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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO

Seca no rio São Francisco

A água é um elemento fundamental para a nossa vida que, desgraçadamente, está se tornando cada vez mais rara e cara nesse nosso mundo. De múltiplos usos, a água sacia a nossa sede, torna possível a agricultura e a produção de alimentos, é essencial nas mais diversas aplicações industriais, é sinônimo de lazer e fundamental para os transportes, entre inúmeras outras aplicações e usos. Nesta atual série de postagens, estamos mostrando a relação entre a água e seus usos para a geração de energia hidrelétrica – já falamos de diversos rios brasileiros e das histórias de inúmeras usinas que foram sendo construídas ao longo dos últimos 130 anos. 

Existe aqui um paradigma – é essencial que esses rios continuem tendo água correndo em suas calhas para que as turbinas das usinas hidrelétricas continuem gerando energia elétrica. Por mais absurda que essa afirmação possa lhe parecer à primeira vista, é exatamente esse o principal problema do rio São Francisco – seus caudais diminuem ano após ano e a geração de energia elétrica em suas inúmeras usinas corre sérios riscos de entrar em colapso. Vamos entender essa questão: 

Conforme apresentamos na postagem anterior, o Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, uma região onde predomina o bioma Cerrado. Aliás, os principais tributários do São Francisco, que são os afluentes que contribuem com a água que forma os seus caudais, tem nascentes em áreas do Cerrado, principalmente dentro das fronteiras de Minas Gerais. Apesar de ter apenas 37% da sua bacia hidrográfica em terras mineiras, o Velho Chico recebe 75% de todas as suas águas de rios tributários do Estado de Minas Gerais. E o grande problema que estamos assistindo nos últimos 50 anos é a destruição das matas nativas do Cerrado para a expansão das fronteiras agrícolas. 

Em Minas Gerais, a cobertura vegetal vem sofrendo um intenso processo de destruição ao longo da história, o que se traduz em impactos importantes nos rios, riachos e demais corpos d’água, especialmente na forma de assoreamento. O avanço da fronteira agrícola nas últimas décadas, onde destacamos as culturas da soja e do milho, acelerou enormemente esse processo e os seus reflexos no rio São Francisco são evidentes. Dos três biomas originais do Estado de Minas Gerais, o Cerrado é o que mais perdeu vegetação, restando apenas 40% da cobertura original. Da Mata Atlântica e da Caatinga restam, respectivamente, 23% (algumas fontes citam valores menores) e 57%. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco em Minas Gerais está localizada, predominantemente, em áreas do Cerrado e as acentuadas perdas de área dessa vegetação é o fator que mais produz reflexos negativos no rio, notadamente a redução dos volumes de água em nascentes desse bioma.  

A destruição das matas em Minas Gerais tem suas origens na descoberta das primeiras jazidas de ouro nos últimos anos do século XVII, um evento que mudou os rumos da história do Brasil. Para dar uma dimensão dos impactos dessa descoberta, bastaram apenas 50 anos para que perto de 60% da população brasileira de então, abandonasse as terras do litoral e os trabalhos nas lavouras de cana e nas unidades de produção de açúcar, para se aventurar nos sertões das Geraes na busca do ouro. Essa busca começava nos rios, onde podia se encontrar o chamado ouro de aluvião, e depois se estendia para os barrancos das margens, onde a vegetação era suprimida e os solos passavam a ser revirados. 

As reservas auríferas das Geraes foram efêmeras e em menos de um século sua mineração entrou numa irremediável decadência, levando inúmeras cidades à ruína total. Os solos locais, entretanto, eram ricos em outros metais como ferro, cobre, estanho, níquel e zinco, o que permitiu uma gradativa reorganização econômica da mineração e o surgimento de uma próspera base siderúrgica e de indústrias dos segmentos da metalmecânica. Há aqui um grande problema – o processamento de minérios e a produção de metais requer grandes volumes de energia térmica, tradicionalmente fornecida pela queima do carvão mineral, um insumo que não é encontrado dentro dos limites de Minas Gerais. Aliás, o Brasil só possui reservas de carvão, e de baixa qualidade, nos Estados da região Sul. 

Na falta do carvão mineral, as matas mineiras começaram a ser derrubadas e transformadas em carvão vegetal, um insumo genérico que alimentou por décadas um sem número de altos-fornos em diversas regiões de Minas Gerais. Essa derrubada de matas não poupou nenhum dos biomas locais: Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e até mesmo as Veredas dos contos de Guimarães Rosa. A expansão recente das fronteiras agrícolas veio consolidar uma devastação ambiental que se iniciou no século XVIII. 

A cobertura vegetal, especialmente nos domínios do bioma Cerrado, é essencial para permitir que as águas das chuvas infiltrem nos solos e realizem a recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos, fonte da água que jorra nas nascentes dos rios. Uma das principais características da vegetação do Cerrado é a presença de raízes muito longas, adaptadas para capturar águas profundas nos meses de seca, que são fundamentais nesse processo de recarga das reservas subterrâneas. Com a supressão das matas, seja para agricultura, mineração ou produção de carvão mineral, esse processo de recarga fica enormemente prejudicado e os rios perdem caudais. É justamente esse o mal do rio São Francisco – seus inúmeros tributários têm cada vez menos água a oferecer. 

A redução do volume de água que corre na calha do rio São Francisco é desesperadora – até 20 ou 30 anos atrás, o volume de água que o rio lançava na sua foz no Oceano Atlântico chegava bem próximo de 3 mil m³ por segundo. Nos últimos 3 anos, existiram momentos em que a CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco, foi obrigada a reduzir a vazão de suas hidrelétricas para apenas 500 m³ por segundo, como uma forma de evitar o colapso de suas barragens. No final de 2017, em função de uma grave seca, o nível do reservatório de Sobradinho atingiu o nível de 2,8% de sua capacidade, o menor da sua história, num colapso que ameaçava o abastecimento de várias cidades, a irrigação de lavouras e também a manutenção das operações de várias usinas hidrelétricas no médio rio São Francisco 

Um rio não é apenas um rasgo ou depressão no solo, através da qual as águas drenadas de toda uma região escorrem rumo ao oceano. Rios alimentam e sustentam comunidades inteiras de seres vivos – plantas, animais e pessoas; são fontes de trabalho, renda, transporte e de muitas histórias e lendas. Eles são, simplesmente, as veias que irrigam e mantém a vida em todos os recantos de sua bacia hidrográfica. O rio São Francisco, um dos mais importantes do Brasil, lamentavelmente apresenta volumes menores de água em sua calha a cada dia. 

E sem água, simplesmente não há rio, vida e, muito menos, a possibilidade de se gerar energia elétrica. 

UM GRANDE RIO CHAMADO SÃO FRANCISCO

Foz do rio São Francisco

O Brasil está entre os cinco países do mundo com a maior disponibilidade de água doce em seu território. Nossa grande abundância de rios resulta também em um dos maiores potenciais para geração hidrelétrica do mundo, estimado em cerca de 260 GW. A gigantesca Bacia Amazônica, é claro, representa sozinha cerca de 40% deste potencial. A Bacia Hidrográfica do rio Paraná, que tratamos longamente numa série de postagens, vem logo a seguir, respondendo por cerca de 23% deste potencial. As bacias dos rios Tocantins e São Francisco vem na sequência, respondendo, respectivamente, por 10,6% e 10%. Nas próximas postagens, vamos falar um pouco do rio São Francisco e da sua bacia hidrográfica, a maior que ocorre totalmente em território brasileiro. 

O rio São Francisco nasce, oficialmente, no município de Medeiros, na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Outras fontes afirmam que a nascente do rio fica em São Roque de Minas – o ponto exato da nascente de um rio é, em grande parte dos casos, uma convenção geográfica e gera todo o tipo de discussões. Em regiões de serra, especialmente nos domínios do Cerrado, existem inúmeros vertedouros de água ou nascentes nas encostas, que vão se juntando e formando diversos rios importantes do Brasil. Aliás, das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem rios com nascentes nos domínios do Bioma Cerrado, chamado por muitos de “berço das águas do Brasil”. 

A partir das encostas da Serra da Canastra, o rio São Francisco vai recebendo contribuições de inúmeros pequenos cursos de água e, conforme vai ganhando corpo e volume, vira para o Norte, na direção do Estado da Bahia. Apesar de ter apenas 37% da sua bacia hidrográfica em terras mineiras, o Velho Chico recebe 75% de todas as suas águas de rios tributários do Estado de Minas Gerais. Da Serra da Canastra até a sua foz no Oceano Atlântico, o rio São Francisco percorrerá 2.830 km e receberá contribuições de um total de 168 afluentes – 90 na margem direita e 78 na margem esquerda. Entre esses afluentes, destacam-se alguns rios importantes como o Rio das Velhas, Abaeté, Paracatu, Jequitaí, Rio Verde Grande, Carinhanha, Pajeú, Salitre, Corrente, Pará e Urucuia. A bacia hidrográfica do rio São Francisco ocupa uma área total de 641 mil km². 

