IGUAÇU: O “PRIMO” DO RIO TIETÊ E SUAS USINAS HIDRELÉTRICAS

UHE Salto Caxias

Um rio que tem nascentes na Serra do Mar e que corre na direção Oeste cerca de 1.300 km, até sua foz no rio Paraná. Suas águas limpas recebem uma imensa carga de esgotos ao passar pela Região Metropolitana, transformando o rio num dos mais poluídos do Brasil. Diversas usinas hidrelétricas foram construídas ao longo de seu curso, a grande maioria sem contar com um estudo de impactos ao meio ambiente. 

Numa leitura rápida, seria bastante fácil achar que o rio descrito é o Tietê – na verdade, estamos falando do Iguaçu, um rio com história geológica muito parecida com o rio paulista e que, bem por acaso, é hoje o segundo rio mais poluído do Brasil, só perdendo para o nosso Tietê. 

O rio Iguaçu se forma a partir da junção das águas dos rios Atuba e Iraí na divisa entre os municípios de Curitiba e São José dos Pinhais – para ser mais preciso, o ponto exato desta confluência fica embaixo da ponte da rodovia BR-277. Deste ponto até sua foz, nas mundialmente conhecidas Cataratas do Iguaçu, o rio percorre aproximadamente 1.300 km, com uma área total da bacia hidrográfica correspondendo a 70 mil km², englobando 109 municípios e onde vivem 4,4 milhões de habitantes – 33% do território e 42% da população do Estado do Paraná.  Os índios tinham toda a razão ao batizarem o rio com o nome de Y’ Guasu: o “Rio Grande”. 

Essa grandiosidade toda, infelizmente, não pode ser traduzida em qualidade ambiental – o Iguaçu é hoje um rio natimorto graças a todo um conjunto de ações antrópicas: são grandes quantidades de esgotos domésticos e industriais, lixo, entulhos, areia e sedimentos que recebe ao atravessar a Região Metropolitana de Curitiba. Mas a natureza consegue ser mais grandiosa ainda e ao longo de um trecho entre 40 e 70 km, conforme a vazão de águas do rio, processos naturais conseguem depurar as águas poluídas.  

Pouco a pouco, o rio Iguaçu deixa de ser uma grande valeta de esgotos a céu aberto e volta a ser um rio poderoso e cheio de vida, com um grande potencial para o abastecimento de populações, irrigação de plantações e demais usos que se esperam de um corpo d’água em boas condições. Porém, graças ao enorme número de saltos e cachoeiras que existiam ao longo do seu curso, o Iguaçu acabou assumindo, por imposição dos Governantes locais e nacionais, o papel de um dos rios com maior aproveitamento para geração de energia elétrica da Região Sul do Brasil

A possibilidade de se aproveitar as águas do rio Iguaçu para a geração de energia elétrica remonta ao final do século XIX, quando Curitiba passou a contar, no ano de 1891, com o serviço privado de iluminação pública com lâmpadas elétricas em várias ruas da cidade e com a eletricidade gerada por uma usina termelétrica. Como já havia acontecido na época em outras cidades brasileiras, como no Rio de Janeiro, a geração de eletricidade em usinas termelétricas era problemática e cara, devido aos altos custos e as dificuldades para a importação do carvão. Após inúmeras reclamações da população devido a irregularidade da iluminação e as constantes queimas de lâmpadas, este serviço foi transferido para a administração direta pela Prefeitura de Curitiba.  

Com o aumento da demanda por energia elétrica, o Governo do Paraná passou a estudar a partir de 1907 a possibilidade de conceder o Salto Caiacanga no rio Iguaçu, no atual município de Porto Amazonas, para exploração por uma empresa privada, que construiria uma usina hidrelétrica no local. As discussões e os estudos para a realização desta obra se estenderam por vários anos sem que se chegasse a um termo final. Enquanto isso, outras iniciativas empreendedoras eram levadas avante em outras localidades: em 1910 foi construída a Usina de Serra da Prata em Paranaguá, que funcionou até a década de 1970, e em 1911 foi inaugurada a Usina de Pitangui em Ponta Grossa. 

Foi a partir do final da década de 1960, no período dos Governos Militares, que a exploração do potencial hidrelétrico dos rios brasileiros passou a ser visto como prioridade e foi iniciado o ciclo de construção das grandes usinas hidrelétricas – Itaipu, no rio Paraná, na divisa entre o Brasil e o Paraguai, que durante mais de quarenta anos ostentou o título de maior usina hidrelétrica do mundo, é um dos símbolos mais icônicos deste período. O rio Iguaçu passou a ocupar um lugar de destaque na política energética do país e seria palco para a construção de usinas hidrelétricas “em série”. 

Na região do Baixo rio Iguaçu foram construídas as Usinas Hidrelétricas de Salto Osório, com potência de 1.078 MW e inaugurada em 1975, e Salto Santiago, com potência de 1.420 MW e inaugurada em 1980. A primeira grande usina hidrelétrica do rio Iguaçu foi Foz de Areia, rebatizada depois com o nome do ex-Governador Bento Munhoz da Rocha Neto (vide foto), com potência de 1.676 MW e inaugurada em 1979. Em 1992 entrou em operação a Usina Salto Segredo, a primeira grande usina nacional a ser precedida por um estudo de impacto ambiental.  

Em Salto Caxias (vide foto) foi inaugurada uma outra grande hidrelétrica em 1999, com capacidade instalada de 1240 MW e rebatizada posteriormente com o nome do ex-Governador José Richa. Em 2013, quando todo o potencial de geração de energia hidrelétrica do rio Iguaçu parecia estar completamente saturado, foi iniciada a construção da Usina de Baixo Iguaçu, com produção a fio d’água e sem precisar do represamento do rio, com potência instalada para a produção de até 350 MW. 

Conforme comentamos em postagem anterior, os estudos de impactos ambientais em projetos e obras só passaram a ser obrigatórios a partir de 1986, quando foi publicada a Resolução CONAMA 001. A partir dessa Resolução, passou-se a exigir estudos sobre os impactos positivos e negativos na área de influência de empreendimentos com grande potencial para afetar o meio ambiente, populações e atividades humanas, além de plantas e animais, corpos d’água, solos, climas, entre outros. Medidas mitigadoras desses impactos devem ser incluídas nesse estudo. Antes dessa data, no período em que a maioria das usinas hidrelétricas do rio Iguaçu foram construídas, Governos faziam o que queriam com suas obras, sem dar satisfações a ninguém. 

Essas grandes e médias usinas hidrelétricas, a exemplo de outras grandes obras de infraestrutura que foram construídas entre as décadas de 1960 e 1980, se mostrariam fundamentais para alavancar o Milagre Econômico Brasileiro da década de 1970 e muito do desenvolvimento econômico que vivemos até os dias de hoje. Sem questionar a importância da energia elétrica renovável gerada pelas usinas hidrelétricas, o que nos preocupa são os altos custos ambientais, que ao fim e ao cabo está sendo pago por todos nós, mesmo que não percebamos isso claramente. 

A geração de energia elétrica por diferentes fontes no Brasil está rapidamente caminhando para um ponto de saturação e novas unidades geradoras precisarão ser incorporadas ao sistema, garantindo assim o consumo futuro da população. Fontes renováveis e seguras como a geração hidrelétrica precisam continuar a ser exploradas, porém, com muita cautela e respeito ao meio ambiente. 

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