O ROUBO DE PETRÓLEO E AS “REFINARIAS” CLANDESTINAS NA NIGÉRIA

A fireman targets his water hose at the base of a fire after a pipeline fire erupted in Ijegun area of Lagos

Em junho de 2003, centenas de moradores da pequena vila Amaoke Oghughe, na região Sudeste da Nigéria, se aglomeravam ao redor do vazamento de um dos muitos oleodutos que atravessam o país. Como é cotidiano na Nigéria, um grupo criminoso especializado no roubo de petróleo fez um furo na tubulação e instalou uma derivação para levar parte do óleo para uma “refinaria clandestina” nas proximidades. A instalação improvisada deixava vazar uma grande quantidade de óleo, o que atraiu muitos moradores locais, que queriam aproveitar para também faturar uns trocados enchendo baldes e latas com o petróleo.  

De repente, ocorreu uma grande explosão, seguida por um intenso incêndio (vide foto). As autoridades locais imaginam que foi uma fagulha, provavelmente criada por uma motocicleta que passou no local, que provocou essa enorme explosão. De acordo com informações da Cruz Vermelha, pelo menos 105 pessoas morreram na tragédia, além de centenas que sofreram queimaduras e ferimentos causados por estilhaços. 

Longe de ser um acontecimento isolado, esse tipo de acidente é frequente na Nigéria – se você fizer uma pesquisa na internet, encontrará dezenas de casos semelhantes nos últimos anos. Além das precárias condições de manutenção dos sistemas de oleodutos no país, é o roubo de petróleo um dos principais causadores desse tipo de tragédia na Nigéria. De acordo com dados oficiais, cerca de 10% do petróleo produzido no país é perdido, seja através de vazamentos, que são muitos, seja por causa do roubo realizado por esses grupos especializados

modus operandi das quadrilhas é quase sempre o mesmo – utilizando de informações fornecidas por comparsas que trabalham nas empresas petrolíferas do país, as quadrilhas sabem com antecedência os momentos em que o bombeamento do petróleo nos dutos vai ser desligado para a realização de algum tipo de manutenção. Perfurar uma tubulação de óleo pressurizada é extremamente perigoso – o óleo poderia incendiar com o calor do atrito da broca e, muito pior, o vazamento de um jato de óleo sob alta pressão pode até matar alguém que esteja no caminho. 

Com o oleoduto despressurizado, as quadrilhas conseguem furar as tubulações com alguma segurança e adaptar de forma precária tubulações para desviar o óleo. Como o encaixe dessas tubulações não é preciso, quase sempre eles têm vazamentos e estão na origem de muitas das explosões de oleodutos que citamos. As tubulações instaladas pelas quadrilhas normalmente levam o petróleo roubado para pequenas refinarias clandestinas, onde o óleo será “refinado” e transformado em querosene, gasolina e óleo diesel, produtos que serão vendidos por toda uma rede de pequenos comerciantes do país.  

Esses combustíveis “genéricos”, apesar de ter uma qualidade duvidosa e causar uma série de problemas nos motores dos veículos, são bem mais baratos que os derivados de petróleo produzidos pelas grandes empresas petroquímicas do país e, por essa razão, tem um forte apelo no grande mercado popular. 

O petróleo bruto ou cru é formado por dezenas de substâncias químicas, água, metais, além de diversas impurezas do solo. Durante o processo de refino, o petróleo primeiro é decantado para separar a água e as impurezas mais pesadas, Depois, o petróleo passa por processos químicos onde se obtém as frações do petróleo, que são a base dos diferentes derivados. Entre os processos químicos usados para o refino do petróleo destacam-se a destilação fracionada, a destilação a vácuo, o craqueamento térmico ou catalítico e a reforma catalítica

O processo de refino do petróleo utilizado pelas quadrilhas da Nigéria é uma adaptação da destilação fracionada. Nesse processo, o petróleo é colocado em uma espécie de “panela de pressão”, que depois é colocada no fogo gerado pela queima de petróleo. Com o aumento da temperatura e da pressão, os elementos mais leves do petróleo começam a migrar para a superfície do óleo e são retirados por meio de uma tubulação. O gás é sempre o primeiro derivado a desprender do petróleo. Na sequência vem o querosene, a gasolina e o óleo diesel. Os elementos mais pesados – o óleo combustível e o piche ficam para o final. 

As grandes refinarias de petróleo são dotadas de equipamentos e infraestruturas projetadas especialmente para a realização desses processos; todas as etapas do refino são realizadas com absoluta segurança e cuidadosamente monitoradas por uma série de sensores e por profissionais especializados em petroquímica. Nas refinarias clandestinas da Nigéria, os equipamentos usados são fabricados a partir de sucatas, velhos barris metálicos, canos de água e mangueiras de jardim, sem maiores sofisticações técnicas e sujeitos a todos os tipos de problemas e falhas ao longo dos processos de refino. Os “operadores” dessas destilarias não tem qualquer formação técnica e ficam sujeitos a explosões, incêndios, inalação de vapores tóxicos entre outros tipos de acidentes. Não são raros os casos de mortes e os acidentes com queimaduras graves nessas refinarias. 

As autoridades civis e militares sabem onde ficam essas destilarias – grandes colunas de fumaça negra, resultante da queima do petróleo, indicam claramente a sua localização. De acordo com os trabalhadores dessas refinarias, as autoridades costumam fazer vista grossa mediante o recebimento de algum suborno. Mesmo quando um fiscal ou um militar bem-intencionado leva o dono de uma dessas refinarias até uma delegacia ou quartel militar, basta uma boa conversa com alguma promessa de pagamento futuro de vantagem para conseguir a liberação. 

Em meio ao caos criado por essas atividades clandestinas, populações que moram em vilarejos próximos sofrem com a forte poluição do ar. As nuvens de fumaça e de vapores tóxicos invadem as casas, provocando graves problemas respiratórios, especialmente em crianças e idosos. Os resíduos mais pesados do petróleo, que se acumulam no fundo dos destiladores improvisados e não tem valor comercial para esses grupos, são descartados no meio ambiente, se juntando ao petróleo que vaza das tubulações, comprometendo águas e solos. 

As grandes multinacionais petrolíferas que atuam no país, como a anglo-holandesa Shell, afirmam que seguem as “melhores práticas de engenharia e de segurança em seus sistemas de oleodutos” – para essas empresas, as organizações criminosas é quem são as responsáveis pelos acidentes e pela poluição do ar, da água e dos solos. Esse é um argumento fraco: quando o número de acidentes em instalações petrolíferas dessas empresas na Nigéria é comparado com os que ocorrem em seus países de origem, os números são bem maiores. Essas empresas também alegam que a lucratividade de suas operações na Nigéria é muito baixa e que, por essa razão, não dispõem de grandes recursos para modernizar suas instalações petrolíferas no país. 

Nesse jogo de empurra-empurra, milhões de nigerianos ficam expostos a condições de vida das mais degradantes, ilhados em meio a pobreza extrema, condições de trabalho sem os mínimos padrões de segurança e cercados por poluição generalizada. Estudos indicam que essas populações têm uma expectativa de vida de apenas 40 anos, o que é menos da metade do esperado nos países sede dessas grandes multinacionais

Alguma coisa está muito errada nesse processo todo… 

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