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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

AS FORTES CHUVAS QUE ESTÃO CASTIGANDO AS FILIPINAS

Mais uma vez, o arquipélago das Filipinas está sendo devastado por um dos chamados eventos climáticos extremos. A “bola da vez” é a tempestade tropical Mogi, que já matou ao menos 80 pessoas e já deixou mais de 17 mil desabrigados. Por definição, uma tempestade tropical é um ciclone tropical com fortes ventos de mais de 63 km por hora. 

As fortes chuvas dos últimos dias provocaram inundações e quedas de energia elétrica, especialmente nas ilhas localizadas ao largo do Oceano Pacífico. A maior parte das vítimas morreu em deslizamentos de encostas, um problema que nós brasileiros conhecemos muito bem. 

Uma das regiões do país mais afetadas pelas chuvas é a Ilha de Leyte. Apenas no vilarejo de Pilar já foram contabilizadas 26 mortes e cerca de 150 pessoas estão desaparecidas. As maiores dificuldades para as equipes de resgate são as estradas precárias, que no momento estão cobertas de lama. 

Mais de 100 vilarejos da ilha, especialmente aqueles localizados ao largo de rios ou próximos das praias, ficaram praticamente submersos devido a um forte temporal seguido de chuvas contínuas. Foram registradas rajadas de vento com velocidades acima de 65 km/h. 

A República das Filipinas é um grande país insular do Sudeste Asiático. É formado por mais de 7 mil ilhas, com um território de aproximadamente 300 mil km² e onde vive uma população de pouco mais de 100 milhões de habitantes. O arquipélago está localizado entre os Oceanos Pacífico e Índico, uma posição que o coloca frequentemente no caminho de tufões e tempestades tropicais. 

Em média, as Filipinas são atingidas por 20 tufões e tempestades tropicais a cada ano. A tempestade atual é a primeira a atingir o arquipélago esse ano – muitos outros eventos extremos atingirão as ilhas ao longo deste ano. 

De acordo com um relatório da OMM – Organização Meteorológica Mundial, um braço da área climática da ONU – Organização das Nações Unidas, o território das Filipinas é uma das regiões mais afetada por fenômenos climáticos extremos no Oceano Pacífico. Foram 48.950 mortes em consequência desses eventos nos últimos 50 anos. Esse número corresponde a 75% das mortes nesses eventos na região. 

Os graves problemas provocados pelas chuvas no arquipélago são ampliados por causa da enorme devastação da cobertura florestal das ilhas. É comum se afirmar que perto de 75% das matas e florestas nativas já desapareceram – alguns autores chegam a afirmar que só resta algo entre 6 e 8% da vegetação nativa original, algo muito parecido com a situação da Mata Atlântica aqui no Brasil

Muitos especialistas consideram as Filipinas como o pior caso de degradação ambiental de todo o mundo. Muitos cientistas chegam até a afirmar que o país é uma “causa perdida” em termos ambientais. Desde o descobrimento das ilhas no século XVI, a exploração intensiva de madeira foi uma das principais atividades econômicas, que aumentou vertiginosamente a partir do século XX, 

Esse nível de degradação das florestas, é claro, tem seus reflexos na vida animal e vegetal. De acordo com informações da IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza na sigla em inglês, uma das mais respeitadas organizações ambientais do mundo, cerca de 21% dos animais vertebrados e metade das espécies de plantas das Filipinas estão ameaçados.   

É sempre importante lembrar que, como se tratam de ecossistemas de ilhas, existe um alto grau de endemismo nas espécies animais e vegetais nas matas das Filipinas – ou seja, grande parte das espécies só são encontradas em suas respectivas ilhas.  

Das 1.100 espécies de vertebrados conhecidos, quase a metade são endêmicos. No caso das plantas, as estimativas oscilam entre 45 e 60% de endemismo. A extinção de qualquer um desses seres vivos é uma perda irreparável para todo o mundo.  

Vários estudos recentes vêm encontrando dezenas de novas espécies endêmicas de mamíferos e especialistas alertam que as Filipinas podem “abrigar a maior concentração de espécies únicas de mamíferos do planeta“. Isso aumenta o tamanho da crise ambiental local. 

Plantas e animais são interdependentes – os animais se alimentam de folhas, caules, raízes e frutos. Em troca, os animais realizam parte importante da dispersão de sementes e partes das plantas que formarão novas mudas Sempre que ocorrem reduções expressivas de populações de espécies animais, as populações de plantas ficam cada vez mais restritas geograficamente, inclusive com risco de serem levadas a extinção no longo prazo. 

As Ilhas Filipinas são essencialmente de origem vulcânica, possuindo terrenos bastante acidentados e montanhosos. Originalmente, as encostas dessas montanhas e serras eram cobertas por uma densa vegetação tropical, o que protegia os solos dos processos erosivos resultantes das fortes e frequentes chuvas da região.  

Sem a proteção das matas, os solos perdem a capacidade de reter parte importante das águas das chuvas. Muito pior – a velocidade das enxurradas “morro abaixo” aumenta muito, o que resulta em grandes alagamentos nos vales e partes baixas. Os solos das encostas também se tornam instáveis durante as chuvas, ocorrendo inúmeros deslizamentos de encostas, o que, conforme comentamos, é a causa da maior parte das vítimas fatais. 

Desgraçadamente, a situação já complicada do país tenderá a ficar pior ao longo dos próximos anos. O aumento das temperaturas globais, mais conhecido como aquecimento global, está alterando importantes correntes marítimas e de ventos, além de provocar uma elevação gradual do nível dos oceanos. Esses problemas tendem a aumentar a incidência e o potencial das tempestades que atingem as Filipinas todos os anos. 

Como diz um antigo ditado – quem planta vento colhe tempestade. É mais ou menos isso o que foi feito nas Filipinas. 

UMA BOA NOTÍCIA: MATO GROSSO ESTÁ DESMATANDO MENOS

Conforme vamos nos aproximando do meio do ano, época em que começa a seca na Região Amazônica e no Cerrado, é também a temporada em que começam as queimadas e uma verdadeira chuva de más notícias sobre a destruição da Floresta Amazônica pelo fogo

Esse ano, ao que tudo indica, as coisas parecem que vão ser um pouco melhores que nos anos anteriores. No Pantanal Mato-grossense, por exemplo, a temporada de chuvas teve precipitações bem maiores que nos últimos anos e o nível dos rios está bastante satisfatório. O rio Paraguai, um dos principais do bioma, está mais de 4 metros acima do seu nível normal, uma cota que não era atingida desde 2020. 

Quem também deve trazer boas notícias, ou falando melhor, notícias “menos piores, é o Estado de Mato Grosso. De acordo com informações de Mauren Lazzaretti, Secretária de Meio Ambiente do Estado, Mato Grosso fez grandes investimentos em infraestrutura para o combate aos incêndios florestais nos últimos anos e está preparado para a temporada das queimadas. 

Segundo a secretária, foram investidos R$ 73 milhões em aeronaves e equipamentos permanentes ao longo do ano de 2021. Ao longo deste ano, serão investidos outros R$ 64 milhões com foco nas operações abafa e na estruturação do combate aos incêndios. 

O Estado também fez grandes investimentos em tecnologia como é o caso do uso do sistema de imagens de satélite Planet, a maior constelação de satélites de sensoriamento remoto do mundo. São 150 satélites que fotografam toda a superfície do planeta diariamente e fornecem imagens com resolução de 3,125 metros. Também foram feitos grandes esforços para o treinamento e a capacitação dos servidores. 

Outra área que recebeu grandes investimentos foi a digitalização dos serviços para o cidadão. De acordo com a secretária, o Estado investiu cerca de R$ 24,5 milhões no órgão, o que facilitou o acesso a serviços como o licenciamento ambiental e o CAR – Cadastro Ambiental Rural. Isso possibilitou a análise de mais de 50 mil cadastros, o que corresponde a 41% da área cadastrável do Estado. Esse volume de análises corresponde a 10 vezes a média nacional. 

