O ROMPIMENTO DA BARRAGEM EM BRUMADINHO, OU SERIA UMA CRÔNICA DE UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA?

brumadinho

No início da tarde desta sexta-feira, dia 25 de janeiro, fomos surpreendidos com a notícia do rompimento de mais uma barragem de rejeitos da empresa Vale do Rio Doce, desta vez na cidade de Brumadinho, distante pouco mais de 60 km de Belo Horizonte, em Minas Gerais. 

Segundo as informações divulgadas, a barragem do Córrego do Feijão se rompeu no início da tarde, liberando grandes volumes de rejeitos, que atingiram a área administrativa da unidade da Vale do Rio Doce e também parte da Comunidade da Vila Ferteco. O Córrego do Feijão é um afluente do rio Parauapebas 

Até o momento, as informações da Defesa Civil de Minas Gerais falam em pelo menos 7 mortes. A Vale do Rio Doce informa que havia 424 pessoas no local do acidente – 150 ainda estão desaparecidas. Infelizmente, ao longo das próximas horas e dias, teremos boletins informando o número real de vítimas, que tende a ser bem maior do que o número já anunciado. 

Esse novo acidente nos traz à lembrança a tragédia social e ambiental que foi provocada pelo rompimento da Barragem de Fundão, no distrito de Bento Rodrigues em Mariana, também em Minas Gerais. A semelhança é ainda maior quando lembramos que a mesma empresa, a Vale do Rio Doce, é uma das sócias da Samarco Mineração, a empresa responsável pela operação da Barragem de Fundão.  Outros acidentes semelhantes que podemos citar foram o de Barcarena, no Pará, e o de Cataguases, também em Minas Gerais.

O acidente de Mariana, que ocorreu em 5 de novembro de 2015, deixou um saldo de 19 mortos e centenas de desabrigados. O rompimento dessa barragem de rejeitos de mineração provocou o vazamento de 62 milhões de metros cúbicos de lama, ferro, manganês e outros resíduos minerais. Uma verdadeira onda de lama se espalhou por toda a calha do rio Doce até sua foz no Oceano Atlântico, na cidade de Linhares no Espírito Santo. Já se passaram mais de três anos e o rio Doce ainda não conseguiu se recuperar. Milhares de famílias ribeirinhas, pescadores e também os antigos moradores do Distrito de Bento Rodrigues ainda sofrem as consequências da tragédia. 

A tragédia da Barragem de Fundão produziu uma série de mudanças nos sistemas de fiscalização e controle das barragens de rejeitos da mineração nos últimos anos. Essa questão foi tema de um recente Workshop – “Gestão de barragens de rejeitos de mineração”, como parte dos eventos do CBMINA – Congresso de Minas a Céu Aberto e Subterrâneas. O evento foi organizado pelo IBRAM – Instituto Brasileiro de Mineração, e pela UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais e realizado na cidade de Belo Horizonte no início do mês de agosto de 2018. 

De acordo com os dados do setor disponibilizados, existem hoje no Brasil 786 barragens de rejeitos, sendo que 417 dessas estruturas estão inseridas na PNSB – Política Nacional de Segurança de Barragens – em 2013, estavam cadastradas no PNSB 243 barragens em todo o país.

O número de barragens classificadas como de alto risco de acidentes em 2013 era de 41 – esse número baixou para 7 em 2018. Existem 36 barragens classificadas como de médio risco e 374 como de baixo risco. Entre os Estados, Minas Gerais continua na liderança em número de barragens de rejeitos com 355 estruturas seguido pelo Pará, com 109 e por São Paulo, com 79 barragens.  

Entre os anos de 2001 e 2018, seguindo os palestrantes, foram registrados 35 acidentes com barragens de rejeitos de mineração em todo o mundo, numa média de quatro acidentes por ano e destes, pelo menos um acidente á considerado de grande proporção. No Brasil, foram registrados cinco acidentes no período, incluindo-se na lista o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, no ano de 2015.  

As perguntas que ficam: a Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, estava listada entre as sete barragens com alto risco de rompimento? A Vale, em função do desastre anterior em Mariana, não melhorou seus procedimentos de segurança nas suas barragens de rejeitos de mineração? A barragem tinha algum sistema de sirenes para alertar a vizinhança do rompimento da estrutura? 

Esperemos que o tempo traga as respostas a estas e a muitas outras perguntas e que, desta vez, os culpados pelo acidente sejam efetivamente e exemplarmente condenados. 

Por hora, resta-nos torcer por um menor número de vítimas e que os danos ao meio ambiente não sejam tão grandes como em outras catástrofes semelhantes. 

 

AFINAL DE CONTAS: A ÁGUA DESSALINIZADA É A ”SALVAÇÃO DA LAVOURA”?

Água em casa

Ao longo de uma série de postagens, apresentamos algumas experiências internacionais sobre o uso de usinas de dessalinização que tornam a água do mar potável. Aqui no Brasil, falamos do caso de Fernando de Noronha, um arquipélago marinho isolado e sem fontes naturais de água potável – a ilha principal, a única habitada, conta com uma usina de dessalinização desde o ano 2000, que vem suprindo parte do abastecimento da população. Outro exemplo é o caso da Região Metropolitana de Fortaleza que, a depender do andamento de um processo de licitação pública, poderá estar utilizando água dessalinizada a partir de 2022. 

Analisando esses diferentes casos, será possível afirmar que o uso da água dessalinizada pode ser a solução para o abastecimento de grandes cidades litorâneas, especialmente da região Nordeste, que sofrem frequentemente com problemas de escassez de água?  

Vamos pensar a respeito disso; 

A tecnologia de dessalinização e potabilização da água do mar para consumo por populações e para uso em agricultura evoluiu muito nas últimas décadas. Um dos maiores avanços se deu com o desenvolvimento das membranas de osmose reversa na década de 1960. Essas membranas são construídas usando polímeros que possuem furos microscópicos, que permitem a passagem das moléculas de água e retém as partículas de sal e outras impurezas encontradas na água marinha. Os processos de dessalinização por osmose inversa consomem entre 10 e 15 vezes menos energia que os antigos processos de destilação térmica, um fator determinante para a redução dos custos de operação das usinas de dessalinização. O custo médio para a produção de 1 m³ de água dessalinizada é de US$ 1.00; em Israel, esse custo está na ordem de US$ 0.60

À primeira vista, esse custo pode não parecer muito alto, mas ele pode elevar muito o valor da conta de água de uma família de baixa renda. Uma família com cinco pessoas tem um gasto diário médio de 1 m³ de água ou 1.000 litros. Se considerarmos, hipoteticamente, que toda essa água foi produzida por uma usina de dessalinização, teremos um custo de produção mensal de US$ 30.00 – ao câmbio de hoje (24 de janeiro de 2019 – R$ 3,77), serão R$ 113,10 de acréscimo no valor da conta. Esse valor se refere apenas ao custo da água, que se somará aos custos de distribuição da empresa de saneamento; em locais onde já existe rede coletora de esgotos e ETEs – Estações de tratamento de Esgotos, existe ainda a cobrança pelo tratamento dos esgotos, o que, normalmente é o mesmo valor cobrado pelo fornecimento de água.  

Sem nos prendermos a muitos detalhes, o valor total da conta de água de uma dessas famílias poderá mais do que dobrar. Felizmente, na maioria dos casos, a água dessalinizada é usada para complementar a água captada em outras fontes de abastecimento. No caso de Fortaleza, a expectativa do Governo local é suprir apenas 12% do consumo com água dessalinizada, um volume que vai ter pouco impacto nas contas de água da população. 