As águas da bacia hidrográfica do rio São Francisco servem 521 municípios em 6 unidades da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Após a conclusão de todas as obras do Sistema de Transposição, as águas do rio São Francisco, chegarão também aos sofridos sertões do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Apesar de não ser o maior rio ou a maior bacia hidrográfica brasileira, posto ocupado com louvor pela bacia Amazônica, o São Francisco tem a mais importante pelo “conjunto da obra”. Não é à toa que ele recebe o título de “rio da integração nacional”. 

Os indígenas chamavam o grande rio de Opará, palavra que significa, literalmente, “rio-mar”. Essa grandiosidade do rio foi rapidamente percebida pelos primeiros exploradores europeus comandados por Américo Vespúcio e André Gonçalves, que avistaram sua foz em 4 de outubro de 1501. Os incrédulos navegadores notaram que vestígios de água doce podiam ser encontrados a cerca de 4 km da costa, tamanha a força dos caudais despejados no Oceano Atlântico. O rio foi batizado em homenagem a São Francisco de Assis, santo padroeiro do dia da sua descoberta

O papel do rio São Francisco como uma via de integração nacional teve seu início com o processo de interiorização de populações e das grandes boiadas, que eu costumo chamar de “diáspora bovina”. Nos primeiros dois séculos de nossa história, a economia da então Colônia de Portugal estava baseada nas plantações de cana e na produção do valioso açúcar, um produto altamente valorizado nos mercados da Europa. Uma grande faixa litorânea da região Nordeste do país, que ia da Bahia até o Rio Grande do Norte, concentrava a maior parte da produção e estava coberta com enormes canaviais e grandes infraestruturas dedicadas ao processamento das canas e ao refino do açúcar. 

A criação de bois nessas regiões passou a resultar em sérios conflitos com os grandes senhores das casas grandes. Os pobres bois invadiam as plantações e se deliciavam com os brotos adocicados da cana-de-açúcar, causando enormes prejuízos à produção do açúcar. Paulatinamente, os criadores de gado passaram a ser expulsos da faixa litorânea e foram forçados a buscar pastagens nas áreas interioranas do Nordeste. Esse processo de expulsão foi seguido de uma Carta Régia, que proibia a criação de bois a menos de 60 km das plantações de cana-de-açúcar do litoral. 

As margens do rio São Francisco passaram a abrigar inúmeros currais de bois e, cada vez mais, os criadores seguiam o curso do grande rio buscando novas terras e espaços abertos para a criação de gado. Já no início do século XVIII, quando foram descobertas as grandes minas de ouro na região das Geraes, o rio São Francisco foi transformado num dos caminhos de acesso de gentes e suprimentos para os sertões. As grandes boiadas da Caatinga passaram a acompanhar as margens do rio na direção das inúmeras cidades e vilas que foram surgindo no futuro Estado de Minas Gerais, integrando cada vez mais os sertões com o litoral. O rio São Francisco assumia assim a sua grande vocação histórica. 

Apesar de toda a sua importância histórica e social, o rio São Francisco é atualmente um dos rios brasileiros que mais sofrem com a destruição de matas ciliares, mineração descontrolada, assoreamento de sua calha e redução cada vez maior dos seus caudais. A grandiosa foz do rio, que marca a divisa entre os Estados de Alagoas e Sergipe, que tanto impressionou os antigos navegadores, hoje é uma sombra dos tempos passados. Os caudais médios despejados no Oceano Atlântico, que chegavam a valores próximos de 3 mil m³ por segundo no passado, atualmente chegam a cair para valores próximos a 500 m³ por segundo nos períodos de seca. 

Entre outros problemas, essa redução dos caudais tem provocado uma intrusão, cada vez maior, de água salgada na calha do rio São Francisco. Em inúmeras cidades e pequenos povoados da região da foz (vide foto), as populações que sempre encontraram uma fonte confiável de abastecimento, agora só dispõe de água salobra. Mesmo em localidades onde existem sistemas de tratamento, o problema persiste – sistemas convencionais de tratamento de água não conseguem retirar o excesso de sal da água. Para obter pequenas quantidade de água fresca, os moradores precisam subir o rio de barco por dezenas de quilômetros ou percorrer longos caminhos por terra na busca das pequenas nascentes de água doce. 

Um exemplo da decadência e dos grandes problemas ambientais enfrentados pelo rio São Francisco é o desparecimento do surubim, peixe que já foi abundante em suas águas e que era um dos ícones da culinária regional. Cada vez mais, os restaurantes e as populações ribeirinhas precisam recorrer ao cachara, um peixe “importado” da Bacia Amazônica, para ser usado como um genérico do surubim. 

Além dos problemas na área ambiental, o rio São Francisco também enfrenta problemas sociais e, principalmente, econômicos, que afetam inclusive o enorme potencial de geração hidrelétrica do rio. Falaremos destes problemas na nossa próxima postagem. 

AS USINAS HIDRELÉTRICAS DO RIO URUGUAI

Usina Salto Grande

Na última postagem falamos rapidamente do rio Uruguai, o mais importante do extremo Sul do Brasil. Assim como ocorreu com os rios Tietê e São Francisco, o rio Uruguai foi uma importante via para a interiorização e colonização de extensas áreas da Argentina, do Uruguai e da faixa Oeste do Rio Grande do Sul a partir de Buenos Aires, a principal cidade do Vice-Reino da Prata, possessão sul-americana da Coroa da Espanha.  

Como acontece com vários outros importantes rios brasileiros, o rio Uruguai é um ilustre desconhecido da maior parte dos brasileiros, apesar de sua extrema importância regional nos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Nos últimos vinte e cinco anos, o potencial hidrelétrico do rio Uruguai passou a ser explorado e três grandes usinas hidrelétricas foram construídas em território brasileiro. No baixo curso do rio Uruguai, na divisa entre a Argentina e o Uruguai, esse aproveitamento começou bem antes, em 1979, quando a Usina Hidrelétrica Binacional de Salto Grande começou a operar. 

A primeira grande usina hidrelétrica brasileira a ser inaugurada no rio Uruguai foi Itá, entre os municípios de Itá, no Estado de Santa Catarina, e Aratiba, no Rio Grande do Sul. Inaugurada no ano 2000, a usina foi construída em uma região de relevo acidentado, aproveitando um desnível natural de 105 metros entre a foz dos rios Apuaê e Uvá, com uma capacidade instalada de 1.450 MW. A região de Itá apresenta fortes dobramentos, resultados de uma sequência de derrames de basalto, conhecidos como Derrame de Trapp, que foram os responsáveis pela formação geológica da Serra Geral

Os estudos para o aproveitamento energético deste trecho das águas do rio Uruguai remontam ao início da década de 1980; em 1983, a empresa estatal ELETROSUL – Centrais Elétricas do Sul do Brasil, obteve uma concessão de 30 anos para o primeiro aproveitamento do rio. Em 1987, a ELETROSUL concluiu uma subestação em Itá, construída inicialmente para reforçar o abastecimento elétrico de algumas regiões do Rio Grande do Sul e já visando o uso da energia elétrica que seria gerada futuramente na hidrelétrica de Itá. 

Os planos para a construção da usina começaram efetivamente em 1994, quando a ELETROSUL publicou o edital de licitação do empreendimento sob o regime de concessão. A primeira fase das obras foi concluída ainda em 1997, quando as águas do rio Uruguai foram desviadas por um conjunto de 5 túneis; o enchimento do lago foi iniciado no ano 2000 e inundou uma área com aproximadamente 103 km². 

A ELETROSUL foi totalmente privatizada pelo Governo Federal ainda no início das obras da Usina Hidrelétrica de Itá, um período que marcou o fim do monopólio estatal no setor elétrico. As Usinas Hidrelétricas de Machadinho, inaugurada em 2002, e Foz do Chapecó, inaugurada em 2010, foram construídas por consórcios formados por empresas privadas. 

A Usina Hidrelétrica de Machadinho fica localizada entre os municípios de Piratuba, em Santa Catarina, e de Maximiliano de Almeida, no Rio Grande do Sul. A hidrelétrica conta com 3 grupos geradores, que fornecem uma potência instalada total de 1.140 MW, o suficiente para atender cerca de 37% do consumo de Santa Catarina ou 23% da demanda elétrica do Rio Grande do Sul. 

O lago da hidrelétrica inundou uma área com aproximadamente 80 km², o que, segundo dados do Consórcio construtor forçou o deslocamento de mais de 2 mil famílias e a desapropriação de 1.272 pequenas propriedades rurais. Diferente de outras regiões brasileiras, onde são comuns as grandes propriedades rurais ou latifúndios, nos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul são muito comuns os minifúndios, pequenas propriedades rurais compartilhadas por vários membros de uma mesma família. 

A Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó foi o último empreendimento energético concluído no rio Uruguai em terras brasileiras. A hidrelétrica possui 4 grupos geradores, que fornecem uma capacidade instalada total de 855 MW. Está instalada entre os municípios de Águas de Chapecó, em Santa Catarina, e Alpestre, no Rio Grande do Sul. Um detalhe construtivo dessa usina foi o uso de um núcleo de asfalto na vedação da sua barragem, uma tecnologia utilizada pela primeira vez no Brasil e já aplicada em centenas de usinas hidrelétricas ao redor do mundo. 

