AS PEQUENAS UNIDADES GERADORAS DE ELETRICIDADE DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO GRANDE

CGH Luiz Dias

Nas duas últimas postagens falamos da construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, uma das maiores do mundo na sua época, e da potência instalada das demais usinas que foram construídas ao longo da calha do rio Grande. Ao todo, as águas do rio Grande movimentam as turbinas de 13 usinas hidrelétricas, gerando uma potência total superior a 7,6 mil MW, o que corresponde a cerca de 67% de toda a energia elétrica gerada no Estado de Minas Gerais

Essas usinas, porém, não esgotam o aproveitamento do potencial hidrelétrico da bacia hidrográfica do rio Grande – existem diversas pequenas unidades geradores de energia elétrica operando em diversos rios da bacia. Essas unidades são as PCHs – Pequenas Centrais Hidrelétricas e as CGHs – Centrais Geradoras Hidrelétricas. 

De acordo com a classificação feita em 1997 pela ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, as Pequenas Centrais Hidrelétricas são empreendimentos com potência entre 5 e 30 MW e que formam reservatórios com área menor do que 13 km². De acordo com informações da ABRAPCH – Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas, existem 428 PCHs em operação no Brasil, 27 unidades em construção e 127 com obras paradas. Juntas, as PCHs em operação possuem uma potência instalada de 5 mil MW e respondem por 3,5% de toda a capacidade instalada no Sistema Interligado Nacional. O potencial para a geração de energia elétrica através de PCHs é estimado em 14 mil MW, o que equivale à potência da Usina Hidrelétrica de Itaipu

As Centrais Geradoras Hidrelétricas, de acordo com a classificação da ANEEL, são unidades menores em tamanho e com uma potência instalada entre 0 e 5 MW. Existem cerca de 683 CGHs em operação no Brasil, que juntas tem uma potência instalada de 0,66 MW, o que equivale a aproximadamente 0,2% do total da matriz energética brasileira

A bacia hidrográfica do rio Grande possui várias dessas pequenas unidades geradoras, que apesar de parecerem irrelevantes diante das grandes usinas hidrelétricas dos dias atuais, foram de uma importância regional ímpar em tempos passados: 

CGH Luiz Dias (vide foto), no rio Lourenço Velho, com 2 grupos geradores e com uma potência instalada de 1,62 MW. Construída em 1914; 

CGH Xicão, no rio Santa Cruz, com 2 grupos geradores e com uma potência instalada de 1,8 MW. Construída em 1941; 

PCH São Bernardo, no rio São Bernardo, com 3 grupos geradores e com uma potência instalada de 6,8 MW. Construída em 1948;

CGH Jacutinga, no rio Mogi-Guaçu, com 1 grupo gerador e com uma potência instalada de 0,72 MW. Construída em 1948; 

PCH Poço Fundo, no rio Poço Fundo, com 3 grupos geradores e com uma potência instalada de 9,16 MW. Construída em 1949; 

CGH de Anil, no rio Jacaré, com 2 grupos geradores e com uma potência instalada de 2 MW. Construída em 1964.

A exploração do potencial hidrelétrico da bacia hidrográfica do rio Grande fica ainda maior quando se incluem as unidades geradoras instaladas em grandes afluentes como o rio Pardo, que trataremos em outra postagem. Na calha desse rio foram construídas 3 Usinas Hidrelétricas de médio Porte – Euclides da Cunha, Limoeiro e Caconde, além de mais 5 pequenas unidades geradoras instaladas nos seus afluentes. 

Até meados do século XX, época em que a maior parte das empresas geradoras de energia elétrica estavam ligadas ao setor privado, as pequenas unidades geradoras eram uma opção importante para o abastecimento de pequenas e médias cidades em regiões interioranas. A partir da década de 1950, quando o Governo Federal passou a criar as grandes empresas estatais do setor elétrico e a prioridade do país passou a ser a construção de grandes usinas hidrelétricas, as Pequenas Centrais Hidrelétricas e as Centrais Geradoras Hidrelétricas do país foram lançadas em uma espécie de limbo. 

As pequenas unidades geradoras de energia elétrica voltaram a ganhar uma importância significativa a partir de 1997, quando foi extinto o monopólio do Estado no setor elétrico. Desde então, centenas de empresas passaram a realizar estudos e investimentos no setor de geração elétrica. Calcula-se que um total de R$ 1 bilhão já foram investidos no projeto e licenciamento de cerca de 1.000 empreendimentos. O total de empreendimentos já protocolados na ANEEL superam a casa dos 9 mil MW, dos quais cerca de 7 mil MW ainda estão aguardando a análise e a aprovação do órgão regulador

Uma das principais características desses empreendimentos é o baixo impacto ambiental, o que simplifica e facilita o processo de licenciamento para a construção e operação dessas unidades. Aqui se destacam as unidades a “fio d’água”, onde a energia utilizada para mover os grupos geradores é retirada da força da correnteza dos rios. Muitos dos projetos necessitam apenas de um desvio de parte dos caudais do rio; em outros casos, é feito o represamento e a formação de pequenos lagos. Os impactos ambientais provocados são pequenos, não comprometendo os demais usos das águas para irrigação, piscicultura, lazer e abastecimento de cidades e populações. 

Além do importante baixo impacto ambiental, as pequenas unidades geradoras de energia elétrica combinam custos relativamente baixos para sua implantação, o que pode resultar em custos mais baixos nas contas de energia elétrica dos consumidores, à geração de empregos na região, e, principalmente, no estabelecimento de metas rigorosas de recuperação de áreas degradadas e de conservação das áreas naturais nas áreas de influência dos empreendimentos por parte das empresas. Outra característica importante desses empreendimentos é o baixo impacto sobre as populações – como as áreas dos reservatórios são muito pequenas, a necessidade de deslocamento de populações e de desapropriação de imóveis e propriedades é muito menor. Isso reduz muito os embates sociais e os custos para implantação dessas unidades. 

Por força de lei e dos contratos de concessão, as empresas responsáveis pela operação dessas pequenas unidades geradoras de energia elétrica assumem a responsabilidade pela “guarda” das áreas de impacto direto de seus reservatórios e das unidades de geração. Essa fiscalização intensa coíbe o despejo de resíduos nas águas, o desmatamento ilegal, o plantio irregular e a remoção de matas ciliares, além de processos de erosão e assoreamento das calhas. As empresas também assumem responsabilidades na recuperação de áreas degradadas e na recomposição de matas ciliares e de matas nativas. Todos esses impactos positivos costumam superar, e com muita folga, os impactos negativos gerados por esses empreendimentos. 

Com dificuldades cada vez maiores para o licenciamento de grandes empreendimentos de geração de energia elétrica, a construção e a operação de pequenas unidades geradoras em pequenos rios se transformaram em ótimas opções para aumentar a capacidade geradora do país. Melhor ainda, se incluirmos nessa conta outras fontes renováveis como a energia fotovoltaica, eólica e a geração a partir do biogás gerado nos lixões e esgotos.

Novos tempos!

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