A exceção de Teresina, a capital do Piauí, todas as capitais nordestinas ficam localizadas no litoral e, praticamente todas, apresentam problemas no abastecimento de água das suas populações. Todos os mananciais produtores de água têm suas nascentes em áreas interioranas, especialmente na chamada Zona da Mata, que apesar de ser uma região mais úmida que as áreas do Agreste e do Semiárido, ela também sofre os efeitos de períodos de seca mais intensa. A implantação de usinas de dessalinização nessas capitais criaria fontes alternativas para o abastecimento das populações dessas áreas urbanas, o que minimizaria sensivelmente a carência de recursos hídricos. 

Porém, o uso de água dessalinização só resolve uma parte do problema – existem diversas frentes a serem trabalhadas com o objetivo de aumentar a oferta de água para a população. Vejam: 

reuso da água é uma das melhores alternativas para se reduzir a necessidade de novas fontes de água. Em Israel, um dos países com a maior utilização per capita de água dessalinizada do mundo, toda a água utilizada nas casas e industrias passa por estações de tratamento. O efluente tratado é transportado para as áreas rurais, onde é usado em sistemas de irrigação agrícola. Esse reuso da água poupa, todos os anos, dezenas de milhões de metros cúbicos de outras fontes, como o lendário rio Jordão e de poços. Essa água que foi “poupada” poderá ser usada por pequenas cidades e vilas em locais remotos, longe do oceano e das usinas de dessalinização. Também é importante citar aqui as EPAR – Estações de Produção de Água de Reúso, unidades que transformam os esgotos em água potável, que pode ser distribuída para o abastecimento da população.

Uma outra importante fonte de água que ainda não está sendo totalmente utilizada em regiões semiáridas aqui do Brasil são as águas pluviais. Na Ilha de Malta, no Mar Mediterrâneo, cerca de metade da água usada para o abastecimento da população e, especialmente, para irrigação agrícola vem de cisternas de armazenamento de águas da chuva. Conforme apresentamos em uma postagem anterior, Malta é um dos países mais secos do mundo e, desde a antiguidade, sempre dependeu do uso da água das chuvas. O uso da água dessalinizada na ilha é relativamente recente e cobre a outra metade das necessidades de abastecimento da população. 

Um dado que vai intrigar muita gente e que demonstra que falta um bom gerenciamento dos recursos hídricos na região do Semiárido brasileiro: no interior do Nordeste existem reservatórios com capacidade para acumular 37 bilhões de metros cúbicos de água – nenhuma outra região semiárida do mundo possui tal capacidade de armazenamento. O problema é que não existem sistemas de tubulações que interliguem esses reservatórios, permitindo assim a gestão e a transferência eficiente dos recursos hídricos entre as regiões. É comum vermos cidades sofrendo com a falta de água, mesmo tendo um reservatório cheio nas proximidades. 

Também não podemos deixar de falar da má gestão dos recursos financeiros. Muitas obras contra as secas não começadas e não são concluídas. Cito aqui o exemplo do Sistema de Transposição das Águas do Rio São Francisco, que foi vendido por políticos como sendo a “salvação do Nordeste”. As obras sofreram várias paralisações, os custos até agora são bem maiores do que no orçamento original e só parte do sistema já está funcionando. Enquanto isso, dezenas de cidades localizadas nas proximidades do rio São Francisco não possuem sistemas de tubulações que lhes permitam usar as águas do rio. São obras relativamente pequenas e de baixo custo, que resolveriam a vida de milhares e milhares de pessoas. 

Enfim, as usinas de dessalinização são muito bem vindas em cidades e regiões litorâneas com problemas de abastecimento. Porém, antes de se pensar em construir qualquer uma delas, existe muita “lição de casa” para administradores públicos, Prefeitos e Governadores fazerem. 

UMA USINA DE DESSALINIZAÇÃO NO ESTADO DO CEARÁ

fortaleza

Na postagem anterior fizemos uma rápida apresentação dos problemas de abastecimento no Ceará, falando inclusive de várias secas devastadoras. Uma das mais graves estiagens que se abateu sobre o Estado, entre 1877 e 1879, matou 100 mil pessoas, o que na época equivalia a metade da população cearense. Hoje, a população de várias regiões do Estado, principalmente na Região Metropolitana de Fortaleza, ainda sofre as consequências de uma forte seca que persistiu entre os anos de 2011 e 2017 – o Açude Castanhão, principal manancial de abastecimento do Ceará, ainda não conseguiu se recuperar e seu estoque de água permanece com menos de 4% de sua capacidade total. 

Sem contar com outras fontes de abastecimento, o Governo do Ceará passou a trabalhar com o projeto de construção de uma grande usina de dessalinização nas proximidades da cidade de Fortaleza. Ainda no final de 2017, foram escolhidas duas empresas, uma sul-coreana e outra espanhola, especializadas em consultoria de projetos de dessalinização. O principal objetivo do trabalho dessas empresas era a apresentação de estudos técnicos  de viabilidade, que apontassem as melhores alternativas tecnológicas e os melhores locais para a instalação da planta industrial. O Governo do Estado trabalhava com a expectativa de publicar no mês de dezembro de 2018, um edital internacional para a seleção de empresas ou consórcios de empresas para construir a usina de dessalinização, o que acabou não acontecendo ainda. 

De acordo com dados informados pelo Governo do Ceará, o investimento estimado para as obras será de R$ 500 milhões. A expectativa das autoridades é o atendimento de, pelo menos, 720 mil pessoas na cidade de Fortaleza com água dessalinizada do mar já a partir de 2020. Entre os locais já apontados com potencial para receber a usina despontam o Mucuripe, na margem direita do rio Cocó, e um trecho do litoral de Caucaia próximo à Fortaleza. Caso os planos se confirmem, o Ceará se tornará o primeiro Estado brasileiro  a contar com uma usina de dessalinização de grande porte. 

A cidade de Fortaleza tem 3,9 milhões de habitantes e consome cerca de 8 m³ de água por segundo. A contribuição inicial da usina de dessalinização será de 1 m³ por segundo, o equivalente a 12% do consumo de água da cidade. Uma das ideias em estudo avalia a possibilidade de se construir uma usina de dessalinização modular, como aquela usada na planta de dessalinização Jabel Ali de Dubai. Esse modelo permitirá uma ampliação progressiva da capacidade de produção, atendendo um número cada vez maior de habitantes e acompanhando o desenvolvimento tecnológico. 

Nos dias atuais, cerca de 300 milhões de pessoas em 150 países diferentes são abastecidas com água dessalinizada. Segundo informação de fabricantes de equipamentos e de usinas de dessalinização, existem aproximadamente 14 mil unidades em operação ao redor do mundo, produzindo mais de 86 milhões de metros cúbicos de água dessalinizada por dia. O custo médio de cada m³ (1.000 litros) de água dessalinizada no mercado internacional é de US$ 1.00. O Governo do Ceará pretende alcançar um custo de produção abaixo desse valor, reduzindo ao máximo os impactos na conta de água da população. 

O custo da energia elétrica, conforme comentamos em diversas postagens dessa série, corresponde, em média, a 50% dos custos de operação de uma usina de dessalinização. Diversos países que utilizam água dessalinizada têm altos custos para a geração de energia elétrica a partir de combustíveis fósseis como o carvão e o óleo. Esse alto custo da energia elétrica tem reflexos diretos nas contas de água e as populações são obrigados a reduzir ao máximo o consumo em suas residências. O Estado do Ceará está entre os mais pobres do Brasil e não existe qualquer margem no orçamento das famílias para cobrir eventuais aumentos no valor das contas de água. 

O Ceará, chamado por muitos de “Terra do Sol”, possui um dos maiores índices de insolação do mundo, o que abre inúmeras possibilidades para o uso de energia elétrica fotovoltaica para alimentação da futura usina de dessalinização. A título de comparação, a Alemanha, país líder mundial no uso de energia solar, possui uma insolação média em seu território 5 vezes menor que a do Ceará. Outra fonte de energia renovável que tem um enorme potencial de crescimento no Estado é a geração através de turbinas eólicas. As belas paisagens do litoral cearense apresentam, há vários anos, gigantescas torres de geração eólica, que já se tornaram verdadeiros cartões postais do Estado. Torçamos para que os planejadores do Estado estejam trabalhando nessa direção. 

