AINDA FALANDO DOS ACIDENTES COM ESCORPIÕES

escorpião no entulho

Na última postagem falamos sobre o altíssimo número de acidentes com escorpiões aqui no Brasil – segundo dados do Ministério da Saúde, foram 141.400 notificações em 2018. Afirmamos também que problemas de saneamento básico estão na raiz do problema. Como esse blog se dedica à educação ambiental e à divulgação de conhecimentos na área dos recursos hídricos e do saneamento básico, vamos falar um pouco mais sobre esse assunto. 

De acordo com as informações disponíveis, metade dos acidentes com escorpiões ocorrem nos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Essa grande concentração de acidentes se deve a dois fatores principais: a grande população e as taxas de urbanização desses Estados. São Paulo é o Estado mais populoso do Brasil e conta com uma população de 44 milhões de habitantes; Minas Gerais fica com a segunda posição em termos de população, se aproximando dos 21 milhões de habitantes

Esses dois Estados também possuem a maior concentração de cidades do país: são 853 cidades em Minas Gerais e 645 no Estado de São Paulo. Além das cidades sedes dos municípios, existem centenas e mais centenas de agrupamentos humanos em distritos espalhados pelas áreas rurais, o que só faz aumentar os índices de população vivendo em áreas urbanas. 

Um outro número interessante dos dados das ocorrências de acidentes com escorpiões é o perfil das vítimas: a maior parte das vítimas é do sexo masculino, na faixa etária entre 25 e 65 anos. O local onde os escorpiões picaram essas vítimas é na maior parte dos casos nos membros superiores. Confrontando essas informações com as características dos habitats preferidos pelos escorpiões – locais com pedras e entulhos, quentes e úmidos, percebemos que as vítimas são trabalhadores da construção cívil, da agricultura, de empresas madeireiras e ainda profissionais que trabalham em depósitos de armazenamento de materiais. Todos os ambientes de trabalho desses profissionais reúnem características muito próximas dos habitats naturais dos escorpiões.

Uma outra característica, essa dos trabalhadores, também reforça as suspeitas: os trabalhadores brasileiros não gostam de usar EPIs – Equipamentos de Proteção Individual, algo que já tratamos em uma postagem anterior. Dois itens de segurança, as luvas de proteção e as camisas de mangas compridas, se fossem devidamente utilizados, reduziriam sensivelmente esse número de acidentes com esses animais peçonhentos.

A maior incidência de acidentes com escorpiões são os meses de calor e chuvas, que na região Centro-Sul do Brasil (formada pelas regiões Sul, Sudeste menos o Norte de Minas e a parte mais ao Sul da região Centro-Oeste) ocorre entre os meses de novembro e março. Com a chegada das chuvas, escorpiões que se abrigam em tubulações e galerias subterrâneas dos sistemas de drenagem de águas pluviais das cidades saem em busca de locais mais confortáveis, podendo assim entrar em quintais e até mesmo no interior dos imóveis. Essa proximidade maior com os animais aumenta os riscos de acidentes nas residências. 

A imensa maioria dos acidentes com escorpiões não são fatais, apesar de muitas vezes produzir uma dor intensa na região onde ocorreu a picada. Os casos de morte equivalem a 0,58% (algumas fontes dão outro número – 0,15%) dos acidentes, ocorrendo na grande maioria dos casos em crianças pequenas e em idosos debilitados por doenças. As consequências da picada de um escorpião dependem da espécie e da quantidade de veneno inoculado (lembrando aqui que o escorpião-amarelo é a espécie mais venenosa da América do Sul e a responsável pela imensa maioria dos acidentes fatais), da quantidade de picadas, do tamanho e da massa corporal da vítima, além do tempo decorrido entre o acidente e o início do atendimento médico. 

Na falta de uma melhor cobertura dos serviços de saneamento básico nas cidades brasileiras, especialmente dos serviços de coleta e destinação dos resíduos sólidos, existem várias medidas “caseiras’ que auxiliam no controle das populações de escorpiões. Esses animais são criaturas noturnas, que passam o dia inteiro escondidas em locais escuros e úmidos – é bastante raro ver um espécime andando a luz do dia. É durante as noites que esses animais saem para caçar os seus alimentos, formado basicamente por insetos como baratas e grilos; justamente nesses períodos é que existe a maior probabilidade de um escorpião entrar em uma casa. Se possível, instale portas de tela e também telas nas janelas – assim é possível manter a casa ventilada e protegida desses animais. 

Outra medida bastante eficiente é manter os ralos da casa e os drenos de água pluviais devidamente protegidos. Existem inúmeras opções de ralos no mercado com tampa e fecho hídrico, que manterão o interior das casas devidamente protegidos da entrada dos escorpiões. As saídas de águas pluviais normalmente são protegidas por grades – instale um pedaço de tela plástica ou metálica nessas grades. 

Um bom conselho é manter os quintais limpos e evitar o acúmulo de objetos – pneus velhos, tijolos, telhas, madeiras, garrafas, eletrodomésticos quebrados, carcaças de veículos, entre outras “tranqueiras”. Esses resíduos são duplamente perigosos – eles tanto podem oferecer ótimos abrigos para famílias inteiras de escorpiões quanto podem acumular a água das chuvas e se transformar em criadouros de mosquitos como o perigoso Aedes Aegypti, transmissor de inúmeras doenças como a dengue, a Chikungunya e Zica vírus, entre outras. Se o quintal da casa possuir um gramado, esse deverá cortado e aparado regularmente. 

Também é fundamental que as populações evitem o descarte inadequado de lixo e resíduos da construção civil em terrenos baldios e nas ruas. O acúmulo desses resíduos recria artificialmente os habitas naturais dos escorpiões, que na natureza costumam se abrigar sob pedras, troncos de árvores e em fendas naturais. No meio do lixo sempre se encontram restos de alimentos que atraem as baratas – os escorpiões adoram comer baratas e sempre terão preferência por moradias próximas de suas “áreas de alimentação”. Quando populações de um bairro ou de uma rua fazem o descarte de resíduos em terrenos baldios e em ruas estão, literalmente, convidando os escorpiões para viver em sua vizinhança. Daí para a ocorrência de um acidente “é só um pulo”. 

Para finalizar, um outro ponto importante – está se observando um aumento da área onde se encontram os escorpiões-amarelos. É possível se supor que isso se deve ao transporte de cargas entre as regiões, especialmente por via terrestre. Os animais entram em caixas com produtos e, assim, acabam se espalhando como “passageiros clandestinos” por outras regiões. Recomenda-se que os armazéns onde essas cargas ficam armazenadas pratiquem as mesmas medidas de isolamento que recomendamos para as residências – portas e janelas com telas, ralos e drenos de águas pluviais bem tampados e protegidos por telas, além de se evitar ao máximo o acúmulo de resíduos nos terrenos. 

Quando o assunto são os escorpiões, todo o cuidado é pouco. 

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