BARCELONA E O USO DA ÁGUA DESSALINIZADA PARA O ABASTECIMENTO DE SUA POPULAÇÃO

barcelona

Sempre que falamos do uso de água dessalinizada, a primeira imagem que parece vir às nossas mentes são lugares distantes e desérticos, com sol escaldante e rios secos. Os mais maldosos costumam chamar esses lugares ermos de “fim-do-mundistão”. Imaginar que cidades famosas e sofisticadas da Europa necessitem usar a água dessalinizada do mar parece algo surreal. 

Mas, acreditem ou não, isso acontece. A descolada Barcelona é um exemplo disso. É a maior cidade da Europa abastecida com água dessalinizada – cerca de 20% da população da região metropolitana de Barcelona utiliza esse tipo de água. A construção da usina de dessalinização da cidade foi concluída em 2009 e foi a solução encontrada para resolver um problema muito antigo: a pouca oferta de recursos hídricos na região. 

Ao contrário do que muitos imaginam, não são todas as regiões da Europa que são verdejantes, com extensos campos cobertos por plantações de trigo, cevada e alfazema. Países do Sul do continente como Grécia, Itália, Portugal, Chipre, Espanha e o Sul da França apresentam áreas de clima árido e semiárido, com baixa disponibilidade de água. O clima local é fortemente influenciado pela proximidade com o Norte da África, onde se encontra o maior deserto do mundo – o Saara. Grandes cidades europeias ao largo do Mar Mediterrâneo sofrem periodicamente com a escassez de água – e Barcelona é um grande exemplo disso. 

Barcelona tem suas origens perdidas na antiguidade – os primeiros vestígios de ocupação humana se situam entre 2.000 e 1.500 anos antes de Cristo, quando povos iberos se instalaram na região. Algumas lendas contam que a cidade foi fundada pelo mitológico herói grego Hércules cerca de quatrocentos anos antes da fundação de Roma. Outras fontes dizem que a cidade foi erigida pelo general cartaginês Amilcar Barca, durante a sua campanha para a conquista da Hispânia por volta do ano 220 a. C. O que se tem de concreto é que Barcelona já foi dominada por romanos, franceses, árabes e, finalmente, por espanhóis. Apesar de toda essa longa história de conquistas por diversos povos, os barcelonenses sempre mantiveram a sua identidade catalã. 

A moderna Barcelona, que é atualmente um dos maiores destinos turísticos da Europa e do mundo, tem suas “origens” em décadas bem mais recentes. Após um curto apogeu econômico no século XIX, quando foi um importante centro industrial e tecnológico da Espanha, a cidade enfrentou um longo período de ostracismo e decadência ao longo da maior parte do século XX, especialmente na época da ditadura do Generalíssimo Francisco Franco. Essa decadência só começou a ser revertida em meados da década de 1980, período em que a cidade iniciou um intenso processo de revitalização com vistas à realização dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. 

O gigantesco projeto de revitalização urbano implementado em Barcelona foi focado em dois eixos principais: a infraestrutura de saneamento básico, com vistas a despoluição dos rios e praias; outro foco dos esforços foi a revitalização da antiga zona portuária da cidade, onde seria construída a Vila Olímpica, que após os Jogos seria transformada em uma zona residencial. De acordo com os dados disponíveis, apenas 1/3 do orçamento para a realização dos Jogos Olímpicos foi gasto em instalações esportivas – a maior parte dos investimentos foram alocados nas obras de revitalização urbana da cidade

Conforme estas obras avançavam, passaram a ser implementados vários projetos de revitalização de edifícios e construções históricas em importantes áreas da cidade. Todo esse conjunto de esforços do poder público estimulou empresas privadas dos ramos de hotelaria, turismo, alimentação e serviços a aumentarem seus investimentos na cidade, criando assim um efeito em cascata que contaminou, positivamente, toda a economia de Barcelona e cidades do entorno. Para se ter uma ideia das consequências dessa verdadeira “recauchutagem” urbana, Barcelona recebia pouco mais de 5 milhões de visitantes em 2005 – em 2017, foram 32 milhões de visitantes. O turismo é responsável por cerca de 14% das riquezas da cidade e pela geração de 65 mil empregos

Esse explosivo crescimento, inclusive, acabou se transformando no maior problema da cidade, de acordo com uma pesquisa realizada entre os moradores. A população local, que se encontra na casa de 5 milhões de habitantes – sendo 1,6 milhão em Barcelona, aumenta exponencialmente na alta temporada, o que satura completamente a infraestrutura da cidade, desde os serviços de água e esgoto até os sistemas de transporte, telefonia e eletricidade. Esse é um problema muito conhecido em várias regiões aqui no Brasil, especialmente em cidades litorâneas, que nos feriados e meses de férias sofrem um verdadeiro inchaço devido ao grande número de turistas. 

Toda a região de Barcelona sempre teve problemas no abastecimento de água de sua população, sendo que em algumas ocasiões foram necessárias medidas de racionamento. Na década de 2000 a situação chegou a um ponto crítico e, em vários momentos, foi necessária a importação de água da França, que foi feita através de navios-tanque. Esses problemas se agravaram ainda mais devido ao aumento do fluxo de turistas, especialmente nos meses mais críticos no verão. 

Com o início da operação da usina de dessalinização da água do mar, a região de Barcelona ganhou um reforço – essa água chega a abastecer uma população de aproximadamente 1 milhão de habitantes. Porém, como sempre acontece, essa água tem um custo de produção alto, além de todos os investimentos que precisaram ser feitos para a implantação da infraestrutura da usina de dessalinização. As contas de água dos moradores locais tiveram aumentos entre 50% e 70%, o que causou e ainda causa enormes protestos. Para muitos “barcelonins”, os culpados por esse aumento no custo de suas contas de água são os milhões de turistas que visitam a região todos os anos, o que explica o resultado da pesquisa citada a pouco. 

Apesar de todos os esforços feitos para controlar a qualidade da água dessalinizada servida à população da região de Barcelona, os altos custos dessa água ainda deixam um sabor amargo na boca de muita gente.

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