O prazo para aprovação do licenciamento ambiental também foi reduzido, baixando de uma média de 230 dias em 2018, para cerca de 100 dias em 2021. A Secretaria do Meio Ambiente também simplificou a legislação para mais de 100 empreendimentos de baixo impacto ambiental. A LAC – Licença por Adesão e Compromisso, usada na liberação desses empreendimentos, pode ser conseguida em um tempo médio de 3 dias. 

Aparentemente, todos esses esforços começam a mostrar seus primeiros resultados. Em 2021, Mato Grosso foi o terceiro Estado que mais desmatou entre todos os Estados da Amazônia Legal. Isso pode não parecer muita coisa mas, historicamente, o Estado sempre ocupou a segunda posição entre os maiores desmatadores da Região, ficando sempre atrás do Pará ou do Amazonas. 

Nas palavras da Secretária Mauren Lazzaretti, “Mato Grosso está invertendo a sua curva de desmatamento ilegal com tecnologia, investimento e estruturação das ações de fiscalização”. A partir do uso das imagens de satélite, é possível detectar onde está acontecendo os desmatamentos ilegais e contactar o responsável pela área. Quando o proprietário não é conhecido, equipes da Secretária vão até o local, apreendendo máquinas e equipamentos, além de emitir multa e embargue da área. 

Segundo dados da SEMA, foram aplicados mais de 9 mil autos de infração em todo o Estado de Mato Grosso nos últimos 3 anos, o que corresponde a mais de R$ 4,1 bilhões em multas. Além de punir os desmatadores, essas ações produzem um efeito “didático” no demais produtores rurais, que vão pensar duas vezes antes de cometerem qualquer infração ambiental. 

Apesar de sempre manter um “pé atrás” quando se trata de falas de políticos, especialmente em um ano eleitoral, é louvável todo esse conjunto de esforços da Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso. Aqui no Brasil, todos sabemos, não faltam leis para proteger o meio ambiente, faltam sim agentes públicos para fazer com que essas leis sejam cumpridas. 

Mato Grosso se transformou no grande celeiro do Brasil ao longo das últimas décadas. Grande parte das exportações do agronegócio brasileiro vem de Mato Grosso e tem muito competidor estrangeiro, especialmente na Europa, que estão profundamente incomodados com a concorrência. Grande parte das narrativas sobre a destruição da Floresta Amazônica pelas queimadas é financiada por países incomodados com o sucesso dos produtores de Mato Grosso. 

Na França de Emanuel Macron, um dos maiores críticos do Brasil por causa da suposta destruição da Amazônia, os agricultores recebem enormes benefícios e incentivos fiscais do Governo Central. Em qualquer mercadinho do país é possível comprar excelentes vinhos “nacionais” a preços na faixa de 5 Euros – sem os subsídios do Governo, esses preços seriam 3 ou 4 vezes maiores. 

Com a sua renda garantida pelo dinheiro público, esses produtores não se esforços para melhorar a sua produtividade e qualidade dos seus produtos. É preocupante que produtores brasileiros lá do outro lado do mundo consigam produzir mais e a preços reais menores. Surgem então as narrativas – os brasileiros só conseguem essa produtividade por derrubam e queimam a Amazônia para plantar e criar bois em suas terras. 

Por mais irreais que essas “estórias” possam soar, tem muita gente na Europa que acaba acreditando nelas. Muitos consumidores discriminam produtos agropecuários brasileiros e optam por comprar produtos similares até mais caros, mas produzidos em países que “supostamente” respeitam o meio ambiente. Nem sempre essa forma de protesto beneficia os consumidores locais.

Há algum tempo atrás eu assisti uma reportagem num canal francês onde se tratava de um escândalo sobre o consumo de massas e pratos prontos preparadas com carne de cavalo. Esses produtos “baratinhos” vinham de fábricas em países do Leste Europeu como a Romênia e a Bulgária. Os fiscais franceses começaram a desconfiar dos baixos preços de venda desses produtos e recolheram amostras para análises em laboratórios.  

Através de testes de DNA foi comprovado que a carne usada era de cavalos e até mesmo de burros, o que é proibido pela legislação da França. A embalagem dos produtos dizia que a carne utilizada era bovina. Agora, consumir produtos preparados com a excelente carne produzida aqui no Brasil, isso não pode por que “os bois foram criados em pastagens abertas em áreas queimadas da Amazônia”… 

Faço votos que os demais Estados da Amazônia Legal sigam o exemplo de Mato Grosso e que façam a legislação funcionar “na marra”. Nesses tempos complicados em que o mundo está sofrendo com a falta de alimentos, o Brasil precisa se posicionar como um grande produtor sustentável de alimentos. 

AGRIMENSURA, URBANIZAÇÃO E ENCHENTES 

Bidu Sayão é uma ilustre desconhecida para a maioria de nós, pobres mortais. No mundo da música lírica internacional, entretanto, ela teve seu nome eternizado no Olimpo das grandes divas da ópera. Pequena na estatura, mas grandiosa na sua capacidade vocal, Balduína de Oliveira Sayão, mais conhecida como Bidu Sayão, brilhou nos palcos dos grandes teatros da Europa e dos Estados Unidos entre as décadas de 1920 e 1950.  

Citando uma única passagem de sua vida já é possível entender a grandeza do seu nome: após uma antológica apresentação em fevereiro de 1938 na Casa Branca, sede do Governo dos Estados Unidos, o Presidente Franklin Roosevelt ofereceu a cidadania americana à interprete; “no Brasil eu nasci e no Brasil morrerei” respondeu Bidu. Infelizmente, morreu de pneumonia em 1999, pouco antes de completar 94 anos, sem realizar o seu desejo de rever a Baía de Guanabara e a sua cidade natal: Itaboraí (RJ).  
 
Uma pequena rua no bairro Aponiã, na cidade de Porto em Rondônia, foi batizada com o nome da cantora e foi assim que Bidu Sayão entrou em minha vida. Em 2009, quando eu trabalhei nas obras de implantação da rede de esgotos da cidade, essa foi uma das ruas recebeu as tubulações do sistema de esgotos – porém, o que seria um grande benefício se transformou em um problema gigantesco. 

No dia seguinte após a finalização dos nossos trabalhos, caiu uma forte chuva na cidade e a rua Bidu Sayão se transformou num verdadeiro lago, com quase meio metro de profundidade na parte central. É claro que a população colocou a culpa no nosso trabalho e, bem por acaso, eu fui um dos responsáveis por desatar o grande nó. 

Sem achar qualquer motivo para o acúmulo de tamanha quantidade de água na rua em razão da nossa obra, solicitei ao pessoal de nossa topografia uma medição do nível da rua. E o que descobrimos – a parte central da rua ficava num nível 25 cm abaixo dos extremos e não havia como a água da chuva escoar. O problema já era antigo e os nossos trabalhos naquela rua só agravaram a situação. 

Comecei a postagem relembrando esse velho problema, que ao fim e ao cabo resolvemos fazendo um rebaixamento do nível em um dos extremos da rua, para falar que muitos dos problemas de alagamentos em ruas e avenidas das cidades começam por causa de falhas desse tipo – as características do relevo dos solos não são respeitadas e as águas pluviais, que correm por força da gravidade, não conseguem escorrer na direção de canais de drenagem como riachos, rios e até mesmo as tubulações da rede de drenagem de águas pluviais

A área da engenharia que cuida de assuntos ligados à topografia e dados geográficos relativos à medição de terrenos é a agrimensura. Essa ciência surgiu no antigo Egito, onde as cheias anuais do rio Nilo encobriam as demarcações dos terrenos. Sempre que as águas baixavam, o faraó mandava sábios de sua confiança para refazer as marcações de limites entre as propriedades e assim evitar conflitos entre os proprietários das terras. 

Os agrimensores também eram profissionais fundamentais no gerenciamento das grandes obras de engenharia. Usando os grandes conhecimentos de geometria já existentes naquela época, eles orientavam os trabalhadores na colocação dos grandes blocos de pedra usados na construção das pirâmides e templos do antigo Egito. 

