OS ATAQUES DE ESCORPIÕES E OS PROBLEMAS DE SANEAMENTO BÁSICO

escorpiao-amarelo

Na última sexta-feira, dia 11 de janeiro, o Ministério da Saúde divulgou uma nota tratando do aumento do número de ataques de escorpiões aqui no Brasil em 2018. Como esse assunto está ligado diretamente aos nossos problemas de saneamento básico, vamos fazer uma pausa nas postagens sobre o uso da água dessalinizada

A gritante falta de investimentos em saneamento básico em nossos país, que já está na raiz de uma série de problemas de problemas de saúde pública e de baixa qualidade de vida, agora está nos atingindo através da invasão dos escorpiões em nossas cidades e na explosão dos chamados incidentes com esses animais. 

De acordo com a nota oficial do Ministério, foram registrados 141.400 acidentes com escorpiões em todo o Brasil ao longo de 2018. Esse número representa um aumento de 16 mil ocorrências em relação aos números de 2017 e, quando comparado aos ataques registrados em 2016, o crescimento foi de 50 mil ocorrências. O número de mortes decorrentes desses incidentes em 2018 ainda não foi fechado – foram 115 mortes em 2016 e 88 em 2017. 

Escorpiões são animais invertebrados que pertencem à ordem dos Scorpiones e enquadrados na classe dos aracnídeos, a mesma das aranhas. Existem mais de 2 mil espécies de escorpiões em todo o mundo, a exceção do continente Antártico. Esses animais geralmente têm hábitos noturnos, passando a maior parte do dia escondidos sob pedras, troncos e cascas de árvores. Na natureza, seus maiores predadores são as cobras, lagartos, sapos e aves noturnas como as corujas. Em ambientes urbanos, os escorpiões se valem dos terrenos baldios com lixo e entulho como habitats. Como não encontram predadores naturais nos meios urbanos, esses animais se multiplicam sem controle. 

As espécies mais comuns no Brasil são Tityus bahiensis, Tityus stigmurus, Tityus trivittatus, Tityus cambribge e a Tityus serralatus, essa última é a que causa o maior número de acidentes graves, sendo conhecida popularmente como escorpião-amarelo (vide foto). Essa espécie de escorpião é considerada a mais venenosa da América do Sul, sendo encontrada com maior frequência nas regiões, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país. As vítimas fatais mais comuns das picadas desses animais são as crianças menores de 7 anos e os idosos com organismo debilitado. De acordo com estudos realizados pelo Instituto Butantã de São Paulo, cerca de 75% dos acidentes com escorpiões ocorrem em áreas urbanas. A abrangência geográfica dos escorpiões-amarelos também vem crescendo ao longo dos últimos anos, o que é um motivo a mais para as preocupações.

O avanço dos desmatamentos por todo o país e o crescimento desordenado das cidades estão entre as principais causas da migração dos escorpiões para as áreas urbanas. O “sucesso” obtido pelos escorpiões na colonização das cidades está baseado principalmente na nossa falta de infraestrutura de saneamento básico. O acúmulo de lixo e entulho em ruas e terrenos baldios cria os habitats adequados para a moradia desses animais, proporcionando bons abrigos – quentes e úmidos como eles gostam. Aqui há um detalhe importante: as fêmeas dos escorpiões têm, em média, 20 filhotes a cada ano, crias essas que, bem abrigadas e alimentadas, têm todas as condições de chegar à idade adulta, quando os animais atingem a maturidade sexual. Outro número alarmante – ao longo de sua vida, uma fêmea de escorpião poderá produzir até 160 descendentes

Com relação à alimentação, escorpiões são vorazes predadores de insetos, especialmente uma espécie encontrada em abundância nas áreas urbanas – as baratas. Conforme já discutimos em publicações anteriores, as baratas encontram fartura de alimentos nas redes de esgoto das nossas cidades, especialmente a gordura que fica grudada nas paredes das tubulações. Essa gordura vem de restos de óleos comestíveis que são jogados inadvertidamente nas pias e também dos restos de gordura animal nos pratos e panelas, que são eliminados durante as lavagens.  

Em contato com a água fria, essa gordura solidifica e fica à espera das baratas para  verdadeiros banquetes. O uso de caixas de gordura nas saídas das pias das cozinhas é a forma mais adequada de se controlar esses despejos de gordura nas redes de esgotos e, consequentemente, das populações de baratas. Um outro problema ligado diretamente aos acúmulos de gordura são os entupimentos das redes de esgotos, algo que cria inúmeros transtornos para as populações. 

O saneamento básico pode ser definido como o conjunto de serviços que garantem as condições de higiene e saúde da população ou série de medidas que tornam uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de vida para uma população ou para a agricultura. Esses serviços ou medidas são: abastecimento de água, sistemas de drenagem de águas pluviais (chuva), serviços de limpeza urbana e coleta/destinação de lixo e resíduos sólidos, além dos sistemas de coleta e de tratamento de esgotos. Há um quinto serviço que está contido nos demais serviços.  – o controle de pragas e vetores: ratos, baratas, mosquitos, pulgas entre outros, além dos perigosos escorpiões. E, como todos sabem, nossas cidades falham muito em todos esses serviços.

Na falta de medidas mais concretas para o controle das populações de escorpiões, as autoridades do Ministério da Saúde fazem as seguintes recomendações:

  • Use telas em ralos no chão, pias e tanques; 
  • Procure vedar possíveis frestas nas paredes e colocar soleiras nas portas; 
  • Afaste camas e berços das paredes; 
  • Faça uma checagem em roupas e sapatos antes de vestir ou calçar, para se certificar de que nenhum inseto entrou; 
  • Mantenha jardins e quintais livres de entulhos, folhas secas e lixo doméstico; 
  • Guarde o lixo da casa em sacos bem fechados, pois os resíduos podem atrair baratas, que servem de alimento para o escorpião; 
  • Não descarte lixo e entulhos em vias públicas e em terrenos baldios;
  • Mantenha a grama aparada; 
  • Evite colocar a mão em buracos, embaixo de pedras ou em troncos apodrecidos; 
  • Use luvas e botas para manusear entulho, madeiras e materiais de construção, por exemplo; 
  • Se morar em área rural, procure preservar os predadores naturais dos escorpiões, especialmente lagartos, sapos, e aves noturnas, como as corujas; 
  • Evite usar pesticidas, pois eles não têm eficácia comprovada para controlar o animal em ambientes urbanos.;
  • Instale caixa de gordura na saída da pia do seu imóvel, controlando assim a população de baratas e, consequentemente as populações de escorpiões na sua vizinhança.

BARCELONA E O USO DA ÁGUA DESSALINIZADA PARA O ABASTECIMENTO DE SUA POPULAÇÃO

barcelona

Sempre que falamos do uso de água dessalinizada, a primeira imagem que parece vir às nossas mentes são lugares distantes e desérticos, com sol escaldante e rios secos. Os mais maldosos costumam chamar esses lugares ermos de “fim-do-mundistão”. Imaginar que cidades famosas e sofisticadas da Europa necessitem usar a água dessalinizada do mar parece algo surreal. 

Mas, acreditem ou não, isso acontece. A descolada Barcelona é um exemplo disso. É a maior cidade da Europa abastecida com água dessalinizada – cerca de 20% da população da região metropolitana de Barcelona utiliza esse tipo de água. A construção da usina de dessalinização da cidade foi concluída em 2009 e foi a solução encontrada para resolver um problema muito antigo: a pouca oferta de recursos hídricos na região. 

