A GREVE DOS “PIPEIROS” NO CEARÁ, OU LEMBRAM QUE FALEI DA INDÚSTRIA DA SECA?

Pipeiros

Há poucos dias atrás falei da “suposta” indústria da seca, uma associação informal de políticos, comerciantes, empresários, prestadores de serviços e servidores públicos que, se aproveitando de verbas emergenciais liberadas para obras, serviços e auxílios financeiros para o combate à seca, conseguem ganhar um dinheirinho extra – em poucas palavras: tentam lucrar o máximo possível com a desgraça alheia. E não é que os motoristas de caminhões pipa que transportam água para as populações atingidas pela seca no Estado do Ceará resolveram entrar em greve?

Antes de entrar no assunto, gostaria de apresentar um pequeno drama pessoal, onde fui vítima de uma greve dos médicos: em dezembro de 1986, quando voltava da faculdade com a minha motocicleta, um motorista bêbado fez uma conversão proibida e me atingiu em cheio. Fui levado para um pronto socorro particular bem próximo do local do acidente, onde sabia que meu convênio médico era aceito. Por mais incrível que possa parecer, uma greve dos médicos estava em andamento naquele momento e só casos de emergência estavam sendo atendidos – eu estava com uma fratura no osso da canela e com uma forte hemorragia devido a um corte profundo, o que não foi considerada uma emergência. Os dois policiais militares que me socorreram e me acompanhavam no hospital ameaçaram dar voz de prisão por omissão de socorro aos dois médicos que estavam de plantão – com extrema má vontade e muito medo da firme ameaça dos policiais, os médicos me atenderam. O preço da “omissão” veio logo no dia seguinte: sentindo dores muito fortes, fui levado a uma clínica ortopédica particular, onde uma amiga trabalhava e onde não havia greve. O médico que me atendeu ficou chocado com a precariedade do primeiro atendimento recebido: havia resíduos de terra e de graxa no corte, mostrando que não foi feita uma assepsia adequada – caso eu não tivesse procurado outro atendimento médico, o ferimento teria evoluído para uma infecção grave.

Fiz questão de relembrar essa história para enfatizar que greve em serviços essenciais, na minha modesta opinião, é uma das maiores covardias que se pode imaginar: dor, sede e fome são inadiáveis e não é possível deixar pessoas sem o atendimento na defesa de interesses pessoais, particularmente o pleito de salários ou pagamentos maiores. Pois bem: no Estado do Ceará, 1 milhão de pessoas, vítimas da forte estiagem que assola o Semiárido nordestino há seis anos, estão sem o serviço de abastecimento de água através de caminhões pipa – os motoristas, conhecidos na região como “pipeiros”, entraram em greve por maiores salários e em protesto contra supostas falhas no sistema de monitoramento do trajeto dos caminhões.

Como todos devem saber, a seca é um fenômeno natural na região do Semiárido brasileiro, variando de intensidade ao longo do tempo – na maioria dos anos tem uma intensidade menor, mas em intervalos regulares, como tem ocorrido desde 2011, assume proporções gigantescas, causando enormes dificuldades para as populações sertanejas. Entre os diversos mecanismos usados pela autoridades dos diversos níveis de Governo para amenizar os efeitos da estiagem, a distribuição de água através de caminhões pipa é o mais comum. Veículos das Prefeituras, dos Estados e de órgãos Federais, transportam água para distribuição aos flagelados nos mais distantes rincões. Considerando que o Semiárido tem uma área total próxima de 1 milhão de km² (nem sempre a estiagem atinge de maneira única toda a região) e que existem milhares de comunidades a serem abastecidas com água, fica fácil perceber as dificuldades para se fiscalizar todo este trabalho emergencial – desvios de verbas e má prestação dos serviços sempre acabam acontecendo. Há vários anos, as autoridades vêm usando um sistema de monitoramento dos caminhões pipa através de sinal GPS – Global Positioning System ou, em português, Geoposicionamento Global por Satélite. Os caminhões são equipados com um MEI – Módulo de Monitoramento Embarcado, que envia via satélite as informações do trajeto percorrido, desde a coleta da água nas fontes até a entrega nas comunidades, para o COTER – Comando de Operações Terrestres, do Exército Brasileiro.