Os gregos foram um dos primeiros povos estrangeiros a tomar emprestado dos egípcios todos esses conhecimentos da agrimensura e os usar de maneira magistral na construção de seus templos, palácios, estádios e praças. Para a construção de suas cidades, os gregos aperfeiçoaram também outras duas ciências – a arquitetura e o urbanismo. 

Além das preocupações fundamentais dos gregos com a beleza, a funcionalidade e o conforto das suas cidades, essas ciências também tinham de resolver alguns problemas usuais do dia a dia como o abastecimento de água, o descarte de esgotos, o calçamento das ruas, a drenagem de águas pluviais, entre muitos outros. 

Observem que estamos falando aqui de eventos que aconteceram há mais de 2.500 anos atrás e de conhecimentos que vem sendo transmitidos de geração em geração. Quantos povos não tomaram para si esses conhecimentos técnicos e os usaram em seu próprio benefício na construção de suas cidades? 

Quando encontramos situações de ruas como a Bidu Sayão lá de Porto Velho e de muitas outras vias em cidades por todo o Brasil, percebemos que houve alguma “pane” no uso desses conhecimentos ancestrais. O que poderá ter acontecido com os profissionais que fizeram a demarcação desses logradouros e que não respeitaram uma das mais elementares regras da topografia (que é uma das áreas da agrimensura) – o cuidado com a drenagem das águas pluviais? 

Os sistemas de drenagem de águas pluviais são responsabilidade das prefeituras das cidades. Eles começam com um bom projeto de urbanização, onde o traçado das ruas, avenidas e demais logradouros considera as condições ideais para o rápido escoamento das águas de chuva, que correm por ação da força da gravidade, ou seja, a água corre de um ponto mais alto para um ponto mais baixo – sempre. Esses trabalhos precisam ser orientados por um agrimensor ou um bom topografo. 

Essa preocupação deve começar nas operações de terraplanagem e corte das vias, que devem ser executadas de maneira que o leito da via ficará num nível abaixo do nível das calçadas, que por sua vez ficará num nível abaixo do nível dos terrenos; os imóveis devem ser construídos num nível mais alto que o nível dos terrenos. As ruas receberão as guias, também chamadas de meio fio, e sarjetas que, na forma de uma calha, terão a função de escoar as águas pluviais na direção das tubulações da drenagem pluvial ou para canais naturais como córregos, riachos e rios. Esse trabalho se encerra com a construção do piso das calçadas e com a pavimentação do leito das vias.

Eu costumo atribuir o “esquecimento” dessas técnicas ancestrais de construção ao acelerado processo de urbanização que nossas cidades viveram ao longo de todo o século XX. Com a industrialização, milhões de pessoas largaram a vida no campo e migraram para as cidades, que cresceram abruptamente e sem maiores planejamentos. Esses novos contingentes populacionais precisavam de habitações. 

Surgiram muitos dos chamados loteamentos populares, que vendiam terrenos baratos e parcelados em muitas e muitas prestações. Acho que foi justamente aqui que muitas prefeituras pecaram ao não supervisionar corretamente o particionamento dos lotes e a abertura das ruas. Em muitos dos casos, como o da rua Bidu Sayão, quem fez os serviços de topografia nitidamente não sabia muito bem o que estava fazendo. 

Muitos dos dramas associados a enchentes e alagamentos que vemos nas cidades durante os períodos de chuvas surgiram a partir desses erros fundamentais na abertura das ruas. E para corrigir esses problemas serão necessários gastos enormes em novas obras de infraestrutura. A pior parte é que as cidades não tem recursos financeiros para tocar essas obras. 

E assim, os problemas vão se arrastando ano após ano, verão após verão… 

O MAIOR SISTEMA DE CONTROLE DE ENCHENTES DO MUNDO EM TÓQUIO

Tóquio, nome que significa literalmente “capital do Leste”, é a capital do Japão e uma das maiores cidades do mundo. A cidade possui cerca de 13,5 milhões de habitantes e é o centro de uma região metropolitana com cerca de 37 milhões de habitantes, uma população maior que a soma das populações das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro. 

A cidade foi fundada formalmente em 1457, quando um nobre construiu o castelo de Edo no local que é hoje conhecido como Baía de Tóquio. Em japonês, Edo significa “estuário” e descreve perfeitamente a região – nada menos que cinco bacias hidrográficas desaguam na baía. Não se poderia ter escolhido um local pior para fundar uma grande cidade. 

Ao longo dos séculos, a vida em Tóquio foi marcada por sucessivas enchentes, muitas delas verdadeiras catástrofes. Em 1947, citando um exemplo, o tufão Kathleen atingiu a cidade com fortíssimas chuvas, o que destruiu cerca de 31 mil casas e matou 1.100 pessoas. Dez anos depois foi a vez do tufão Kanogawa que despejou mais de 400 mm de chuvas sobre a cidade em um curto espaço de tempo, causando grandes inundações e muita destruição. 

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, o Governo do Japão passou a fazer grandes investimentos em infraestruturas para a prevenção de desastres naturais e redução de riscos. Além dos sistemas para o combate às enchentes, as obras incluíam sistemas para a prevenção de tufões e de terremotos, eventos relativamente comuns no país. O Japão passou a investir entre 6% e 7% do PIB – Produto Interno Bruto, nessas áreas, um volume altíssimo para um país que saiu completamente devastado da Segunda Guerra Mundial

Toda a Região Metropolitana de Tóquio foi dotada de um sem número de barragens, túneis, reservatórios subterrâneos e diques para a contenção dos excessos de águas pluviais nos momentos de forte chuva. Todo esse conjunto de obras conseguiu reduzir grandemente os problemas das enchentes, porém, algumas regiões ainda sofriam com o problema. 

Depois de muitos anos de estudos e planejamento, o Governo japonês iniciou a construção do Canal Subterrâneo de Escoamento da Área Metropolitana no início da década de 1990. Esse conjunto de obras foi concluído em 2006, a um custo de US$ 2 bilhões (algumas fontes citam US$ 3 bilhões), em valores há época, sendo considerado o maior sistema para o controle de fluxo de água do mundo. 

Aqui eu abro um parêntese – o investimento feito pelos japoneses parece, a princípio, ser extremamente alto. Considerando o valor médio do dólar em R$ 2,20 em 2006, chegamos a um investimento de R$ 4,4 bilhões. Para efeito de comparação, somente a primeira fase do projeto de rebaixamento da calha do rio Tiete, que tinha como objetivo resolver os problemas das enchentes na cidade de São Paulo e que foi concluído em 2005, custou R$ 1 bilhão e não resolveu o problema. 

O sistema de drenagem de Tóquio é formado por um conjunto de grandes depósitos subterrâneos de água e por um sistema de túneis. Na calha dos principais rios foi instalada uma tubulação de drenagem, com 30 metros de diâmetro e 70 metros de profundidade.  

Quando o nível desses rios se aproxima do limite de segurança, a água excedente passa a ser escoada por essas tubulações e é encaminhada para os depósitos subterrâneos. O sistema pode drenar um volume equivalente a 200 metros cúbicos de água por segundo. 

O sistema tem uma capacidade de armazenamento de 670 mil metros cúbicos de água. Conforme o nível dos rios começa a baixar, um poderoso sistema de bombas é acionado e essa água acumulada é lançada na calha do rio Edo, o principal de Tóquio. Uma curiosidade – essas bombas conseguem esvaziar uma piscina olímpica de 25 metros em apenas 3 segundos.  

Esse sistema é idêntico ao dos piscinões usados em cidades como São Paulo, porém, de dimensões muito maiores. Um exemplo é o piscinão que foi construído na Praça Charles Miller em frente ao famoso Estádio do Pacaembu. Essa região era famosa pelas fortes enchentes, um problema que foi finalmente resolvido com a conclusão desse piscinão em 1995. 

