AS USINAS HIDRELÉTRICAS DO RIO URUGUAI

Usina Salto Grande

Na última postagem falamos rapidamente do rio Uruguai, o mais importante do extremo Sul do Brasil. Assim como ocorreu com os rios Tietê e São Francisco, o rio Uruguai foi uma importante via para a interiorização e colonização de extensas áreas da Argentina, do Uruguai e da faixa Oeste do Rio Grande do Sul a partir de Buenos Aires, a principal cidade do Vice-Reino da Prata, possessão sul-americana da Coroa da Espanha.  

Como acontece com vários outros importantes rios brasileiros, o rio Uruguai é um ilustre desconhecido da maior parte dos brasileiros, apesar de sua extrema importância regional nos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Nos últimos vinte e cinco anos, o potencial hidrelétrico do rio Uruguai passou a ser explorado e três grandes usinas hidrelétricas foram construídas em território brasileiro. No baixo curso do rio Uruguai, na divisa entre a Argentina e o Uruguai, esse aproveitamento começou bem antes, em 1979, quando a Usina Hidrelétrica Binacional de Salto Grande começou a operar. 

A primeira grande usina hidrelétrica brasileira a ser inaugurada no rio Uruguai foi Itá, entre os municípios de Itá, no Estado de Santa Catarina, e Aratiba, no Rio Grande do Sul. Inaugurada no ano 2000, a usina foi construída em uma região de relevo acidentado, aproveitando um desnível natural de 105 metros entre a foz dos rios Apuaê e Uvá, com uma capacidade instalada de 1.450 MW. A região de Itá apresenta fortes dobramentos, resultados de uma sequência de derrames de basalto, conhecidos como Derrame de Trapp, que foram os responsáveis pela formação geológica da Serra Geral

Os estudos para o aproveitamento energético deste trecho das águas do rio Uruguai remontam ao início da década de 1980; em 1983, a empresa estatal ELETROSUL – Centrais Elétricas do Sul do Brasil, obteve uma concessão de 30 anos para o primeiro aproveitamento do rio. Em 1987, a ELETROSUL concluiu uma subestação em Itá, construída inicialmente para reforçar o abastecimento elétrico de algumas regiões do Rio Grande do Sul e já visando o uso da energia elétrica que seria gerada futuramente na hidrelétrica de Itá. 

Os planos para a construção da usina começaram efetivamente em 1994, quando a ELETROSUL publicou o edital de licitação do empreendimento sob o regime de concessão. A primeira fase das obras foi concluída ainda em 1997, quando as águas do rio Uruguai foram desviadas por um conjunto de 5 túneis; o enchimento do lago foi iniciado no ano 2000 e inundou uma área com aproximadamente 103 km². 

A ELETROSUL foi totalmente privatizada pelo Governo Federal ainda no início das obras da Usina Hidrelétrica de Itá, um período que marcou o fim do monopólio estatal no setor elétrico. As Usinas Hidrelétricas de Machadinho, inaugurada em 2002, e Foz do Chapecó, inaugurada em 2010, foram construídas por consórcios formados por empresas privadas. 

A Usina Hidrelétrica de Machadinho fica localizada entre os municípios de Piratuba, em Santa Catarina, e de Maximiliano de Almeida, no Rio Grande do Sul. A hidrelétrica conta com 3 grupos geradores, que fornecem uma potência instalada total de 1.140 MW, o suficiente para atender cerca de 37% do consumo de Santa Catarina ou 23% da demanda elétrica do Rio Grande do Sul. 

O lago da hidrelétrica inundou uma área com aproximadamente 80 km², o que, segundo dados do Consórcio construtor forçou o deslocamento de mais de 2 mil famílias e a desapropriação de 1.272 pequenas propriedades rurais. Diferente de outras regiões brasileiras, onde são comuns as grandes propriedades rurais ou latifúndios, nos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul são muito comuns os minifúndios, pequenas propriedades rurais compartilhadas por vários membros de uma mesma família. 

A Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó foi o último empreendimento energético concluído no rio Uruguai em terras brasileiras. A hidrelétrica possui 4 grupos geradores, que fornecem uma capacidade instalada total de 855 MW. Está instalada entre os municípios de Águas de Chapecó, em Santa Catarina, e Alpestre, no Rio Grande do Sul. Um detalhe construtivo dessa usina foi o uso de um núcleo de asfalto na vedação da sua barragem, uma tecnologia utilizada pela primeira vez no Brasil e já aplicada em centenas de usinas hidrelétricas ao redor do mundo. 

Os estudos para a construção da usina começaram ainda na década de 1960, mas foi apenas em meados da década de 1980 que se confirmou que o aproveitamento no rio nessa região era uma das alternativas de menor impacto ambiental se comparado com outros trechos da calha. O lago formado pela usina hidrelétrica ocupa uma área com menos de 80 km², dos quais, cerca da metade correspondem à própria calha do rio Uruguai. Essas características tornam a Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó uma das mais eficientes em termos de potência gerada versus área inundada. 

A Usina Hidrelétrica de Salto Grande (vide foto) é um empreendimento conjunto da Argentina e do Uruguai, que reforça a importância regional do rio Uruguai. Localizada entre as cidades de Salto, no Uruguai, e Concórdia, na Província de Entre Rios na Argentina, a hidrelétrica foi construída para aproveitar um forte desnível do rio Uruguai, conhecido como Salto Grande, uma formação geológica que, para variar, acabou encoberta após a formação do reservatório, que alagou uma área de aproximadamente 780 km². A potência instada total da usina, que conta com 14 grupos geradores, é de 1.890 MW. 

Os planos para a construção e operação da Usina Hidrelétrica de Salto Grande tiveram início em 1946, quando foi criada uma comissão técnica mista argentina e uruguaia para iniciar os estudos desse empreendimento binacional. As obras foram iniciadas em 1973 e totalmente concluídas em 1982. O primeiro grupo gerador entrou em operação em 1979. 

Como sempre ocorre em um empreendimento de grande porte como esse, a construção da Usina Hidrelétrica de Salto Grande provocou enormes impactos ambientais e sociais. Além do alagamento do Salto Grande, o lago da usina encobriu grandes áreas naturais e ilhas fluviais, além de forçar a mudança de toda a população da cidade de Federación, na Argentina, e das cidades de Belén Constitución, no lado uruguaio. Só relembrando, tanto o Uruguai quanto a Argentina eram governados por juntas militares nessa época, que colocavam os interesses estratégicos e econômicos de suas nações acima de qualquer interesse social ou ambiental. 

O potencial hidrelétrico do rio Uruguai ainda não foi totalmente explorado e os estudos de viabilidade técnica e econômica de outras duas usinas hidrelétricas em território brasileiro encontram-se suspensos por ordem da justiça por causa dos profundos impactos sociais e ambientais envolvidos. Um desses empreendimentos, a Usina Hidrelétrica de Panambi, poderia resultar no desaparecimento ou comprometimento parcial do Salto do Yucumã, citado na postagem anterior

Mesmo com todas as cautelas e estudos de impactos ao meio ambiente, a construção de novas usinas hidrelétricas sempre são problemáticas, o que requer o acompanhamento de toda a sociedade. Excesso de cautela e de caldo de galinha, como diz um velho ditado, não fazem mal a ninguém. 

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