Ao contrário do que muitos imaginam, não são todas as regiões da Europa que são verdejantes, com extensos campos cobertos por plantações de trigo, cevada e alfazema. Países do Sul do continente como Grécia, Itália, Portugal, Chipre, Espanha e o Sul da França apresentam áreas de clima árido e semiárido, com baixa disponibilidade de água. O clima local é fortemente influenciado pela proximidade com o Norte da África, onde se encontra o maior deserto do mundo – o Saara. Grandes cidades europeias ao largo do Mar Mediterrâneo sofrem periodicamente com a escassez de água – e Barcelona é um grande exemplo disso. 

Barcelona tem suas origens perdidas na antiguidade – os primeiros vestígios de ocupação humana se situam entre 2.000 e 1.500 anos antes de Cristo, quando povos iberos se instalaram na região. Algumas lendas contam que a cidade foi fundada pelo mitológico herói grego Hércules cerca de quatrocentos anos antes da fundação de Roma. Outras fontes dizem que a cidade foi erigida pelo general cartaginês Amilcar Barca, durante a sua campanha para a conquista da Hispânia por volta do ano 220 a. C. O que se tem de concreto é que Barcelona já foi dominada por romanos, franceses, árabes e, finalmente, por espanhóis. Apesar de toda essa longa história de conquistas por diversos povos, os barcelonenses sempre mantiveram a sua identidade catalã. 

A moderna Barcelona, que é atualmente um dos maiores destinos turísticos da Europa e do mundo, tem suas “origens” em décadas bem mais recentes. Após um curto apogeu econômico no século XIX, quando foi um importante centro industrial e tecnológico da Espanha, a cidade enfrentou um longo período de ostracismo e decadência ao longo da maior parte do século XX, especialmente na época da ditadura do Generalíssimo Francisco Franco. Essa decadência só começou a ser revertida em meados da década de 1980, período em que a cidade iniciou um intenso processo de revitalização com vistas à realização dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. 

O gigantesco projeto de revitalização urbano implementado em Barcelona foi focado em dois eixos principais: a infraestrutura de saneamento básico, com vistas a despoluição dos rios e praias; outro foco dos esforços foi a revitalização da antiga zona portuária da cidade, onde seria construída a Vila Olímpica, que após os Jogos seria transformada em uma zona residencial. De acordo com os dados disponíveis, apenas 1/3 do orçamento para a realização dos Jogos Olímpicos foi gasto em instalações esportivas – a maior parte dos investimentos foram alocados nas obras de revitalização urbana da cidade

Conforme estas obras avançavam, passaram a ser implementados vários projetos de revitalização de edifícios e construções históricas em importantes áreas da cidade. Todo esse conjunto de esforços do poder público estimulou empresas privadas dos ramos de hotelaria, turismo, alimentação e serviços a aumentarem seus investimentos na cidade, criando assim um efeito em cascata que contaminou, positivamente, toda a economia de Barcelona e cidades do entorno. Para se ter uma ideia das consequências dessa verdadeira “recauchutagem” urbana, Barcelona recebia pouco mais de 5 milhões de visitantes em 2005 – em 2017, foram 32 milhões de visitantes. O turismo é responsável por cerca de 14% das riquezas da cidade e pela geração de 65 mil empregos

Esse explosivo crescimento, inclusive, acabou se transformando no maior problema da cidade, de acordo com uma pesquisa realizada entre os moradores. A população local, que se encontra na casa de 5 milhões de habitantes – sendo 1,6 milhão em Barcelona, aumenta exponencialmente na alta temporada, o que satura completamente a infraestrutura da cidade, desde os serviços de água e esgoto até os sistemas de transporte, telefonia e eletricidade. Esse é um problema muito conhecido em várias regiões aqui no Brasil, especialmente em cidades litorâneas, que nos feriados e meses de férias sofrem um verdadeiro inchaço devido ao grande número de turistas. 

Toda a região de Barcelona sempre teve problemas no abastecimento de água de sua população, sendo que em algumas ocasiões foram necessárias medidas de racionamento. Na década de 2000 a situação chegou a um ponto crítico e, em vários momentos, foi necessária a importação de água da França, que foi feita através de navios-tanque. Esses problemas se agravaram ainda mais devido ao aumento do fluxo de turistas, especialmente nos meses mais críticos no verão. 

Com o início da operação da usina de dessalinização da água do mar, a região de Barcelona ganhou um reforço – essa água chega a abastecer uma população de aproximadamente 1 milhão de habitantes. Porém, como sempre acontece, essa água tem um custo de produção alto, além de todos os investimentos que precisaram ser feitos para a implantação da infraestrutura da usina de dessalinização. As contas de água dos moradores locais tiveram aumentos entre 50% e 70%, o que causou e ainda causa enormes protestos. Para muitos “barcelonins”, os culpados por esse aumento no custo de suas contas de água são os milhões de turistas que visitam a região todos os anos, o que explica o resultado da pesquisa citada a pouco. 

Apesar de todos os esforços feitos para controlar a qualidade da água dessalinizada servida à população da região de Barcelona, os altos custos dessa água ainda deixam um sabor amargo na boca de muita gente.

A ÁGUA DESSALINIZADA NO CONTINENTE MAIS SECO DO MUNDO, A AUSTRÁLIA

sidney austrália

A Austrália, chamada por muitos de ilha-continente, é pouca coisa menor do que o Brasil – o país ocupa uma área de 7,7 milhões de km², exatamente 10% a menos do que o nosso território. Junto com a Nova Guiné e algumas ilhas menores, que ocupam a mesma placa tectônica, forma o Continente Australiano, considerado o continente habitado mais seco do mundo. Nas últimas semanas, as altas temperaturas do verão Australiano concorrem para dar ao Continente um novo título: o de mais quente do mundo. Em algumas regiões do país, as temperaturas estão até 18° C acima da média, com valores próximos dos 50° C. 

Apesar da Austrália ocupar praticamente as mesmas latitudes das regiões Central e Sul do Brasil, o clima australiano é bem diferente do nosso – aliás, podemos afirmar que é praticamente o inverso. No Brasil, o clima Semiárido é encontrado em uma área relativamente pequena do interior da região Nordeste e no Norte do Estado de Minas Gerais – a maior parte do país tem clima Equatorial e Tropical; na região Sul, o clima é Subtropical.  

Na Austrália, a maior parte do território tem climas Semiárido e Desértico; uma estreita faixa ao longo das costas do Sul e uma área no Sudeste do país têm um clima Mediterrâneo, que nada mais é do que um clima temperado. Pequenas faixas ao Sudoeste e Leste do continente tem um clima Subtropical e uma faixa no extremo Norte apresenta características Tropicais (clima quente com uma forte temporada de chuvas de Monção).   

Outra forma de avaliar as diferenças drásticas nos climas dos dois países pode ser observado na disponibilidade de água: o Brasil possui 12% das reservas de água doce do mundo (lembrando que a maior parte dessa água se encontra na Bacia Amazônica), com chuvas regulares na maior parte do território. A Austrália dispõe de apenas 1% das reservas mundiais de água doce. Grande parte do território australiano sofre com a falta de chuvas, que além de irregulares, caem em volumes muito pequenos.   