O último tanque do sistema de Tóquio é chamado de a catedral e foi transformado em uma atração turística da cidade (vide foto). Esse tanque tem 177 metros de comprimento e uma altura de 18 metros, equivalente a um prédio de 6 andares. A construção lembra muito a cisterna subterrânea do bairro de Sultan Ahmet, no coração de Istambul, na Turquia, porém em dimensões muito maiores. 

Apesar de causar um enorme orgulho para a engenharia do país, os japoneses já estão pensando no futuro dessa grande obra. Quando o projeto foi idealizado décadas atrás, foram considerados volumes máximos de chuva acumulada de 50 mm por hora, o que atendia as necessidades da época. Entretanto, as estimativas indicam que as chuvas na capital do Japão irão aumentar em cerca de 10% ao longo do século XXI, podendo chegar a picos 19% maiores durante o verão. 

As mudanças climáticas já em andamento tendem também a aumentar a incidência de tufões sobre as ilhas japonesas e também há o problema do aumento do nível dos oceanos. Somente na cidade de Tóquio, estima-se que 2,5 milhões de pessoas vivam em áreas sujeitas ao avanço do nível do mar. É hora de pensar no futuro, se antecipando a esses eventos. 

Enquanto isso, nós brasileiros continuamos sofrendo com as enchentes ano após ano, verão após verão. Nas áreas centrais da cidade de São Paulo, citando um exemplo, muitos dos problemas atuais são exatamente os mesmos vividos na época em que meus bisavôs chegaram ao país no início do século XX. 

Além da falta de planejamento e de visão a longo prazo, nós sofremos de um mal que é infinitamente menor no Japão – corrupção e desvios de verbas públicas. Os poucos recursos que conseguem efetivamente ser destinados a obras de combate às enchentes acabam sendo mal utilizados e os problemas nunca são resolvidos. 

Também existem o problema de falta de investimentos na construção de moradias populares, o que leva centenas de milhares de famílias a ocupar áreas de risco em encostas de morros, além de margens e várzeas de rios – basta uma chuva mais forte para assistirmos grandes tragédias a exemplo da que devastou Petrópolis na Região Serrana do Rio de Janeiro. 

E esses problemas, conforme citamos no texto, tenderão a piorar nos próximos anos devido as mudanças climáticas. Pobres de nós brasileiros! 

A GRANDE INUNDAÇÃO DE PARIS EM 1910

Uma outra grande capital europeia que já sofreu muito e que, vez ou outra, ainda sofre com as grandes enchentes é Paris. A cidade é cortada pelo famoso Sena, um rio que drena quase 20% do território do país. Normalmente tranquilo, o Sena sofre com os grandes volumes de chuva na sua grande bacia hidrográfica e, como todo bom rio, é obrigado a extravasar as águas excedentes, inundando grandes áreas das cidades localizadas ao longo de suas margens, especialmente Paris. 

No início de 2018, a cidade de Paris enfrentou as piores enchentes em 30 anos, com o nível do rio Sena chegando muito próximo dos 6 metros. Centenas de pessoas tiveram de ser retiradas de suas casas como medida de precaução e muitas das atrações turísticas da cidade ficaram fechadas. Os administradores do Museu do Louvre ficaram em alerta – em 2016, devido a uma outra grande enchente, cerca de 35 mil obras de arte tiveram de ser removidas às pressas dos depósitos nos subterrâneos do museu.  

Ao menos 13 Departamentos (o equivalente francês aos nossos Estados) entraram em estado de alerta por conta das inundações do rio Sena e dos seus afluentes em 2018. Segundo as autoridades da França, os volumes de chuvas no país vêm crescendo de forma contínua nas últimas décadas, o que em parte vem anulando os esforços em obras para o controle das cheias no rio Sena. 

Além de precipitação de neve, o inverno na França costuma apresentar fortes chuvas na região central do país entre os meses de dezembro e janeiro. Sem contar com grandes áreas cobertas por matas para ajudar na absorção dos excedentes de águas pluviais (os franceses destruíram a maior parte de suas florestas nativas há centenas de anos atrás), grandes volumes de águas da chuva correm diretamente para o canal do rio Sena, que vê seu nível aumentar descontroladamente.  

Grandes obras de infraestrutura vêm sendo implementadas ao longo dos anos de forma a conter essas águas excedentes. Uma das principais apostas dos franceses são os depósitos subterrâneos de águas pluviais, conhecidos entre nós como piscinões. Outro foco é uma permeabilização cada vez maior dos solos das cidades mediante a substituição de pisos de concreto e asfalto por pisos permeáveis e áreas verdes. 

Uma das maiores enchentes já registradas em Paris foi a de 1910, quando o nível do rio Sena atingiu a marca de 8,62 metros. A cidade ficou quase dois meses inundada e mais de 14 mil imóveis foram atingidos. Bairros distantes das margens do rio Sena como o bulevar Haussmann e a Estação de Saint-Lazare também foram afetados pelas enchentes. O metrô de Paris, que teve suas operações paralisadas por causa das águas, só foi reaberto em abril daquele ano.  

Os serviços essenciais da cidade como o abastecimento de água e distribuição de gás e eletricidade foram paralisados, lembrando que essa enchente se deu no inverno europeu. A polícia e o corpo de bombeiros passaram a depender do uso de barcos para atender as ocorrências em grande parte da cidade.  

Um exemplo do caos criado pelas enchentes pode ser visto da Rue Jacob, no centro da cidade, que era famosa por concentrar um grande número de livrarias. Milhares de livros foram destruídos pelas enchentes e eram encontrados aos montes boiando nas águas. 

Também merecem registro as grandes enchentes de 1955 e de 1982. Na primeira, o nível do rio Sena atingiu um pico de 7,1 metros – em 1982 atingiu a marca de 6,15 metros. Desde meados do século XIX, os parisienses costumam acompanhar as enchentes do rio Sena através da estátua do zuavo, um soldado da antiga artilharia da Argélia, que fica junto da Ponte de L’Alm, no centro de Paris.  

Quando o nível do rio Sena atinge os pés da estátua, é sinal que o rio está prestes a transbordar e a população precisa ficar em estado de alerta. Na grande enchente de 1910, as águas atingiram o pescoço desta estátua.  

Além de afetar e complicar a vida de centenas de milhares de pessoas na região de Paris e seus arredores, as enchentes no rio Sena costumam atingir outras dezenas de cidades ao longo de suas margens e também dos seus principais afluentes como os rios Aube, Marne, Oise, Epte, Andelle, Yonne, Eure e Risle. Como é bem fácil perceber, os franceses tem problemas muito parecidos com os nossos quando o assunto é enchente. 

O rio Sena tem cerca de 776 km de extensão e tem sua nascente na região de Côte-d’Or, no Centro Leste da França, de onde corre no sentido Noroeste até desaguar no Canal da Mancha, formando uma bacia hidrográfica com aproximadamente 75 mil km². Devido à sua extrema importância para Paris, a nascente do rio foi declarada propriedade da cidade em 1864.  

Desde os primeiros tempos do Império Romano e de Lutetia Parisiorum, o assentamento que deu origem a Paris, o rio Sena vem sendo utilizado como uma importante via para o transporte de cargas e de pessoas. Através da hidrovia do rio Sena são transportados materiais de construção como areia, pedras e cimento, carvão para uso nas centrais termelétricas e trigo – importantes moinhos da França estão localizados às margens desse rio.   

O rio também é um importante destino turístico em Paris, onde as principais atrações e monumentos da cidade se encontram dentro de uma faixa até 500 metros de suas margens. Os passeios nos bateaux mouches, as tradicionais barcaças do rio, atraem milhares de turistas a cada ano. 

As autoridades da França ganharam nos últimos anos uma motivação maior para trabalhar ainda mais intensamente pelo rio Sena – Paris sediará os Jogos Olímpicos de 2024 e a cidade quer sair ainda mais “bonita” na foto. Além das preocupações com possíveis enchentes (o que seria um grande vexame), os franceses querem mostrar um rio Sena limpo. 

