antiga tática militar usada por forças em debandada – a “terra arrasada”. A ideia dessa “política” é a de destruir toda a infraestrutura dos territórios abandonados – ferrovias, rodovias, pontes, fábricas, redes de energia elétrica e de telecomunicações, refinarias de petróleo, entre outras, o que evitará seu uso pelas tropas inimigas. De acordo com as imagens de satélite da época, cerca de 500 poços de petróleo foram incendiados no Kuwait. 

As colunas de fumaça geradas por esses incêndios chegavam a se estender por distâncias de até 1.300 km, lançando grandes quantidades de fuligem sobre o deserto, que em muitos lugares ficou totalmente negro. A atmosfera local ficou tomada por grandes quantidades de dióxido de enxofre, causando uma série de problemas respiratórios na população local. Um geólogo egípcio que trabalhou nas operações de contenção dos incêndios nos poços de petróleo afirmou que os incêndios e a grande mancha de óleo no Golfo Pérsico eram a “mãe de todos os desastres ambientais”. Essa afirmação ironiza uma fala frequente do ditador iraquiano, que dizia se essa era “mãe de todas as guerras”.

Foram necessários quase dez meses de trabalho de equipes especializadas somente para apagar os incêndios de todos os poços de petróleo, a um custo estimado de US$ 12 bilhões. Cerca de metade do petróleo que vazou no Golfo Pérsico pode ser recuperado com o uso de embarcações com equipamentos especiaisde sucção. Grandes quantidades de petróleo foram lançadas contra as praias do Kuwait e da Arábia Saudita, onde foi necessário o emprego de grandes equipes de trabalhadores e o uso de muitas máquinas para a limpeza da areia. Uma parte considerável desse petróleo acabou afundando e se acumulando sobre o fundo marinho e os recifes da região. 

Passados quase trinta anos dessa tragédia, os ecossistemas locais ainda não se recuperaram completamente. As marcas negras do petróleo ainda podem ser vistas nos recifes e nas algas da região; as populações de peixes, aves e outros animais marinhos ainda não se recuperaram. De acordo com especialistas da área médica, a incidência dos casos de problemas cardíacos e de câncer aumentou consideravelmente na população do Kuwait, uma consequência direta da poluição. Doenças respiratórias que antes eram consideradas pouco frequentes na região passaram a ser consideradas comuns e muito preocupantes

Saddam Hussein acabaria sendo deposto e preso em 2003 durante a chamada II Guerra do Golfo. Ele foi julgado por um Tribunal Especial iraquiano por genocídio e crimes contra a humanidade, sendo condenado a morte e enforcado em 2006. Seu “legado” para as gerações futuras, entretanto, ainda demorará muito até ser completamente superado (se é que isso venha a ser totalmente possível). 

Os tiranos se vão, mas as tragédias ambientais ficam…

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