O APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DOS GASES EMITIDOS PELA DECOMPOSIÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS

Aterro Bandeirante

A humanidade percebeu, desde tempos imemoriais, que em locais onde existia alguma matéria orgânica em decomposição havia sempre a presença de certos tipos de gases – o entendimento científico do fenômeno levou alguns milhares de anos até ser totalmente compreendido; enquanto isso, muitas crendices surgiram nestes locais. Um exemplo: imagine um corpo em decomposição numa cova rasa – uma leve nuvem branca de gases se forma sobre o local, sendo mais visível à noite; essa nuvem se movimenta à menor brisa. Supersticiosos passaram a associar o fenômeno à presença de fantasmas e de almas penadas; a mitologia cresceu geração após geração e as entidades sobrenaturais passaram a ser “reais” para muita gente.

Conforme apresentado no último post, resíduos sólidos urbanos são grandes geradores de gases tóxicos em aterros e lixões aqui do Brasil, especialmente do gás metano – há uma explicação bastante simples para isso: entre 50% e 70% do volume de resíduos descartados no Brasil é de origem orgânica. Esses resíduos entram em decomposição rapidamente devido a ação de bactérias aeróbias e anaeróbias e tem início um ciclo de emissão continua de gases. Nos aterros sanitários, as valas são projetadas prevendo-se a instalação de tubulações captadoras desses gases, que direcionam as emissões na direção de torres ou chaminés onde o gás metano é queimado; esse procedimento controla satisfatoriamente o problema da emissão dos gases, mas configura um grande desperdício de energia. Nos lixões clandestinos esses gases são lançados na atmosfera sem nenhum controle.

O início do aproveitamento energético dos gases resultantes dos processos de decomposição da matéria orgânica aconteceu em Exeter, na Inglaterra, no ano de 1895, quando foi construído um biodigestor para o tratamento do lodo sanitário decantado dos esgotos da cidade – o gás metano obtido passou a ser utilizado na iluminação pública de alguns bairros. A partir dessa experiência pioneira foram desenvolvidas várias tecnologias para o aproveitamento energético mais eficiente desses gases – turbinas acopladas a geradores elétricos representam uma ótima aplicação dessas tecnologias. Para mostrar o potencial de geração de energia elétrica a partir do uso do gás metano do lixo, vamos mostrar o caso do Aterro Bandeirantes, na cidade de São Paulo.

Localizado às margens da Rodovia dos Bandeirantes logo na saída da cidade, o Aterro Bandeirantes se apresenta como imensa montanha escalonada de terra coberta por vegetação (vide foto), com uma altura que chega a 100 metros – equivalente a um edifício com mais de 30 andares. Ao longo dos 28 anos em que esteve em operação, o Aterro recebeu aproximadamente 35 mil toneladas de resíduos sólidos; em 2007, completamente saturado e sem espaço disponível, o aterro foi fechado e a cidade passou a utilizar outros aterros próximos. Mesmo desativado, um aterro desse porte vai continuar emitindo um imenso volume de gases – no caso do Aterro Bandeirantes, esse volume médio de emissões é calculado em 3.600 m³ por dia por um período que poderá chegar a quarenta anos.

Para resolver o problema, a Prefeitura da Cidade de São Paulo assinou em 2004 um contrato com uma empresa privada, cedendo a exploração comercial dos gases. A empresa assumiu o compromisso de instalar e operar uma usina termoelétrica de geração de eletricidade a partir da queima do gás metano gerado no aterro.

O gás metano impuro e particulado de 400 poços de exaustão instalados no Aterro de 140 hectares é captado por uma rede de tubulações com mais de 60 quilômetros de extensão. O gás é encaminhado para tratamento, onde é resfriado, filtrado, reaquecido e pressurizado para a queima como combustível em 24 geradores elétricos a gás, com uma capacidade nominal para produzir 170 mil MW/h de eletricidade por mês, energia suficiente para abastecer uma cidade de 400 mil habitantes. A energia produzida pela Usina é direcionada para a uma subestação de energia elétrica da concessionária de eletricidade local, que faz a distribuição na sua rede elétrica. A empresa fez investimentos de R$ 45 milhões na implantação da Usina, investimento recuperado no ano de 2015.

A Usina Termoelétrica utiliza o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) e contabilizou e certificou já em 2007 mais de 1.200.000 toneladas de créditos de carbono. Metade dos créditos recebidos foi repassado à Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, para investimentos no Fundo Municipal de Meio Ambiente. O Projeto recebeu o Prêmio Valor Social em 2006, com o primeiro lugar pelos júris popular e de especialistas na categoria Respeito ao Meio Ambiente.

Ganhou a cidade, a empresa e, especialmente, o meio ambiente.

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One Comment

  1. […] – A vala será preenchida sistematicamente por camadas de resíduos sólidos. Esse trabalho de preenchimento será acompanhado pela instalação de tubulações destinadas à captação dos gases gerados pela decomposição dos esgotos como o metano, o dióxido de carbono e o sulfeto de hidrogênio, que são prejudiciais ao meio ambiente e à saúde das pessoas. Esses gases serão encaminhados para queima em torres ou poderão alimentar turbinas a gás que geram eletricidade; […]

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