Até a década de 1960, o Sena era considerado um rio altamente poluído e biologicamente morto. De lá para cá foram feitos grandes investimentos na recuperação da qualidade das águas e no controle das diversas fontes de poluição. As coisas melhoraram muito, mas as águas do rio ainda não podem ser consideradas limpas – de acordo com as análises mais recentes, cerca de 70% das espécies de peixes encontradas no rio ainda são consideradas impróprias para o consumo. 

Um dos grandes problemas da cidade de Paris na área de saneamento básico era o antigo sistema de esgotos da cidade, que começou a ser construído ainda na Idade Média e que foi muito ampliado em meados do século XIX. Muitas das redes recebiam tanto esgotos quanto águas pluviais, efluentes que acabavam sendo jogados misturados e de forma difusa nas águas do rio Sena. A maior parte desses problemas já foram corrigidos. 

Outra fonte importante de poluição na bacia hidrográfica do rio Sena são os resíduos de defensivos agrícolas e de fertilizantes usados pela poderosa agricultura do país. Os níveis de contaminação das águas do rio por esses resíduos estavam entre os mais altos do mundo. Importantes trabalhos vêm sendo feitos junto aos agricultores para reduzir ao máximo esse tipo de poluição. 

Desde o início de século XX é proibido nadar no rio Sena – para as Olimpíadas, a Prefeitura da cidade espera instalar diversas piscinas flutuantes abertas ao público. Essas piscinas serão instaladas ao longo das margens do rio Sena e alimentadas pelas próprias águas do rio. Isso seria um verdadeiro marco na história do rio. 

Vamos torcer para que tudo dê certo. 

AS GRANDES ENCHENTES EM LONDRES

Em uma semana onde assistimos os grandes esforços de cidades do Estado do Rio de Janeiro para se recuperar dos estragos causados pelas fortes chuvas, estamos nos dedicando em mostrar exemplos de outras grandes cidades que já sofreram muito com chuvas e enchentes, mas que conseguiram resolver e/ou amenizar muitos esses problemas. Falamos inicialmente de Los Angeles – hoje vamos falar de Londres. 

Com mais de 8 milhões de habitantes, Londres é a mais populosa cidade da Europa Ocidental e uma das capitais mais importantes do mundo. Um marco nas paisagens londrinas é o Rio Tamisa, que divide a cidade ao meio e que foi fundamental para o seu desenvolvimento ao longo da história. 

O rio Tamisa, aliás, foi um dos grandes responsáveis pelo povoamento da região fornecendo água para o abastecimento da população, pescados e também transportes. Achados arqueológicos bem recentes indicam que as margens do rio Tamisa vem sendo ocupadas por assentamentos humanos desde o ano 4.500 a. C. 

A consolidação da ocupação das margens do rio e a formação de uma grande cidade foi obra dos romanos que, por volta do ano 43 de nossa era, fundaram Londínio, que passou a ocupar uma posição de destaque na Província Romana da Britânia. Dessa época em diante, a cidade só fez crescer em tamanho e em importância.  

O primeiro grande salto populacional de Londres se deu com o início do mercantilismo, mais conhecida como Era das Grandes Navegações. Entre os anos de1530 e 1605, a população da cidade saltou de 50 mil para 225 mil habitantes. Outro fabuloso salto na população da cidade se deu em função da Revolução Industrial – em 1800, Londres atingiu a cifra de 1 milhão de habitantes. Entre 1831 e 1925, Londres se manteve na posição de maior cidade do mundo

O crescimento desordenado da cidade e os grandes desmatamentos em toda a bacia hidrográfica do rio Tamisa estão na raiz das grandes enchentes. Outra fonte potencial de problemas surgiu por conta da dragagem de extensas áreas pantanosas ao longo das margens do rio Tamisa, primeiro para uso agrícola e depois usadas para a expansão da mancha urbana das cidades. 

Ao longo de todo o século XIX e primeiras décadas do século XX, a situação do rio Tamisa e de seus afluentes foi agravada pela forte industrialização das cidades da Região Metropolitana de Londres. Os rios e canais passaram a receber grandes volumes de resíduos sólidos – de restos de matadouros e curtumes a lixo industrial, o que associado ao forte assoreamento passou a reduzir sistematicamente a capacidade de drenagem dos rios. 

Uma das mais dramáticas enchentes na cidade foi a que ocorreu no início de janeiro de 1928. Dias antes, no Natal de 1927, Londres teve a maior nevasca em meio século. As ruas da cidade foram coberturas por uma camada com mais de 25 cm de neve. No início do ano novo, fortes ventos vindos do Sul acompanhados por pesadas chuvas causaram um degelo extremamente rápido da neve acumulada. 

Entre 6 e 7 de janeiro, o nível do rio Tamisa subiu 5 metros, desalojando mais de 4 mil pessoas e matando outras 14. As regiões mais afetadas pelas enchentes foram justamente os bairros mais pobres da cidade onde a infraestrutura de drenagem era das mais ineficientes. 

Outra enchente marcante na história de Londres se deu em 1953, quando uma fortíssima tempestade no Mar do Norte provocou uma elevação do nível do mar em vários trechos da costa – a maré ficou entre 3 e 4,5 metros acima do normal. Essa tempestade se formou no Sul da Islândia em 30 de janeiro, e foi se deslocando em direção ao continente Europeu até o dia 5 de fevereiro. 

Os países afetados foram a Escócia, a Inglaterra, a Holanda e a Bélgica. O aumento brusco do nível do mar provocou primeiro o bloqueio e o refluxo das águas do rio Tamisa, seguido por uma invasão do canal por águas do mar. Mais de 30 mil pessoas precisaram ser evacuadas em todo o país, especialmente nas costas Sul e Sudeste. Calcula-se que perto de 24 mil casas foram destruídas ou danificadas e ao menos 307 pessoas morreram. 

Uma tragédia dessas proporções teve fortíssimas repercussões sociais, políticas e econômicas num país que ainda se esforçava para se recuperar dos estragos provocados pela Segunda Guerra Mundial. A recuperação ambiental do rio Tamisa e o combate às enchentes foram transformadas em prioridades no país. 

Entre outras providencias, foi iniciado um amplo programa de desassoreamento e limpeza dos canais, o que passou a aumentar gradativamente a capacidade de escoamento das águas dos rios. Também foram construídos canais de alívio de inundação como o do rio Jubilee entre Taplow e Eton. Outro ponto importante foram os estudos para a construção de uma grande barreira móvel na calha do rio Tamisa com o objetivo de controlar as grandes variações do nível do mar (vide foto). 

Há muito que os ingleses já sabiam que as bruscas elevações das marés no Mar do Norte provocavam o retorno das águas do rio Tamisa, o que se refletia em inundações de áreas baixas das cidades ribeirinhas, especialmente em Londres. Essa grande obra só seria inaugurada em 1982, e foi um marco no combate às grandes enchentes na cidade.

Conhecida pelo nome de Barreira do Tamisa (Thames Barrier), essa obra é considerada a segunda maior barreira anti-inundações do mundo, só perdendo para o sistema Oosterscheldekering dos Países Baixos. Durante marés excepcionalmente altas e nas marés de tempestade, essa barreira é fechada. Em situações normais a barreira permanece aberta, permitindo o fluxo normal das águas e da navegação do rio Tamisa.

Essa Barreira fica em Woolwich, região no Leste de Londres, onde o rio Tamisa tem uma largura de 520 metros. O sistema é formado por 10 portões de aço montados horizontalmente e que podem ser fechados ou abertos através de uma central de controle. 

Ao longo dos cinco primeiros anos de operação, essa Barreira foi fechada apenas quatro vezes. Porém, ao longo dos anos, o sistema passou a ser utilizado com uma frequência cada vez maior: foram 15 vezes em 2001, 19 vezes em 2003 e 11 vezes em 2007. Estima-se que as operações de fechamento da Barreira do Tamisa chegarão a 75 vezes por ano até 2050. 