Os estudos para a construção da usina começaram ainda na década de 1960, mas foi apenas em meados da década de 1980 que se confirmou que o aproveitamento no rio nessa região era uma das alternativas de menor impacto ambiental se comparado com outros trechos da calha. O lago formado pela usina hidrelétrica ocupa uma área com menos de 80 km², dos quais, cerca da metade correspondem à própria calha do rio Uruguai. Essas características tornam a Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó uma das mais eficientes em termos de potência gerada versus área inundada. 

A Usina Hidrelétrica de Salto Grande (vide foto) é um empreendimento conjunto da Argentina e do Uruguai, que reforça a importância regional do rio Uruguai. Localizada entre as cidades de Salto, no Uruguai, e Concórdia, na Província de Entre Rios na Argentina, a hidrelétrica foi construída para aproveitar um forte desnível do rio Uruguai, conhecido como Salto Grande, uma formação geológica que, para variar, acabou encoberta após a formação do reservatório, que alagou uma área de aproximadamente 780 km². A potência instada total da usina, que conta com 14 grupos geradores, é de 1.890 MW. 

Os planos para a construção e operação da Usina Hidrelétrica de Salto Grande tiveram início em 1946, quando foi criada uma comissão técnica mista argentina e uruguaia para iniciar os estudos desse empreendimento binacional. As obras foram iniciadas em 1973 e totalmente concluídas em 1982. O primeiro grupo gerador entrou em operação em 1979. 

Como sempre ocorre em um empreendimento de grande porte como esse, a construção da Usina Hidrelétrica de Salto Grande provocou enormes impactos ambientais e sociais. Além do alagamento do Salto Grande, o lago da usina encobriu grandes áreas naturais e ilhas fluviais, além de forçar a mudança de toda a população da cidade de Federación, na Argentina, e das cidades de Belén Constitución, no lado uruguaio. Só relembrando, tanto o Uruguai quanto a Argentina eram governados por juntas militares nessa época, que colocavam os interesses estratégicos e econômicos de suas nações acima de qualquer interesse social ou ambiental. 

O potencial hidrelétrico do rio Uruguai ainda não foi totalmente explorado e os estudos de viabilidade técnica e econômica de outras duas usinas hidrelétricas em território brasileiro encontram-se suspensos por ordem da justiça por causa dos profundos impactos sociais e ambientais envolvidos. Um desses empreendimentos, a Usina Hidrelétrica de Panambi, poderia resultar no desaparecimento ou comprometimento parcial do Salto do Yucumã, citado na postagem anterior

Mesmo com todas as cautelas e estudos de impactos ao meio ambiente, a construção de novas usinas hidrelétricas sempre são problemáticas, o que requer o acompanhamento de toda a sociedade. Excesso de cautela e de caldo de galinha, como diz um velho ditado, não fazem mal a ninguém. 

SALTO DO YUCUMÃ: A MAIOR QUEDA D’ÁGUA HORIZONTAL DO MUNDO, OU FALANDO DO RIO URUGUAI

Salto do Uycumã

O Salto do Yucumã (vide foto) no rio Uruguai, localizado entre o município brasileiro de Derrubadas, no Estado do Rio Grande do Sul, e o município argentino de El Sobierbo, na província de Missiones, é considerada a maior queda d’água longitudinal do mundo. Os saltos se estendem ao longo de 1,8 km, com alturas de até 20 metros

O local também recebe os nomes de Tucumã, Grande Salto de Yocomá e também Saltos del Mocon. Todos esses nomes derivam da palavra guarani “moconá”, que significa “que tudo engole”. Apesar de ser muito pouco conhecido no restante do Brasil, o Salto do Yucumã é uma importante atração turística local, que oferece inúmeras opções de lazer para os turistas: travessia com veículos 4 x 4, cavalgadas, caminhadas, canoagem, entre outras atrações. O Yucumã é uma das muitas surpresas do rio Uruguai, o mais importante do extremo Sul do Brasil. 

O rio Uruguai tem aproximadamente 1.770 km desde suas nascentes na Serra Geral, na divisa entre os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Como ocorre com diversos rios brasileiros como o Tietê, Iguaçu e Paraíba do Sul, o rio Uruguai nasce a apenas 65 km do Oceano Atlântico, porém, ao invés de seguir pelo caminho mais fácil até o mar, as águas do rio fluem primeiro no sentido Oeste, em direção ao interior do continente, e, depois, no sentido Sul até desaguar na região do Delta do rio Paraná, onde tem início o  rio da Prata. 

Em seu longo caminho, o rio Uruguai inicialmente marca a fronteira entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Depois, o rio marca a divisa entre o Brasil e a Argentina, e depois a fronteira entre a Argentina e o Uruguai. Na língua guarani antiga, Uruguai é a junção de “uruguá”, o nome de um caracol de água doce, e “y”, que significa rio. O nome acabou sendo usado para definir tanto o rio quanto o país vizinho ao Sul. 

O rio Uruguai teve um importante papel na colonização do extremo Sul do Brasil. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o território brasileiro foi dividido entre as Coroas de Portugal e da Espanha pelo Tratado de Tordesillas, assinado em 1494 pelos dois reinos. Pelo Tratado, toda a bacia hidrográfica do rio Uruguai ficava dentro das possessões da Espanha na América do Sul. 

A colonização da região teve início em 1626, quando o padre jesuíta espanhol Roque Gonzalez de Santa Cruz parte de Buenos Aires e sobe o rio Uruguai até atingir o atual território do Rio Grande do Sul para fundar, na atual cidade de São Francisco Xavier, a primeira missão dos Jesuítas. Até o ano de 1634, os Jesuítas fundariam um total de 18 missões no chamado 1° Ciclo Missioneiro no Rio Grande do Sul. Todo esse esforço de catequização dos indígenas, porém, não alcançou os objetivos pensados inicialmente pelos religiosos – os sucessivos ataques dos bandeirantes paulistas aos núcleos religiosos forçaram os Jesuítas a fugir para a margem Oeste do rio Uruguai em 1637. Calcula-se que os paulistas aprisionaram ao todo cerca de 200 mil indígenas, sendo que perto de 60 mil vieram dos assentamentos da região do rio Uruguai

A partir de 1682, os Jesuítas resolveram voltar para suas antigas terras e retomaram seu antigo projeto de catequização dos indígenas. Esse foi o início dos chamados Sete Povos das Missões, um ciclo que começou com a fundação de São Francisco Borja, seguido por São Nicolau, São Luiz Gonzaga e São Miguel Arcanjo. Esse projeto de retomada das reduções Jesuítas no atual extremo Sul do Brasil tinha pleno apoio da Coroa da Espanha, que via com extrema preocupação o avanço e a ocupação das terras por colonos portugueses. 

Em 1690 foi fundado São Lourenço Mártir, seguida por São João Batista e Santo Ângelo Custódio. Esse novo ciclo das reduções dos Jesuítas, porém, não teve uma vida muito longa – em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid, que tinha por objetivo resolver as questões fronteiriças entre as suas colônias sul-americanas. Pelo novo Tratado, Portugal cederia a região de Colônia do Sacramento na região Oeste do atual Uruguai em troca da região Oeste do Rio Grande do Sul. A transição não foi das mais pacíficas, uma vez que os padres Jesuítas não queriam abandonar as suas reduções e nem os índios queriam que os padres fossem embora. Sem uma solução amigável, a questão acabou sendo resolvida a bala, em uma série de confrontos armados que ficaram conhecidos como a Guerra Guaranítica

A consolidação final do território do Rio Grande do Sul só ocorreria em meados do século XIX, quando a região se consolidou como grande produtora de gado e de muares, que eram exportados para outras regiões do país. Também merecem destaques as charqueadas, que desde os tempos do Ciclo do Ouro em Minas Gerais, no século XVIII, era abastecida com a carne seca produzida no extremo Sul do país. Também foram fundamentais as sucessivas levas de imigrantes, especialmente açorianos, alemães e italianos, que fundaram inúmeras novas cidades em todo o Rio Grande do Sul, especialmente no Oeste gaúcho, ao longo das margens do rio Uruguai. 

Além de toda a sua importância histórica, o rio Uruguai também sempre demonstrou uma importância ímpar como uma importante fonte de abastecimento de água para cidades, irrigação de plantações, dessedentação animal e fonte de pescados. O primeiro aproveitamento das águas do rio Uruguai para geração de energia elétrica teve início no ano 2000, com a inauguração da Usina Hidrelétrica Itá, a maior do Rio Grande do Sul. Na sequência foram construídas as Usinas Hidrelétricas de Machadinho e Foz do Rio Chapecó. Cerca de Metade da energia elétrica gerada no Rio Grande do Sul vem das águas do rio Uruguai. No baixo curso do rio Uruguai, na divisa entre a Argentina e Uruguai está localizada a Usina Hidrelétrica Binacional de Salto Grande, com potência instalada de 1.890 MW. Falaremos do aproveitamento hidrelétrico do rio Uruguai na próxima postagem

Por hora, gostaria de encerrar falando do projeto de uma usina hidrelétrica que, felizmente, não deu certo. Na década de 1970, durante o ciclo de construção de grandes usinas hidrelétricas por todo o país, foram feitos estudos para a construção de uma hidrelétrica na região do Salto do Yucumã, projeto esse que se tivesse sido levada a cabo, provavelmente teria encoberto todo o conjunto de cachoeiras, a exemplo do Salto das Sete Quedas, encoberto pelas águas do lago de Itaipu, e da Cachoeira do Índio no rio Grande, que foi inundada após o enchimento do lago da hidrelétrica de Água Vermelha. 