Sempre que um dos caminhões pipa chega a uma comunidade para fazer uma entrega, os dados são gravados em um cartão eletrônico, o G-Pipa. Este cartão fica sob a responsabilidade de um representante da comunidade e serve para comprovar a entrega da água. Estas informações são transmitidas em tempo real para o GCDA – Sistema Gestor de Distribuição de Água, sob responsabilidade do Comando Militar do Nordeste. A liberação dos pagamentos pelos serviços de entrega da água são feitos a partir destes dados, evitando-se assim a ocorrência de desvios. Este sistema controla atualmente o abastecimento em mais de 78 mil pontos, espalhados por aproximadamente 850 municípios nos Estados da Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, além de municípios do Norte de Minas Gerais e do Espírito Santo. A população atendida é de aproximadamente 4 milhões de pessoas – cerca de 350 militares atuam diariamente no monitoramento das cisternas e reservatórios abastecidos pelos “pipeiros”, incluindo também a verificação da documentação e das condições dos veículos, além de monitorar a qualidade da água. Os militares fornecem uma planilha com os locais que devem ser abastecidos e tabletes de cloro para serem adicionados à água. Os “pipeiros” cadastrados no Sistema ficam responsáveis pela coleta da água nos mananciais e fontes de abastecimento, e a aplicação do cloro na água após o enchimento das cisternas e caixas d’água nas comunidades. São aproximadamente 2 bilhões de litros de água distribuídos mensalmente.

De acordo com informações do Comando Militar do Nordeste, cerca de 200 “pipeiros” já foram afastados do serviço após irregularidades terem sido constatadas, indo desde a captação de água em fontes poluídas até o uso de câmaras de ar de pneus dentro dos tanques para reduzir o volume água transportada (o consumo de combustível pelos caminhões diminui e os motoristas “lucram” com o reembolso das despesas).

Curiosamente, esse Sistema tão complexo e eficiente não está funcionando corretamente no Ceará, o que motivou o SINPECE – Sindicato dos Pipeiros do Estado, a iniciar uma greve por causa da “precariedade do Sistema G-Pipa, pela defasagem dos salários e por um melhor tratamento profissional”. Segundo o Sindicato, o G-Pipa não está registrando corretamente o percurso feito pelos caminhões e os motoristas tem sofrido prejuízos. Cerca de 1.800 “pipeiros” aderiram à paralisação, que afeta cerca de 1 milhão de pessoas em cidades como Orós, Madalena, Nova Olinda, Morada Nova e Caucaia. Os grevistas afirmam que, caso não sejam atendidas as suas reivindicações, irão realizar bloqueios nas estradas, o que só vai aumentar o drama das populações sertanejas.

Minha crítica não é contra a reivindicação dos profissionais – se existem defasagem nos pagamentos ou problemas de funcionamento no Sistema, que se apurem e se resolvam: todo trabalhador tem direito a receber um salário justo. O que é inadmissível é se usar a fragilidade das populações afetadas pela falta da água para se chantagear as autoridades. Garçons e pasteleiros, por exemplo, caso queiram iniciar uma greve, não terão a mesma força dos “pipeiros” – o máximo que conseguirão é deixar seus clientes sem cerveja e pastéis, o que está muito longe de ser uma tragédia social. Água, ao contrário, é um dos insumos essenciais a vida – alimentação, dessedentação, higiene pessoal e doméstica dependem da sua disponibilidade, mesmo que em quantidades diárias mínimas. Usar essa necessidade inadiável do bem natural como uma ferramenta de pressão para pressionar as autoridades por maiores salários chega, na minha opinião, ao limite da criminalidade – sem acesso a água, pessoas podem morrer.

São essas distorções com vistas ao lucro de uns poucos e sem se importar com o sofrimento de muita gente com a falta de água que impõem o uso da polêmica expressão “indústria da seca”.

Que prevaleça o bom senso e que as partes consigam se acertar e reestabelecer o abastecimento com caminhões pipa no menor tempo possível.

2 Comments

  1. […] Um total de 137 municípios cearenses, de um total de 184 municípios do Estado, se encontram em situação de emergência por causa da estiagem decretada pelo Governo Estadual – pelo menos 17 cidades ainda aguardam o reconhecimento do estado de emergência. Esses números indicam que 74,4% do território do Estado está em situação de emergência em função da seca. O reconhecimento do estado de emergência pelos órgãos federais é de extrema importância para os municípios pois garante um atendimento prioritário na liberação de verbas e de serviços emergenciais, incluindo-se os imprescindíveis serviços de distribuição de água com caminhões pipa, foco de inúmeras tensões com os “pipeiros” do Estado, conforme relatamos em postagem anterior. […]

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