Com muito trabalho e grandes investimentos, a cidade de Londres conseguiu reduzir substancialmente os graves problemas criados pelas inundações. É claro que em períodos de fortes chuvas ainda surgem alguns problemas localizados, mas nada que chegue perto das grandes tragédias do passado. 

Londres é mais um exemplo de cidade que conseguiu “domar” suas chuvas. Nós brasileiros temos muito a aprender com essa cidade. 

AS ENCHENTES NA ANTIGA CIDADE DE LOS ANGELES

Durante os últimos quatro meses não foram poucas as postagens aqui do blog que trataram dos inúmeros problemas causados pelas chuvas e pelas enchentes em várias regiões do Brasil. Primeiro foram as fortes chuvas que assolaram todo o Sul da Bahia e o Norte de Minas Gerais

Essas chuvas depois se espalharam por todo o Estado de Minas Gerais e causaram enormes estragos em uma infinidade de cidades. O Estado de São Paulo também acabou sendo afetado por alguns dias de fortes chuvas que, entre outros problemas, causaram os desabamentos de encostas nas cidades de Francisco Morato e Franco da Rocha. 

Depois tivemos os desmoronamentos de encostas na cidade de Petrópolis provocados por chuvas muito acima da média. Nos últimos dias tratamos das fortes chuvas no Estado do Rio de Janeiro, onde diversas cidades ainda lutam para se recuperar dos estragos. 

Se qualquer um dos leitores fizer uma pesquisa nos arquivos aqui do blog, que já conta com quase 1.500 postagens, vai encontrar um sem número de publicações que tratam exatamente dos mesmos problemas – é só chegar a temporada das chuvas para recomeçarem os problemas com enchentes, desmoronamentos de encostas, gente desabrigada e, infelizmente, muitos mortos. 

Para aqueles que acreditam que chuva é um fenômeno natural e que ninguém pode controlar as suas consequências, gostaria de mostra o exemplo da cidade de Los Angeles, na Costa Oeste do Estados Unidos. Assim como acontece hoje em grandes cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte, Los Angeles era constantemente devastada por fortíssimas enchentes. 

A cada chuva mais forte, os sistemas de drenagem de águas pluviais da cidade do cinema não conseguiam dar conta da vazão do grande volume de água e as enchentes tomavam conta de grandes áreas da mancha urbana: qualquer semelhança com São Paulo, Rio de Janeiro ou Recife não é mera coincidência. Na década de 1940, a Prefeitura de Los Angeles decidiu pela realização de uma grande obra para resolver, em definitivo, o problema. 

O canal do rio Los Angeles, que na maior parte do ano era um leito seco, foi “canalizado”. O sentido aqui diverge da tradicional rede de tubulações subterrâneas, tão comum na canalização de córregos urbanos no Brasil – o leito do rio foi retificado e transformado em um canal largo e profundo, revestido por concreto num trecho de 80 quilômetros.  

O canal foi dimensionado para receber um grande volume de águas de chuva, começando com uma largura de 80 metros e chegando a 120 metros no trecho final. A correnteza pode chegar a uma velocidade de 50 km/h, característica que permite a drenagem rápida de grandes volumes de água de chuva. Uma vez concluído o canal principal de drenagem, sistemas locais nos bairros foram construídos e melhorados.  

Se você gosta de cinema e costuma assistir as grandes produções de Hollywood, é quase certo que já viu o canal do rio Los Angeles em algum filme. Vou citar alguns: O Exterminador do Futuro, Uma Saída de Mestre, Grease – nos tempos da brilhantina, entre muitos outros. No filme O Núcleo – Missão ao Centro da Terra, um ônibus espacial faz um pouso de emergência na calha do rio Los Angeles. 

Em outro filme, bastante exagerado na ficção, o rio Los Angeles foi usado para desviar a lava de um vulcão em formação na cidade – estou falando de Volcano: a fúria. Contando com espaço de sobra para as equipes trabalharem e localizado ao lado dos grandes estúdios de Hollywood, o canal do rio Los Angeles ainda ver ser cenário para muitos e muitos filmes. 

Moral da história – depois que o canal do rio Los Angeles foi concluído e todo um conjunto de obras complementares foi implementado, as enchentes violentas na cidade de Los Angeles viraram coisa do passado. Aliás, já fazem uns bons anos que todo o Sul do Estado da Califórnia tem vivido um outro problema – a seca. 

É evidente que no Estado mais rico do país mais rico do mundo as coisas são um “pouco” mais fáceis do que num país em desenvolvimento como o Brasil. Entretanto, se houver um bom planejamento, podemos construir infraestruturas de drenagem de águas pluviais tão boas como a de Los Angeles, porém, num prazo bem mais longo. 

Os sistemas de drenagem de águas das chuvas começam aí na porta da sua casa – a sarjeta e o meio fio da sua rua formam a parte inicial desses sistemas. E é justamente aqui que começam os problemas – existem inúmeras ruas nas cidades brasileiras que nem isso possuem. Fica difícil falar do combate às enchentes num ambiente assim. 

A maioria dos canais de drenagem naturais – riachos, córregos e rios, foram transformados ao longo dos anos em fossas a céu aberto, que além de receberam enormes quantidades de esgotos diariamente, ainda são transformados em depósitos de todo o tipo de resíduos sólidos – de restos de embalagens plásticas a sofás velhos. 

Também não podemos deixar de falar na ocupação das encostas de morros e áreas de várzeas para a construção de habitações para pessoas pobres. Faltam programas públicos para a construção de moradias populares – logo, essas áreas acabam sendo ocupadas da forma mais irracional possível. 

Assim, entra verão, saí verão, e os problemas ligados a chuvas e enchentes voltam a ocupar os noticiários, transformando a vida de muita gente em um suplício. Por menores que sejam as verbas públicas destinadas as áreas de infraestrutura urbana e construção de moradias populares, elas precisam ser usadas da maneira mais efetiva e funcional. Quem desviar ou utilizar essas verbas de maneira incorreta, no mínimo deveria ir para a cadeia. 

Inúmeras cidades mundo afora já sofreram muito com as chuvas e suas consequências. Com muito trabalho e determinação, além de extrema seriedade dos seus governantes, muitas dessas cidades – como é o caso de Los Angeles, conseguiram resolver a maior parte dos problemas. Essa solução não se deu do dia para a noite – foram muitos e muitos anos de trabalho. 

Nós aqui no Brasil precisamos cobrar de nossos governantes uma solução para esses problemas – que seja em 10 ou 50 anos, mas que se caminhe para uma solução. Nesses últimos meses milhares de pessoas perderam suas casas e seus negócios por causa dos problemas criados pelas chuvas – centenas de pessoas acabaram morrendo. 

Com as mudanças climáticas em andamento no mundo, muitos dos problemas que enfrentamos atualmente poderão até ficar piores. É hora de começarmos a mudar essa situação! 

AINDA FALANDO DAS CHUVAS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

As fortes chuvas que vem atingindo grande parte do Estado do Rio de Janeiro desde a noite da última quarta-feira, prosseguiram ao longo do fim de semana. De acordo com o último balanço da Defesa Civil, as chuvas já provocaram 16 mortes e 7 pessoas seguem desaparecidas. A situação mais crítica é a de Angra dos Reis, onde as chuvas são recordes. 

De acordo com informações da Defesa Civil do município, os volumes de chuva acumulados na Ilha Grande ao longo de 48 horas atingiu a incrível marca de 900 mm e na área continental do município ficou em 737 mm. Esses índices nunca haviam sido registrados na história de Angra dos Reis. 

Um deslizamento de terra no bairro de Monsuaba atingiu 6 casas na madrugada deste sábado – ao menos 8 pessoas morreram, sendo 4 quatro adultos e quatro crianças. Ao menos 3 pessoas seguem desaparecidas. Na madrugada deste domingo houve um novo desmoronamento de encosta, porém sem registro de vítimas. 

A Rodovia Rio-Santos foi totalmente interditada no sábado pela PRF – Polícia Rodoviária Federal. Nas proximidades de Monsuaba, Portogalo e Garatucaia houve diversos deslizamentos de terra e formação de pontos de alagamento nas pistas. Em Paraty, um posto da PRF foi destruído por um deslizamento de terra, que também soterrou uma viatura e um outro veículo. Ninguém ficou ferido no incidente. 