Felizmente, os custos ambientais de mais esse desastre envolvendo uma grande cachoeira e a construção de uma usina hidrelétrica foi evitado – esse projeto acabou engavetado. Para preocupação geral, entretanto, ainda há quem continue com a ideia de construir uma represa na região – a usina hidrelétrica Panambi, que segundo consta, não afetaria as cachoeiras. De acordo com as informações disponíveis, uma decisão judicial de 2015 suspendeu os estudos de viabilidade técnica dessa usina, e também de outra, a hidrelétrica de Garabi. 

Como já comentei antes, nada contra a geração da energia a partir de fontes hidráulicas, desde que os devidos estudos e impactos ambientais sejam adequadamente realizados e avaliados, com as devidas compensações ambientais e sociais efetivamente realizadas. O que não dá é ficar assistindo parado a destruição de patrimônios naturais devido a construção de mais uma usina hidrelétrica. Chega! 

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UMA BREVE HISTÓRIA DOS PRIMÓRDIOS DA GERAÇÃO HIDRELÉTRICA NO BRASIL

Thomas Edison

Acredite ou não, o Brasil figura na lista dos países pioneiros no uso de diversas tecnologias criadas ao longo do século XIX, incluindo-se na lista os sistemas de telégrafos, telefones e energia elétrica. Por trás de todas essas inovações, encontramos a figura do nosso segundo Imperador – Dom Pedro II, um entusiasta das ciências e das novas tecnologias. 

O primeiro serviço permanente com uso da energia elétrica para iluminação pública foi inaugurado em 1879, numa Estação da Estrada de Ferro Dom Pedro II (atual Estrada de Ferro Central do Brasil), na cidade do Rio de Janeiro. A iniciativa, que tinha por detrás o próprio Thomas Alva Edison (vide foto), empresário e inventor que patenteou a lâmpada elétrica nesse mesmo ano, contou com a instalação de 6 lâmpadas de arco voltaico em substituição à 46 bicos de gás. A eletricidade usada no sistema era fornecida por 2 dínamos acionados por um sistema termelétrico à vapor. Em 1881, foram instaladas mais 16 lâmpadas elétricas no Campo da Aclimação, atual Praça da República, também no centro da cidade do Rio de Janeiro. 

Em 1883, apenas 4 anos depois dessa iniciativa tecnológica pioneira, a cidade de Campos de Goytacazes, no Norte fluminense, se tornou a primeira cidade do Brasil a inaugurar um sistema de iluminação pública com lâmpadas elétricas. O acionamento do gerador termelétrico à vapor, dotado de 3 três dínamos com potência de 52 kW, foi feito pelo próprio Dom Pedro II. O sistema era dotado de 39 lâmpadas elétricas com potência unitária de “duas mil velas”. Como sempre acontece com novas tecnologias, esses equipamentos eram muito caros na época, o que justifica a pequena quantidade de lâmpadas usadas em todas essas instalações. 

Foi nesse mesmo ano, 1883, que começou a operar a “primeira usina hidrelétrica do Brasil”, na cidade de Diamantina – Minas Gerais. O empreendimento fazia parte das instalações de uma mina de diamantes, que passou a usar a eletricidade para acionar um sistema de bombas d’água usadas no desmonte de paredões rochosos. O sistema gerador era formado por dois dínamos do tipo Gramme, com potência de 4 e 8 HP. Esse grupo gerador era acionado pelas águas do Ribeirão do Inferno (vide foto), que tinha parte de suas águas desviadas por um conjunto de tubulações a partir de um desnível de 5 metros. A unidade contava ainda com uma “linha de transmissão” com uma extensão total de 2 km e que era considerada na época como a “mais extensa do mundo”. Essa pequena Central Geradora Hidrelétrica, depois foi incorporada pela CEMIG – Centrais Elétricas de Minas Gerais (que depois teve seu nome mudado para Companhia energética de Minas Gerais) e acabou desativada há alguns anos atrás. 

O Ribeirão do Inferno é um pequeno corpo d’água que nasce na Serra do Dumbá, na divisa entre os municípios de Diamantina e Datas, como resultado da junção das águas de diversas nascentes, entre elas o Córrego de Canudos. O Ribeirão do Inferno recebeu esse nome por causa das fortes enchentes dos períodos de chuva e das dificuldades enfrentadas pela população local para atravessá-lo, algo que lembra muito os ribeirões e córregos (“córgos” na fala popular de nós paulistanos), que encontramos nas grandes e médias cidades brasileiras. Salta aos olhos a importância histórica e econômica desse pequeno corpo d’água, o que só reforça o valor e a necessidade de conservação desses pequenos rios. 

Em 1885, foi a vez da Companhia Fiação e Tecidos São Silvestre, da cidade de Viçosa, também no Estado de Minas Gerais, construir uma pequena Central Geradora Hidrelétrica e passar a utilizar motores elétricos em suas linhas de produção. Uma outra indústria têxtil, a Sociedade de Fiação e Tecidos Cachoeira dos Macacos, instalada em Inhaúma, um distrito de Sete Lagoas, construiu e passou a operar a sua própria geradora de energia elétrica em 1887 – a Hidrelétrica Cachoeira dos Macacos. Segundo os dados históricos da empresa, a eletricidade gerada alimentava cerca de 100 teares.  

Finalmente, conforme apresentamos em postagem anterior, em 1889 foi inaugurada a primeira geradora de energia elétrica comercial do Brasil – a Usina Hidrelétrica de Marmelos, em Juiz de Fora, Zona da Mata Mineira. Esse empreendimento foi uma iniciativa do empresário do setor têxtil Bernardo Mascarenhas. A inciativa, porém, extrapolou o uso industrial – o empresário conseguiu a concessão do serviço de iluminação pública da cidade de Juiz de Fora, que passou a usar lâmpadas elétricas alimentadas com a eletricidade gerada em Marmelos. A partir daí, a construção de usinas hidrelétricas e o uso da eletricidade não parou mais de crescer no Brasil. 

O que chama a atenção nesse breve relato é a proximidade das aplicações da energia elétrica no Brasil em relação aos países mais avançados da época no mundo. Os fenômenos elétricos e a eletricidade vinham sendo intensamente estudados desde o século XVIII pelos mais importantes cientistas e pesquisadores da época. Porém, foi a partir da invenção do dínamo, equipamento que permite a geração de eletricidade a partir de fontes de energia mecânica, pelo engenheiro alemão Werner Siemens em 1867, que o uso da eletricidade passou a ser viável tecnicamente.  

Essa invenção abriu o caminho para toda uma série de inovações tecnológicas: motores elétricos e toda uma gama de novas máquinas e equipamentos alimentados por energia elétrica, geradores, transformadores, sistemas e linhas de transmissão, sistemas de iluminação com lâmpadas elétricas entre outras. Chama a atenção também o pioneirismo de cidades interioranas, especialmente do Estado de Minas Gerais, na construção e utilização da energia elétrica. 

Nessa corrida pela criação de sistemas geradores de energia elétrica, diversas cidades realizaram experimentos com centrais termelétricas movidas a carvão, onde citamos como exemplos as cidades do Rio de Janeiro e de Curitiba. O Brasil é pobre em fontes de carvão mineral, com reservas encontradas apenas nos Estados da Região Sul. Além da baixa disponibilidade na época, esse carvão nacional era considerado de baixa qualidade e com baixo poder de queima. Esses empreendimentos pioneiros dependiam do uso do caro e nem sempre disponível carvão mineral importado. As dificuldades de importação e os altos custos inviabilizaram esses empreendimentos. 

Entretanto, foi graças ao grande potencial hidrelétrico dos inúmeros rios brasileiros que os sistemas de geração, distribuição e uso da energia elétrica nas principais regiões do Brasil cresceram exponencialmente ao longo dos últimos 130 anos. Atualmente, 82% de toda a energia elétrica utilizada no Brasil vem de fontes renováveis, onde a geração hidrelétrica responde por cerca de 65% da geração dessa energia

Qualquer tipo de intervenção em corpos d’água com vistas à implantação de sistemas geradores de energia elétrica, desde as pequenas Centrais Geradoras Hidrelétricas até usinas hidrelétricas do porte de Itaipu, causam importantes impactos ao meio ambiente. Não há como se fugir dessa realidade. As fontes hidráulicas, entretanto, causam impactos bem menores que fontes termelétricas, citando um único exemplo, e ainda tem a vantagem de usar uma fonte de energia renovável – a força das águas. 

O que se faz cada vez mais necessário é aprimoramento dos mecanismos de gestão desses impactos ambientais e o desenvolvimento de novas tecnologias que permitam compensar e/ou amenizar ao máximo os problemas criados aos corpos d’água e toda a sua fauna e flora. 

