A BELEZA DESLUMBRANTE DA SERRA GERAL E DOS APARADOS DA SERRA NO SUL DO BRASIL

Itaimbezinho

Na nossa última postagem falamos das Cuestas Basálticas, localizadas na região Central do Estado de São Paulo. Essas formações geológicas foram criadas a partir da erosão dos solos de origem vulcânica que encobriram grossas camadas de rochas sedimentares como os arenitos. Esses solos surgiram após um intenso processo de vulcanismo iniciado há cerca de 165 milhões de anos atrás com a fragmentação do Supercontinente de Gondwana. As erupções vulcânicas lançaram gigantescos volumes de lava – esse derrame de material magmático cobriu uma área de 1,2 milhão de km² na Região Centro-Sul do Brasil e em áreas do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. 

Além das Cuestas Basálticas de São Paulo, esse grande derrame de rochas vulcânicas deixou suas marcas na geologia e nas paisagens de toda essa extensa região. O Aquífero Guarani, um dos maiores depósitos subterrâneos de água do mundo – ele surgiu a partir do soterramento de extensas áreas de dunas de areia por uma espessa camada de rochas vulcânicas. Nas paisagens podemos citar as formações do Parque Nacional de Vila Velha, nas proximidades da cidade de Ponta Grossa no Paraná; as Cataratas do Rio Iguaçu, na fronteira entre a Argentina e o Brasil, ou ainda a Serra Geral e os Aparados da Serra, na divisa entre os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, temas de nossa postagem de hoje. 

Os solos da Formação Serra Geral e dos Aparados têm uma constituição química diferente das Cuestas Basálticas, o que explica em parte as diferenças nas feições desses relevos. Os derramamentos de lava na porção Centro-Norte dessa grande formação magmática deram origem a rochas vulcânicas básicas e ácidas como os basaltos e basalto-andresitos, com maiores concentrações de fósforo, potássio e titânio. Na porção Sul dessa formação magmática, especialmente na região entre o Sul de Santa Catarina e o Norte do Rio Grande do Sul, esses derrames deram origem a rochas bimodais como o basalto-riolito, mais pobres nesses elementos químicos, porém, mais resistentes à processos erosivos. Os canyons ou desfiladeiros da região Sul se formaram a partir de fraturas que o solo sofreu durante a movimentação das placas tectônicas, enquanto as Cuestas se formaram a partir da erosão dos solos.

As paisagens formadas a partir dos derramamentos de rochas vulcânicas na Região Sul do Brasil apresentam feições típicas da formação Serra Geral, com relevos acentuados de planalto com topo plano, que terminam abruptamente em abismos, os chamados canyons (ou canhões, usando a palavra correspondente na língua portuguesa). O mais famoso de todos os canyons da região é o Itaimbezinho (vide foto), nome que vem do tupi-guarani e significa “pedra cortada”. Localizado no Parque Nacional dos Aparados da Serra, esse canyon tem 5.800 metros de extensão e uma largura que varia de 600 a 2 mil metros, com paredes que chegam a atingir uma altura de 750 metros.

No Parque Nacional da Serra Geral, que fica ao lado dos Aparados da Serra, encontram-se formações geológicas semelhantes, com destaque para os canyons ou desfiladeiros do Churriado, o Malacara e o Fortaleza. Esses dois Parques, que se distribuem entre os municípios de Jacinto Machado e Praia Grande, em Santa Catarina, e Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul, constituem um dos maiores destinos turísticos da Região Sul do Brasil. 

De acordo com dados do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, autarquia federal responsável pela gestão da unidade, o Parque Nacional dos Aparados da Serra recebeu 111.778 visitantes em 2017, o que o coloca como o 9° parque mais visitado do Brasil. Já o Parque Nacional da Serra Geral recebe, em média, 90 mil visitantes por ano. Apesar de muito distante dos números dos mais famosos destinos turísticos do Brasil, como o Corcovado e a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro e de Foz do Iguaçu, no Paraná, esses números são surpreendentes dada a falta generalizada de infraestrutura na região e nos parques – quem visita os canyons é mesmo um amante da natureza e do turismo de aventura.

Uma das características mais marcantes desses parques é a variação abrupta das formações vegetais. Nos terrenos altos dos platôs, com altitudes médias acima dos 700 metros em relação ao nível do mar, encontramos biomas com características da Mata das Araucárias e dos Campos Sulinos ou Pampas, típicas do clima Subtropical; já nos vales profundos dos canyons, que se situam em altitudes bem próximas do nível do mar, encontramos vegetação de Mata Atlântica, características das áreas de clima Tropical do país. Toda essa variedade de biomas, concentrados em uma área relativamente pequena resulta em uma imensa diversidade de vida animal, abrigando espécies como o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), lobos-guará (Chrysocyn brachyurus), jaguatiricas (Leopardus pardalis), guaxinin (Rocyon lotor) e até mesmo onças-pardas ou suçuaranas (Felis concolor), conhecidas no Sul do Brasil como leão-baio. 

A região da Serra Geral e dos Aparados da Serra se destaca também pela grande riqueza de recursos hídricos. As nascentes da região alimentam três bacias hidrográficas principais: a Taquari-Antas, que segue para o Sul na direção do Lago Guaíba e da Lagoa dos Patos; a bacia hidrográfica do Mampituba, que corre na direção do litoral do Rio Grande do Sul e inclui os rios localizados no fundo dos canyons; e também a bacia hidrográfica do Araranguá, que corre no Sentido Norte dentro do Estado de Santa Catarina.  

A conservação desses importantes recursos hídricos, por si só, já justifica qualquer esforço para a preservação ambiental dessa belíssima região de serras e águas no Sul do Brasil. 

One Comment

  1. […] A primeira grande usina hidrelétrica brasileira a ser inaugurada no rio Uruguai foi Itá, entre os municípios de Itá, no Estado de Santa Catarina, e Aratiba, no Rio Grande do Sul. Inaugurada no ano 2000, a usina foi construída em uma região de relevo acidentado, aproveitando um desnível natural de 105 metros entre a foz dos rios Apuaê e Uvá, com uma capacidade instalada de 1.450 MW. A região de Itá apresenta fortes dobramentos, resultados de uma sequência de derrames de basalto, conhecidos como Derrame de Trapp, que foram os responsáveis pela formação geológica da Serra Geral.  […]

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