Na Ilha Grande foram registrados vários desmoronamentos de encostas e quedas de grandes blocos de pedra. As comunidades mais afetadas são as de Araçatiba, Vermelha, Provetá, Abraão e Aventureiro. A praia de Itaguaçu foi praticamente soterrada pelos deslizamentos de encostas. Segundo informações dos moradores, 4 pessoas dessa região estão desaparecidas. 

As chuvas diminuíram nas últimas horas, porém, a Defesa Civil ainda mantém o município em estado de alerta máximo. O órgão pede que os moradores não retornem para as suas casas pois os solos ainda estão saturados de água e há riscos de novos deslizamentos. O município mantém 30 abrigos abertos para receber a população deslocada de suas casas. 

Uma fonte extra de preocupações em Angra dos Reis são as duas Usinas Nucleares instaladas no município – Angra I e Angra II. A Prefeitura da cidade solicitou à Eletronuclear, empresa federal responsável pelas operações, o desligamento das unidades por questões de segurança. Em nota oficial, a Eletronuclear informa que não há riscos e que as duas plantas seguem operando em capacidade total. 

Em Paraty, município vizinho de Angra dos Reis, o desmoronamento de uma encosta matou 7 pessoas de uma mesma família – uma mãe e seus 6 filhos com idades entre 2 e 16 anos. Apenas uma criança da família foi resgatada com vida e encaminhada para um hospital da região – a vítima segue em estado gravíssimo. 

Em Mesquita, município da Baixada Fluminense, um homem morreu eletrocutado segundo informações do Corpo de Bombeiros. Ele tentava resgatar uma mulher que ficou presa no carro em numa rua alagada quando sofreu uma forte descarga elétrica. O homem foi socorrido por moradores do local, mas não respondeu aos procedimentos de reanimação. 

Os municípios de Belford Roxo e de Nova Iguaçu, também na Baixada Fluminense, além de Mesquita, estão entre os que mais foram castigados pelas chuvas. De acordo com informações da imprensa, o Governo Estadual está em contato com as Prefeitura destes municípios para auxiliar no cadastro das famílias que poderão receber o aluguel social, uma ajuda para as famílias que perderam as suas casas por causa das enchentes. 

O CEMADEN – Centro Nacional de Monitoração e Alerta de Desastres Naturais, emitiu um boletim de previsão de riscos de eventos geo-hidrológicos onde destaca a alta possibilidade de inundações, enxurradas e alagamentos na Mesorregião Metropolitana do Rio de Janeiro, onde se incluem a Região Serrana e o Sul Fluminense. 

O boletim indica a continuidade das fortes chuvas, o que somado aos solos já saturados por água poderá resultar em novos desmoronamentos de encostas. A situação é agravada pelas características do relevo dessas regiões e pela presença de muitos córregos canalizados. O alerta também inclui o trecho paulista do Vale do Paraíba e também o Litoral Norte de São Paulo. 

No sistema de notificação do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, quase todo o território do Estado do Rio de Janeiro e parte do Litoral Norte do Estado de São Paulo estão classificados em “alerta de perigo” até as 11 horas dessa segunda-feira, dia 4, para o volume acumulado de chuvas.  

O alerta aponta risco de chuvas entre 30 a 60 mm/hora ou de 50 a 100 mm/dia, além de riscos de alagamentos, deslizamentos de encostas, transbordamentos de rios, especialmente nas conhecidas áreas de risco dos municípios. 

Como é usual nessas situações de catástrofes naturais, tanto as Prefeituras das cidades atingidas quanto o Governo do Estado têm emitido notas oficiais e declarado em entrevistas que realizaram inúmeras obras, tanto em sistemas de drenagem de águas pluviais quanto em projetos de contenção de encostas de morros, de forma a prevenir muitas das tragédias que ocorreram nos últimos dias

Segundo essas declarações, os volumes de chuvas estão muito acima das médias históricas, superando em muito a capacidade das infraestruturas das cidades. Os Governos afirmam que estão dando todo o suporte e assistência para as famílias atingidas… 

O que esses Prefeitos e Governadores, falando de um modo geral, nunca explicam é a inércia e passividade dos mesmos com a ocupação desordenada de encostas de morros, da canalização desenfreada de riachos e de córregos ou ainda da destruição de importantes áreas de várzeas em suas cidades. Também não justificam os baixos investimentos e também os grandes desvios de recursos em construção de moradias populares, em sistemas de drenagem de águas pluviais e em outras obras de prevenção a enchentes. A temporada de chuvas se repete ano após ano.

É evidente que, com grandes volumes de chuva acumulados como o que se sucedeu com Angra dos Reis nesses últimos dias, seria inevitável que problemas ocorressem. Porém, seria bastante provável que o número de perdas de vidas humanas, o que é irrecuperável, fosse bem menor. 

Um caso interessante de uma cidade que sofreu muito com grandes enchentes e que conseguiu resolver o problema é Los Angeles, nos Estados Unidos. Vamos falar disso na nossa próxima postagem. 

CIDADE DO RIO DE JANEIRO EM ESTADO DE ALERTA APÓS TEMPORAL 

A cidade do Rio de Janeiro entrou no chamado estágio de alerta as 18h15 desta sexta-feira, dia 1° de abril, devido às fortes chuvas. Em alguns bairros da cidade como o Jardim Botânico, Tijuca, Rocinha e Santa Teresa, os volumes de chuva acumulados em apenas 4 horas durante a tarde ficaram entre 70 e 90 mm.  

Segundo informações da Prefeitura, o estágio de alerta é o quarto dentro de uma escala de cinco níveis. Ele é usado em ocorrências mais graves na cidade ou quando ocorrem simultaneamente problemas de médio e alto impacto em diferentes regiões. 

Em 31 comunidades foram acionadas as sirenes de alerta, dispositivos sonoros que indicam situação de emergência. São elas Andaraí, Arrelia, Azevedo, Lima, Babilônia, Cabritos, Cantagalo, Chácara do Céu, Chacrinha, Chapéu Mangueira, Escondidinho, Formiga, Jamelão, Liberdade, Macacos, Mangueira, Matinha, Ouro Preto, Parque Candelária, Parque Vila Isabel, Pavão-Pavãozinho, Prazeres, Rocinha, Santa Marta, Santos Rodrigues, Sapê Sítio Pai João, Sumaré, Unidos de Santa Tereza, Vidigal, Vila Elza e Vila Pereira da Silva. 

Assim como acontece em outras grandes metrópoles brasileiras como São Paulo e Belo Horizonte, o Rio de Janeiro não possui uma infraestrutura de drenagem de águas pluviais adequada. As últimas notícias informam que existem mais de 70 pontos de alagamento na cidade. As 18 horas a cidade apresentava 230 km de congestionamentos – em dias normais esse índice é de 130 km. 

A cidade vem sofrendo com fortes chuvas desde a noite de quarta-feira, quando diversas ruas passaram a sofrer com alagamentos. Esse problema foi agravado pela greve dos garis na cidade, o que resultou em grandes volumes de lixo acumulados nas ruas. As fortes enxurradas arrastaram os sacos de lixo, obstruindo os sistemas de drenagem. 

Um dos bairros mais castigados pelas chuvas foi Guaratiba, na Zona Oeste da cidade. Segundo informações de serviços de meteorologia, o volume de chuva acumulado na região entre as 13 horas de quinta-feira, dia 31 de março, e 13 horas desta sexta-feira foi de 254,4 mm. Esse é um volume de chuvas considerado extremo.   

Desde o início da manhã desta sexta-feira, a Prefeitura do Rio de Janeiro vem solicitando para que a população evite sair de casa ou que permaneça em locais seguros, um pedido que foi reforçado no início da noite. O comunicado pede que os moradores da cidade só saiam de casa por razões emergenciais e/ou essenciais visto que há previsão de mais chuvas. 