A principal bacia hidrográfica da Austrália é formada pelos rios Murray e Darling. O rio Murray tem pouco mais de 2.500 km de extensão, com nascentes na Cordilheira Australiana no Sudeste do país, região que também é chamada de Alpes Australianos, e foz no Oceano Índico, nas proximidades da cidade de Adelaide. Apesar de bastante extenso, o Murray não é um rio caudaloso. Os caudais do rio aumentam consideravelmente no curso médio, quando o Murray passa a receber contribuições significativas de águas dos rios Murrumbidgee e, especialmente, do rio Darling. A região da bacia hidrográfica dos rios Murray-Darling é considerada o celeiro agrícola da Austrália. Em todo o restante da Austrália, são poucos os grandes rios e, muitos deles, são intermitentes. 

Em um país-continente com essas características e cercado por mares por todos os lados, é bastante lógico supor que a exploração e o uso da água dessalinizada sejam fundamentais para o abastecimento das populações das cidades. A partir do ano de 2006, todas as principais cidades australianas passaram a construir usinas para a dessalinização da água do mar. Com o advento da Seca do Milênio, que se estendeu entre os anos de 2000 a 2009, esses esforços foram redobrados. 

Sidney, a maior cidade da Austrália com 4 milhões de habitantes, inaugurou sua usina de dessalinização por osmose reversa em 2010, que hoje atende até 15% do abastecimento da população. Outro exemplo é a cidade de Perth, que tem 2 milhões de habitantes e é a maior cidade da Austrália Ocidental, que possui duas usinas de dessalinização, responsáveis pelo fornecimento de metade da água consumida pela população. Graças à segurança hídrica proporcionada pelo fornecimento de água dessalinizada, a cidade de Perth está realizando um interessante experimento: as águas residuárias, resultantes do tratamento dos esgotos, vem sendo injetada nos solos para auxiliar na recarga do aquífero Gnangara, o mais importante da região. Os solos arenosos funcionam como um filtro, garantindo a pureza da água, que depois será utilizada para irrigação agrícola e em parte do abastecimento da cidade. 

Apesar dos claros benefícios na complementação das cotas de água para o abastecimento, as plantas de dessalinização australianas sofrem um intenso bombardeio com críticas de grupos ambientalistas. Como o país não possui rios caudalosos que permitam a construção de usinas hidrelétricas, a maior parte da energia elétrica do país vem de usinas termelétricas a carvão, um combustível caro e poluente, que precisa ser importado. Calcula-se que mais da metade dos custos da dessalinização da água na Austrália se deve aos altos custos da energia elétrica. Outra fonte de críticas são os altos custos de implantação das plantas de dessalinização, que giram em torno de US$ 1,7 bilhão por unidade, dinheiro que poderia ser utilizado em outras obras hidráulicas

Respeitando essas críticas, que são altamente relevantes, é importante ressaltar que o aumento do uso da água dessalinizada na Austrália foi seguido por diversas iniciativas por parte das autoridades locais no sentido de reduzir e racionalizar ao máximo o consumo da água. Muitas dessas medidas foram tomadas em função da Seca do Milênio e, felizmente, foram mantidas. Com a implantação de programas de eficiência hídrica e restrições ao uso da água, algumas cidades do Sudeste australiano conseguiram reduzir o consumo em até 60%. Para atingir esses números, prefeituras e Governos dos Estados distribuíram gratuitamente kits com reguladores de pressão, arejadores para chuveiros e torneiras, além de vasos sanitários com baixo consumo de água. Em alguns casos, foram feitas campanhas para a troca de até dois chuveiros por residência por modelos mais eficientes. 

Também foram estabelecidas metas agressivas para a redução do consumo de água pelas empresas concessionárias dos serviços de saneamento básico. Essas empresas realizaram pesados investimentos em infraestrutura, modernizando redes de distribuição, ampliando unidades de armazenamentos, na produção e distribuição de água de reuso, na construção de cisternas para o aproveitamento da água das chuvas,  entre outras medidas. Essas obras, que foram fundamentais durante a grande seca, continuam garantindo uma alta eficiência dos sistemas de produção e distribuição de água potável.  

Um outro ponto importante a ser lembrado é o crescimento do uso fontes de energia renováveis na Austrália, como a energia solar. Em algumas regiões do Sul do país, essas fontes já geram perto de 40% da eletricidade consumida pelas famílias. A médio e longo prazo, essas fontes alternativas de produção de energia elétrica proporcionarão uma redução dos custos das usinas de dessalinização. 

Aumentar a oferta de água potável é fundamental, mas, acima de tudo, é importante aprender a usar a água com inteligência e racionalidade. Essa é a grande lição que a Austrália dá para o mundo.

CURAÇAO: PIONEIRA NO USO DE ÁGUA DESSALINIZADA DESDE 1928

curaçao

Curaçao é uma pequena ilha com aproximadamente 450 km² localizada no Sul do Mar do Caribe, a cerca de 50 km da costa da Venezuela. A ilha foi descoberta em 1499 por navegadores espanhóis que a batizaram como Ilha dos Gigantes – consta que os antigos nativos da ilha, os arawak, eram bem altos. Alguns anos mais tarde, uma nau portuguesa aportou na ilha – os tripulantes estavam sofrendo com o escorbuto, uma doença que frequentemente assolava os marinheiros e estava associada à falta de ingestão de alimentos ricos em vitamina C como as frutas cítricas. Depois de algumas semanas ingerindo laranjas e outras frutas e legumes frescos, os marinheiros já estavam curados e passaram a se referir ao local como “ilha da curação” (ou da cura). Esse nome foi modificado pelos colonizadores holandeses para Kòrsou, passando a ser pronunciado depois como Curaçao. 

Os holandeses assumiram o controle da ilha em 1634 e construíram a sua versão tropical de Amsterdam em Curaçao. Valendo-se da posição estratégica da ilha, traficantes de escravos holandeses dominaram esse mercado no Caribe por mais de um século. Com os sucessivos processos de abolição da escravidão em todos os países das Américas, o negócio acabou e a economia da Ilha entrou em franco declínio: Curaçao ficou longe dos holofotes do mundo por muito tempo. Foi somente em décadas bem recentes que “la isla bonita“, um dos muitos nomes dados a Curaçao, despontou como uma das jóias do Caribe.

A ilha é cercada por mares de águas calmas e cristalinas, com cores que vão do azul turquesa ao verde esmeralda, contrastando com suas praias de areias muito brancas. A capital da ilha, Willemstad, conserva um importante conjunto arquitetônico colonial holandês, que foi elevado à categoria de Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. O centro histórico da cidade data de meados do século XVII e lembra muito as paisagens pintadas por grandes artistas flamengos como Rembrandt. A cultura local mescla as origens holandesas com influências espanholas, portuguesas e inglesas. Essa miscigenação se reflete na comida, na língua falada pelo povo – o papiamento (o holandês é falado por uma minoria), na cultura e no próprio povo. Em resumo, Curaçao é um dos melhores destinos turísticos do mundo. 

Esse paraíso caribenho, infelizmente, tem um gravíssimo problema: não existem rios nem lagos na Ilha de Curaçao. As únicas fontes de água potável que existiam na ilha eram depressões no solo e formações rochosas naturais que acumulavam as águas das chuvas. Com o início da colonização, a população começou a cavar cisternas e a construir pequenos açudes para aumentar esse armazenamento de água. Esgotada essa água, a população passava a depender de carregamentos trazidos em navios desde o continente sul-americano. A superação dessa carência absoluta de recursos hídricos se tornou uma obsessão para a população de Curaçao. 

