BRASÍLIA: A CIDADE QUE NASCEU SEDENTA POR ENERGIA ELÉTRICA

Cachoeira Dourada

A cidade de Brasília, Capital Federal do Brasil, foi inaugurada com muita pompa e circunstância em 21 de abril de 1960. Até então, como muitos de vocês devem lembrar das aulas de história do ensino fundamental, a cidade do Rio de Janeiro sediava a nossa Capital. Quem visita a grande e pulsante Brasília de hoje, com toda a sua grandiosidade e problemas de crescimento desordenado, terá muita dificuldade em imaginar a quantidade de problemas e desafios que foram vencidos para construir uma cidade a partir do “zero” e no meio do “nada”. 

A mudança da Capital Federal para o interior do país foi estabelecida através de um dispositivo na Constituição Republicana de 1891. Na região do Planalto Central em Goiás, foi estabelecida uma área com 14.400 km², que seria demarcada justamente para essa finalidade. Nesse mesmo ano, foi criada a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil que, sob o comando do astrônomo Luís Cruís e integrada por médicos, botânicos e geólogos, tinha a missão de fazer um levantamento completo do relevo, clima, flora e fauna da região. Essa comissão entregou um relatório ao Governo Federal em 1894, onde chamavam a futura Capital de “Vera Cruz”. 

Como parte das comemorações do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, foi proposto o lançamento da Pedra Fundamental da nova Capital. No dia 7 de setembro de 1922, uma caravana composta por quarenta pessoas e liderada pelo Engenheiro Balduíno Ernesto de Almeida, diretor da Estrada de Ferro Goiás, representaram o Governo Federal e assentaram a Pedra Fundamental no Morro do Centenário, na Serra da Independência, localizada a 9 km de Planaltina. A construção de Brasília só teria início em meados da década de 1950, no governo do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. 

Essa rápida introdução nos dá uma ideia da complexidade da história da nova Capital Federal, que começou 70 anos antes da sua inauguração em 1960. Transferir a Capital desde o maravilhoso litoral do Rio de Janeiro para os sertões do Cerrado goiano era uma ideia que não agradava muita gente, mas era um passo fundamental para forçar o povoamento do interior do Brasil. Conforme já comentamos em outras postagens, até meados do século XX, a maior parte da população do país se concentrava ao longo de uma faixa de 300 km a partir do litoral. Diversas políticas governamentais foram criadas para estimular a ocupação dos grandes vazios habitacionais dos interiores do Brasil. 

Entre todos os problemas de infraestrutura para a construção de uma grande cidade nos “confins” do país, havia o problema de prover fontes geradoras de energia elétrica. A solução técnica encontrada seria a construção de uma usina hidrelétrica no rio Paranaíba, na divisa entre os Estados de Goiás e Minas Gerais. A localidade escolhida foi Cachoeira Dourada, localizada a aproximadamente 450 km da futura cidade de Brasília. Para levar a cabo esse empreendimento, foi criada a CELG – Centrais Elétricas de Goiás em 1955. A empresa iniciou as obras da hidrelétrica em 1956. 

Cachoeira Dourada era na época um distrito do município goiano de Itumbiara, uma vila que foi formada às margens do rio Paranaíba. O nome é uma referência a uma grande cachoeira que existia na região (vide foto), que, segundo o folclore local, sob o reflexo do sol parecia ser da “cor dourada”. Outras fontes afirmam que o nome do lugar se deve à grande quantidade de dourados que haviam nas águas do rio naquele local. Sem considerar a beleza ou o folclore do lugar, o que chamou a atenção dos técnicos da CELG foi a grande força dos caudais do rio e o seu grande potencial para a geração de energia elétrica. 

Essa região foi, num passado distante, parte do território dos índios Caiapós. As notícias das primeiras ocupações por fazendas datam do início do século XIX. A formação da Vila de Cachoeira Dourada remonta a 1950, quando um fazendeiro doou cerca de 40 alqueires de terra para a construção de uma capela dedicada a Santo Antônio. A pequena vila se formou ao redor dessa igreja. 

Em 1959, durante a inauguração da Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada, o Presidente Juscelino Kubitschek disse em seu discurso que aquela era a “a usina hidrelétrica mais distante do Oceano Atlântico já construída no Brasil”. É claro que essa afirmação do Presidente não era totalmente verdadeira – já existiam inúmeras PCHs – Pequenas Centrais Hidrelétricas, em várias regiões interioranas do país. A intenção real, imagino eu, era se ressaltar que, em se tratando de uma obra daquele porte, aquela era realmente a primeira a ser concluída. 

Eu já trabalhei em obras de infraestrutura em Rondônia, na região Amazônica, a alguns anos atrás e lembro das muitas dificuldades logísticas que tínhamos para adquirir materiais de construção, transportar equipamentos desde a sede da empresa em Minas Gerais e até mesmo para contratar pessoal especializado. Houve um momento da obra em que não tínhamos cimento, um dos insumos mais básicos da construção civil – a solução que encontramos foi a de buscar cimento na Bolívia. Podemos imaginar as dificuldades de então para se transportar pessoas e materiais, inclusive equipamentos pesados, para uma cidadezinha perdida no Sul de Goiás, através de uma intrincada malha de pequenas estradas sem pavimentação. 

A barragem da hidrelétrica foi dimensionada para trabalhar com uma altura de coluna d’agua de 30 metros, o que levou a formação de um lago com aproximadamente 100 km². Lamentavelmente, o enchimento do lago da usina encobriu a famosa Cachoeira Dourada. Como sempre comentamos em nossas postagens, aqueles anos, da década de 1950 e depois dos Governos Militares, foram marcados pela ideia de um desenvolvimento rápido ou a qualquer custo – “50 anos em 5”, era o slogan do Governo Kubitschek. Também foi uma época em que não havia uma legislação ambiental que impunha a necessidade de estudos de impacto ao meio ambiente como pré-condição para a execução de uma obra desse porte. Dentro de um cenário como esse, destruir uma Cachoeira Dourada ou um Salto das Sete Quedas era uma das coisas “mais naturais do mundo”. 

A usina foi projetada de forma a acompanhar o crescimento da demanda por energia elétrica da cidade de Brasília. Numa primeira fase, concluída em 1959, a potência instalada na usina era de 32 MW. Entre 1965 e 1970, a usina entrou numa segunda etapa de obras, quando foram instalados novos grupos geradores e a potência total foi aumentada em 156 MW. Numa terceira etapa de obras na década de 1970, foram agregados novos grupos geradores de 255 MW, além de grupos de geradores menores entre 138 e 230 kW. Finalmente, já na década de 1990, a usina passou pela etapa final de obras e agregou mais 200 MW ao sistema, atingindo uma potência total de aproximadamente 650 MW

Com o crescimento descontrolado da cidade de Brasília e de todas as suas cidades satélites, que hoje já conta com uma população de quase 3 milhões de habitantes e de 4,2 milhões na sua área metropolitana, outras fontes geradoras de energia elétrica tiveram de ser incorporadas ao sistema. Mesmo assim, a Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada marcou para sempre a história da nova Capital Federal do país.

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