UMA BREVE HISTÓRIA DOS PRIMÓRDIOS DA GERAÇÃO HIDRELÉTRICA NO BRASIL

Thomas Edison

Acredite ou não, o Brasil figura na lista dos países pioneiros no uso de diversas tecnologias criadas ao longo do século XIX, incluindo-se na lista os sistemas de telégrafos, telefones e energia elétrica. Por trás de todas essas inovações, encontramos a figura do nosso segundo Imperador – Dom Pedro II, um entusiasta das ciências e das novas tecnologias. 

O primeiro serviço permanente com uso da energia elétrica para iluminação pública foi inaugurado em 1879, numa Estação da Estrada de Ferro Dom Pedro II (atual Estrada de Ferro Central do Brasil), na cidade do Rio de Janeiro. A iniciativa, que tinha por detrás o próprio Thomas Alva Edison (vide foto), empresário e inventor que patenteou a lâmpada elétrica nesse mesmo ano, contou com a instalação de 6 lâmpadas de arco voltaico em substituição à 46 bicos de gás. A eletricidade usada no sistema era fornecida por 2 dínamos acionados por um sistema termelétrico à vapor. Em 1881, foram instaladas mais 16 lâmpadas elétricas no Campo da Aclimação, atual Praça da República, também no centro da cidade do Rio de Janeiro. 

Em 1883, apenas 4 anos depois dessa iniciativa tecnológica pioneira, a cidade de Campos de Goytacazes, no Norte fluminense, se tornou a primeira cidade do Brasil a inaugurar um sistema de iluminação pública com lâmpadas elétricas. O acionamento do gerador termelétrico à vapor, dotado de 3 três dínamos com potência de 52 kW, foi feito pelo próprio Dom Pedro II. O sistema era dotado de 39 lâmpadas elétricas com potência unitária de “duas mil velas”. Como sempre acontece com novas tecnologias, esses equipamentos eram muito caros na época, o que justifica a pequena quantidade de lâmpadas usadas em todas essas instalações. 

Foi nesse mesmo ano, 1883, que começou a operar a “primeira usina hidrelétrica do Brasil”, na cidade de Diamantina – Minas Gerais. O empreendimento fazia parte das instalações de uma mina de diamantes, que passou a usar a eletricidade para acionar um sistema de bombas d’água usadas no desmonte de paredões rochosos. O sistema gerador era formado por dois dínamos do tipo Gramme, com potência de 4 e 8 HP. Esse grupo gerador era acionado pelas águas do Ribeirão do Inferno (vide foto), que tinha parte de suas águas desviadas por um conjunto de tubulações a partir de um desnível de 5 metros. A unidade contava ainda com uma “linha de transmissão” com uma extensão total de 2 km e que era considerada na época como a “mais extensa do mundo”. Essa pequena Central Geradora Hidrelétrica, depois foi incorporada pela CEMIG – Centrais Elétricas de Minas Gerais (que depois teve seu nome mudado para Companhia energética de Minas Gerais) e acabou desativada há alguns anos atrás. 

O Ribeirão do Inferno é um pequeno corpo d’água que nasce na Serra do Dumbá, na divisa entre os municípios de Diamantina e Datas, como resultado da junção das águas de diversas nascentes, entre elas o Córrego de Canudos. O Ribeirão do Inferno recebeu esse nome por causa das fortes enchentes dos períodos de chuva e das dificuldades enfrentadas pela população local para atravessá-lo, algo que lembra muito os ribeirões e córregos (“córgos” na fala popular de nós paulistanos), que encontramos nas grandes e médias cidades brasileiras. Salta aos olhos a importância histórica e econômica desse pequeno corpo d’água, o que só reforça o valor e a necessidade de conservação desses pequenos rios. 