Em 1928, a Ilha de Curaçao se tornou a pioneira no uso de água marinha dessalinizada com a construção da primeira usina desse tipo no mundo. A planta original sofreu várias atualizações, passando inclusive a gerar eletricidade a partir de turbinas a vapor. Recentemente, foi inaugurada uma nova e mais moderna usina de dessalinização; a antiga planta, que funcionou ininterruptamente por oito décadas, está sendo desmontada. Os novos equipamentos utilizam a tecnologia de osmose reversa e podem produzir água potável a partir da água do mar e, em caso de necessidade, a partir de  qualquer “fonte” de água doce residuária ou poluída. 

O custo dessa água dessalinizada, com o perdão do trocadilho, é bastante “salgado” para a maior parte da população da ilha: são aproximadamente US$ 1.20 para cada metro cúbico (1.000 litros). Independente da Holanda desde a década de 1950, Curaçao tem poucos recursos naturais em seu território e sobrevive basicamente do turismo. A maior parte da população trabalha em serviços ligados a essa atividade e sobrevive com salários módicos. Nos últimos anos, Curaçao foi transformada em mais um dos paraísos fiscais do Caribe, com a chegada de diversos bancos internacionais e inúmeras empresas offshore. Entretanto, os ganhos milionários dessas operações beneficiam apenas uma pequena parcela da população. 

Esse alto custo da água dessalinizada em Curaçao deve-se em grande parte ao uso de derivados de petróleo para a geração de energia elétrica na ilha, combustíveis que também fornecem a energia primaria das plantas de dessalinização. Em 1914, após as descobertas de grandes reservas de petróleo na Venezuela, a Shell, uma multinacional holandesa do ramo petrolífero, instalou uma refinaria em Curaçao. Naquela época, essa facilidade de acesso à derivados de petróleo baratos impulsionou seu uso nas usinas termelétricas da Ilha ao lado do tradicional carvão mineral. Ao longo das últimas décadas, após sucessivos choques no preço do petróleo, esses custos de geração de energia foram se tornando excessivamente caros.

A população da ilha sente no bolso os custos da água dessalinizada e faz todos os esforços possíveis para reduzir, ao máximo, o uso desse “precioso líquido” em suas casas, algo que lembra muito a rotina das populações brasileiras de regiões do semiárido no convívio com as secas periódicas. São banhos rápidos, otimização no uso de água na lavagem de louças e panelas, reaproveitamento da água do enxague de roupas para a limpeza das casas e dos quintais, entre outras medidas. O armazenamento e uso da água das chuvas, uma prática muito comum nas ilhas do Caribe, continua sendo uma das alternativas ao uso da água dessalinizada e uma forma da população de Curaçao economizar nas despesas. 

O uso da água dessalinizada para o abastecimento da população de Curaçao é um case de sucesso internacional há mais de 80 anos e sempre é usado como uma referência por países e cidades com dificuldades de acesso à recursos hídricos. Porém, como não foi difícil de demonstrar, os altos custos do abastecimento com água dessalinizada pesam no orçamento das faixas de população de menor renda, que são obrigadas a reduzir ao máximo o consumo de água. 

OS SISTEMAS DE DESSALINIZAÇÃO DE ÁGUA EM DUBAI

dubai

Além do Estado de Israel, sobre o qual falamos na última postagem, uma outra região do Oriente Médio onde o uso da água dessalinizada é cada vez mais imprescindível é no Golfo Pérsico. Ao contrário dos solos de Israel, onde apenas uma parte é formada por terrenos desérticos, nos emirados do Golfo Pérsico isso é regra. Um grande exemplo da importância da água dessalinizada para o abastecimento de  populações é encontrado em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. 

Dubai ou Cidade de Dubai, como é normalmente conhecida, fica na costa Sul do Golfo Pérsico e é considerado o mais populoso dos sete Emirados Unidos, com 2,3 milhões de habitantes. A fama de Dubai cresceu muito nas últimas décadas graças à extrema ostentação de riqueza – os gigantescos arranha-céus da cidade, as avenidas largas, os automóveis luxuosos e os “jatinhos” particulares de seus moradores mais ilustres, têm acirrado a inveja e a cobiça pelo mundo afora. Tudo o que há de bom e de melhor você encontra em Dubai, inclusive água em abundância, o que para um país desértico é simplesmente um luxo. A suntuosidade dessa “ilha da fantasia” atrai perto de 5 milhões de turistas ao Emirado a cada ano.

A usina de dessalinização de água do Emirado, a Jebel Ali, produz cerca de 2,1 bilhões de  litros de água potável a cada dia, um volume suficiente para abastecer três vezes a sua população. E os números não param por aí: utilizando o vapor quente liberado durante os processos de dessalinização da água, turbinas geram perto de 8 mil MW de energia elétrica, com capacidade para abastecer mais de 1,5 milhão de habitantes. Como fonte primária de energia para se produzir tanta água e energia elétrica, o país conta com suas reservas abundantes de petróleo e gás natural. 

A gigantesca planta industrial de Jabel Ali é dividida em diversas unidades menores de dessalinização de água e geração de energia elétrica. Essas unidades foram construídas gradativamente, acompanhando o desenvolvimento tecnológico. É por essa razão que se encontram dentro da planta unidades que utilizam tanto o processo de dessalinização da água do mar por osmose reversa quanto pelos processos convencionais de destilação térmica, onde a água do mar é aquecida até evaporar, sendo depois resfriada numa torre. Essa água destilada recebe a aplicação de diversos produtos químicos como o cloreto de cálcio, endurecedores e suportes de ácidos como forma de se controlar a qualidade da água que será distribuída para a população.

Com tanta “fartura” de água, a Cidade de Dubai foi transformada numa das mais verdejantes da região. Andando pelas ruas, avenidas e até mesmo pelas estradas, qualquer turista fica absolutamente fascinado pela quantidade de gramados, canteiros, praças e parques, onde árvores, plantas e flores de todas as variedades e cores se mostram com todo o seu esplendor, ignorando a secura do ar e as altíssimas temperaturas locais. Toda essa beleza, porém, cobra um preço alto – são gastos mais de 250 milhões de litros de água diariamente para regar todas essas plantas. No Emirado chove, em média, apenas quatro vezes por ano e sem os sistemas e as tubulações de irrigação, toda essa beleza “natural” se perderia em alguns poucos dias. 

Uma outra fonte de alto consumo de água são os sistemas de ar-condicionado usados nas casas, prédios, lojas, estabelecimentos comerciais e até mesmo nos pontos de ônibus da cidade, uma comodidade imprescindível para se suportar o calor e a secura do ar do deserto. Esses sistemas utilizam grandes volumes de água para resfriar e umidificar o ar. Um exemplo desse alto consumo é o edifício Burj Khalifa Bin Zayid, que já foi conhecido como Burj Dubai. Ainda detentor do título de arranha-céu mais alto já construído, o edifício foi concluído em 2004 e conta com 168 andares, com uma altura total de 828 metros. Os sistemas de ar-condicionado do edifício consomem diariamente um volume de água equivalente a vinte piscinas olímpicas

Falando em piscinas, elas são dezenas de milhares por todos os cantos da cidade, e se juntam a um sem número de espelhos d’água construídos ao redor das moderníssimas construções e arranha-céus. Vale ressaltar que há uma verdadeira disputa entre os proprietários de imóveis para ver quem é que possui a maior e mais extravagante piscina da cidade. Grandes espelhos d’água, com cascatas e fontes de todos os tipos, perdem milhões de litros de água a cada dia, que evaporam sob o calor escaldante do deserto – todas essas perdas são respostas religiosamente todos os dias. Quem mora em Dubai não se incomoda nenhum um pouco com o valor da sua conta de água. 