O uso de fontes alternativas de energia é um dos segredos do sucesso das usinas de dessalinização de Israel. Com a descoberta de grandes campos de gás natural no território israelense, todas as plantas que já estavam em operação foram convertidas para o uso do gás natural e as plantas novas já foram projetadas para operar com esse combustível. O preço médio do m³ de água dessalinizada em Israel é da ordem de US$ 0.60, um dos mais baixos praticados no mundo

Sem nos alongarmos muito nesse ponto, é sempre importante lembrar que o principal parque de usinas hidrelétricas da região Nordeste fica no rio São Francisco. Esse combalido e enfraquecido rio, que já foi tema de dezenas de postagens aqui no blog, apresenta caudais cada vez menores, um problema que está na raiz de diversos males vividos por inúmeras cidades ribeirinhas. Uma eventual utilização de eletricidade gerada a partir das preciosas e escassas águas do Velho Chico seria de uma insensatez inominável – por isso a minha insistência no uso de outras fontes de energia renováveis como a solar e a eólica.. 

Encerrando essa postagem, uma informação importante que aparece nas entrelinhas dos comunicados emitidos pelo Governo do Ceará: a intenção de delegar a operação e a produção da usina de água dessanilizada nas mãos da iniciativa privada – o Governo se comprometeria a comprar toda a água produzida para uso no abastecimento da população. Empresas públicas, como a experiência de vida de cada um dos leitores já deve ter mostrado, costumam ser altamente ineficientes, custosas e propensas ao uso político pelos grupos que estão no poder. Cargos fantasmas, salários acima da média do mercado e com um número excessivo de benefícios, contração de cabos eleitorais, etc, são males que sufocam a maioria esmagadora das empresas públicas brasileiras.  

Se o projeto do Ceará seguir mesmo por esse caminho, o da administração privada, as coisas tenderão a melhorar muito no saneamento básico da Grande Fortaleza. 

AS SUCESSIVAS CRISES HÍDRICAS NO ESTADO DO CEARÁ, OU FALANDO DO USO DE ÁGUA DESSALINIZADA

açude castanhão

O Estado do Ceará está passando por um verdadeiro inferno astral nas últimas semanas. Até ontem, dia 21 de janeiro, foram registrados 231 ataques contra ônibus, carros, lojas, prédios públicos, pontes, torres de transmissão de energia, entre outros. As ações criminosas começaram na Região Metropolitana de Fortaleza no dia 2 de janeiro e foram se espalhando por todo o Estado, atingindo cerca de 50 dos 184 municípios do Ceará. As autoridades informaram que 411 pessoas envolvidas nesses ataques já foram presas. Estamos torcendo pelo povo cearense e esperamos que as autoridades do Estado consigam restaurar a ordem e a paz pública o mais rápido possível. 

Toda essa situação caótica acabou jogando para um segundo plano os problemas de abastecimento de água, um problema crônico que vem afetando toda a população da Região Metropolitana de Fortaleza há vários anos. Com 3,7 milhões de habitantes, o que corresponde a quase metade da população do Estado, a Grande Fortaleza sofre com a falta de fontes de água para o abastecimento da população. O maior reservatório de água do Ceará e principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza – o Açude Castanhão (vide foto), está com apenas 3,91% da sua capacidade total de armazenamento (volume em 17/01/2019 – Portal Hidrológico do Ceará). 

Localizado oficialmente no município de Alto Santo (o reservatório se distribui por vários municípios), o Açude do Castanhão foi inaugurado em 2002 e possui capacidade para armazenar 6,7 bilhões de m³. É considerado o maior reservatório para usos múltiplos da América Latina. Sua capacidade de armazenamento corresponde a 37% da capacidade total de armazenamento de todos os 8 mil reservatórios existentes no Estado do Ceará, incluindo-se na lista o Açude Orós, que durante décadas foi o maior de todos.  

Em sua capacidade máxima de armazenamento, o Castanhão tem condições de abastecer toda a Região Metropolitana de Fortaleza por 3 anos ininterruptamente. O problema é que desde 2012, com o início de uma forte estiagem que atingiu toda a região do Semiárido nordestino, os volumes das chuvas na bacia hidrográfica do rio Jaguaribe têm estado abaixo da média, sendo insuficientes para recuperar os níveis do Açude

Para preservar ao máximo o volume de água que restou no Castanhão, a companhia de águas local aumentou a captação de águas em outros reservatórios do interior do Estado, distantes até 250 km, transportadas através do chamado “Eixão das Águas”, para reforçar os níveis dos reservatórios da Região Metropolitana. Essa manobra permitiu uma redução substancial da captação de águas no Açude do Castanhão – até 2016, ele fornecia 70% da água consumida na Região Metropolitana de Fortaleza – atualmente, a sua contribuição é menor que 10%.  

O Estado do Ceará convive há séculos com problemas de falta de água e grandes secas. Registros históricos e observações de cronistas de época falam de grandes estiagens no Estado em 1744, 1790, 1846, 1877, 1915 e em 1932. A grande seca que assolou o Estado entre 1877 e 1879 foi uma das mais dramáticas: calcula-se que metade da população do Estado morreu em consequência da gravíssima estiagem. Outra seca que ganhou notoriedade no Ceará foi a de 1915 – a escritora Rachel de Queiroz, que foi testemunha ocular dessa grande tragédia humana e ambiental, imortalizou suas lembranças no romance “O Quinze”, um clássico de nossa literatura. 

Além de fatores geográficos e ambientais, a seca na região do Semiárido Nordestino tem uma grande parcela de contribuição humana. Desde os primeiros anos da colonização do Brasil, boiadas expulsas do litoral canavieiro passaram a penetrar pelos sertões da região. Na falta de grandes áreas de pastagens para o gado, os boiadeiros criaram o hábito de queimar grandes extensões dos caatingais para a formação de novas áreas de pastagens. O bioma também sofreu profundos danos com a abertura de áreas para prática de agricultura, fornecimento de madeira para a construção civil e para a produção de carvão, de lenha para as cozinhas, entre outras agressões. Dados recentes dos órgãos ambientais afirmam que metade do Bioma Caatinga já não existe mais e essa sua destruição têm impactos na amplificação dos efeitos naturais das secas e em processos de desertificação de solos

O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, dedicou vários anos ao estudo da devastação das matas e das terras no Ceará. Em suas andanças pelos sertões cearenses, ele atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região:  

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

Essa devastação ambiental da Caatinga, que tem raízes seculares, contínua a pleno vapor em nossos dias. Em um estudo realizado pelo Ministério do Meio Ambiente com dados do período entre 2002 e 2008, sete municípios do Ceará apareceram na lista dos 20 municípios nordestinos que mais desmataram a Caatinga. Essa lista inclui Acopiara e Tauá, dois municípios do Estado que ficaram com a primeira e a segunda posição desse ranking de desmatamento. Nesse período, o Ceará perdeu 4.123 km² de matas de Caatinga, o equivalente a 0,5% da área do Bioma no Estado. Mais de 60% da área original da Caatinga no Estado já foi destruída, uma situação absolutamente insustentável do ponto de vista ambiental. 

Diante desse quadro caótico e sem contar com outras fontes de água para o abastecimento de sua população, o Governo do Ceará vem estudando já há vários anos a construção de uma grande usina para dessalinização da água do mar. A expectativa das autoridades é atender mais de 720 mil habitantes da Região Metropolitana de Fortaleza com água dessalinizada a partir de 2020

Na nossa próxima postagem falaremos mais sobre isso. 

