OS CAMINHOS RUMO AOS SERTÕES, OU A BUSCA PELO OURO

Monumento às Bandeiras

Em postagem anterior, falamos rapidamente sobre o início da colonização do lado espanhol da bacia hidrográfica do rio Paraná. O Tratado de Tordesillas, assinado entre Portugal e Espanha em 1494, estabeleceu uma linha imaginária que dividia os territórios das Américas entre os dois reinos. O Meridiano de Tordesillas, para que você tenha uma noção geográfica de sua posição, atravessava o território brasileiro de Norte a Sul. Como pontos de referência aproximados, temos a cidade de Belém do Pará ao Norte e Florianópolis ao Sul.  

Se o Tratado de Tordesillas tivesse sido respeitado, o território brasileiro ficaria restrito a aproximadamente 30% de sua área atual. Ele seria formado por toda a Região Nordeste; a maior parte da Região Sudeste, onde o Estado de Minas Gerais perderia a Região do Triângulo Mineiro e São Paulo perderia a sua região Oeste; a região Sul seria representada apenas por uma pequena faixa no Leste, abrangendo o Paraná e Santa Catarina; trechos dos Estado do Pará, do Tocantins e de Goiás também fariam parte do nosso território – todo o restante faria parte dos territórios da Espanha. O movimento conhecido como Monções, expedições fluviais organizadas por bandeirantes e sertanistas paulistas rumo aos sertões da Região Centro-Oeste, foram fundamentais para a expansão do território do Brasil e ocupação de áreas que, de acordo com o Tratado de Tordesillas, pertenceriam à Espanha. 

Conforme comentamos em uma postagem anterior, a cultura da cana e a produção do valioso açúcar nas Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro não atenderam às expectativas do Governo de Portugal. A pequena área de cultivo, limitada pela Serra do Mar, e os constantes ataques de piratas, que saqueavam e queimavam os engenhos, levaram os chamados “paulistas” a desistir da cultura e a se dedicar a outras iniciativas. Instalados no Planalto de Piratininga, os paulistas se especializaram na produção de alguns gêneros alimentícios, que eram “exportados para outras capitanias – um típico produto “paulistano” da época era uma marmelada embalada em uma caixa de madeira. Também se dedicavam a caça dos “negros da terra”, nome dado aos indígenas, que eram mercadorias com alta demanda nos engenhos da Região Nordeste. Durante essas expedições de “caça”, os bandeirantes também realizavam pesquisas minerais para identificação de jazidas de metais e pedras preciosas. 

Durante décadas, os bandeirantes paulistas vasculharam os sertões dos atuais Estados de Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Algumas expedições, como a bandeira de Manoel Dias da Silva, entraram nos territórios da Argentina e do Paraguai. Outras penetraram em regiões distantes do Nordeste como a de Domingos Jorge Velho ao Piauí e a de Francisco Dias de Siqueira ao Maranhão. Essas expedições capturaram e venderam milhares de “negros da terra”, mas ouro e pedras preciosas, praticamente nada. Foi somente em 1693, após intensas buscas iniciadas anos antes por uma das expedições do lendário bandeirante Fernão Dias Paes, que se encontrou jazidas com quantidades expressivas de ouro na Serra do Sabarabuçu, em Minas Gerais

Há uma ironia histórica aqui – os esforçados bandeirantes paulistas acharam o ouro, mas não levaram: a notícia da descoberta de reservas auríferas na região, que passou a ser chamada de Minas Geraes ou simplesmente de Geraes, correu a Colônia como um “rastilho de pólvora” e causou uma verdadeira corrida do ouro. Sem nos atermos a muitos detalhes, fique você sabendo que, em poucas décadas, uma população de cerca de 300 mil pessoas, de acordo com dados do antropólogo Darci Ribeiro, abandonou as áreas de cultivo de cana de açúcar na Região Nordeste e se embrenhou nos sertões das Geraes em busca do cobiçado ouro. Esse volume de gente pode não parecer muito hoje em dia, mas na época, quando a população do país era muito pequena, foi suficiente para comprometer irremediavelmente a indústria açucareira do Nordeste brasileiro. Tendo perdido seu espaço na mineração do ouro nas Minas Geraes, os paulistas foram forçados a reorientar seus esforços na direção dos sertões da Região Centro-Oeste. É a partir daqui que a navegação pelos rios Tietê e Paraná passa a ganhar importância. 