Como se sabe, na área dos recursos hídricos assim como na vida, não há “almoço grátis” para ninguém. Toda essa pressão ambiental para a produção de tamanho volume de água trás consequências, e muitas, para o meio ambiente local. Comecemos falando das emissões de gases de efeito estufa pelo Emirado, que apesar de muito pequeno, polui como país grande. A quantidade de gás natural e de derivados de petróleo usados para a geração de energia térmica para a dessalinização da água é enorme e não existem florestas na região para capturar todo esse volume de carbono emitido – essas emissões ficam por conta do resto da população do mundo. 

Outro problema grave das usinas de dessalinização são os volumes de águas residuárias produzidas, que são despejadas diretamente nas águas do Golfo Pérsico. São aproximadamente 480 mil m³ a cada dia. De acordo com estudos científicos realizados na região, o índice de salinidade nas águas do mar aumentou de 32 mil para 47 mil ppm (partes por milhão) em apenas 30 anos. Além de provocar esse aumento na salinização, essas águas residuárias apresentam altas temperaturas quando são despejadas no mar, algo que provoca uma série de problemas para a fauna e flora marinha local.

Um dos ecossistemas locais que mais tem sofrido com os impactos provocados pelos resíduos dessas águas residuárias são os manguezais do Golfo Pérsico. Aqui vale lembrar que o Emirado de Dubai não está sozinho no uso de águas dessalinizadas – os demais Emirados e a Arábia Saudita também contam com outras inúmeras plantas de dessalinização da água do mar e seus despejos de águas residuárias também são gigantescos. Os manguezais, como deve ser do conhecimento de todos, são importantes locais para a reprodução de peixes e crustáceos marinhos – qualquer tipo de alteração em suas características afeta enormemente toda a cadeia de vida marinha de uma região

Apesar de toda a sua importância dentro de um planeta com reservas de água potável cada vez mais escassas, a produção e a utilização da água dessalinizada cobram um preço alto do meio ambiente. Da mesma forma que qualquer outra fonte de água disponível, a água dessalinizada precisa ser usada com muito critério, consciência ambiental e sem desperdícios. 

VEJA NOSSO CANAL NO YOUTUBE – CLIQUE AQUI

O USO DE ÁGUA DESSALINIZADA EM ISRAEL

usina de dessalinização em israel

O pequeno Estado de Israel é líder mundial em tecnologias para a dessalinização da água do mar – 80% da água potável consumida pela população é dessalinizada. Com a maior parte do seu território formado por solos semiáridos e desérticos, e contando com recursos hídricos escassos, o país foi obrigado a dominar, como nenhum outro, todos os aspectos da gestão eficiente do uso das suas águas e a desenvolver tecnologias que lhe permitiram aumentar a oferta destes recursos. 

Israel tem uma superfície de pouco mais de 22 mil km², incluindo-se algumas áreas em litígio: isso equivale a pouco menos que três vezes a área da Região Metropolitana de São Paulo ou ainda, uma área equivalente a Sergipe, o menor Estado brasileiro. A população israelense é de pouco mais de 9 milhões de habitantes, equivalente à soma das populações das cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Apesar destes números “insignificantes” em termos mundiais, Israel é um gigante quando se fala em agricultura. Por si só, isso já seria uma grande façanha, mas tem mais: o território de Israel é formado por terrenos difíceis para as atividades agrícolas: 60% do território é formado por regiões semiáridas e desérticas – metade da área restante é formada por solos rochosos

A principal fonte de água do país é o rio Jordão, com 190 km de extensão e nascentes no Monte Hermon no Norte de Israel. Os principais afluentes são os rios Hasbani ou Snir, com nascentes no Líbano, e Dan e Banias, rios com nascentes em território israelense. Sua foz fica no Mar Morto ao Sul, que se localiza numa depressão a 430 metros abaixo do nível do mar. O compartilhamento das águas do rio Jordão é conflituoso, envolvendo israelenses, jordanianos e palestinos. Apesar de toda a sua importância regional, o Jordão é um rio pequeno para os padrões que nós brasileiros estamos acostumados: tem profundidade máxima de 5,5 metros e uma largura média de 18 metros – é um rio com pouca água para atender as necessidades de muita gente. Além do rio Jordão, as populações locais vêm se utilizando das águas de poços desde tempos imemoriais. 

Um outro agravante da situação do país são as chuvas escassas e mal distribuídas. No Norte de Israel a precipitação média anual é de 70 mm e nas áreas desérticas do Sul cai para meros 5 mm anuais. Esse baixo volume de chuvas mal consegue repor os estoques dos poucos aquíferos da região, o que acabava pressionando cada vez mais os recursos hídricos do rio Jordão. O Governo de Israel é extremamente rígido na concessão de outorgas para uso de água para fins agrícolas, atividade que consome 75% dos recursos hídricos, estimados em 1,6 bilhão de metros cúbicos ao ano, além de cobrar taxas entre US$ 0,2 e US$ 0,4 por metro cúbico. 

As primeiras experiências em agricultura na moderna Israel datam da última década do século XIX, quando os primeiros colonos judeus chegaram a Palestina e se estabeleceram em terras compradas por companhias internacionais. Fazendas foram adquiridas em regiões semiáridas abandonadas havia séculos, consideradas como “impossíveis” de serem cultivadas pelos palestinos e árabes de diversas etnias que habitavam na região. Com apoio internacional de dezenas de entidades judaicas de todo o mundo, esses colonos pioneiros iniciaram um intenso trabalho de pesquisa, desenvolvendo técnicas de recuperação de solos, limpeza de terrenos rochosos, dessalinização de campos, construção de terraços agrícolas e contenção de encostas, drenagem de pântanos, reflorestamento, entre outras atividades.  

A partir de 1947, quando foi declarada a independência do Estado de Israel, o país passou a receber ondas maciças de imigrantes – em apenas dez anos, a população dobrou. Esse forte crescimento populacional passou a pressionar ainda mais os recursos hídricos locais – com mais gente para consumir água e alimentos, todos os esforços voltados para a racionalização do uso da água tiveram de ser aumentados. O desenvolvimento de tecnologias de irrigação cada vez mais eficientes e o desenvolvimento de novas variedades de cultivares adaptados à escassez de água passaram a ocupar posições prioritárias entre os pesquisadores. Outra linha importante de pesquisas envolveu o uso das águas residuárias do tratamento dos esgotos para irrigação de plantações, onde os resíduos orgânicos funcionam como fertilizante para as plantas. 

Graças ao alto grau de desenvolvimento tecnológico alcançada em irrigação, sistemas de cultivo e no desenvolvimento de espécies vegetais altamente adaptadas às condições de solo e clima, Israel passou a conseguir uma produção até 30 vezes maior por hectare que a maioria dos países. Entre as espécies vegetais desenvolvidas em institutos de pesquisa do país são destaques o tomate cereja, o melão Gália, diversas espécies de frutas cítricas e uvas, além de morangos, caquis e framboesas que crescem fora das estações. As variedades de algodão desenvolvidas também são destaque, com uma produtividade de 55 kg por hectare. Na área de produtos de origem animal, o leite é destaque, com espécies locais de vacas com produtividade superior às congêneres holandesas, consideradas grandes produtoras. 