A IMPORTÂNCIA DA ÁGUA DESSALINIZADA EM FERNANDO DE NORONHA

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O arquipélago de Fernando de Noronha tem apenas 26 km² de superfície, mas é considerado por muitos como “o pedaço mais bonito do Brasil”. São 21 ilhas e ilhotas, distantes 545 km da costa do Estado de Pernambuco. Apenas a maior das ilhas, Fernando de Noronha, é habitada e conta com uma população residente de menos de 3 mil pessoas. Nos períodos de alta temporada, o arquipélago é invadido por turistas – são mais de 90 mil visitantes por ano. Toda essa gente se espreme em pequenos hotéis, pousadas e casas de moradores, não se importando muito com a falta de conforto e de maiores recursos na ilha. Isso pouco importa para a maioria – os encantos do lugar e a beleza das praias valem todo e qualquer esforço. 

Como todo ilha, Fernando de Noronha tem recursos naturais limitados, especialmente quando se fala em água. Como é comum em muitas ilhas oceânicas, o arquipélago não possui nenhuma fonte natural de água -as reservas de água potável do arquipélago dependem das fortes chuvas de inverno. Historicamente,os moradores locais sempre dependeram dessa água, que era armazenadas em cisternas e cacimbas, ou se abasteciam de carregamentos de água trazidos por navios em momentos de crise hídrica. A falta desse precioso recurso foi um dos principais obstáculos para o povoamento do arquipélago. 

Existem diversas hipóteses sobre a descoberta das ilhas, por diferentes expedições, entre os anos de 1500 e 1504. Fernando de Noronha (ou Fernão de Loronha no original) foi um rico comerciante, empreendedor e armador português, que figurou entre os financiadores das primeiras expedições exploratórias dos recursos naturais das recém descobertas terras brasileiras, especialmente do pau-brasil. Em 1504, Dom Manuel I, o Rei Venturoso, doou para Fernando de Noronha o arquipélago, chamado na época de Ilhas de São João da Quaresma, em agradecimento aos seus serviços. Ele nunca visitou as ilhas, que acabaram sendo rebatizadas com seu nome.  

Isolado do continente e sem fontes de água, o arquipélago ficou abandonado por muito tempo, tendo sido invadido sucessivamente por holandeses, franceses e ingleses, que também não se estabeleceram. Em 1700, o arquipélago foi integrado à Capitania de Pernambuco. Foi somente no final do século XVIII que o arquipélago ganhou uma função específica: foi transformado em um presídio, função que se manteve até o final da década de 1950. Durante a II Guerra Mundial, o aeroporto da ilha de Fernando de Noronha foi cedido aos Estados Unidos e utilizado como base de reabastecimento para os aviões americanos que se dirigiam para os campos de batalha na África.  

Em 1988, o Governo brasileiro transformou o arquipélago em Parque Nacional Marinho e 70% de sua superfície passou a ser considerada APP – Área de Preservação Permanente. Em 2001, a UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, declarou o Arquipélago de Fernando de Noronha Patrimônio Natural da Humanidade. Como parte da estratégia de conservação ambiental, o Governo do Estado de Pernambuco limita o número de turistas que visitam Fernando de Noronha, cobrando, inclusive, uma Taxa de Preservação Ambiental. De acordo com informações do Site Oficial do Arquipélago de Fernando de Noronha, o valor da taxa em 2019 é R$ 73,52 por dia e deve ser pago no aeroporto no momento do desembarque ou pela internet.

O principal núcleo habitacional do arquipélago é a Vila dos Remédios, localizada na ilha de Fernando de Noronha. Essa ilha possui atualmente cerca de 40 poços e diversos açudes para abastecimento da população. No ano 2000, o Governo do Estado de Pernambuco instalou uma estação de dessalinização de água do mar com o objetivo de aumentar a oferta de água potável. Essa unidade passou  a fornecer cerca de 48 mil litros de água dessalinizada por hora, volume suficiente para abastecer 40% da população de Fernando de Noronha. A empresa responsável pelo abastecimento local de água está desenvolvendo um projeto para a ampliação da oferta de água dessalinizada

Entre as melhorias previstas destacam-se a instalação de novas tubulações, a construção de uma nova estação de bombeamento, a ampliação dos reservatórios, além da troca dos dessalinizadores por modelos mais modernos e eficientes. Com essas melhorias, a produção de água dessalinizada será ampliada em 50%, podendo chegar a 72 mil litros / hora. Existe ainda a expectativa de redução do consumo da energia elétrica utilizada no processo em 30%, algo fundamental para o arquipélago – a geração de energia elétrica em Fernando de Noronha é feita em unidades movidas a óleo diesel, um combustível caro que precisa ser “importado” do continente

A implantação da usina de dessalinização de água do mar em Fernando de Noronha foi um projeto pioneiro no Brasil, que ajudou a diminuir a dependência que a população tinha da água das chuvas. A temporada das chuvas no arquipélago é um evento natural que ocorre com razoável regularidade. Em alguns anos, porém, as chuvas tardavam a chegar, algo que sempre causava muita apreensão entre os moradores – viver isolado em uma ilha oceânica, sem acesso a água potável, é uma ideia bastante incômoda. Lendas e histórias reais de pessoas que morreram de sede em ilhas são bastante comuns no folclore local – uma dessas histórias ocorreu no Atol das Rocas, localizado a apenas 148 km de Fernando de Noronha. 

O Atol das Rocas é formado por pequenas ilhas de origem coralínea, que surgiram no topo de montanhas submarinas pertencentes à mesma formação geológica que originou as ilhas do arquipélago de Fernando de Noronha. Assim como acontece em Noronha, as ilhas do Atol das Rocas não dispõem de nenhuma fonte de água potável. Ao longo da história, ocorreram diversos naufrágios no local e muitos dos sobreviventes acabaram morrendo de sede enquanto aguardavam a chegada do socorro. O caso mais trágico aconteceu com a família do faroleiro da ilha em 1900. Um dos filhos desse homem deixou a torneira do reservatório de água aberta e todo o estoque de água das chuvas acabou se perdendo. Tempos depois, quando o navio da Marinha que levava os suprimentos chegou no Atol das Rocas, encontrou apenas o faroleiro vivo – a mulher e os filhos morreram de sede. 

O caso de Fernando de Noronha é um grande exemplo do uso da água dessalinizada para a complementação dos volumes de água necessários ao abastecimento de uma comunidade isolada. Acima de tudo, é uma garantia contra as eventuais mudanças climáticas globais e suas prováveis alterações nos ciclos de chuva. Ou seja, se as chuvas faltarem, a população tem segurança hídrica e a garantia de água para as necessidades mais básicas – enquanto a ajuda externa não chegar, de sede ninguém vai morrer!

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A DESSALINIZAÇÃO DA ÁGUA

filtros de osmose reversa

Ao longo das últimas postagens, apresentamos algumas informações sobre o uso da água dessalinizada em vários países ao redor do mundo. De acordo com informações divulgadas por empresas fabricantes de equipamentos e de usinas para dessalinização da água do mar, existem aproximadamente 14.000 plantas de dessalinização em funcionamento em 150 países diferentes. Cerca de 300 milhões de pessoas destes países bebem e usam água dessalinizada no seu dia a dia – esse número, para efeito de comparação, corresponde a 1,5 vezes a população do Brasil

Esses números mostram que o uso da água do mar para abastecimento de populações, há muito tempo, já deixou de ser uma ideia teórica é já uma realidade. Com o avanço da tecnologia de dessalinização nas últimas décadas e a possibilidade de se usar a energia de fontes renováveis como a fotovoltaica, abre-se uma larga gama de possibilidades para o abastecimento de populações que vivem em cidades e regiões com baixos estoques hídricos. E não estamos falando de pouca gente – trata-se de uma população calculada hoje em mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo.