MARMELOS: A PRIMEIRA USINA HIDRELÉTRICA COMERCIAL DO BRASIL, INAUGURADA EM 1889

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Na última postagem, falamos das pequenas unidades geradoras de energia elétrica da bacia hidrográfica do rio Grande: PCHs – Pequenas Centrais Hidrelétricas e CGH – Centrais Geradoras Hidrelétricas. Essas unidades geradoras, que foram fundamentais para as pequenas e médias cidades brasileiras até meados do século XX e estão espalhadas por todos os cantos do nosso território, estão voltando a ter a importância que merecem.

A história dessas pequenas centrais hidrelétricas normalmente está ligada a um empreendedor, que vislumbrou o progresso que a implantação de uma dessas unidades poderia trazer para a sua empresa e/ou comunidade. A primeira unidade geradora de energia elétrica instalada no Brasil remonta ao ano de 1883, no Ribeirão do Inferno, em Diamantina – Minas Gerais. A eletricidade gerada nessa unidade era usada exclusivamente para acionar bombas de água em uma mina de diamantes.

A Usina de Marmelos, na Zona da Mata Mineira, é considerada a primeira usina hidrelétrica a entrar em operação comercial no Brasil e na América do Sul, mostrando a importância da iniciativa privada na história da eletrificação do país. Marmelos iniciou suas operações em 1889 com dois conjuntos geradores de 125 kW e, gradativamente, foi ampliando a sua potência instalada até atingir 4 MW. A antiga unidade geradora foi descontinuada em 1980 e transformada em um espaço cultural. Duas novas unidades geradoras, Marmelo I e II, foram construídas e continuam em operação.

Matéria publicada pelo jornal O Estado de Minas em 18 de maio de 2013. Leia na íntegra:

 

PRIMEIRA HIDRELÉTRICA DO PAÍS FOI CONSTRUÍDA EM MINAS HÁ MAIS DE 100 ANOS 

Há “130” anos as águas do Rio Paraibuna, na Zona da Mata, moviam as turbinas da primeira usina hidrelétrica do país, ponto de partida para o Brasil se tornar um gigante no setor 

Os primeiros watts/hora (W/h) de energia hidrelétrica gerados na América Latina foram possíveis graças às águas do Rio Paraibuna, que atravessa a Zona da Mata mineira e deságua no litoral fluminense. Há mais de 120 anos, quando as turbinas importadas dos Estados Unidos giravam ela primeira vez na Usina de Marmelos, em Juiz de Fora, ocorreu de forma inédita no país a transformação da energia mecânica em elétrica. Foi o salto inicial para que o Brasil se tornasse um dos maiores produtores de energia hidrelétrica do planeta. Cinco anos antes, as águas do Ribeirão do Inferno, em Diamantina, já tinham sido usadas para gerar energia, mas ela ficou restrita ao uso de mineração de diamantes, sem grandes registros. A usina levantada às margens do Paraibuna acelerou o processo de desenvolvimento da técnica no Brasil, que passou a olhar para seus rios como fonte de uma riqueza que iria além da pesca e mobilidade.  
 
A iniciativa da construção da primeira usina hidrelétrica do continente partiu do industrial mineiro Bernardo Mascarenhas, que, com objetivo de ampliar sua produção de tecidos, buscou por vários anos uma forma mais moderna e prática de movimentar os teares de sua empresa têxtil. Em 1878, depois de visitar a Exposição Universal de Paris, onde se encontrou com empresários de outros países e ficou conhecendo pesquisas e novidades tecnológicas desenvolvidas no exterior, Mascarenhas resolveu apostar na energia dos rios com forma de gerar energia. 
 
“Ele buscou informações para otimizar o método manual que era usado em suas fábricas. Já sabia que fora do país empresários economizavam mão de obra e conseguiam aumentar a produção”, conta José Roberto Tagliati, diretor acadêmico do Centro de Ciências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mas o industrial mineiro tinha pretensões que ultrapassavam as paredes de sua fábrica de tecidos e, assim que retornou da Europa, firmou contrato com a Prefeitura de Juiz de Fora para mudar o fornecimento de luz na cidade, passando da iluminação a gás para a elétrica.  
 
Com a concessão garantida pela prefeitura, Mascarenhas criou a Companhia Mineira de Eletricidade (CME) de Juiz de Fora, que passou a fornecer energia elétrica para a cidade e lugarejos da região. Aos poucos a demanda pela nova invenção ganhou ruas e praças do lugar, até chegar às moradias nos primeiros anos do século 20. A companhia existiu até 1980, quando foi incorporada pela Cemig. Em 1983, a Usina de Marmelos se transformou em Espaço Cultural e Museu, após seu tombamento, no mesmo ano, pelo Patrimônio Histórico Artístico e Cultural. 
 
REAÇÃO
Em 22 de agosto de 1889, foi realizada a primeira experiência com eletricidade às margens do Rio Paraibuna, garantindo que a força da água seria suficiente para a instalação de uma usina. A inauguração ocorreu em 5 de setembro de 1889, provocando grande atração e desconfiança da população. “Temos relatos de pessoas que não aprovavam a chegada da nova tecnologia. A reação do povo foi forte, com muitos considerando perigosa a nova usina. Foi espalhado inclusive o perigo com a alta voltagem da turbina instalada, que iria até soltar descargas de raios elétricos capazes de matar pessoas”, conta Tagliati.  
 
Para convencer os desconfiados de que o novo empreendimento era seguro para a cidade, Bernardo Mascarenhas chegou até a mostrar dados estatísticos de que o perigo causado pelos atropelamentos por carroças era muito maior do que a morte por acidentes elétricos. “Com o tempo foi ficando cada vez mais claro que a energia elétrica tinha chegado para ficar e que o uso de rios para a geração de energia seria a melhor forma a ser adotada no Brasil”, lembra Tagliati. Depois da primeira unidade, foram montadas outras usinas no mesmo local e os primeiros equipamentos foram substituídos. 
 
CAFÉ  

Assim como na implantação da usina hidrelétrica em Juiz de Fora, outras usinas começaram a ser construídas no final do século 19, motivadas principalmente pela iniciativa de grandes empresários brasileiros. “Nesse período os capitais provenientes do café estavam em alta e os grandes produtores tinham interesse em reinvestir em outras áreas. A energia elétrica então se encaixou bem nesse cenário, já que além de negócio rentável trazia uma novidade tecnologia que envolvia muito charme e atraía a curiosidade das pessoas”, explica Renato de Oliveira Diniz, doutor em história da energia elétrica pela Universidade de São Paulo (USP). 
 
Aproveitando as características naturais do país, com muitos rios e cachoeiras, o desenvolvimento se deu rapidamente nas primeiras décadas do século 20, e atraiu novos investimentos de grupos internacionais. “Principalmente nos estados de Minas e São Paulo, a construção de usinas se encaixou muito bem e iam se espalhando pelas cidades. Capitalistas locais assinavam contratos de concessão com as prefeituras e depois seguiam para os municípios vizinhos”, diz o historiador.  
 
 
SAIBA MAIS: INCENTIVO REAL 
Ao contrário de muitos avanços tecnológicos que levaram tempo para ser disseminados aos países subdesenvolvidos, a energia elétrica avançou rapidamente no Brasil, acompanhando as melhorias feitas no exterior. O grande responsável por manter a chegada de novas invenções foi o próprio dom Pedro II, monarca entre 1840 e 1889. “De fato o Brasil foi um dos países pioneiros na implantação da energia elétrica como negócio e isso se deveu a dom Pedro II, que era um grande incentivador das novas descobertas. Em 1872, ele instalou um cabo telegráfico ligando o Brasil à Europa, e desde então ficava cada vez mais ligado no que acontecia pelo mundo”, explica Renato Diniz, pesquisador da história da energia elétrica. Segundo o historiador, em 1879, no mesmo ano que o norte-americano Thomas Edison finalizava o desenvolvimento da lâmpada elétrica incandescente, uma de suas mais famosas invenções, o governo brasileiro já programava a instalação da tecnologia em estações ferroviárias fluminenses.  
 
 
LINHA DO TEMPO 
1879 – O imperador dom Pedro II concede à empresa do norte-americano Thomas Edison, a Edison Eletric Light Co. a instalação de iluminação elétrica na estação da Estrada de Ferro Pedro II.  
1888  – Princesa Isabel assina a Lei Áurea, que proíbe a escravidão no Brasil.  
1889 – Início da operação da primeira hidrelétrica do continente. A Usina de Marmelos foi idealizada pelo industrial mineiro Bernardo Mascarenhas.  
1889 – Proclamação da República.  
1899  – Criação da São Paulo Light, entrada do capital estrangeiro no setor elétrico.  
1903 – Aprovação, pelo Congresso Nacional, do primeiro texto de lei disciplinando o uso de energia elétrica no país. 
1905  – Criação da Rio Ligth, do mesmo grupo financeiro da São Paulo Light. 
1940 – Regulamentação da situação das usinas termelétricas do país, mediante integração às disposições do Código de Águas. 
1952  – Fundação da Cemig, com o nome de Centrais Elétricas de Minas Gerais. 
1960 – Criação do Ministério das Minas e Energia. 
FONTES: Ministério de Minas e Energia (MME), Centro de Ciências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) “

Reportagem: Marcelo Fonseca – Jornal O Estado de Minas – 18/05/2013 

 

 

AS PEQUENAS UNIDADES GERADORAS DE ELETRICIDADE DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO GRANDE

CGH Luiz Dias

Nas duas últimas postagens falamos da construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, uma das maiores do mundo na sua época, e da potência instalada das demais usinas que foram construídas ao longo da calha do rio Grande. Ao todo, as águas do rio Grande movimentam as turbinas de 13 usinas hidrelétricas, gerando uma potência total superior a 7,6 mil MW, o que corresponde a cerca de 67% de toda a energia elétrica gerada no Estado de Minas Gerais

Essas usinas, porém, não esgotam o aproveitamento do potencial hidrelétrico da bacia hidrográfica do rio Grande – existem diversas pequenas unidades geradores de energia elétrica operando em diversos rios da bacia. Essas unidades são as PCHs – Pequenas Centrais Hidrelétricas e as CGHs – Centrais Geradoras Hidrelétricas. 