O uso de água dessalinizada em Israel teve início em 1973, quando uma empresa privada passou a construir usinas com operação por osmose reversa para o atendimento de populações de comunidades isoladas. O grande salto tecnológico se deu em 2008, quando o Governo central decidiu construir cinco grandes usinas de dessalinização ao longo da costa do Mar Mediterrâneo (vide foto). Esse ambicioso projeto estabeleceu como meta a produção de 505 milhões de m³ de água dessalinizada até o ano de 2013, chegando a 750 milhões de m³ até o ano de 2020. Os planos do Governo israelense foram facilitados após a descoberta de grandes campos de gás natural no país, combustível que passou a ser utilizado em substituição à eletricidade, o que fez os custos de produção, estimados anteriormente em US$ 1.00 para cada 1 m³ de água dessalinizada, caírem pela metade. 

O aumento da oferta de água potável, além de todos os benefícios diretos para as populações, indústrias e para a agropecuária de Israel, passou a funcionar como uma importante “moeda de troca” com os países vizinhos. Um exemplo pode ser visto no lado Oriental de Jerusalém, trecho da cidade controlado pela Jordânia. Apesar de toda a disputa entre os países pelo controle da cidade sagrada, milhares de palestinos e árabes que vivem no lado Oriental de Jerusalém passaram a solicitar a desconexão de suas residências da rede de águas da Palestina e passaram a se integrar à rede israelense de abastecimento. Os motivos: a qualidade da água é muito superior e o fornecimento é contínuo. 

Esse pragmatismo das populações representa um importante passo para a normalização das relações belicosas entre os diversos países da região que, entre outros graves problemas, disputam ferozmente o controle das fontes de água. Numa reportagem sobre essa questão, um importante jornal de Israel afirmou que “esses árabes e palestinos podem fixar a bandeira do seu país na caixa d’água e participar de protestos contra Israel – mas ao chegar em suas casas, eles querem mesmo é contar com água para tomar um bom banho e suprir as necessidades de suas famílias.” 

A ÁGUA DESSALINIZADA

C381gua-dessalinizada-2

Nas últimas semanas, a discussão sobre a implantação de grandes infraestruturas para a produção de água dessalinizada aqui no Brasil acirrou o ânimo de muita gente. O novo Governo do país, recém empossado, pretende buscar uma aproximação com Israel, país líder mundial em sistemas de dessalinização da água do mar, na busca de uma parceria que permita a transferência dessa tecnologia para o Brasil; outros grupos, ligados a partidos da oposição, insistem em afirmar que instituições brasileiras já dominam essa tecnologia e que é possível a implantação de usinas de dessalinização com tecnologia nacional. Sem tomar posição ideológica com nenhuma das partes, vamos dedicar algumas postagens para apresentar as tecnologias existentes e mostrar exemplos de aplicação em alguns países.

Podemos definir a dessalinização como um processo físico-químico de tratamento de água que retira o excesso de sais minerais, micro-organismos e outras partículas sólidas presentes na água salgada e na água salobra, com a finalidade de obter água potável em condições adequadas para consumo humano, animal e industrial. Existem duas formas básicas para realizar a dessalinização: a destilação térmica, que nada mais é do que uma reprodução em pequena escala do ciclo natural da água da chuva, e a osmose reversa, onde uma membrana especial simula, de forma invertida, a passagem de líquidos através da membrana das células.

A água é a substância mais elementar e importante para a existência da vida no nosso planeta. Cerca de 70% da superfície da Terra é coberta por água, o que pode nos dar uma falsa impressão de abundância. De todo esse imenso volume, apenas 2,5% da água existente é própria para o consumo de todas as criaturas que vivem fora dos ecossistemas marinhos, incluindo-se plantas, animais e nós, os seres humanos. Essa água é conhecida como água doce ou potável e é criada por um impressionante mecanismo natural conhecido com o Ciclo da Água

O calor do sol, que incide sobre os oceanos, cria uma gigantesca massa de vapores de água, com um volume total calculado em 383.000 km³ a cada ano. Esse vapor é espalhado pelos ventos por toda a superfície do planeta e uma parte considerável, cerca de 30%, é precipitada sobre os solos dos continentes e ilhas na forma de chuva, neve e granizo. Todas as reservas de água potável do mundo surgem daí. 

A maior parte dessa água doce acaba acumulada na forma de gelo nas calotas polares e em geleiras no alto de grandes cadeias montanhosas. Outra parte bastante significativa vai ser depositada em aquíferos e lençóis subterrâneos de difícil acesso. O volume de água potável restante, que está disponível em rios, lagos e pântanos, é usado para o abastecimento de populações. Seu volume é ínfimo, calculado em 0,04% da água existente no planeta.  Para o World Resources Institute, uma organização não governamental conservacionista que se dedica em parte a essa temática, esse volume é ainda menor e representa apenas 0,007%. É essa pequena quantidade de água potável que será usada para o abastecimento dos mais de 7 bilhões de habitantes do nosso mundo.  

Além de rara, a água potável é muito mal distribuída. Dez países concentram 60% dos recursos hídricos disponíveis no planeta: Brasil, Rússia, China, Canadá, Indonésia, Estados Unidos, Índia, Colômbia e Congo. Os demais países e suas populações têm de se contentar com o volume restante – é muita gente para pouca água.  Muitos desses países que enfrentam problemas de escassez de água e que dispõem de fachada oceânica, têm realizado investimentos vultosos na instalação de plantas industriais para a produção de água dessalinizada. De acordo com a IRENA, sigla em inglês para Agência Internacional de Energia Renovável, já são cerca de 300 milhões de pessoas em cerca de 150 países que são abastecidas hoje com água dessalinizada.

Apesar dos números serem animadores, a produção de água dessalinizada ainda apresenta uma série de problemas – o principal deles é o custo da água que, numa média mundial, fica em torno de US$ 1.00 / m³. Se considerarmos que uma família com cinco pessoas gasta em média 1 m³ de água por dia, será necessário um acréscimo de US$ 30.00 na conta que é paga pelo serviço – em países pobres isso é completamente inviável. Outro problema seríssimo é o alto consumo energético dessas usinas, o que normalmente leva muitos países a aumentar o uso de combustíveis fósseis, altamente poluentes e caros, para a geração de energia elétrica para alimentar essas plantas de dessalinização.

Problemas não menos graves se mostram na forma de impactos ambientais – os resíduos de sal, areia e da matéria orgânica (micro algas, larvas, ovos e outras criaturas microscópicas que vivem na água do mar) retirados da água que foi dessalinizada precisam ter uma destinação ambiental adequada, algo que tende a aumentar ainda mais a pressão sobre os aterros sanitários e os chamados “bota-fora” em uso no mundo. Outra fonte de problemas são os efluentes em altas temperaturas que, se lançados diretamente em corpos d’água ou nos oceanos, podem causar graves alterações nesses ambientes e afetar toda a cadeia de seres vivos desses sistemas.

A “coisa” é muito mais complexa do que pode aparentar inicialmente.

Vamos continuar nesse assunto nas nossas próximas postagens.

E O VERÃO CHEGA ARREBENTANDO!