O primeiro país a inaugurar uma planta de dessalinização de grande porte para abastecimento da população foi a Ilha de Curaçao, no Sul do Mar do Caribe, em 1928. Essa planta pioneira utilizava o processo de destilação térmica – a água do mar é aquecida até ferver e começar a evaporar – o vapor é interceptado por uma superfície fria, que faz com que a água volte ao estado líquido e livre de impurezas, num processo que lembra o ciclo natural da água. Apesar de funcional, esse processo demanda uma grande quantidade de energia. 

Ao longo das décadas seguintes, o processo de dessalinização da água do mar passou por uma série de aperfeiçoamentos técnicos. Esses projetos foram patrocinados por institutos de pesquisas públicos e privados, especialmente em centros de pesquisas militares ligados às Marinhas de diversos países. Essas instituições buscavam uma tecnologia eficiente para a produção de água potável nos navio de guerra, algo que aumentaria a autonomia das embarcações. O foco principal das pesquisas era o uso de filtros para a retirada do sal dissolvido na água – na década de 1960 surgiram os primeiros sistemas de filtragem por membranas de osmose reversa (vide foto). 

Essas membranas são construídas com polímeros que contém furos microscópicos, suficientemente pequenos para reter as partículas de sal e suficientemente grandes para a passagem das moléculas de água. Os furos têm um diâmetro de 0,2 nanômetros (1 nanômetro equivale a um bilionésimo de metro). Essa tecnologia é bem mais eficiente que a destilação térmica e gasta de 10 a 15 vezes menos energia para produzir a mesma quantidade de água dessalinizada. Nas usinas de dessalinização por osmose reversa, a energia elétrica é usada basicamente nos processos de bombeamento e, principalmente, na pressurização da água, que assim é forçada a atravessar a membrana. 

As maiores plantas de dessalinização de água do mar atualmente em operação estão instaladas no Oriente Médio, uma das regiões mais secas do mundo. Uma das maiores e mais modernas plantas fica localizada na costa da Mar Mediterrâneo, próximo da capital do Estado de IsraelTel Aviv. Essa usina produz atualmente mais de 600 milhões de litros de água dessalinizada por dia, o que é suficiente para abastecer 1/6 da população israelense. Utilizando gás natural como fonte de energia primária, essa usina israelense tem um custo de produção de US$ 0,70 por metro cúbico de água dessalinizada, um dos mais baixos do mundo. 

Outro exemplo de produção de água dessalinizada em grande escala é a planta de Ras al-Khair, no leste da Arábia Saudita. Essa planta tem capacidade para produzir 1 bilhão de litros de água dessalinizada por dia. A Arábia Saudita tem um grande território, com 2,1 milhões de km², formado basicamente por solos desérticos e ricos em petróleo, porém, com pouquíssimas fontes naturais de água. A implantação de usinas de dessalinização no país foi a forma encontrada para abastecer uma população que vinha crescendo rapidamente e atualmente está na casa dos 33 milhões de habitantes. 

Além dos custos financeiros decorrentes da compra de equipamentos e construção das plantas das usinas de dessalinização, os custos de operação são determinantes para a implantação de uma dessas unidades em uma região ou comunidade. Cerca de metade dos custos de operação se referem aos custos de energia – elétrica ou térmica (combustíveis fósseis). Esse custo terá reflexos diretos no valor da conta de água repassado para a população. Em uma das postagens dessa série, foi citado o caso da Ilha de Malta, localizada no Mar Mediterrâneo ao Sul da ilha italiana da Sicília. O custo proibitivo da conta de água força toda a população a reduzir o consumo de água em suas casas ao máximo possível. 

Um outro aspecto que deve ser levado em conta nos projetos para a implantação de plantas de usinas de dessalinização de água é o meio ambiente. Falando a grosso modo, para cada metro cúbico de água dessalinizada produzido gera-se, pelo menos, cerca de dois metros cúbicos de salmoura, água com altos níveis de concentração de sal e que precisa ser descartada no meio ambiente. Quando um ambiente marinho recebe uma descarga de água com altos níveis de sal, toda a vida marinha local fica prejudicada. Um outro problema desses efluentes é a alta temperatura (falando das unidades que usam o processo de destilação térmica), que pode ser altamente prejudicial a toda a cadeia de vida marinha de uma região costeira próxima do ponto de descarte dessa água. 

Um projeto piloto e bastante promissor, em fase de implantação na África do Sul, utiliza a energia elétrica produzida por uma central fotovoltaica para alimentar uma pequena usina de dessalinização de água do mar por osmose reversa. Utilizando exclusivamente a energia solar, essa unidade tem capacidade para produzir até 100 mil litros de água dessalinizada por dia, volume suficiente para atender a metade das necessidades da pequena cidade costeira de Witsand. Em caso de necessidade, a unidade pode ser conectada à rede elétrica local, passando a produzir água durante as 24 horas do dia, alcançando uma produção de até 300 mil litros diários. Essa combinação de usinas de dessalinização de pequeno porte e o uso de energia fotovoltaica pode ser altamente viável em localidades de clima árido e semiárido, com alta insolação e baixa disponibilidade hídrica, o que é o caso da região Nordeste do Brasil. 

A partir das próximas postagens vamos falar sobre alguns projetos já implantados e outros em estudo para implantação de usinas de dessalinização em diferentes regiões brasileiras. 

A CRISE HÍDRICA NA CIDADE DO CABO E A CHEGADA DA ÁGUA DESSALINIZADA

cidade do cabo

Há quase um ano atrás, publicamos uma postagem falando da gravíssima situação da Cidade do Cabo ou Cape Town, na África do Sul. Naquele momento, as barragens de abastecimento da cidade estavam com níveis próximos aos 20% em função de uma fortíssima seca iniciada em 2014. E para forçar a população a reduzir ainda mais o consumo, as autoridades estavam reduzindo a disponibilidade diária de água de 87 litros para apenas 50 litros por habitante. Felizmente, ao longo de 2018, a situação melhorou um pouco e algumas das barragens estão com níveis próximos dos 50% – a “luz amarela” ainda continua acesa e a população não pode abusar no consumo de água. 

A Cidade do Cabo é um dos destinos turísticos mais importantes da África do Sul, atividade que representa 10% do PIB do país. Com 4 milhões de habitantes, é a segunda cidade mais populosa do país, com forte participação na vida econômica e cultural da África do Sul. Mudanças climáticas no Oceano Índico ao largo da África e na Ásia, tem alterado o regime de chuvas em uma extensa região. Na África, essas mudanças se refletem em chuvas irregulares na faixa Leste e Sul do continente, o que vem provocando chuvas abaixo da média na África do Sul e secas em várias regiões, especialmente na Província do Cabo Ocidental, onde fica a Cidade do Cabo. 

Mesmo em situações de normalidade climática, a África do Sul é um país com recursos hídricos limitados: uma grande parte do território sul-africano é ocupada por áreas desérticas como o Kalahari, onde as temperaturas podem chegar aos 50° C, e por planaltos secos como o Karoo, além de áreas de savanas. Somente na faixa Leste do país, ao longo da divisa com Moçambique, onde predomina o clima subtropical com chuvas mais regulares, é que uma vegetação mais densa sobrevive. Comparando a grosso modo, o país teria a maior de sua superfície coberta pela Caatinga Nordestina e pelo Cerrado, com uma faixa semelhante à Zona da Mata no Leste. 

Durante os três anos de forte seca no país, surgiram diversas propostas e projetos para solucionar e/ou amenizar os efeitos da crise hídrica. Algumas dessas propostas eram bem curiosas. Uma dessas soluções, sugerida por um famoso especialista em navegação do país, propôs o envio de um navio cargueiro até as águas do Círculo Polar Antártico com a missão de capturar e rebocar um grande iceberg até o litoral da África do Sul. Segundo o cálculo desse “especialista”, o degelo controlado desse iceberg poderia produzir 150 milhões de litros de água doce por dia por até um ano. Felizmente, a proposta não foi levada a sério. 

