O USO DE ÁGUA DESSALINIZADA EM ISRAEL

usina de dessalinização em israel

O pequeno Estado de Israel é líder mundial em tecnologias para a dessalinização da água do mar – 80% da água potável consumida pela população é dessalinizada. Com a maior parte do seu território formado por solos semiáridos e desérticos, e contando com recursos hídricos escassos, o país foi obrigado a dominar, como nenhum outro, todos os aspectos da gestão eficiente do uso das suas águas e a desenvolver tecnologias que lhe permitiram aumentar a oferta destes recursos. 

Israel tem uma superfície de pouco mais de 22 mil km², incluindo-se algumas áreas em litígio: isso equivale a pouco menos que três vezes a área da Região Metropolitana de São Paulo ou ainda, uma área equivalente a Sergipe, o menor Estado brasileiro. A população israelense é de pouco mais de 9 milhões de habitantes, equivalente à soma das populações das cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Apesar destes números “insignificantes” em termos mundiais, Israel é um gigante quando se fala em agricultura. Por si só, isso já seria uma grande façanha, mas tem mais: o território de Israel é formado por terrenos difíceis para as atividades agrícolas: 60% do território é formado por regiões semiáridas e desérticas – metade da área restante é formada por solos rochosos

A principal fonte de água do país é o rio Jordão, com 190 km de extensão e nascentes no Monte Hermon no Norte de Israel. Os principais afluentes são os rios Hasbani ou Snir, com nascentes no Líbano, e Dan e Banias, rios com nascentes em território israelense. Sua foz fica no Mar Morto ao Sul, que se localiza numa depressão a 430 metros abaixo do nível do mar. O compartilhamento das águas do rio Jordão é conflituoso, envolvendo israelenses, jordanianos e palestinos. Apesar de toda a sua importância regional, o Jordão é um rio pequeno para os padrões que nós brasileiros estamos acostumados: tem profundidade máxima de 5,5 metros e uma largura média de 18 metros – é um rio com pouca água para atender as necessidades de muita gente. Além do rio Jordão, as populações locais vêm se utilizando das águas de poços desde tempos imemoriais. 

Um outro agravante da situação do país são as chuvas escassas e mal distribuídas. No Norte de Israel a precipitação média anual é de 70 mm e nas áreas desérticas do Sul cai para meros 5 mm anuais. Esse baixo volume de chuvas mal consegue repor os estoques dos poucos aquíferos da região, o que acabava pressionando cada vez mais os recursos hídricos do rio Jordão. O Governo de Israel é extremamente rígido na concessão de outorgas para uso de água para fins agrícolas, atividade que consome 75% dos recursos hídricos, estimados em 1,6 bilhão de metros cúbicos ao ano, além de cobrar taxas entre US$ 0,2 e US$ 0,4 por metro cúbico. 

As primeiras experiências em agricultura na moderna Israel datam da última década do século XIX, quando os primeiros colonos judeus chegaram a Palestina e se estabeleceram em terras compradas por companhias internacionais. Fazendas foram adquiridas em regiões semiáridas abandonadas havia séculos, consideradas como “impossíveis” de serem cultivadas pelos palestinos e árabes de diversas etnias que habitavam na região. Com apoio internacional de dezenas de entidades judaicas de todo o mundo, esses colonos pioneiros iniciaram um intenso trabalho de pesquisa, desenvolvendo técnicas de recuperação de solos, limpeza de terrenos rochosos, dessalinização de campos, construção de terraços agrícolas e contenção de encostas, drenagem de pântanos, reflorestamento, entre outras atividades.  

A partir de 1947, quando foi declarada a independência do Estado de Israel, o país passou a receber ondas maciças de imigrantes – em apenas dez anos, a população dobrou. Esse forte crescimento populacional passou a pressionar ainda mais os recursos hídricos locais – com mais gente para consumir água e alimentos, todos os esforços voltados para a racionalização do uso da água tiveram de ser aumentados. O desenvolvimento de tecnologias de irrigação cada vez mais eficientes e o desenvolvimento de novas variedades de cultivares adaptados à escassez de água passaram a ocupar posições prioritárias entre os pesquisadores. Outra linha importante de pesquisas envolveu o uso das águas residuárias do tratamento dos esgotos para irrigação de plantações, onde os resíduos orgânicos funcionam como fertilizante para as plantas. 

Graças ao alto grau de desenvolvimento tecnológico alcançada em irrigação, sistemas de cultivo e no desenvolvimento de espécies vegetais altamente adaptadas às condições de solo e clima, Israel passou a conseguir uma produção até 30 vezes maior por hectare que a maioria dos países. Entre as espécies vegetais desenvolvidas em institutos de pesquisa do país são destaques o tomate cereja, o melão Gália, diversas espécies de frutas cítricas e uvas, além de morangos, caquis e framboesas que crescem fora das estações. As variedades de algodão desenvolvidas também são destaque, com uma produtividade de 55 kg por hectare. Na área de produtos de origem animal, o leite é destaque, com espécies locais de vacas com produtividade superior às congêneres holandesas, consideradas grandes produtoras. 

O uso de água dessalinizada em Israel teve início em 1973, quando uma empresa privada passou a construir usinas com operação por osmose reversa para o atendimento de populações de comunidades isoladas. O grande salto tecnológico se deu em 2008, quando o Governo central decidiu construir cinco grandes usinas de dessalinização ao longo da costa do Mar Mediterrâneo (vide foto). Esse ambicioso projeto estabeleceu como meta a produção de 505 milhões de m³ de água dessalinizada até o ano de 2013, chegando a 750 milhões de m³ até o ano de 2020. Os planos do Governo israelense foram facilitados após a descoberta de grandes campos de gás natural no país, combustível que passou a ser utilizado em substituição à eletricidade, o que fez os custos de produção, estimados anteriormente em US$ 1.00 para cada 1 m³ de água dessalinizada, caírem pela metade. 

O aumento da oferta de água potável, além de todos os benefícios diretos para as populações, indústrias e para a agropecuária de Israel, passou a funcionar como uma importante “moeda de troca” com os países vizinhos. Um exemplo pode ser visto no lado Oriental de Jerusalém, trecho da cidade controlado pela Jordânia. Apesar de toda a disputa entre os países pelo controle da cidade sagrada, milhares de palestinos e árabes que vivem no lado Oriental de Jerusalém passaram a solicitar a desconexão de suas residências da rede de águas da Palestina e passaram a se integrar à rede israelense de abastecimento. Os motivos: a qualidade da água é muito superior e o fornecimento é contínuo. 

Esse pragmatismo das populações representa um importante passo para a normalização das relações belicosas entre os diversos países da região que, entre outros graves problemas, disputam ferozmente o controle das fontes de água. Numa reportagem sobre essa questão, um importante jornal de Israel afirmou que “esses árabes e palestinos podem fixar a bandeira do seu país na caixa d’água e participar de protestos contra Israel – mas ao chegar em suas casas, eles querem mesmo é contar com água para tomar um bom banho e suprir as necessidades de suas famílias.” 

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