 

Rio 40° Graus

Hoje, às 20h22 no horário de Brasília, começa oficialmente o Verão. A depender da região brasileira, essa estação tem características diferentes: na chamada região Centro-Sul, que abrange toda a região Sul, a maior parte da região Sudeste (exceto o Norte de Minas Gerais) e a parte mais ao Sul da região Centro-Oeste, isso significa muito calor e fortes chuvas; nas outras regiões, também muito calor e seca. 

E pelo que se pode observar até agora, este Verão promete ser dos mais quentes em muitos anos. Nas últimas semanas, várias cidades vêm apresentando temperaturas recordes: na última quarta-feira, dia 18 de dezembro, a cidade de Antonina, no litoral do Estado do Paraná, apresentou temperaturas que chegaram à marca dos 41,8° C. De acordo com informações do SIMEPAR – Sistema Meteorológico do Paraná, a sensação térmica na cidade chegou a incríveis 81° C. No mesmo dia, a temperatura na cidade do Rio de Janeiro também superou a barreira dos 40° C, com alguns bairros mais distantes da orla marítima apresentando uma sensação térmica na casa dos 50° C – em linguagem popular, isso é “quente prá dedéu”

Com essas fortes ondas de calor, os temporais de final de tarde são inevitáveis, assim como são as suas consequências: alagamentos e enchentes, deslizamento de morros, trânsito complicado e muita gente desabrigada. Como todos sabem, na maioria das cidades entra governo e sai governo, mas os problemas de saneamento básico continuam os mesmos. Lamentavelmente, postagens tratando de todos esses problemas e suas tragédias anunciadas terão destaque aqui no blog mais uma vez. 

Hoje também é o dia da última postagem deste ano. Hora de agradecer a todos os leitores habituais e aqueles esporádicos, que nos honram com suas visitas. Superamos a marca de 80 mil visitas no ano, o que é pouco quando comparado a outros blogs, mas o número corresponde a quase três vezes o número de visitantes em 2017 e mais de cem vezes o de 2016, quando iniciamos as postagens. Faço votos que as informações e os temas apresentados tenham sido úteis a todos. 

Quando comecei a escrever os primeiros posts em junho de 2016, confesso que tinha material suficiente para 20 publicações talvez. Com a postagem de hoje, atingimos a marca de 653 postagens e ideias para novas publicações não param de surgir. Isso demonstra o quanto os recursos hídricos e o saneamento básico são importantes na vida de todos nós. 

Os melhores desejos de Boas Festas e um ótimo Final de Ano a todos. 

Até 2019! 

JALAPÃO: O GRANDE “DESERTO” BRASILEIRO

Jalapão

O Jalapão é um grande território natural que ocupa uma área de mais de 34 mil km² no Tocantins e, há vários anos, é considerado como o principal destino turístico desse Estado. O bioma da região é o Cerrado, onde predomina a vegetação de cerrado ralo e a de campos limpos com veredas. A temperatura local média é de 30° C e podem ser encontradas dentro de seus domínios dunas de areia alaranjadas com até 40 metros de altura, característica que lhe rendeu o título de “maior deserto do Brasil”. 

À primeira vista, pode até parecer uma grande contradição o fato de um site que se diz voltado aos recursos hídricos dedicar uma publicação inteira para falar de um deserto. Mas não é – toda a área do Jalapão é cortada por uma imensa rede de rios, riachos e ribeirões de águas cristalinas, além de se encontrar por todos os lados os famosos “fervedouros”, nascentes onde a água brota com força dos solos. A região é, na verdade, um deserto de gentes, com uma densidade demográfica de apenas 0,8 habitante por km². 

O Jalapão fica no Leste de Tocantins, a cerca de 200 km da Capital do Estado, Palmas. Desconhecido da grande maioria dos brasileiros, a região começou a ser descoberta pelo turismo há poucos anos atrás e não saiu mais dos noticiários e programas de TV. Recentemente, suas paisagens foram parte dos cenários de uma novela brasileira; em 2008 foi o palco de um reality show de uma grande rede de TV dos Estados Unidos. 

O nome do lugar deriva de uma flor, a Exogonium officinale, conhecida popularmente como jalapa-do-Brasil, que pode ser encontrada por todos os lugares, desde as formações de cerrado baixo, nos paredões rochosos e até nas matas de galeria encontrada nas margens dos muitos rios do Jalapão como o Rio do Sono, do Soninho, Novo, das Balas, Preto e do Caracol. Destaques da paisagem local, além das famosas dunas, são as serras e os chapadões, com altitude de até 800 metros, de onde despencam inúmeras cachoeiras e nascentes, formando verdadeiros “oasis” no meio desse “deserto”. 

Um dos únicos aglomerados humanos no Jalapão é a comunidade dos Mumbucas, formada por ex-escravos vindos da Bahia, que sobrevivem basicamente da produção de artesanato, onde se destacam as famosas peças feitas com o capim dourado, uma técnica que foi criada nessa comunidade. Bem mais numerosas são as comunidades da fauna típica do Cerrado, onde se destacam os veados-campeiros, lobos-guará, antas, capivaras, tamanduás-bandeiras, macacos, gambás, onças e jacarés, além de cobras como sucuris, cascavéis e jiboias. A avifauna também é bastante rica, incluindo tucanos, papagaios, araras-azuis, emas e urubus. Observem que uma diversidade animal tão grande jamais seria encontrada na região se ela fosse mesmo um deserto. 

A diversidade ecológica de paisagens, de vida animal e vegetal do Jalapão é ampliada graças a existência de outras duas unidades de conservação contíguas: a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins e o Parque Nacional das Nascentes do rio Parnaíba, sob administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Proteção a Biodiversidade. A essas duas unidades de conservação se junta o Parque Estadual do Jalapão, criado em 2001 pelo Governo do Tocantins, uma unidade de proteção integral com uma área total de 158 mil hectares. Essas três áreas extrapolam os limites do Tocantins e avançam pelos territórios dos Estados vizinhos: Maranhão, Piauí e Bahia, totalizando mais de 959 mil hectares de área de Cerrado sob proteção ambiental. 

O elemento água é, contraditoriamente, uma das grandes atrações do “deserto brasileiro”: são inúmeras as nascentes, praias fluviais, piscinas naturais e quedas d’água espalhadas por todos os cantos do Jalapão e que fazem a festa dos turistas. Uma das grandes opções de banho são os “fervedouros”, grandes poças onde a água morna brota com força do chão e faz a areia e os cascalhos do fundo vibrarem. O nome fervedouro vem da sua semelhança com a água fervendo numa panela e/ou do efeito efervescente de um comprimido de antiácido ao se dissolver num copo de água.

Nas formações rochosas e nos grandes paredões de arenitos se escondem grutas com nascentes de água e cânions, que atraem os visitantes mais aventureiros. Existem diversas trilhas por toda a região, com diferentes graus de dificuldade, que permitem que os visitantes acessem as diferentes atrações do Jalapão, que estão espalhadas por uma área bastante grande e onde nem sempre é possível a utilização de veículos. 

