A ARIDEZ DA ILHA DE MALTA E A DEPENDÊNCIA DA ÁGUA DESSALINIZADA

malta

O pequeno arquipélago de Malta, localizado a pouco mais de 90 km ao Sul da Sicília no Mar Mediterrâneo, é considerado um dos países mais secos do mundo. Ocupando uma área de 316 km², Malta é um dos menores países da Europa e também o que possui a maior densidade demográfica – são cerca de 430 mil habitantes, o que dá 1.360 habitantes para cada km². Malta tem gente demais para água de menos. 

De acordo com evidências arqueológicas, o arquipélago é habitado desde o quinto milênio antes de Cristo. Sem rios, lagos ou qualquer outra fonte superficial de água, os malteses sempre dependeram da escavação de poços e do armazenamento da água das chuvas em cisternas para o abastecimento de suas casas e a irrigação de suas plantações. Essa é uma situação que se repete com frequência em outras ilhas do Mediterrâneo. 

Apesar dessa absoluta escassez de água, a localização estratégica de Malta acirrou a cobiça de inúmeros povos desde a antiguidade. O arquipélago já foi dominado por fenícios, gregos, romanos, árabes, mouros, normandos, aragoneses e depois por espanhóis. Também entram na lista a Ordem dos Cavaleiros de São João, os franceses e, por fim, os britânicos. Em 1964, Malta obteve a independência do Reino Unido e passou a ser um membro da Commonwealth, a Comunidade Britânica de Nações. Desde 2008, Malta faz parte da Comunidade Europeia. 

Durante a maior parte de sua longa história, os povos de Malta se valeram exclusivamente da pouca água que conseguiam retirar dos escassos lençóis freáticos das Ilhas e da água das chuvas, que sempre foi acumulada em cisternas e usada pelas famílias – toda casa das ilhas contava com sua própria cisterna. Nas últimas décadas, com o crescimento da população e o aumento da pressão dos agricultores por mais água, o Governo local foi obrigado a se voltar para as águas do Mar Mediterrâneo – desde 1982, o arquipélago de Malta vem utilizando água dessalinizada para o abastecimento de sua população e para uso em sistemas de irrigação agrícola. Atualmente, são três usinas de dessalinização instaladas em pontos diferentes das ilhas, que respondem por 70% da água consumida. 

Uma dessas usinas de dessalinização fica na região de Pembroke e produz até 35 mil metros cúbicos de água por dia, uma operação que demanda um consumo de energia elétrica da ordem de 100 mil quilowatts a cada dia. A geração de energia elétrica no arquipélago de Malta é feita por usinas termelétricas a carvão e a gás, combustíveis caros que precisam ser importados e que resultam em contas de energia elétrica bem elevadas para a população. Os malteses são verdadeiros experts na economia de água e de energia elétrica em suas casas. 

A opção pela construção de três usinas de dessalinização em locais diferentes ao invés de uma única usina de grande porte foi feita por razões de segurança e de proteção ao meio ambiente. Todos os combustíveis e derivados de petróleo utilizados no arquipélago de Malta têm de ser importados de outros países e, nas operações de descarga desses produtos, já ocorreram vários acidentes seguidos de derramamentos no mar. Com a distribuição da dessalinização em três usinas diferentes, o risco de fechamento de uma unidade por contaminação da água do mar não compromete o abastecimento da população. Outra razão para essa descentralização é o descarte de efluentes com altos níveis de salinidade pelas usinas, que são feitos em três locais diferentes, em volumes menores e com menores riscos de dano à vida marinha. 

Como acontece em todo o mundo, cerca de 70% do consumo de água nas ilhas fica por conta da agricultura. Para evitar desperdícios de água nas atividades agrícolas, o Governo de Malta passou a implementar uma série de políticas para estimular o aproveitamento da chamada água de reúso na agricultura. Essas águas são resultantes do processo de tratamento dos efluentes nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos, e apresentam um custo bem mais baixo para os agricultores. Também existem diversas experiências com novos sistemas de cultivos em estufas e com baixo consumo de água. Outra frente de trabalho das autoridades de Malta foi a modernização das tubulações da rede de distribuição de água potável nas cidades, no sentido de reduzir as perdas por vazamentos. O consumo per capita de água em Malta é, atualmente, um dos mais baixos da Europa – são aproximadamente 110 litros de água por habitante / dia

Em anos recentes, graças ao bom nível de desenvolvimento econômico que Malta vem apresentando, cerca de 50 mil cidadãos de outros países europeus vieram morar no arquipélago. Acostumados com níveis de consumo de água bem mais altos do que a média dos cidadãos malteses, esses novos moradores passaram a pressionar o consumo de água nas ilhas. Outra fonte de pressão é formada pelos turistas, que somam perto de 40 mil visitantes ao ano. Não podem ficar dessa lista os estudantes de língua, que são muitos. Como o inglês é a segunda língua oficial do país (a língua oficial é o maltês, a única língua de origem semítica da Europa), Malta recebe um número cada vez maior de estudantes de intercambio, que vêm até ao arquipélago para estudar a língua inglesa a preços mais baixos que nas ilhas britânicas. 

A capital de Malta, a cidade de Valeta, foi fundada pela Ordem dos Cavaleiros de São João em meados do século XVI. Essa ordem, chamada oficialmente de Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, nasceu ligada a monges beneditinos e surgiu originalmente na Palestina no século XI. A ordem deixou o Oriente Médio no ano de 1291 e se estabeleceu em diversas ilhas do Mar Mediterrâneo antes de se estabelecer definitivamente em Malta. Essa ordem militar e religiosa estabeleceu regras rígidas para a população da cidade, sendo que uma dessas regras era a obrigatoriedade de construção de cisternas para armazenamento de água das chuvas em todas as casas da cidade. Durante séculos, essa regra garantiu o abastecimento de água das famílias. 

Uma típica família de Malta costuma suprir entre 40 e 50% das suas necessidades diárias com a água das chuvas que foi armazenada em sua cisterna. Essa água é usada nos vasos sanitários, nas lavagens de pisos, quintais e veículos, entre outros usos que não requeiram a água potável. Essa é uma forma de reduzir os altíssimos custos das contas de água. Em anos mais recentes, em função do crescimento da população e também da presença de turistas em número cada vez maior, as novas construções residenciais e hoteleiras feitas na cidade de Valeta, e também em outras cidades das ilhas, abandonaram esse antigo costume de se construir as cisternas. Com isso, há uma pressão cada vez maior pela produção e distribuição de água dessalinizada. 

As famílias costumam comprar garrafas de água mineral, vindas na sua maior parte da Itália e da França, para cozinhar alimentos e para se beber, algo que nos dá uma ideia do alto custo de vida no país. A água dessalinizada que é servida para a população, apesar de todo o controle de qualidade feito nas usinas, apresenta altos índices de calcário, o que produz alterações no seu sabor – por isso, o costume da compra de água mineral. 

Em Malta, como acontece em muitos outros lugares que usam sistemas de dessalinização, a água deixa um “sabor” desagradável na boca e um rombo no bolso dos consumidores. 

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