Em 1885, foi a vez da Companhia Fiação e Tecidos São Silvestre, da cidade de Viçosa, também no Estado de Minas Gerais, construir uma pequena Central Geradora Hidrelétrica e passar a utilizar motores elétricos em suas linhas de produção. Uma outra indústria têxtil, a Sociedade de Fiação e Tecidos Cachoeira dos Macacos, instalada em Inhaúma, um distrito de Sete Lagoas, construiu e passou a operar a sua própria geradora de energia elétrica em 1887 – a Hidrelétrica Cachoeira dos Macacos. Segundo os dados históricos da empresa, a eletricidade gerada alimentava cerca de 100 teares.  

Finalmente, conforme apresentamos em postagem anterior, em 1889 foi inaugurada a primeira geradora de energia elétrica comercial do Brasil – a Usina Hidrelétrica de Marmelos, em Juiz de Fora, Zona da Mata Mineira. Esse empreendimento foi uma iniciativa do empresário do setor têxtil Bernardo Mascarenhas. A inciativa, porém, extrapolou o uso industrial – o empresário conseguiu a concessão do serviço de iluminação pública da cidade de Juiz de Fora, que passou a usar lâmpadas elétricas alimentadas com a eletricidade gerada em Marmelos. A partir daí, a construção de usinas hidrelétricas e o uso da eletricidade não parou mais de crescer no Brasil. 

O que chama a atenção nesse breve relato é a proximidade das aplicações da energia elétrica no Brasil em relação aos países mais avançados da época no mundo. Os fenômenos elétricos e a eletricidade vinham sendo intensamente estudados desde o século XVIII pelos mais importantes cientistas e pesquisadores da época. Porém, foi a partir da invenção do dínamo, equipamento que permite a geração de eletricidade a partir de fontes de energia mecânica, pelo engenheiro alemão Werner Siemens em 1867, que o uso da eletricidade passou a ser viável tecnicamente.  

Essa invenção abriu o caminho para toda uma série de inovações tecnológicas: motores elétricos e toda uma gama de novas máquinas e equipamentos alimentados por energia elétrica, geradores, transformadores, sistemas e linhas de transmissão, sistemas de iluminação com lâmpadas elétricas entre outras. Chama a atenção também o pioneirismo de cidades interioranas, especialmente do Estado de Minas Gerais, na construção e utilização da energia elétrica. 

Nessa corrida pela criação de sistemas geradores de energia elétrica, diversas cidades realizaram experimentos com centrais termelétricas movidas a carvão, onde citamos como exemplos as cidades do Rio de Janeiro e de Curitiba. O Brasil é pobre em fontes de carvão mineral, com reservas encontradas apenas nos Estados da Região Sul. Além da baixa disponibilidade na época, esse carvão nacional era considerado de baixa qualidade e com baixo poder de queima. Esses empreendimentos pioneiros dependiam do uso do caro e nem sempre disponível carvão mineral importado. As dificuldades de importação e os altos custos inviabilizaram esses empreendimentos. 

Entretanto, foi graças ao grande potencial hidrelétrico dos inúmeros rios brasileiros que os sistemas de geração, distribuição e uso da energia elétrica nas principais regiões do Brasil cresceram exponencialmente ao longo dos últimos 130 anos. Atualmente, 82% de toda a energia elétrica utilizada no Brasil vem de fontes renováveis, onde a geração hidrelétrica responde por cerca de 65% da geração dessa energia

Qualquer tipo de intervenção em corpos d’água com vistas à implantação de sistemas geradores de energia elétrica, desde as pequenas Centrais Geradoras Hidrelétricas até usinas hidrelétricas do porte de Itaipu, causam importantes impactos ao meio ambiente. Não há como se fugir dessa realidade. As fontes hidráulicas, entretanto, causam impactos bem menores que fontes termelétricas, citando um único exemplo, e ainda tem a vantagem de usar uma fonte de energia renovável – a força das águas. 

O que se faz cada vez mais necessário é aprimoramento dos mecanismos de gestão desses impactos ambientais e o desenvolvimento de novas tecnologias que permitam compensar e/ou amenizar ao máximo os problemas criados aos corpos d’água e toda a sua fauna e flora. 

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