A PRESSÃO TURÍSTICA NAS ILHAS BALEARES DA ESPANHA

ibiza

Uma outra região insular do Mar Mediterrâneo que sofre com a carência de recursos hídricos são as Ilhas Baleares, um arquipélago que pertence a Espanha. As Baleares, ou Balears em catalão, são formadas por quatro grandes ilhas: Maiorca, Minorca, Ibiza e Formenteira, além de diversas ilhas menores e ilhotas. Assim como acontece no arquipélago de Malta, as Ilhas Baleares não dispõem de fontes superficiais de água como rios e lagos. Desde da antiguidade, os diversos povos que habitaram essas ilhas sempre dependeram da água das chuvas, que ocorrem em abundância durante os meses de inverno, e da exploração das águas subterrâneas a partir de poços para o consumo familiar e para a agricultura. 

Em décadas mais recentes, as Ilhas Baleares seguiram na esteira de Barcelona e acabaram transformadas em sofisticados destinos turísticos da Europa. O forte sol, que brilha cerca de 285 dias a cada ano, as inúmeras praias e as descoladas baladas organizadas por diversos clubes e bares das principais cidades (vide foto), passaram a atrair verdadeiras multidões para as ilhas – são cerca de 10 milhões de visitantes a cada ano, um número várias vezes superior à população total das ilhas, que está atualmente na casa de 1 milhão de habitantes. As Baleares possuem uma área total de 4.992 km², mas os principais destinos turísticos estão concentrados na região da baía de Palma, na ilha Maiorca, e em Ibiza, ilhas que convivem com sérios problemas nos serviços de abastecimento de água. 

As fontes tradicionais de abastecimento de água, os poços e as cisternas de armazenamento da água da chuva, só conseguem suprir metade do consumo atual das Ilhas Baleares – há várias décadas que vem sendo necessário se recorrer aos sistemas de dessalinização de água do mar para se conseguir complementar o abastecimento das populações. As particularidades das Baleares, entretanto, apresentam desafios que extrapolam a simples oferta de maiores volumes de água potável. 

Usinas de dessalinização da água do mar estão em operação na ilha Maiorca desde 1999, abastecendo as cidades de Palma de Maiorca, Calvia Andraix, onde vive uma população fixa de 345 mil habitantes. A água dessalinizada, obtida através de filtragem por osmose reversa, é injetada diretamente nos solos para reforçar o nível dos lençóis freáticos. Os solos da ilha são formados por rochas calcárias – caso o nível das reservas subterrâneas de água atinja níveis muito baixos, existe um crescimento da infiltração de água do mar e um aumento da salinização da água, que se torna salobra e imprestável para o consumo. Com o aumento explosivo do fluxo de turistas para a ilha nos últimos anos, essa manobra não tem sido mais eficiente e, em algumas regiões, as residências retiram águas dos poços com níveis de sal acima do recomendável. Famílias acabam forçada a consumir apenas água mineral, um produto que nos momentos de pico do turismo, chega a custar 12 Euros a garrafa. 

Na ilha de Ibiza, a mais badalada e famosa de todas as Baleares, a situação é mais caótica. A ilha conta com três usinas de dessalinização, além de diversas unidades menores instaladas nos hotéis, que não dão conta de abastecer toda a população local, na casa de 140 mil habitantes, e de turistas, que superam a cifra de 4 milhões de visitantes a cada ano – no mês de agosto, auge do verão europeu, essa cifra atinge a marca de 1,1 milhão de turistas. A produção de água dos aquíferos e das usinas de dessalinização não é suficiente para atender toda essa demanda. Como acontece na ilha de Maiorca, a água do mar acaba se infiltrando nos aquíferos e a água das torneiras fica com um gosto horrível. Por outro lado, essa verdadeira horda de turistas injeta mais de 20 bilhões de Euros na economia de Ibiza, o que corresponde a mais de 70% do PIB – Produto Interno Bruto. Ou seja, o mesmo turista que torna a vida na ilha insuportável é o mesmo que faz a economia local funcionar

Durante o período da temporada, que vai de abril até o início de novembro, os aeroportos das Ilhas Baleares chegam a receber até 1.500 voos diários, com aviões vindos de todas as partes da Europa e do mundo. A espera de toda essa multidão de visitantes, agências disponibilizam cerca de 90 mil carros para locação, o que transforma as ruas e estradas num verdadeiro caos. Muitos turistas chegam nas ilhas em embarcações, que superlotam os mais de 24 mil atracadouros das marinas. Hotéis e restaurantes, com uma frequência altíssima, passam a pendurar placas de “LOTADO” nas suas portas.  

Na esteira de toda essa massa de turistas, bares, restaurantes, hotéis, hospedarias e outros estabelecimentos de comércio e serviço abrem milhares de postos de trabalho temporário, chegando a empregar entre 70 e 80 mil trabalhadores, vindos de toda a Espanha e de países vizinhos. Esses trabalhadores se amontoam em pequenos apartamentos, que acabam compartilhados por até 12 pessoas, onde cada morador chega a pagar um aluguel de mais de 500 Euros para dormir em uma cama apertada ou num sofá. Muitos cidadãos das Baleares se mudam para cidades da Espanha durante os meses de férias e alugam seus apartamentos e casas para esses trabalhadores sazonais. 

Muitos desses “trabalhadores de verão” não têm condições de pagar os preços proibitivos desses aluguéis e, como alternativa, passam a pernoitar em barracas de camping, montadas em bosques próximos das cidades. Alguns, mais afortunados, conseguem passar as noites em carros ou caminhonetes, emprestados por alguma pessoa conhecida. Nesses locais, surge um problema de higiene básica: na falta de banheiros para toda essa população errante, essas pessoas passam a “defecar e a urinar ao ar livre”, um problema comum em países pobres e subdesenvolvidos do mundo, mas já superado há vários séculos pelos países europeus. Também ocorre o descarte irregular de lixo e de todo o tipo de resíduos, transformando muitos desses bosques em lixões a céu aberto. 

O colapso dos sistemas de abastecimento de água nas Ilhas Baleares tem sua origem na “superpopulação de turistas” e, como demonstrado, isso é apenas a ponta do iceberg dos problemas vividos pelas populações locais. Além da falta crítica de água dos períodos de alta temporada, as populações das cidades e vilas das Ilhas Baleares também sofrem com a falta de médicos, radiologistas, anestesistas, enfermeiros, policiais, bombeiros, entre outros profissionais das áreas de serviço e de atendimento ao público. Problemas nos transportes e serviços de coleta de lixo, abastecimento de eletricidade, gás e alimentos completam o quadro caótico. 

A dessalinização da água do mar consegue resolver muitos dos problemas de abastecimento em vários lugares áridos do mundo. No caso das Ilhas Baleares, isso só será possível com uma pouco provável limitação do número de visitantes. 

É esperar para ver o que acontecerá. 

 

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