Apesar dos grandes problemas enfrentados por toda a cidade, as operações nos Aeroportos Santos Dumont, na região central, e Tom Jobim, na Ilha do Governador, não foram suspensas. 

A cidade de Angra dos Reis, na Costa Verde do Estado do Rio de Janeiro, também está sendo fortemente castigada pelas fortíssimas chuvas. De acordo com dados coletados pela Estação Vila Abraão do CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o volume de chuva acumulado nas últimas 24 horas foi de 534 mm, um recorde

Na cidade, que se espreme entre o oceano e as encostas da serra, foram registrados deslizamentos de encostas e bloqueios de vias, inclusive parte da Rodovia Rio-Santos. A Defesa Civil enviou mensagens via SMS solicitando a evacuação pelos moradores de 70 dos 73 bairros da cidade. 

As chuvas também estão atingindo a região de Paraty, porém com uma intensidade um pouco menor. Nas últimas 24 horas o volume de chuvas acumulado na cidade foi de 162 mm. Há notícias de quedas de árvores, pontos de alagamento, transbordamentos de rios e deslizamentos de terra em várias encostas. 

Na Região Serrana as chuvas também estão causando muitas preocupações. As cidades de Petrópolis e Nova Friburgo estão em estado de atenção. Em Petrópolis, cidade que foi literalmente arrasada recentemente por fortes temporais, choveu o equivalente a 33 mm nas últimas 24 horas. Foram interditados trechos de algumas vias e, segundo a Defesa Civil, existe a necessidade de interdição de três imóveis. 

Em Nova Friburgo há um clima de muita preocupação com as áreas de risco da cidade (entenda-se aqui encostas de morros). A Defesa Civil recomendou que os moradores dessas áreas busquem lugares seguros na casa de amigos, parentes ou mesmo em abrigos indicados pela Prefeitura. O órgão mantém um serviço de mensagens de alerta via SMS e pede aos moradores para ficarem atentos às mensagens. 

Segundo o INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, essas chuvas vão continuar caindo sobre áreas dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo até o próximo domingo, dia 3. Essas chuvas são o resultado do avanço de uma frente fria na região. O choque de massas quente e fria, combinado com o aumento da convergência de umidade e a topografia da região, potencializaram a formação de instabilidades, as quais resultaram nos grandes volumes acumulados de chuva. 

O INMET informa também que a saturação dos solos devido ao grande acumulo de água das chuvas e o alto nível de rios e córregos nas regiões afetadas é preocupante e que todos devem ficar em alerta máxima. Destaco aqui uma atenção especial para as de encostas, que, como sabemos, apresentam naturalmente condições já críticas de segurança. 

No saber popular e na música, as águas de março fecham o verão. Mas, tudo indica que a temporada das chuvas vai dar uma esticada neste ano e ainda vamos continuar enfrentando problemas por mais algum tempo.  

VACINA CONTRA A DENGUE EM DESENVOLVIMENTO APRESENTA RESULTADOS PROMISSORES

Na última postagem falamos do preocupante crescimento da dengue nos primeiros meses deste ano. De acordo com dados do Ministério da Saúde, os casos prováveis da doença cresceram 43,9% em comparação ao mesmo período de 2021. Os dados comparados se referem ao intervalo de 10 semanas entre os dias 2 de janeiro e 12 de março. 

Felizmente, existem boas notícias para um horizonte não muito distante. O Instituto Butantã, em parceria com o NIAID – Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, na sigla em inglês, divulgou resultados animadores de uma vacina contra a dengue em desenvolvimento conjunto. 

Os resultados analisados mostram que a vacina induziu a geração de anticorpos contra a doença em 100% dos indivíduos que já haviam tido dengue e em mais de 90% dos indivíduos que nunca tiveram contato com o vírus. Para efeito de comparação, existem vacinas contra a Covid-19 em aplicação na população e que foram aprovadas pelos órgãos de saúde com pouco mais da metade dessa eficácia. Essas vacinas foram usadas em caráter emergencial devido à gravidade da pandemia.

Esses resultados foram obtidos na chamada Fase 1 dos ensaios clínicos, estudos que foram realizados nos Estados Unidos. Na Fase 2 da pesquisa, os estudos mostraram a formação de anticorpos em mais de 70% dos indivíduos contra 4 subtipos do vírus da dengue com apenas uma dose aplicada. Esses dados foram publicados no periódico Human Vaccines & Inmunotherapeutics, para a Fase 1, e na revista Lancet Infectious Diseases, para a Fase 2. 

Os pesquisadores agora trabalham nos estudos clínicos da Fase 3. Esta é a última fase de estudos necessários para a obtenção do registro sanitário da vacina e tem por objetivo demonstrar a sua eficácia. Os estudos envolvem a aplicação da vacina em um grupo grande de voluntários, onde parte recebe a vacina e parte um placebo (água destilada, por exemplo) – os resultados em ambos os grupos são comparados.  

Na Fase 2 dos estudos, para exemplificar como funcionam os testes, um grupo de 200 voluntários recebeu duas doses da vacina tetravalente ou do placebo, o que permitiu avaliar a capacidade do organismo dos vacinados em aumentar o número de anticorpos no organismo. 

Após a aplicação da primeira dose em pessoas que já haviam tido dengue observou-se a produção de anticorpos em 100% do grupo. No caso de voluntários que nunca tiveram a doença, essa produção de anticorpos foi da ordem de 92,6%. Na aplicação da segunda dose, as diferenças na produção de anticorpos não foram significativas. 

Ao longo de um ano e meio, a capacidade de indução da resposta imunológica dos voluntários, o que é chamado tecnicamente de imunogenicidade, foi analisada por meio de testes de neutralização do vírus e resposta se manteve alta. 

Também foram avaliados os efeitos colaterais da vacina. Entre os mais comuns se destacam dores de cabeça, fadiga, erupção cutânea e dores musculares. Esses efeitos não são considerados graves e até são comuns em vacinas, o que indica que a vacina é segura. 

A pandemia da Covid-19 que abalou o mundo inteiro nesses últimos dois anos e que, felizmente, parece estar se encaminhando para um final, deixou muito clara a importância das vacinas. Laboratórios e institutos de pesquisa de todo o mundo não pouparam esforços até conseguiram desenvolver vacinas num tempo recorde e que já foram aplicadas em bilhões de pessoas. 

A fatalidade da dengue está muito distante da Covid-19. Até novembro de 2021, foram registradas 212 mortes por dengue no Brasil. Em 2020, foram confirmadas 564 mortes. No mesmo período, a Covid-19 ceifou mais de 650 mil vidas no país. 

Apesar da baixa taxa de fatalidade, a dengue causa uma série de desconfortos físicos como febre alta, erupções cutâneas e dores musculares e articulares. Em casos graves, há hemorragia intensa e choque hemorrágico. Foram mais de 500 mil casos registrados no Brasil em 2021. 

A dengue e outras viroses provocadas pelos chamados Arbovírus tem em comum a presença ativa de vetores como o mosquito Aedes aegypti. A reprodução desses mosquitos está associada ao acúmulo de água das chuvas em resíduos sólidos, restos de materiais de construção, em caixas d`água e outros depósitos do líquido mal tampados, em construções abandonadas, entre muitos outros locais. 

Ou seja – o combate à dengue começa com a eliminação dos criadouros do mosquito Aedes aegypti. E é justamente aqui onde os problemas começam – basta uma única propriedade dentro de um bairro relaxar com esses cuidados para que surja um foco importante da doença. E isto sempre acaba acontecendo. 

A perspectiva da criação de uma vacina contra a doença no médio e longo prazo poderá ajudar a resolver da dengue. Porém, é importante lembrar que o mesmo mosquito transmite doenças como a febre amarela, a Zika e a febre Chikungunia, entre muitas outras.

Enquanto não surgir uma poderosa vacina que nos protege de todas essas doenças, as ações de controle sanitário dos focos de reprodução desses mosquitos sempre serão necessárias.