De acordo com a classificação feita em 1997 pela ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, as Pequenas Centrais Hidrelétricas são empreendimentos com potência entre 5 e 30 MW e que formam reservatórios com área menor do que 13 km². De acordo com informações da ABRAPCH – Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas, existem 428 PCHs em operação no Brasil, 27 unidades em construção e 127 com obras paradas. Juntas, as PCHs em operação possuem uma potência instalada de 5 mil MW e respondem por 3,5% de toda a capacidade instalada no Sistema Interligado Nacional. O potencial para a geração de energia elétrica através de PCHs é estimado em 14 mil MW, o que equivale à potência da Usina Hidrelétrica de Itaipu

As Centrais Geradoras Hidrelétricas, de acordo com a classificação da ANEEL, são unidades menores em tamanho e com uma potência instalada entre 0 e 5 MW. Existem cerca de 683 CGHs em operação no Brasil, que juntas tem uma potência instalada de 0,66 MW, o que equivale a aproximadamente 0,2% do total da matriz energética brasileira

A bacia hidrográfica do rio Grande possui várias dessas pequenas unidades geradoras, que apesar de parecerem irrelevantes diante das grandes usinas hidrelétricas dos dias atuais, foram de uma importância regional ímpar em tempos passados: 

CGH Luiz Dias (vide foto), no rio Lourenço Velho, com 2 grupos geradores e com uma potência instalada de 1,62 MW. Construída em 1914; 

CGH Xicão, no rio Santa Cruz, com 2 grupos geradores e com uma potência instalada de 1,8 MW. Construída em 1941; 

PCH São Bernardo, no rio São Bernardo, com 3 grupos geradores e com uma potência instalada de 6,8 MW. Construída em 1948;

CGH Jacutinga, no rio Mogi-Guaçu, com 1 grupo gerador e com uma potência instalada de 0,72 MW. Construída em 1948; 

PCH Poço Fundo, no rio Poço Fundo, com 3 grupos geradores e com uma potência instalada de 9,16 MW. Construída em 1949; 

CGH de Anil, no rio Jacaré, com 2 grupos geradores e com uma potência instalada de 2 MW. Construída em 1964.

A exploração do potencial hidrelétrico da bacia hidrográfica do rio Grande fica ainda maior quando se incluem as unidades geradoras instaladas em grandes afluentes como o rio Pardo, que trataremos em outra postagem. Na calha desse rio foram construídas 3 Usinas Hidrelétricas de médio Porte – Euclides da Cunha, Limoeiro e Caconde, além de mais 5 pequenas unidades geradoras instaladas nos seus afluentes. 

Até meados do século XX, época em que a maior parte das empresas geradoras de energia elétrica estavam ligadas ao setor privado, as pequenas unidades geradoras eram uma opção importante para o abastecimento de pequenas e médias cidades em regiões interioranas. A partir da década de 1950, quando o Governo Federal passou a criar as grandes empresas estatais do setor elétrico e a prioridade do país passou a ser a construção de grandes usinas hidrelétricas, as Pequenas Centrais Hidrelétricas e as Centrais Geradoras Hidrelétricas do país foram lançadas em uma espécie de limbo. 

As pequenas unidades geradoras de energia elétrica voltaram a ganhar uma importância significativa a partir de 1997, quando foi extinto o monopólio do Estado no setor elétrico. Desde então, centenas de empresas passaram a realizar estudos e investimentos no setor de geração elétrica. Calcula-se que um total de R$ 1 bilhão já foram investidos no projeto e licenciamento de cerca de 1.000 empreendimentos. O total de empreendimentos já protocolados na ANEEL superam a casa dos 9 mil MW, dos quais cerca de 7 mil MW ainda estão aguardando a análise e a aprovação do órgão regulador

Uma das principais características desses empreendimentos é o baixo impacto ambiental, o que simplifica e facilita o processo de licenciamento para a construção e operação dessas unidades. Aqui se destacam as unidades a “fio d’água”, onde a energia utilizada para mover os grupos geradores é retirada da força da correnteza dos rios. Muitos dos projetos necessitam apenas de um desvio de parte dos caudais do rio; em outros casos, é feito o represamento e a formação de pequenos lagos. Os impactos ambientais provocados são pequenos, não comprometendo os demais usos das águas para irrigação, piscicultura, lazer e abastecimento de cidades e populações. 

Além do importante baixo impacto ambiental, as pequenas unidades geradoras de energia elétrica combinam custos relativamente baixos para sua implantação, o que pode resultar em custos mais baixos nas contas de energia elétrica dos consumidores, à geração de empregos na região, e, principalmente, no estabelecimento de metas rigorosas de recuperação de áreas degradadas e de conservação das áreas naturais nas áreas de influência dos empreendimentos por parte das empresas. Outra característica importante desses empreendimentos é o baixo impacto sobre as populações – como as áreas dos reservatórios são muito pequenas, a necessidade de deslocamento de populações e de desapropriação de imóveis e propriedades é muito menor. Isso reduz muito os embates sociais e os custos para implantação dessas unidades. 

Por força de lei e dos contratos de concessão, as empresas responsáveis pela operação dessas pequenas unidades geradoras de energia elétrica assumem a responsabilidade pela “guarda” das áreas de impacto direto de seus reservatórios e das unidades de geração. Essa fiscalização intensa coíbe o despejo de resíduos nas águas, o desmatamento ilegal, o plantio irregular e a remoção de matas ciliares, além de processos de erosão e assoreamento das calhas. As empresas também assumem responsabilidades na recuperação de áreas degradadas e na recomposição de matas ciliares e de matas nativas. Todos esses impactos positivos costumam superar, e com muita folga, os impactos negativos gerados por esses empreendimentos. 

Com dificuldades cada vez maiores para o licenciamento de grandes empreendimentos de geração de energia elétrica, a construção e a operação de pequenas unidades geradoras em pequenos rios se transformaram em ótimas opções para aumentar a capacidade geradora do país. Melhor ainda, se incluirmos nessa conta outras fontes renováveis como a energia fotovoltaica, eólica e a geração a partir do biogás gerado nos lixões e esgotos.

Novos tempos!

AS USINAS HIDRELÉTRICAS DO RIO GRANDE

UHE Estreito

Na última postagem falamos da construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, inaugurada oficialmente em 1965 e que é a maior unidade geradora de eletricidade do rio Grande. A potência instalada total da usina é de 1.216 MW, energia gerada a partir de 8 grupos geradores. O reservatório dessa hidrelétrica, o famoso Lago de Furnas, alterou radicalmente a geografia física e humana de 34 municípios mineiros, tendo forçado a remoção de cerca de 35 mil pessoas. O Lago, que ocupa uma área de 1.440 km² e tem um perímetro de 3 mil km, acabou se transformando no maior corpo d’água do Estado de Minas Gerais e numa importante atração turística regional

Mas Furnas não é a única hidrelétrica instalada no rio Grande: existem outras 12 usinas hidrelétricas de diferentes tamanhos na calha do rio, além de um conjunto de PCHs – Pequenas Centrais Hidrelétricas, espalhadas por diversos rios da bacia hidrográfica. Cerca de 67% de toda a energia elétrica gerada no Estado de Minas Gerais vem de usinas hidrelétricas instaladas no rio Grande, que juntas produzem 7.640 MW.  

As fortes corredeiras do rio Grande e seu enorme potencial hidrelétrico começaram a ser estudas com mais intensidade na década de 1950, quando foi criada a CEMIG – Centrais Elétricas de Minas Gerais. Nessa época foram construídas as Usinas Hidrelétricas de Itutinga e de Peixoto. A Usina Hidrelétrica de Itutinga foi concluída em 1955, com 3 grupos geradores e uma potência instalada de 52 MW. É considerada uma usina a fio d’água. A Usina Hidrelétrica de Peixoto, que depois passou a ser conhecida como Mascarenhas de Moraes, começou a operar em 1957, porém, só teve todas as obras concluídas em 1966, quando foram instalados os últimos dos 10 grupos geradores e se atingiu uma potência total instalada de 478 MW. A barragem da Usina tem um desnível máximo de 43 metros e alaga uma área com aproximadamente 250 km². 