Como é comum nas áreas de Cerrado, as estações do ano no Jalapão se dividem em dois períodos bastantes distintos: a seca e o período das chuvas. A estação das chuvas vai de outubro a abril, o que causa um aumento substancial no volume dos rios, cachoeiras e piscinas naturais da região. No período seco, que vai de maio a setembro, o volume de água dos rios cai bastante, o que favorece o aparecimento dos afloramentos rochosos do leito dos rios – essa é a época ideal para os praticantes de rafting. Durante os meses de verão, o período da seca, as temperaturas no Jalapão variam de 25 a 35°C; no inverno local, período das chuvas, as temperaturas se situam entre 13 e 20° C. 

O Jalapão é, sobretudo, um resumo das belezas naturais, recurso hídricos e ecossistemas do Cerrado Brasileiro, um dos nossos biomas mais ameaçados pelo avanço das fronteiras agrícolas, especialmente na região onde se encontra o nosso “deserto” – o MATOPIBA, formada por trechos dos Estados do MAranhão, TOcantins, PIauí,  e BAhia. 

Vale muito a pena conhecer para aprender a preservar.

Chapada do Jalapão

A CHAPADA DOS GUIMARÃES

cachoeira-vC3A9u-da-noiva

Localizada nos arredores da cidade de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso, a Chapada dos Guimarães está localizada no ponto de junção de três formações geológicas diferentes: a Formação Botucatu que, conforme já comentamos em uma postagem anterior, corresponde aos solos de um antigo deserto; a Formação Furnas, que já foi o fundo de um mar interno e a Formação Ponta Grossa, que está ligada à bacia hidrográfica do rio Paraná e onde predominam solos com rochas argilosas (folhelhos) ricas em fósseis. O bioma predominante na região é o Cerrado, mas também se encontram fragmentos da vegetação do Pantanal Mato-Grossense e da Floresta Amazônica.  

Em alguns trechos da Chapada dos Guimarães encontramos formações com árvores de grande porte, com espécies típicas da Mata Atlântica, bioma cujos limites se encontram a mais de mil quilômetros de distância. Alguns estudiosos sugerem que, em tempos mais antigos e com um clima diferente, a Mata Atlântica poderia ter avançado na direção da formação geológica, tendo retrocedido depois para os limites atuais. A formação da Chapada dos Guimarães começou a cerca de 500 milhões de anos, tempo de sobra para testemunhar as mais diferentes mudanças climáticas regionais e mundiais. 

A localização bastante particular da Chapada dos Guimarães se reflete em uma enorme biodiversidade animal e vegetal. Só de aves existem registros de, pelo menos, 400 espécies dos biomas Cerrado, Pantanal e Amazônico. Essa riqueza de espécies se reflete em mamíferos, répteis, anfíbios, peixes, insetos e também em espécies vegetais. Os recursos hídricos são um destaque da formação, que concentra inúmeras nascentes de rios importantes como o Coxipó-açu, o Manso e o Cuiabá, que estão entre os principais formadores do Pantanal Moto-Grossense. 

A água é um dos elementos de destaque entre as paisagens rochosas da Chapada dos Guimarães. Existem centenas de quedas d’água que brotam, literalmente, das rochas – a Cachoeira Véu de Noiva (vide foto), com cerca de 86 metros de altura, é a mais famosa e é um dos cartões postais da formação. Uma das mais conhecidas rotas turísticas da Chapada dos Guimarães é o Circuito das Cachoeiras, onde se encontram seis quedas d’água: das Andorinhas, da Prainha, do Pulo, dos Degraus, 7 de setembro e da Independência. 

Entre as formações rochosas, um dos destaques é o Morro de São Jerônimo, um enorme chapadão no formato de uma mesa, com altitudes que atingem a casa dos 805 metros em relação ao nível do mar. Consta que o nome do morro foi dado pelos primeiros bandeirantes que visitaram a região a partir de 1719, época das primeiras descobertas de ouro na região de Cuiabá. Consta que esses primeiros explorados rogavam a proteção de São Jerônimo ao se aventurar pelo alto dos penhascos e platôs; batizaram o morro com este nome em homenagem ao seu santo protetor. Outro ponto de visitação obrigatória é a Cidade de Pedra, conjunto de formações rochosas que lembram as ruínas de uma cidade antiga. 

Determinado pela Expedição Rondon no início do século XX, o Marco Geodésico é outro ponto turístico muito visitado. A Chapada dos Guimarães está no centro geodésico da América do Sul, alinhada com as cidades de Brasília e de Porto Seguro, além do Lago Titicaca, na divisa entre a Bolívia e o Peru. Os mais místicos acreditam que, graças a essa localização privilegiada, a Chapada dos Guimarães é um grande “centro de energia”. 

Um passeio que muitos turistas classificam como imperdível é a visita à Caverna Aroe Jari, “a morada dos deuses”, que fica a cerca de 45 km da Chapada dos Guimarães, dentro de uma propriedade particular. Trata-se da maior gruta de arenito do Brasil, medindo cerca de 1,5 km de extensão, com vários trechos alagados e paredes com muitas pinturas rupestre, herança das diversas tribos indígenas que viveram na região antes da chegada dos “brancos”. A grande surpresa está no final da gruta, onde se encontra a Lagoa Azul, formada por águas ricas em calcário, com uma grande transparência e uma cor azul impressionante.  

A história da região, conforme já comentamos, está ligada diretamente ao descobrimento das minas de ouro de Cuiabá pela bandeira de Pascoal Moreira Cabral em 1719. Como todos devem recordar, à época das grandes expedições marítimas de Portugal e de Espanha, no final do século XV, foi celebrado o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 pelo Reino de Portugal e a Coroa de Castela. Pelo Tratado, as terras descobertas a Leste do Meridiano de Tordesilhas pertenceriam à Espanha e a Oeste ficariam com o Portugal.  

O Meridiano de Tordesilhas cruzava o território brasileiro na altura da cidade de Belém do Pará, o que colocava toda a região do antigo Mato Grosso dentro de território espanhol. Desde o início do século XVII, expedições de bandeirantes paulistas invadiam esse território na caça aos índios “mansos”, já catequizados pelos jesuítas espanhóis – foram inúmeros os conflitos armados com as tropas da Espanha na região. As descobertas de ouro em Cuiabá e, poucos anos depois, em Goiás por esses paulistas, levou a uma revisão dos limites territoriais entre Portugal e Espanha, consolidadas pelos Tratados de Madri, em 1750, e de Santo Ildefonso, em 1777.

A preservação ambiental de toda a Chapada dos Guimarães remonta ao início do século XX, quando as autoridades do antigo Estado de Mato Grosso se mostraram preocupadas com o avanço dos desmatamentos na direção da formação geológica, onde se concentram as nascentes do rio Cuiabá. A navegação pelas águas desse rio era fundamental para a cidade e toda a região – qualquer possível ameaça aos seus caudais precisava ser contida. Um decreto de 1910, assinado pelo Vice-Presidente do Estado do Mato Grosso, Coronel Pedro Celestino Corrêa da Costa, transformou em área de utilidade pública (algo que chamaríamos hoje de área de preservação ambiental) todas as terras de uma faixa de 2 km a partir da base das encostas da Chapada dos Guimarães.

Em 1989 foi criado no local o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, que está sob a administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade. O Parque Nacional possui uma área total de 33 mil hectares e está dividido entre os municípios de Chapada dos Guimarães e Cuiabá, município que concentra 65% da área protegida do Parque. A visão da área urbana da cidade de Cuiabá, com seus muitos edifícios e construções, é uma das principais paisagens vistas a partir do alto do Morro de São Jerônimo, o que não deixa de ser algo inusitado em uma grande área de preservação ambiental.