O Governo sul-africano, já há vários anos, vinha trabalhando na implantação de três usina de dessalinização, criando assim fontes alternativas para o abastecimento das populações. A instabilidade política do país, com vários políticos de peso envolvidos em denúncias de corrupção, atrasou, e muito, o andamento desses projetos. No início de 2018, inclusive, o Presidente Jacob Zuma renunciou em meio a um processo de impeachment. Mesmo em meio a toda essa turbulência política, a primeira das três usinas de dessalinização foi inaugurada para testes em maio daquele ano. 

Localizada na região de Strandfontein, nas proximidades da Cidade do Cabo, essa usina iniciou suas operações com uma produção diária de 3 milhões de litros, água que passou a ser injetada diretamente no sistema de distribuição da rede pública. Em dezembro último, vencidas todas as etapas de teste e de controle de qualidade, a usina de dessalinização passou a operar com capacidade plena, produzindo 7 milhões de litros de água dessalinizada por dia. Quando as outras duas usinas de dessalinização previstas estiverem prontas e em operação, a contribuição total de água dessalinizada vai superar a marca dos 20 milhões de litros diários. Esse volume supre apenas parte da demanda diária da Cidade do Cabo, mas vai ajudar a poupar os volumes de água dos reservatórios, ajudando a prevenir futuras situações de colapso no abastecimento da população. 

Um outro projeto piloto bem interessante de uma usina de dessalinização está em andamento em Witsand, uma cidade costeira a cerca de 250 km da Cidade do Cabo. O projeto está sendo implantado por uma empresa francesa e vai utilizar a técnica de osmose reversa. A planta terá capacidade para dessalinizar um volume diário de 100 mil litros de água, o suficiente para atender metade das necessidades da pequena cidade. O diferencial dessa usina será o uso da energia de uma usina solar instalada nas redondezas, com uma potência instalada de 70 kW. Conforme apresentamos em outras postagens dessa série, o custo da energia elétrica responde, em média, por metade dos custos de operação de uma usina de dessalinização – o uso de energia de uma fonte renovável e limpa tende a reduzir esse custo, além de reduzir o impacto ambiental (quando comparado a outras fontes de energia). 

Em caso de necessidade, essa usina de dessalinização poderá ser conectada à rede elétrica local, passando a operar 24 horas por dia e elevando a produção diária para 300 mil litros de água dessalinizada. A planta também permite o tratamento de esgotos e de águas cinzas para uso em sistemas de irrigação agrícola. O custo desse projeto piloto é de US$ 700 mil e está prevista a construção de mais três unidades de teste em outras cidades costeiras.  

Essa proposta, de pequenas unidades de dessalinização alimentadas por energia fotovoltaica para uso em pequenas comunidades costeiras, merece a nossa atenção – elas podem ser uma solução para o abastecimento de água em dezenas de pequenas cidades do Nordeste brasileiro. 

Sol forte e praias existem de sobra na região. 

A PRESSÃO TURÍSTICA NAS ILHAS BALEARES DA ESPANHA

ibiza

Uma outra região insular do Mar Mediterrâneo que sofre com a carência de recursos hídricos são as Ilhas Baleares, um arquipélago que pertence a Espanha. As Baleares, ou Balears em catalão, são formadas por quatro grandes ilhas: Maiorca, Minorca, Ibiza e Formenteira, além de diversas ilhas menores e ilhotas. Assim como acontece no arquipélago de Malta, as Ilhas Baleares não dispõem de fontes superficiais de água como rios e lagos. Desde da antiguidade, os diversos povos que habitaram essas ilhas sempre dependeram da água das chuvas, que ocorrem em abundância durante os meses de inverno, e da exploração das águas subterrâneas a partir de poços para o consumo familiar e para a agricultura. 

Em décadas mais recentes, as Ilhas Baleares seguiram na esteira de Barcelona e acabaram transformadas em sofisticados destinos turísticos da Europa. O forte sol, que brilha cerca de 285 dias a cada ano, as inúmeras praias e as descoladas baladas organizadas por diversos clubes e bares das principais cidades (vide foto), passaram a atrair verdadeiras multidões para as ilhas – são cerca de 10 milhões de visitantes a cada ano, um número várias vezes superior à população total das ilhas, que está atualmente na casa de 1 milhão de habitantes. As Baleares possuem uma área total de 4.992 km², mas os principais destinos turísticos estão concentrados na região da baía de Palma, na ilha Maiorca, e em Ibiza, ilhas que convivem com sérios problemas nos serviços de abastecimento de água. 

As fontes tradicionais de abastecimento de água, os poços e as cisternas de armazenamento da água da chuva, só conseguem suprir metade do consumo atual das Ilhas Baleares – há várias décadas que vem sendo necessário se recorrer aos sistemas de dessalinização de água do mar para se conseguir complementar o abastecimento das populações. As particularidades das Baleares, entretanto, apresentam desafios que extrapolam a simples oferta de maiores volumes de água potável. 

Usinas de dessalinização da água do mar estão em operação na ilha Maiorca desde 1999, abastecendo as cidades de Palma de Maiorca, Calvia Andraix, onde vive uma população fixa de 345 mil habitantes. A água dessalinizada, obtida através de filtragem por osmose reversa, é injetada diretamente nos solos para reforçar o nível dos lençóis freáticos. Os solos da ilha são formados por rochas calcárias – caso o nível das reservas subterrâneas de água atinja níveis muito baixos, existe um crescimento da infiltração de água do mar e um aumento da salinização da água, que se torna salobra e imprestável para o consumo. Com o aumento explosivo do fluxo de turistas para a ilha nos últimos anos, essa manobra não tem sido mais eficiente e, em algumas regiões, as residências retiram águas dos poços com níveis de sal acima do recomendável. Famílias acabam forçada a consumir apenas água mineral, um produto que nos momentos de pico do turismo, chega a custar 12 Euros a garrafa. 

Na ilha de Ibiza, a mais badalada e famosa de todas as Baleares, a situação é mais caótica. A ilha conta com três usinas de dessalinização, além de diversas unidades menores instaladas nos hotéis, que não dão conta de abastecer toda a população local, na casa de 140 mil habitantes, e de turistas, que superam a cifra de 4 milhões de visitantes a cada ano – no mês de agosto, auge do verão europeu, essa cifra atinge a marca de 1,1 milhão de turistas. A produção de água dos aquíferos e das usinas de dessalinização não é suficiente para atender toda essa demanda. Como acontece na ilha de Maiorca, a água do mar acaba se infiltrando nos aquíferos e a água das torneiras fica com um gosto horrível. Por outro lado, essa verdadeira horda de turistas injeta mais de 20 bilhões de Euros na economia de Ibiza, o que corresponde a mais de 70% do PIB – Produto Interno Bruto. Ou seja, o mesmo turista que torna a vida na ilha insuportável é o mesmo que faz a economia local funcionar

Durante o período da temporada, que vai de abril até o início de novembro, os aeroportos das Ilhas Baleares chegam a receber até 1.500 voos diários, com aviões vindos de todas as partes da Europa e do mundo. A espera de toda essa multidão de visitantes, agências disponibilizam cerca de 90 mil carros para locação, o que transforma as ruas e estradas num verdadeiro caos. Muitos turistas chegam nas ilhas em embarcações, que superlotam os mais de 24 mil atracadouros das marinas. Hotéis e restaurantes, com uma frequência altíssima, passam a pendurar placas de “LOTADO” nas suas portas.  

Na esteira de toda essa massa de turistas, bares, restaurantes, hotéis, hospedarias e outros estabelecimentos de comércio e serviço abrem milhares de postos de trabalho temporário, chegando a empregar entre 70 e 80 mil trabalhadores, vindos de toda a Espanha e de países vizinhos. Esses trabalhadores se amontoam em pequenos apartamentos, que acabam compartilhados por até 12 pessoas, onde cada morador chega a pagar um aluguel de mais de 500 Euros para dormir em uma cama apertada ou num sofá. Muitos cidadãos das Baleares se mudam para cidades da Espanha durante os meses de férias e alugam seus apartamentos e casas para esses trabalhadores sazonais. 

