A SECA NO ”MAR DE MINAS”, OU FALANDO DO RIO GRANDE

Furnas

O reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas é o maior espelho de águas de Minas Gerais, um dos muitos Estados brasileiros que não possui fachada oceânica. Ocupando uma superfície total de 1.400 km², mais de três vezes maior do que a área da Baía da Guanabara, e com um perímetro de mais de 3 mil km, o lago de Furnas passou a ser considerado como o “Mar de Minas”. Banhando terras de 34 municípios mineiros, o lago começou a sair do papel em 1957, após o início das obras de construção da Usina Hidrelétrica de Furnas (vide foto), inaugurada 6 anos depois.

Rapidamente, o Lago de Furnas se tornou um dos grandes destinos turísticos do Estado, apresentando águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“. 

Infelizmente, desde o ano 2000, o lago de Furnas vem enfrentando sistemáticos períodos de seca, com a queda do nível de suas águas batendo recordes sucessivos de baixa. Neste ano de 2018, a situação não tem sido diferente – hoje (24/10/2018), segundo dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o nível do lago de Furnas está com 15% da sua capacidade. O lago de Furnas não está enfrentando sozinho esta situação crítica – outros reservatórios de usinas hidrelétricas do Rio Grande também estão com níveis extremamente baixos: Marimbondo está com menos de 20% de sua capacidade; Mascarenhas de Moraes está com 13% e Água Vermelha com pouco mais de 10%

O rio Grande tem 1.360 km de extensão desde de suas nascentes na Serra da Mantiqueira até a foz no Paranaíba, rio com o qual se junta para formar o rio Paraná. Suas águas movimentam as turbinas geradoras de 12 usinas hidrelétricas, que juntas respondem por 25% da capacidade instalada do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. A bacia hidrográfica do rio Grande ocupa uma área total de 143 mil km², englobando áreas dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais – o rio, inclusive, marca um longo trecho da divisa entre esses dois Estados. 

Os volumes de águas armazenadas nos reservatórios do rio Grande, em valores percentuais, estão entre os mais baixos de todo o Sistema Elétrico Brasileiro, uma fonte de preocupação para as autoridades do setor neste período de volta das chuvas. Seria necessária a chegada de um período de chuvas excepcionalmente acima da média para garantir a recuperação do nível dos reservatórios a valores considerados seguros, uma previsão que até agora não foi confirmada pelos meteorologistas. Os baixos caudais do rio Grande, entretanto, não preocupam apenas as autoridades do setor energético do país – essas águas também são fundamentais para o abastecimento de dezenas de cidades, indústrias e importantes regiões de produção agrícola e agropecuária. 

Nos municípios da região de entorno do lago de Furnas, o baixo nível das águas afeta com extrema gravidade um importante setor econômico: o turismo. Dados não oficiais chegam a falar de quedas que beiram a casa dos 50% em atividades ligadas ao setor em alguns municípios. Essas perdas se concentram nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras.  

Uma outra área que está sofrendo bastante com a situação do lago é o setor de navegação. Após o enchimento de Furnas, diversas estradas vicinais da região ficaram submersas e a interligação entre muitas cidades passou a ser feita através de balsas. Com a baixa das águas do reservatório e com o recuo das margens, diversos trechos navegáveis deixarem de ser operacionais e a comunicação entre essas cidades passou a ser feita por via terrestre, através de caminhos muito mais longos, com viagens muito mais demoradas. 

Os problemas enfrentados por outras duas atividades, que normalmente não são lembradas nesses momentos de crise, resumem a situação do lago de Furnas: a venda de imóveis e a piscicultura. Após a formação do grande lago, as terras de suas margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do lago de Furnas. Com as sucessivas secas no lago, esses imóveis e terras chegaram a perder metade do seu valor de mercado.  

No caso da piscicultura, os problemas estão ligados ao recuo contínuo das águas, que faz com que os cercados dos peixes fiquem secos e precisem ser reconstruídos em outros locais, onde o nível da água ainda esteja alto. A produção de peixes no lago de Furnas, que já atingiu a marca de 50 toneladas/ano, não para de cair. Em maior ou menor escala, os problemas vividos pelo lago de Furnas se repetem ao longo de todo o curso do rio Grande e em seus diversos reservatórios. A esperança de todos se resume à expectativa de uma boa temporada de chuvas

Um lembrete final: a maior parte da bacia hidrográfica do rio Grande se encontra em antigas áreas de domínio do Cerrado que, conforme apresentamos em uma série de postagens anteriores, é um dos biomas mais devastados de nosso país. Além da falta de chuvas, parte dos problemas do rio Grande pode ser creditado a essa destruição – o Cerrado é considerado o “berço das águas do Brasil“;

 

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