AS GRANDES ENCHENTES EM LONDRES

Em uma semana onde assistimos os grandes esforços de cidades do Estado do Rio de Janeiro para se recuperar dos estragos causados pelas fortes chuvas, estamos nos dedicando em mostrar exemplos de outras grandes cidades que já sofreram muito com chuvas e enchentes, mas que conseguiram resolver e/ou amenizar muitos esses problemas. Falamos inicialmente de Los Angeles – hoje vamos falar de Londres. 

Com mais de 8 milhões de habitantes, Londres é a mais populosa cidade da Europa Ocidental e uma das capitais mais importantes do mundo. Um marco nas paisagens londrinas é o Rio Tamisa, que divide a cidade ao meio e que foi fundamental para o seu desenvolvimento ao longo da história. 

O rio Tamisa, aliás, foi um dos grandes responsáveis pelo povoamento da região fornecendo água para o abastecimento da população, pescados e também transportes. Achados arqueológicos bem recentes indicam que as margens do rio Tamisa vem sendo ocupadas por assentamentos humanos desde o ano 4.500 a. C. 

A consolidação da ocupação das margens do rio e a formação de uma grande cidade foi obra dos romanos que, por volta do ano 43 de nossa era, fundaram Londínio, que passou a ocupar uma posição de destaque na Província Romana da Britânia. Dessa época em diante, a cidade só fez crescer em tamanho e em importância.  

O primeiro grande salto populacional de Londres se deu com o início do mercantilismo, mais conhecida como Era das Grandes Navegações. Entre os anos de1530 e 1605, a população da cidade saltou de 50 mil para 225 mil habitantes. Outro fabuloso salto na população da cidade se deu em função da Revolução Industrial – em 1800, Londres atingiu a cifra de 1 milhão de habitantes. Entre 1831 e 1925, Londres se manteve na posição de maior cidade do mundo

O crescimento desordenado da cidade e os grandes desmatamentos em toda a bacia hidrográfica do rio Tamisa estão na raiz das grandes enchentes. Outra fonte potencial de problemas surgiu por conta da dragagem de extensas áreas pantanosas ao longo das margens do rio Tamisa, primeiro para uso agrícola e depois usadas para a expansão da mancha urbana das cidades. 

Ao longo de todo o século XIX e primeiras décadas do século XX, a situação do rio Tamisa e de seus afluentes foi agravada pela forte industrialização das cidades da Região Metropolitana de Londres. Os rios e canais passaram a receber grandes volumes de resíduos sólidos – de restos de matadouros e curtumes a lixo industrial, o que associado ao forte assoreamento passou a reduzir sistematicamente a capacidade de drenagem dos rios. 

Uma das mais dramáticas enchentes na cidade foi a que ocorreu no início de janeiro de 1928. Dias antes, no Natal de 1927, Londres teve a maior nevasca em meio século. As ruas da cidade foram coberturas por uma camada com mais de 25 cm de neve. No início do ano novo, fortes ventos vindos do Sul acompanhados por pesadas chuvas causaram um degelo extremamente rápido da neve acumulada. 

Entre 6 e 7 de janeiro, o nível do rio Tamisa subiu 5 metros, desalojando mais de 4 mil pessoas e matando outras 14. As regiões mais afetadas pelas enchentes foram justamente os bairros mais pobres da cidade onde a infraestrutura de drenagem era das mais ineficientes. 

Outra enchente marcante na história de Londres se deu em 1953, quando uma fortíssima tempestade no Mar do Norte provocou uma elevação do nível do mar em vários trechos da costa – a maré ficou entre 3 e 4,5 metros acima do normal. Essa tempestade se formou no Sul da Islândia em 30 de janeiro, e foi se deslocando em direção ao continente Europeu até o dia 5 de fevereiro. 

Os países afetados foram a Escócia, a Inglaterra, a Holanda e a Bélgica. O aumento brusco do nível do mar provocou primeiro o bloqueio e o refluxo das águas do rio Tamisa, seguido por uma invasão do canal por águas do mar. Mais de 30 mil pessoas precisaram ser evacuadas em todo o país, especialmente nas costas Sul e Sudeste. Calcula-se que perto de 24 mil casas foram destruídas ou danificadas e ao menos 307 pessoas morreram. 

Uma tragédia dessas proporções teve fortíssimas repercussões sociais, políticas e econômicas num país que ainda se esforçava para se recuperar dos estragos provocados pela Segunda Guerra Mundial. A recuperação ambiental do rio Tamisa e o combate às enchentes foram transformadas em prioridades no país. 

Entre outras providencias, foi iniciado um amplo programa de desassoreamento e limpeza dos canais, o que passou a aumentar gradativamente a capacidade de escoamento das águas dos rios. Também foram construídos canais de alívio de inundação como o do rio Jubilee entre Taplow e Eton. Outro ponto importante foram os estudos para a construção de uma grande barreira móvel na calha do rio Tamisa com o objetivo de controlar as grandes variações do nível do mar (vide foto). 

Há muito que os ingleses já sabiam que as bruscas elevações das marés no Mar do Norte provocavam o retorno das águas do rio Tamisa, o que se refletia em inundações de áreas baixas das cidades ribeirinhas, especialmente em Londres. Essa grande obra só seria inaugurada em 1982, e foi um marco no combate às grandes enchentes na cidade.

Conhecida pelo nome de Barreira do Tamisa (Thames Barrier), essa obra é considerada a segunda maior barreira anti-inundações do mundo, só perdendo para o sistema Oosterscheldekering dos Países Baixos. Durante marés excepcionalmente altas e nas marés de tempestade, essa barreira é fechada. Em situações normais a barreira permanece aberta, permitindo o fluxo normal das águas e da navegação do rio Tamisa.

Essa Barreira fica em Woolwich, região no Leste de Londres, onde o rio Tamisa tem uma largura de 520 metros. O sistema é formado por 10 portões de aço montados horizontalmente e que podem ser fechados ou abertos através de uma central de controle. 

Ao longo dos cinco primeiros anos de operação, essa Barreira foi fechada apenas quatro vezes. Porém, ao longo dos anos, o sistema passou a ser utilizado com uma frequência cada vez maior: foram 15 vezes em 2001, 19 vezes em 2003 e 11 vezes em 2007. Estima-se que as operações de fechamento da Barreira do Tamisa chegarão a 75 vezes por ano até 2050. 

Com muito trabalho e grandes investimentos, a cidade de Londres conseguiu reduzir substancialmente os graves problemas criados pelas inundações. É claro que em períodos de fortes chuvas ainda surgem alguns problemas localizados, mas nada que chegue perto das grandes tragédias do passado. 

Londres é mais um exemplo de cidade que conseguiu “domar” suas chuvas. Nós brasileiros temos muito a aprender com essa cidade. 

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