Muitos desses “trabalhadores de verão” não têm condições de pagar os preços proibitivos desses aluguéis e, como alternativa, passam a pernoitar em barracas de camping, montadas em bosques próximos das cidades. Alguns, mais afortunados, conseguem passar as noites em carros ou caminhonetes, emprestados por alguma pessoa conhecida. Nesses locais, surge um problema de higiene básica: na falta de banheiros para toda essa população errante, essas pessoas passam a “defecar e a urinar ao ar livre”, um problema comum em países pobres e subdesenvolvidos do mundo, mas já superado há vários séculos pelos países europeus. Também ocorre o descarte irregular de lixo e de todo o tipo de resíduos, transformando muitos desses bosques em lixões a céu aberto. 

O colapso dos sistemas de abastecimento de água nas Ilhas Baleares tem sua origem na “superpopulação de turistas” e, como demonstrado, isso é apenas a ponta do iceberg dos problemas vividos pelas populações locais. Além da falta crítica de água dos períodos de alta temporada, as populações das cidades e vilas das Ilhas Baleares também sofrem com a falta de médicos, radiologistas, anestesistas, enfermeiros, policiais, bombeiros, entre outros profissionais das áreas de serviço e de atendimento ao público. Problemas nos transportes e serviços de coleta de lixo, abastecimento de eletricidade, gás e alimentos completam o quadro caótico. 

A dessalinização da água do mar consegue resolver muitos dos problemas de abastecimento em vários lugares áridos do mundo. No caso das Ilhas Baleares, isso só será possível com uma pouco provável limitação do número de visitantes. 

É esperar para ver o que acontecerá. 

 

A ARIDEZ DA ILHA DE MALTA E A DEPENDÊNCIA DA ÁGUA DESSALINIZADA

malta

O pequeno arquipélago de Malta, localizado a pouco mais de 90 km ao Sul da Sicília no Mar Mediterrâneo, é considerado um dos países mais secos do mundo. Ocupando uma área de 316 km², Malta é um dos menores países da Europa e também o que possui a maior densidade demográfica – são cerca de 430 mil habitantes, o que dá 1.360 habitantes para cada km². Malta tem gente demais para água de menos. 

De acordo com evidências arqueológicas, o arquipélago é habitado desde o quinto milênio antes de Cristo. Sem rios, lagos ou qualquer outra fonte superficial de água, os malteses sempre dependeram da escavação de poços e do armazenamento da água das chuvas em cisternas para o abastecimento de suas casas e a irrigação de suas plantações. Essa é uma situação que se repete com frequência em outras ilhas do Mediterrâneo. 

Apesar dessa absoluta escassez de água, a localização estratégica de Malta acirrou a cobiça de inúmeros povos desde a antiguidade. O arquipélago já foi dominado por fenícios, gregos, romanos, árabes, mouros, normandos, aragoneses e depois por espanhóis. Também entram na lista a Ordem dos Cavaleiros de São João, os franceses e, por fim, os britânicos. Em 1964, Malta obteve a independência do Reino Unido e passou a ser um membro da Commonwealth, a Comunidade Britânica de Nações. Desde 2008, Malta faz parte da Comunidade Europeia. 

Durante a maior parte de sua longa história, os povos de Malta se valeram exclusivamente da pouca água que conseguiam retirar dos escassos lençóis freáticos das Ilhas e da água das chuvas, que sempre foi acumulada em cisternas e usada pelas famílias – toda casa das ilhas contava com sua própria cisterna. Nas últimas décadas, com o crescimento da população e o aumento da pressão dos agricultores por mais água, o Governo local foi obrigado a se voltar para as águas do Mar Mediterrâneo – desde 1982, o arquipélago de Malta vem utilizando água dessalinizada para o abastecimento de sua população e para uso em sistemas de irrigação agrícola. Atualmente, são três usinas de dessalinização instaladas em pontos diferentes das ilhas, que respondem por 70% da água consumida. 

Uma dessas usinas de dessalinização fica na região de Pembroke e produz até 35 mil metros cúbicos de água por dia, uma operação que demanda um consumo de energia elétrica da ordem de 100 mil quilowatts a cada dia. A geração de energia elétrica no arquipélago de Malta é feita por usinas termelétricas a carvão e a gás, combustíveis caros que precisam ser importados e que resultam em contas de energia elétrica bem elevadas para a população. Os malteses são verdadeiros experts na economia de água e de energia elétrica em suas casas. 

A opção pela construção de três usinas de dessalinização em locais diferentes ao invés de uma única usina de grande porte foi feita por razões de segurança e de proteção ao meio ambiente. Todos os combustíveis e derivados de petróleo utilizados no arquipélago de Malta têm de ser importados de outros países e, nas operações de descarga desses produtos, já ocorreram vários acidentes seguidos de derramamentos no mar. Com a distribuição da dessalinização em três usinas diferentes, o risco de fechamento de uma unidade por contaminação da água do mar não compromete o abastecimento da população. Outra razão para essa descentralização é o descarte de efluentes com altos níveis de salinidade pelas usinas, que são feitos em três locais diferentes, em volumes menores e com menores riscos de dano à vida marinha. 

Como acontece em todo o mundo, cerca de 70% do consumo de água nas ilhas fica por conta da agricultura. Para evitar desperdícios de água nas atividades agrícolas, o Governo de Malta passou a implementar uma série de políticas para estimular o aproveitamento da chamada água de reúso na agricultura. Essas águas são resultantes do processo de tratamento dos efluentes nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos, e apresentam um custo bem mais baixo para os agricultores. Também existem diversas experiências com novos sistemas de cultivos em estufas e com baixo consumo de água. Outra frente de trabalho das autoridades de Malta foi a modernização das tubulações da rede de distribuição de água potável nas cidades, no sentido de reduzir as perdas por vazamentos. O consumo per capita de água em Malta é, atualmente, um dos mais baixos da Europa – são aproximadamente 110 litros de água por habitante / dia

Em anos recentes, graças ao bom nível de desenvolvimento econômico que Malta vem apresentando, cerca de 50 mil cidadãos de outros países europeus vieram morar no arquipélago. Acostumados com níveis de consumo de água bem mais altos do que a média dos cidadãos malteses, esses novos moradores passaram a pressionar o consumo de água nas ilhas. Outra fonte de pressão é formada pelos turistas, que somam perto de 40 mil visitantes ao ano. Não podem ficar dessa lista os estudantes de língua, que são muitos. Como o inglês é a segunda língua oficial do país (a língua oficial é o maltês, a única língua de origem semítica da Europa), Malta recebe um número cada vez maior de estudantes de intercambio, que vêm até ao arquipélago para estudar a língua inglesa a preços mais baixos que nas ilhas britânicas. 

A capital de Malta, a cidade de Valeta, foi fundada pela Ordem dos Cavaleiros de São João em meados do século XVI. Essa ordem, chamada oficialmente de Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, nasceu ligada a monges beneditinos e surgiu originalmente na Palestina no século XI. A ordem deixou o Oriente Médio no ano de 1291 e se estabeleceu em diversas ilhas do Mar Mediterrâneo antes de se estabelecer definitivamente em Malta. Essa ordem militar e religiosa estabeleceu regras rígidas para a população da cidade, sendo que uma dessas regras era a obrigatoriedade de construção de cisternas para armazenamento de água das chuvas em todas as casas da cidade. Durante séculos, essa regra garantiu o abastecimento de água das famílias. 