Entre 1960 e 1986, ano em que foi publicada a Resolução CONAMA 001, que passou a exigir a realização de estudos prévios sobre os impactos ambientais de obras e passou a ser necessário todo um processo de licenciamento ambiental, o rio Grande assistiu a construção de 6 Usinas Hidrelétricas: Camargos, Jaguara, Porto Colômbia, Volta Grande, Marimbondo e Água Vermelha. Somadas, as potências instaladas dessas usinas hidrelétricas atingem a marca de 4.013 MW

A Usina Hidrelétrica Camargos foi inaugurada em 1960, entre os municípios de Madre de Deus e Itutinga, no curso superior do rio Grande no Estado de Minas Gerais. A barragem da Usina tem uma altura máxima de 36 metros e forma um lago com área máxima de 50 km². A Usina possui 2 grupos geradores, com uma potência máxima instalada de 45 MW. 

Em 1971 entrou em operação a Usina Hidrelétrica de Jaguara, construída na divisa entre os Estados de São Paulo, o município de Rifaina, e Minas Gerais, o município de Sacramento. Essa Usina trabalha com um desnível máximo de 44 metros, onde 4 grupos geradores produzem uma potência de 424 MW. Essa Usina é considera do tipo a fio d’água, com um lago com apenas 34 km². 

A Usina Hidrelétrica Porto Colômbia teve suas operações iniciadas em 1973. Essa Usina foi construída na divisa dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, entre os municípios de Guaíra e Planura. Essa também é uma Usina do tipo fio d’água, que trabalha com um nível máximo de apenas 19 metros e consegue atingir uma potência máxima de 328 MW. A Usina possui 4 grupos geradores. 

A Usina Hidrelétrica de Volta Grande foi construída no município de Conceição das Alagoas, no Norte do Estado de São Paulo, na divisa com Minas Gerais. Inaugurada em 1974, essa Usina possui 4 grupos geradores e tem uma capacidade instalada de 380 MW. A usina opera com um desnível máximo de 26 metros e seu reservatório alaga uma área total de 222 km². 

Em 1974 foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Marimbondo, a segunda mais potente do rio Grande, com uma potência instalada de 1.440 MW. A Usina possui 8 grupos geradores, que operam a partir de um desnível de 60 metros, formando um lago com 438 km². A Usina está instalada na divisa dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, entre as cidades de Icém e Fronteira. 

A última grande usina hidrelétrica construída no rio Grande antes da “era” do licenciamento ambiental foi Água Vermelha, concluída em 1979. No local onde foi formado o lago, que fica a apenas 80 km da confluência com o rio Paranaíba, existia um conjunto de cachoeiras, conhecido popularmente como Cachoeira do Índio. As diversas quedas d’água tinham nomes como Tombo das Andorinhas, Caldeirão do Inferno, Tombo dos Dourados, Tombo das Três Pedras, Tombo da Fumaça e Véu das Noivas. Como aconteceu com diversas outras cachoeiras, citando novamente o Salto das Sete Quedas, todos esses saltos foram encobertos após o enchimento do lago da hidrelétrica. 

Água Vermelha têm uma potência instalada total de 1.396 MW e opera com 6 grupos geradores. A Usina opera com um desnível máximo de 57 metros e possui um lago com 647 km². O nome da Usina vem de um dos afluentes do rio Grande na região – o córrego Água Vermelha, um corpo d’água com águas barrentas. 

A Usina Hidrelétrica de Igarapava, foi inaugurada em 1998 no município homônimo, na divisa dos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Essa hidrelétrica trouxe uma importante inovação técnica ao setor – a utilização de grupos geradores do tipo bulbo, dispositivos que permitem um melhor aproveitamento de pequenos desníveis de água para a produção de energia elétrica. Essa Usina possui 5 grupos geradores com essa tecnologia, que produzem uma potência instalada total de 210 MW, formando um lago com apenas 36 km². Uma outra vantagem dessa tecnologia é uma significativa economia nas obras civis necessárias, o que reduziu os custos de construção e de montagem final dos equipamentos. 

Em 2002, o rio Grande assistiu à inauguração da Usina Hidrelétrica Funil, instalada entre os municípios de Lavras e Perdões em território mineiro. Essa Usina trabalha com um desnível máximo de 40 metros, e seus 3 grupos geradores produzem uma potência máxima de 180 MW. O lago da Usina inundou uma área de apenas 40 km². 

Finalmente, em 2012, foi inaugura a Usina Hidrelétrica de Estreito, que depois teve seu nome alterado para Luís Carlos Barreto de Carvalho. Essa Usina (vide foto) está localizada no município de Pedregulho, no Norte do Estado de São Paulo. A moderna tecnologia usada na construção dessa Usina permite que ela gere 1.050 MW a partir de um desnível de aproximadamente 62 metros e formando um lago com apenas 46 km²

Essa rápida (e maçante) descrição de tantas usinas hidrelétricas que foram construídas ao longo da calha do rio Grande, além de mostrar alguns detalhes e informações interessantes, mostram que, com o desenvolvimento da tecnologia, é possível se construir hidrelétricas cada vez mais eficientes e que necessitam de lagos cada vez menores. Citando exemplos: a Usina de Camargos, que foi inaugurada em 1960, criou um lago com 50 km² para gerar apenas 45 MW – na Usina de Estreito, praticamente a mesma área alagada resulta em uma potência instalada mais de 23 vezes maior

Essa é uma ótima tendência para o setor energético. 

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UM RIO GRANDE, OU FALANDO DO “MAR DE MINAS”

Lago de Furnas

As nascentes do rio Grande estão localizadas na Serra da Mantiqueira, a uma altitude próxima dos 2 mil metros. Quando suas águas chegam até a confluência com o rio Paranaíba, depois de percorrer cerca de 1.360 km, e se juntam para formar o rio Paraná, já estão numa altitude próxima aos 500 metros em relação ao nível do mar. É justamente essa forte declividade que proporciona uma grande energia potencial para a geração de hidroeletricidade – as águas do rio Grande movimentam as turbinas geradoras de 13 usinas hidrelétricas, que juntas respondem por 25% da capacidade instalada do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. 

A bacia hidrográfica do rio Grande ocupa uma área total de 143 mil km², englobando áreas dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais – o rio, inclusive, marca um longo trecho da divisa entre esses dois Estados. É uma região com grande produção agropecuária, especialmente de grãos e onde o uso de sistemas de irrigação vem crescendo nos últimos anos. A primeira unidade geradora de energia elétrica instalada na bacia hidrográfica do rio Grande foi a pequena Hidrelétrica Luiz Dias, uma usina a “fio d’água”, construída no rio Lourenço Velho em Itajubá em 1914, com uma potência total de 2,43 MW.

O aproveitamento energético em larga escala das águas do rio Grande começou no início da década de 1950, período em que o Brasil experimentava um forte ciclo de desenvolvimento industrial, especialmente após a instalação das empresas do setor automobilístico. A forte demanda por energia elétrica, que ameaçava levar o país a um colapso energético, resultou na construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, uma das maiores da América Latina na época. 

Até o início da década de 1950, o setor elétrico era controlado por inúmeras empresas estrangeiras como a Light & Power Company, que detinha concessões nos Estados de São Paulo e no Rio de Janeiro. Durante os anos do Governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), cujo slogan era “50 anos em 5”, o Governo Federal criou diversas empresas públicas para atuar no setor elétrico e o país iniciou uma fase de grandes investimentos na produção de energia elétrica. Entre estas empresas, destaca-se a Central Hidrelétrica Furnas, que foi criada em 1957, com o claro objetivo de estimular o desenvolvimento do Estado de Minas Gerais, terra natal do Presidente. 

As fortes corredeiras do rio Grande e seu enorme potencial hidrelétrico já estavam sendo estudados na época e duas usinas já estavam sendo construídas pela CEMIG – Centrais Elétricas de Minas Gerais, desde 1952: as hidrelétricas de Itutinga e de Peixoto. Os estudos técnicos da época demonstravam que o rio Grande poderia abrigar até 14 usinas hidrelétricas, com uma potência total estimada em 7,5 mil MW. Para efeito de comparação, a capacidade instalada em todas as usinas elétricas brasileiras na época era de apenas 3 mil MW

Os planos para a construção de uma hidrelétrica de grande porte, que teria como consequência a inundação de uma extensa área para a formação do reservatório, geraram uma enorme convulsão social por toda a região. As estimativas indicavam que cerca de 35 mil pessoas precisariam ser deslocadas em 34 municípios diferentes, o que por si só já era uma operação de extrema magnitude para os padrões da época. Também haviam os enormes custos com o pagamento das desapropriações pelas propriedades e terras férteis que seriam inundadas. O lago de Furnas inundou uma área de 1.440 km² e passou a ocupar o posto de maior corpo d’água do Estado de Minas Gerais. 

Com a conclusão das obras da barragem em 1961, foi iniciado o processo de enchimento do reservatório. Devido à forte oposição de vários grupos políticos da região, essa operação foi iniciada sem uma divulgação oficial. Com o início do enchimento do lago, muitas famílias que resistiam em abandonar suas casas e propriedades acabaram forçadas a se mudar. Em várias situações, tropas do Exército precisaram ser usadas para remover famílias a força, que resistiam à desocupação mesmo com a água invadindo as suas casas. Entre as áreas afetadas destacam-se a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra, que foram totalmente encobertas pelas águas do lago. 

