A RECUPERAÇÃO DAS NASCENTES NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, OU O RENASCIMENTO DA FLORESTA DA TIJUCA

Floresta de Tijuca - Mirante

A cidade do Rio de Janeiro, que nos últimos anos têm sofrido imensamente com os desgovernos e com a violência urbana, ainda pode se orgulhar, e muito, de possuir algumas das mais belas paisagens do mundo. Espremida entre as praias, a Baía de Guanabara, as florestas e as montanhas, a cidade é um dos cartões postais mais conhecidos do Brasil em todas as partes do mundo. Um dos recantos locais que eu mais gosto é a Floresta da Tijuca, um dos grandes patrimônios naturais da capital fluminense, que fornece ainda hoje preciosos serviços ambientais e atrai milhares de turistas a cada ano. Lembro claramente da minha primeira visita à Floresta cerca de 30 anos atrás, quando acompanhei um grupo de turistas em uma longa caminhada por uma das trilhas da mata. Uma recordação marcante desta caminhada foi o cheiro de um sem número de jaqueiras carregadas de frutas, que enchiam o ar com um sabor adocicado.

Na última postagem abordamos uma fase complicada da história do Rio de Janeiro, quando sucessivas secas ao longo das primeiras décadas do século XIX ameaçavam a sobrevivência da população e da cidade. As antigas nascentes de águas nas montanhas e serras há muito já vinham sofrendo com a degradação da cobertura florestal e já não tinham produção suficiente para atender as necessidades crescentes da população da cidade. Data da década de 1820 a decisão de se desapropriar as primeiras terras na região da Tijuca para reflorestar as nascentes de água potável, cada vez mais escassas. Acreditava-se, de forma empírica, que o reflorestamento aumentaria o volume dos riachos. E foi revegetando as encostas da Tijuca que se reparou, em parte, os danos causados pela remoção indiscriminada de toda a sua vegetação para se produzir, sucessivamente, cana-de-açúcar, café, lenha e carvão vegetal e, finalmente, abrigar a produção de alimentos e a criação de animais destinados ao consumo da crescente população.

Ao longo das décadas de 1820 e 1830, a cidade do Rio de Janeiro enfrentou vários períodos de seca prolongada, com grande escassez de água potável e grandes problemas para a dispersão do esgoto residencial que se acumulava nos canais. Surgia na opinião publica da cidade uma forte pressão sobre os governantes para a adoção de políticas para o aumento da capacidade dos sistemas produtores de água. E aqui cabe um parêntese: não se tratava de reclamações de simples moradores da antiga Colônia portuguesa – com a fuga da Família Real para o Brasil em 1808, dezenas de milhares de portugueses da alta sociedade lisboeta também acabaram mudando para as nossas terras e exigiam uma mínima infraestrutura urbana em suas casas. A partir de 1845 inicia-se, de fato, o trabalho sistemático de recomposição florestal das encostas e as desapropriações de fazendas se intensificaram. As primeiras experiências de reflorestamento haviam apresentado ótimos resultados e partia-se, agora, para um aumento na escala nas intervenções florestais.

A partir de 1861, por ordem do imperador Dom Pedro II, grandes fazendas na região da Tijuca foram desapropriadas e iniciou-se um processo contínuo de reflorestamento em grande escala. A realização deste trabalho foi confiada ao Major Manuel Gomes Archer que, de forma totalmente amadorista e sem nenhum critério científico, iniciou os trabalhos de plantio de árvores. Contando com uma pequena equipe de trabalhadores, entre escravos e assalariados, foram plantadas ao longo de 13 anos mais de 100 mil mudas de árvores, especialmente mudas de espécies da Mata Atlântica, que ainda resistia em pequenos fragmentos florestais. Ao longo de várias décadas, os trabalhos de reflorestamento foram sendo ampliados e a oferta de água potável se estabilizou; o abastecimento da crescente população ficou garantido até a criação de novos sistemas produtores a partir do final do século XIX. Em resumo – a Floresta da Tijuca foi responsável pela sobrevivência de grande parte da população carioca ao longo do século XIX, tendo garantindo o abastecimento contínuo de água em volume e qualidade satisfatórios.

Em 1961 a floresta foi elevada a condição de Parque Nacional do Rio de Janeiro, nome alterado anos depois para Parque Nacional da Tijuca, ou simplesmente Floresta da Tijuca para os cariocas, com área total de 3.953 ha. Além de abrigar excepcional patrimônio natural da Mata Atlântica, o Parque concentra dentro dos limites de sua área valiosos bens culturais e históricos, constituindo a maior floresta artificial urbana do mundo, contemplando maciços rochosos, quedas d’água, riachos, fauna e flora da Floresta Atlântica, mirantes, ruínas de antigas fazendas e da Real Fábrica de Pólvora entre outras atrações.

O caso da Floresta da Tijuca é um dos grandes exemplos mundiais dos impactos que  implantação de grande projetos de agricultura podem provocar em antigas áreas florestais e também mostra como é possível se reverter grande parte desses impactos com programas de recomposição florestal.

Em um mundo com mais de 7 bilhões de seres humanos que precisam de alimentos e de produtos com origem na agricultura, não há como negar a importância da produção no campo. O que precisamos é aprender a conciliar a agricultura com a preservação ambiental – o nosso Planeta é finito e a história dessa crise nos recursos hídricos na antiga cidade do Rio de Janeiro esta aí para nos lembrar disso.

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