OS ATAQUES DE ESCORPIÕES E OS PROBLEMAS DE SANEAMENTO BÁSICO

escorpiao-amarelo

Na última sexta-feira, dia 11 de janeiro, o Ministério da Saúde divulgou uma nota tratando do aumento do número de ataques de escorpiões aqui no Brasil em 2018. Como esse assunto está ligado diretamente aos nossos problemas de saneamento básico, vamos fazer uma pausa nas postagens sobre o uso da água dessalinizada

A gritante falta de investimentos em saneamento básico em nossos país, que já está na raiz de uma série de problemas de problemas de saúde pública e de baixa qualidade de vida, agora está nos atingindo através da invasão dos escorpiões em nossas cidades e na explosão dos chamados incidentes com esses animais. 

De acordo com a nota oficial do Ministério, foram registrados 141.400 acidentes com escorpiões em todo o Brasil ao longo de 2018. Esse número representa um aumento de 16 mil ocorrências em relação aos números de 2017 e, quando comparado aos ataques registrados em 2016, o crescimento foi de 50 mil ocorrências. O número de mortes decorrentes desses incidentes em 2018 ainda não foi fechado – foram 115 mortes em 2016 e 88 em 2017. 

Escorpiões são animais invertebrados que pertencem à ordem dos Scorpiones e enquadrados na classe dos aracnídeos, a mesma das aranhas. Existem mais de 2 mil espécies de escorpiões em todo o mundo, a exceção do continente Antártico. Esses animais geralmente têm hábitos noturnos, passando a maior parte do dia escondidos sob pedras, troncos e cascas de árvores. Na natureza, seus maiores predadores são as cobras, lagartos, sapos e aves noturnas como as corujas. Em ambientes urbanos, os escorpiões se valem dos terrenos baldios com lixo e entulho como habitats. Como não encontram predadores naturais nos meios urbanos, esses animais se multiplicam sem controle. 

As espécies mais comuns no Brasil são Tityus bahiensis, Tityus stigmurus, Tityus trivittatus, Tityus cambribge e a Tityus serralatus, essa última é a que causa o maior número de acidentes graves, sendo conhecida popularmente como escorpião-amarelo (vide foto). Essa espécie de escorpião é considerada a mais venenosa da América do Sul, sendo encontrada com maior frequência nas regiões, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país. As vítimas fatais mais comuns das picadas desses animais são as crianças menores de 7 anos e os idosos com organismo debilitado. De acordo com estudos realizados pelo Instituto Butantã de São Paulo, cerca de 75% dos acidentes com escorpiões ocorrem em áreas urbanas. A abrangência geográfica dos escorpiões-amarelos também vem crescendo ao longo dos últimos anos, o que é um motivo a mais para as preocupações.

O avanço dos desmatamentos por todo o país e o crescimento desordenado das cidades estão entre as principais causas da migração dos escorpiões para as áreas urbanas. O “sucesso” obtido pelos escorpiões na colonização das cidades está baseado principalmente na nossa falta de infraestrutura de saneamento básico. O acúmulo de lixo e entulho em ruas e terrenos baldios cria os habitats adequados para a moradia desses animais, proporcionando bons abrigos – quentes e úmidos como eles gostam. Aqui há um detalhe importante: as fêmeas dos escorpiões têm, em média, 20 filhotes a cada ano, crias essas que, bem abrigadas e alimentadas, têm todas as condições de chegar à idade adulta, quando os animais atingem a maturidade sexual. Outro número alarmante – ao longo de sua vida, uma fêmea de escorpião poderá produzir até 160 descendentes

Com relação à alimentação, escorpiões são vorazes predadores de insetos, especialmente uma espécie encontrada em abundância nas áreas urbanas – as baratas. Conforme já discutimos em publicações anteriores, as baratas encontram fartura de alimentos nas redes de esgoto das nossas cidades, especialmente a gordura que fica grudada nas paredes das tubulações. Essa gordura vem de restos de óleos comestíveis que são jogados inadvertidamente nas pias e também dos restos de gordura animal nos pratos e panelas, que são eliminados durante as lavagens.  

Em contato com a água fria, essa gordura solidifica e fica à espera das baratas para  verdadeiros banquetes. O uso de caixas de gordura nas saídas das pias das cozinhas é a forma mais adequada de se controlar esses despejos de gordura nas redes de esgotos e, consequentemente, das populações de baratas. Um outro problema ligado diretamente aos acúmulos de gordura são os entupimentos das redes de esgotos, algo que cria inúmeros transtornos para as populações. 

O saneamento básico pode ser definido como o conjunto de serviços que garantem as condições de higiene e saúde da população ou série de medidas que tornam uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de vida para uma população ou para a agricultura. Esses serviços ou medidas são: abastecimento de água, sistemas de drenagem de águas pluviais (chuva), serviços de limpeza urbana e coleta/destinação de lixo e resíduos sólidos, além dos sistemas de coleta e de tratamento de esgotos. Há um quinto serviço que está contido nos demais serviços.  – o controle de pragas e vetores: ratos, baratas, mosquitos, pulgas entre outros, além dos perigosos escorpiões. E, como todos sabem, nossas cidades falham muito em todos esses serviços.

Na falta de medidas mais concretas para o controle das populações de escorpiões, as autoridades do Ministério da Saúde fazem as seguintes recomendações:

  • Use telas em ralos no chão, pias e tanques; 
  • Procure vedar possíveis frestas nas paredes e colocar soleiras nas portas; 
  • Afaste camas e berços das paredes; 
  • Faça uma checagem em roupas e sapatos antes de vestir ou calçar, para se certificar de que nenhum inseto entrou; 
  • Mantenha jardins e quintais livres de entulhos, folhas secas e lixo doméstico; 
  • Guarde o lixo da casa em sacos bem fechados, pois os resíduos podem atrair baratas, que servem de alimento para o escorpião; 
  • Não descarte lixo e entulhos em vias públicas e em terrenos baldios;
  • Mantenha a grama aparada; 
  • Evite colocar a mão em buracos, embaixo de pedras ou em troncos apodrecidos; 
  • Use luvas e botas para manusear entulho, madeiras e materiais de construção, por exemplo; 
  • Se morar em área rural, procure preservar os predadores naturais dos escorpiões, especialmente lagartos, sapos, e aves noturnas, como as corujas; 
  • Evite usar pesticidas, pois eles não têm eficácia comprovada para controlar o animal em ambientes urbanos.;
  • Instale caixa de gordura na saída da pia do seu imóvel, controlando assim a população de baratas e, consequentemente as populações de escorpiões na sua vizinhança.

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