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica de Furnas entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, levando a potência total para 1.216 MW. 

Um detalhe interessante do projeto da hidrelétrica de Furnas é que, com a formação e o enchimento do seu lago, uma parte da cidade de Capitólio e uma extensa planície alagável, conhecida como Pântano de Piui, seriam inundados e se criaria uma ligação com a bacia hidrográfica do rio São Francisco. Essa ligação funcionaria como uma espécie de “ladrão”, roubando águas do lago da hidrelétrica de Furnas. Para solucionar essa perda de água, foi necessária a construção de uma barragem, conhecida como Dique de Capitólio, e a construção de um canal para a transposição das águas do rio Piumhi desde a bacia hidrográfica do rio Grande para a bacia do rio São Francisco. 

O lago de Furnas ocupa uma área mais de três vezes maior que a Baía da Guanabara, com um perímetro superior a 3 mil km. Lentamente, o indesejado lago passou a “conquistar” os corações das populações e lago de Furnas foi se transformando no “mar de Minas”, uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado, apresentando águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“. 

Após a formação do grande lago de Furnas, as terras de suas margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do reservatório. Diversos municípios localizados às margens do lago assistiram a uma verdadeira revolução no seu perfil socioeconômico e passaram a lucrar substancialmente com a renda gerada pelo turismo, especialmente nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras

Uma outra atividade econômica que surgiu em função do lago de Furnas foi a piscicultura, onde os peixes são criados em cercados flutuantes. A produção de peixes em cativeiro, que já chegou a atingir a marca 1,6 mil toneladas, sofreu uma forte redução em anos recentes, quando um longo período de estiagem atingiu o rio Grande e afetou fortemente o lago de Furnas. Essa seca também afetou o turismo, o que causou grandes prejuízos em todas as cidades lindeiras ao lago. Desde 2017, quando o nível do lago começou a se recuperar, a atividade voltou a crescer e a animar os produtores de peixe do “mar de Minas” e também os setores ligados ao turismo lacustre. 

Como se vê, o rio Grande é surpreendente.

BRASÍLIA: A CIDADE QUE NASCEU SEDENTA POR ENERGIA ELÉTRICA

Cachoeira Dourada

A cidade de Brasília, Capital Federal do Brasil, foi inaugurada com muita pompa e circunstância em 21 de abril de 1960. Até então, como muitos de vocês devem lembrar das aulas de história do ensino fundamental, a cidade do Rio de Janeiro sediava a nossa Capital. Quem visita a grande e pulsante Brasília de hoje, com toda a sua grandiosidade e problemas de crescimento desordenado, terá muita dificuldade em imaginar a quantidade de problemas e desafios que foram vencidos para construir uma cidade a partir do “zero” e no meio do “nada”. 

A mudança da Capital Federal para o interior do país foi estabelecida através de um dispositivo na Constituição Republicana de 1891. Na região do Planalto Central em Goiás, foi estabelecida uma área com 14.400 km², que seria demarcada justamente para essa finalidade. Nesse mesmo ano, foi criada a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil que, sob o comando do astrônomo Luís Cruís e integrada por médicos, botânicos e geólogos, tinha a missão de fazer um levantamento completo do relevo, clima, flora e fauna da região. Essa comissão entregou um relatório ao Governo Federal em 1894, onde chamavam a futura Capital de “Vera Cruz”. 

Como parte das comemorações do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, foi proposto o lançamento da Pedra Fundamental da nova Capital. No dia 7 de setembro de 1922, uma caravana composta por quarenta pessoas e liderada pelo Engenheiro Balduíno Ernesto de Almeida, diretor da Estrada de Ferro Goiás, representaram o Governo Federal e assentaram a Pedra Fundamental no Morro do Centenário, na Serra da Independência, localizada a 9 km de Planaltina. A construção de Brasília só teria início em meados da década de 1950, no governo do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. 

Essa rápida introdução nos dá uma ideia da complexidade da história da nova Capital Federal, que começou 70 anos antes da sua inauguração em 1960. Transferir a Capital desde o maravilhoso litoral do Rio de Janeiro para os sertões do Cerrado goiano era uma ideia que não agradava muita gente, mas era um passo fundamental para forçar o povoamento do interior do Brasil. Conforme já comentamos em outras postagens, até meados do século XX, a maior parte da população do país se concentrava ao longo de uma faixa de 300 km a partir do litoral. Diversas políticas governamentais foram criadas para estimular a ocupação dos grandes vazios habitacionais dos interiores do Brasil. 

Entre todos os problemas de infraestrutura para a construção de uma grande cidade nos “confins” do país, havia o problema de prover fontes geradoras de energia elétrica. A solução técnica encontrada seria a construção de uma usina hidrelétrica no rio Paranaíba, na divisa entre os Estados de Goiás e Minas Gerais. A localidade escolhida foi Cachoeira Dourada, localizada a aproximadamente 450 km da futura cidade de Brasília. Para levar a cabo esse empreendimento, foi criada a CELG – Centrais Elétricas de Goiás em 1955. A empresa iniciou as obras da hidrelétrica em 1956. 

Cachoeira Dourada era na época um distrito do município goiano de Itumbiara, uma vila que foi formada às margens do rio Paranaíba. O nome é uma referência a uma grande cachoeira que existia na região (vide foto), que, segundo o folclore local, sob o reflexo do sol parecia ser da “cor dourada”. Outras fontes afirmam que o nome do lugar se deve à grande quantidade de dourados que haviam nas águas do rio naquele local. Sem considerar a beleza ou o folclore do lugar, o que chamou a atenção dos técnicos da CELG foi a grande força dos caudais do rio e o seu grande potencial para a geração de energia elétrica. 

Essa região foi, num passado distante, parte do território dos índios Caiapós. As notícias das primeiras ocupações por fazendas datam do início do século XIX. A formação da Vila de Cachoeira Dourada remonta a 1950, quando um fazendeiro doou cerca de 40 alqueires de terra para a construção de uma capela dedicada a Santo Antônio. A pequena vila se formou ao redor dessa igreja. 

Em 1959, durante a inauguração da Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada, o Presidente Juscelino Kubitschek disse em seu discurso que aquela era a “a usina hidrelétrica mais distante do Oceano Atlântico já construída no Brasil”. É claro que essa afirmação do Presidente não era totalmente verdadeira – já existiam inúmeras PCHs – Pequenas Centrais Hidrelétricas, em várias regiões interioranas do país. A intenção real, imagino eu, era se ressaltar que, em se tratando de uma obra daquele porte, aquela era realmente a primeira a ser concluída. 

Eu já trabalhei em obras de infraestrutura em Rondônia, na região Amazônica, a alguns anos atrás e lembro das muitas dificuldades logísticas que tínhamos para adquirir materiais de construção, transportar equipamentos desde a sede da empresa em Minas Gerais e até mesmo para contratar pessoal especializado. Houve um momento da obra em que não tínhamos cimento, um dos insumos mais básicos da construção civil – a solução que encontramos foi a de buscar cimento na Bolívia. Podemos imaginar as dificuldades de então para se transportar pessoas e materiais, inclusive equipamentos pesados, para uma cidadezinha perdida no Sul de Goiás, através de uma intrincada malha de pequenas estradas sem pavimentação. 

A barragem da hidrelétrica foi dimensionada para trabalhar com uma altura de coluna d’agua de 30 metros, o que levou a formação de um lago com aproximadamente 100 km². Lamentavelmente, o enchimento do lago da usina encobriu a famosa Cachoeira Dourada. Como sempre comentamos em nossas postagens, aqueles anos, da década de 1950 e depois dos Governos Militares, foram marcados pela ideia de um desenvolvimento rápido ou a qualquer custo – “50 anos em 5”, era o slogan do Governo Kubitschek. Também foi uma época em que não havia uma legislação ambiental que impunha a necessidade de estudos de impacto ao meio ambiente como pré-condição para a execução de uma obra desse porte. Dentro de um cenário como esse, destruir uma Cachoeira Dourada ou um Salto das Sete Quedas era uma das coisas “mais naturais do mundo”. 

A usina foi projetada de forma a acompanhar o crescimento da demanda por energia elétrica da cidade de Brasília. Numa primeira fase, concluída em 1959, a potência instalada na usina era de 32 MW. Entre 1965 e 1970, a usina entrou numa segunda etapa de obras, quando foram instalados novos grupos geradores e a potência total foi aumentada em 156 MW. Numa terceira etapa de obras na década de 1970, foram agregados novos grupos geradores de 255 MW, além de grupos de geradores menores entre 138 e 230 kW. Finalmente, já na década de 1990, a usina passou pela etapa final de obras e agregou mais 200 MW ao sistema, atingindo uma potência total de aproximadamente 650 MW

Com o crescimento descontrolado da cidade de Brasília e de todas as suas cidades satélites, que hoje já conta com uma população de quase 3 milhões de habitantes e de 4,2 milhões na sua área metropolitana, outras fontes geradoras de energia elétrica tiveram de ser incorporadas ao sistema. Mesmo assim, a Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada marcou para sempre a história da nova Capital Federal do país.