Expedições paulistas encontraram reservas de ouro na região de Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, em 1719 e na região do Rio Vermelho, no Estado de Goiás, em 1725. Para cobrir as longas distâncias entre a Vila de São Paulo de Piratininga e as áreas de mineração, que no caso de Cuiabá podiam chegar a 3.500 km, a estratégia de avanço dos exploradores passou a envolver a navegação fluvial, que além do transporte de pessoal, envolvia cargas com víveres e equipamentos destinados a implantação de postos de apoio ao longo do trajeto. Fazendas e vilas, com populações fixas que se dedicavam à produção de alimentos e a prestação de serviços como carpintaria e ferraria, passaram a ser criadas com o objetivo de prestar apoio logistico para as flotilhas de monçoeiros. Esses núcleos populacionais deram origem às primeiras cidades dos sertões do Brasil Central e Oeste. 

Devido aos vários problemas de navegação no rio Tietê, que incluíam corredeiras e quedas d’água, a expedições monçoeiras partiam do porto de Araritaguaba, na região de Porto Feliz, distante cerca de 110 km da Vila de São Paulo de Piratininga. As pesadas e resistentes canoas monçoeiras desciam inicialmente o rio Tietê, chamado na época de Anhembi, enfrentando difíceis condições de navegação e inúmeros obstáculos como o temido Salto do Avanhandava.  

Após chegar ao rio Grande, nome que era dado na época ao rio Paraná, os monçoeiros podiam seguir por rotas diferentes, especialmente na direção das minas de ouro de Cuiabá. Em uma dessas rotas, se seguia pelo rio Grande na direção dos rios Anhanduí e Pardo, até se atingir a região conhecida como Campos de Vacarias. As expedições seguiam a pé até atingir o rio Emboteteu, conhecido hoje como rio Miranda, depois o rio Paraguai e, por fim, o rio Cuiabá. Outra rota importante seguia pelos rios Grande, Pardo e Sanguessuga, seguindo por terra pelo Varadouro de Camapuã e depois pelo riacho Camapuã e pelos rios Coxim, Taquari, Paraguai, Porrudos (conhecido atualmente como rio São Lourenço) e, finalmente, o rio Cuiabá. Subindo os rios Paraná e Paranaíba, as expedições atingiam o Estado de Goiás; porém, a maioria das expedições para essa região seguia por rotas pelo Noroeste do Estado de São Paulo e Triângulo Mineiro. 

Para encerrar, apresento um trecho de um relatório que nos foi legado por um sertanista do início do século XVIII, retirado do livro “Monções”, de Sérgio Buarque de Holanda. O relato nos dá uma visão nítida do alto custo financeiro e em vidas humanas destas expedições: 

“Eu saí de Sorocaba com quatorze negros e três canoas, perdi duas no caminho e cheguei com uma e com setecentas oitavas de empréstimo e gastos de mantimento que comprei pelo caminho: dos negros vendi seis meus, que tinha comprado fiado em Sorocaba, quatro de uns oito que tinha dado ao meu tio e todos dez que me ficaram, morreram três, e só me ficou um único e o mesmo sucedeu a todos os que foram ao Cuiabá. Enfim, de vinte e três canoas que saímos de Sorocaba, chegamos só quatorze ao Cuiabá; as nove perderam-se e o mesmo sucedeu às mais tropas e sucede cada ano nesta viagem.” 

A imagem que ilustra esta postagem, o Monumento às Bandeiras, obra do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret (1894-1955), localizado em frente ao Parque do Ibirapuera na Cidade de São Paulo, é uma justa homenagem aos esforços das várias gerações de bandeirantes e sertanistas que abriram os caminhos dos sertões brasileiros. Detalhe: os personagens da escultura arrastam uma típica canoa monçoeira.

Continuamos na próxima postagem. 

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