Uma típica família de Malta costuma suprir entre 40 e 50% das suas necessidades diárias com a água das chuvas que foi armazenada em sua cisterna. Essa água é usada nos vasos sanitários, nas lavagens de pisos, quintais e veículos, entre outros usos que não requeiram a água potável. Essa é uma forma de reduzir os altíssimos custos das contas de água. Em anos mais recentes, em função do crescimento da população e também da presença de turistas em número cada vez maior, as novas construções residenciais e hoteleiras feitas na cidade de Valeta, e também em outras cidades das ilhas, abandonaram esse antigo costume de se construir as cisternas. Com isso, há uma pressão cada vez maior pela produção e distribuição de água dessalinizada. 

As famílias costumam comprar garrafas de água mineral, vindas na sua maior parte da Itália e da França, para cozinhar alimentos e para se beber, algo que nos dá uma ideia do alto custo de vida no país. A água dessalinizada que é servida para a população, apesar de todo o controle de qualidade feito nas usinas, apresenta altos índices de calcário, o que produz alterações no seu sabor – por isso, o costume da compra de água mineral. 

Em Malta, como acontece em muitos outros lugares que usam sistemas de dessalinização, a água deixa um “sabor” desagradável na boca e um rombo no bolso dos consumidores. 

AINDA FALANDO DOS ACIDENTES COM ESCORPIÕES

escorpião no entulho

Na última postagem falamos sobre o altíssimo número de acidentes com escorpiões aqui no Brasil – segundo dados do Ministério da Saúde, foram 141.400 notificações em 2018. Afirmamos também que problemas de saneamento básico estão na raiz do problema. Como esse blog se dedica à educação ambiental e à divulgação de conhecimentos na área dos recursos hídricos e do saneamento básico, vamos falar um pouco mais sobre esse assunto. 

De acordo com as informações disponíveis, metade dos acidentes com escorpiões ocorrem nos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Essa grande concentração de acidentes se deve a dois fatores principais: a grande população e as taxas de urbanização desses Estados. São Paulo é o Estado mais populoso do Brasil e conta com uma população de 44 milhões de habitantes; Minas Gerais fica com a segunda posição em termos de população, se aproximando dos 21 milhões de habitantes

Esses dois Estados também possuem a maior concentração de cidades do país: são 853 cidades em Minas Gerais e 645 no Estado de São Paulo. Além das cidades sedes dos municípios, existem centenas e mais centenas de agrupamentos humanos em distritos espalhados pelas áreas rurais, o que só faz aumentar os índices de população vivendo em áreas urbanas. 

Um outro número interessante dos dados das ocorrências de acidentes com escorpiões é o perfil das vítimas: a maior parte das vítimas é do sexo masculino, na faixa etária entre 25 e 65 anos. O local onde os escorpiões picaram essas vítimas é na maior parte dos casos nos membros superiores. Confrontando essas informações com as características dos habitats preferidos pelos escorpiões – locais com pedras e entulhos, quentes e úmidos, percebemos que as vítimas são trabalhadores da construção cívil, da agricultura, de empresas madeireiras e ainda profissionais que trabalham em depósitos de armazenamento de materiais. Todos os ambientes de trabalho desses profissionais reúnem características muito próximas dos habitats naturais dos escorpiões.

Uma outra característica, essa dos trabalhadores, também reforça as suspeitas: os trabalhadores brasileiros não gostam de usar EPIs – Equipamentos de Proteção Individual, algo que já tratamos em uma postagem anterior. Dois itens de segurança, as luvas de proteção e as camisas de mangas compridas, se fossem devidamente utilizados, reduziriam sensivelmente esse número de acidentes com esses animais peçonhentos.

A maior incidência de acidentes com escorpiões são os meses de calor e chuvas, que na região Centro-Sul do Brasil (formada pelas regiões Sul, Sudeste menos o Norte de Minas e a parte mais ao Sul da região Centro-Oeste) ocorre entre os meses de novembro e março. Com a chegada das chuvas, escorpiões que se abrigam em tubulações e galerias subterrâneas dos sistemas de drenagem de águas pluviais das cidades saem em busca de locais mais confortáveis, podendo assim entrar em quintais e até mesmo no interior dos imóveis. Essa proximidade maior com os animais aumenta os riscos de acidentes nas residências. 

A imensa maioria dos acidentes com escorpiões não são fatais, apesar de muitas vezes produzir uma dor intensa na região onde ocorreu a picada. Os casos de morte equivalem a 0,58% (algumas fontes dão outro número – 0,15%) dos acidentes, ocorrendo na grande maioria dos casos em crianças pequenas e em idosos debilitados por doenças. As consequências da picada de um escorpião dependem da espécie e da quantidade de veneno inoculado (lembrando aqui que o escorpião-amarelo é a espécie mais venenosa da América do Sul e a responsável pela imensa maioria dos acidentes fatais), da quantidade de picadas, do tamanho e da massa corporal da vítima, além do tempo decorrido entre o acidente e o início do atendimento médico. 

Na falta de uma melhor cobertura dos serviços de saneamento básico nas cidades brasileiras, especialmente dos serviços de coleta e destinação dos resíduos sólidos, existem várias medidas “caseiras’ que auxiliam no controle das populações de escorpiões. Esses animais são criaturas noturnas, que passam o dia inteiro escondidas em locais escuros e úmidos – é bastante raro ver um espécime andando a luz do dia. É durante as noites que esses animais saem para caçar os seus alimentos, formado basicamente por insetos como baratas e grilos; justamente nesses períodos é que existe a maior probabilidade de um escorpião entrar em uma casa. Se possível, instale portas de tela e também telas nas janelas – assim é possível manter a casa ventilada e protegida desses animais. 

Outra medida bastante eficiente é manter os ralos da casa e os drenos de água pluviais devidamente protegidos. Existem inúmeras opções de ralos no mercado com tampa e fecho hídrico, que manterão o interior das casas devidamente protegidos da entrada dos escorpiões. As saídas de águas pluviais normalmente são protegidas por grades – instale um pedaço de tela plástica ou metálica nessas grades. 

Um bom conselho é manter os quintais limpos e evitar o acúmulo de objetos – pneus velhos, tijolos, telhas, madeiras, garrafas, eletrodomésticos quebrados, carcaças de veículos, entre outras “tranqueiras”. Esses resíduos são duplamente perigosos – eles tanto podem oferecer ótimos abrigos para famílias inteiras de escorpiões quanto podem acumular a água das chuvas e se transformar em criadouros de mosquitos como o perigoso Aedes Aegypti, transmissor de inúmeras doenças como a dengue, a Chikungunya e Zica vírus, entre outras. Se o quintal da casa possuir um gramado, esse deverá cortado e aparado regularmente. 

Também é fundamental que as populações evitem o descarte inadequado de lixo e resíduos da construção civil em terrenos baldios e nas ruas. O acúmulo desses resíduos recria artificialmente os habitas naturais dos escorpiões, que na natureza costumam se abrigar sob pedras, troncos de árvores e em fendas naturais. No meio do lixo sempre se encontram restos de alimentos que atraem as baratas – os escorpiões adoram comer baratas e sempre terão preferência por moradias próximas de suas “áreas de alimentação”. Quando populações de um bairro ou de uma rua fazem o descarte de resíduos em terrenos baldios e em ruas estão, literalmente, convidando os escorpiões para viver em sua vizinhança. Daí para a ocorrência de um acidente “é só um pulo”. 

Para finalizar, um outro ponto importante – está se observando um aumento da área onde se encontram os escorpiões-amarelos. É possível se supor que isso se deve ao transporte de cargas entre as regiões, especialmente por via terrestre. Os animais entram em caixas com produtos e, assim, acabam se espalhando como “passageiros clandestinos” por outras regiões. Recomenda-se que os armazéns onde essas cargas ficam armazenadas pratiquem as mesmas medidas de isolamento que recomendamos para as residências – portas e janelas com telas, ralos e drenos de águas pluviais bem tampados e protegidos por telas, além de se evitar ao máximo o acúmulo de resíduos nos terrenos. 

Quando o assunto são os escorpiões, todo o cuidado é pouco.