RECORDE DE CHUVA E DE TRÂNSITO NA CIDADE DE SÃO PAULO 

Hoje foi mais que uma tarde típica de verão na cidade de São Paulo. 

Em pouco mais de três horas a cidade recebeu um volume de chuvas equivalente a dez dias. As consequências não tardaram a aparecer – de acordo com informações da CET – Companhia de Engenharia de Tráfego, autarquia que tenta colocar um pouco de ordem no trânsito caótico dessas horas, foi batido o recorde de engarrafamentos do ano. 

Foram 431 km de vias paradas às 17h30 desta terça-feira, dia 07 de fevereiro. De acordo com o boletim da CET divulgado às 16h30, foram contabilizados 34 pontos de alagamentos nas ruas e avenidas da cidade, sendo 22 intransitáveis e 12 transitáveis. Haja paciência. 

Um site de notícias comparou o tamanho do caos de hoje ao que foi vivido pelos paulistanos em 9 de dezembro do ano passado, quando a nossa Seleção enfrentou a Croácia nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022. Naquele dia foram 485 km de engarrafamento devido ao excesso de carros na rua. 

Na hora da chuva eu estava trabalhando na Região dos Jardins, um conjunto de bairros de alto nível aqui da cidade. Eu terminei meu trabalho por volta das 16 horas, momento em que ainda chovia, porém, já com uma intensidade reduzida. 

Para quem não conhece essa região, 8 em cada 10 milionários da cidade mora por lá. O preço do metro quadrado construído dos imóveis supera fácil o valor de R$ 20 mil, um dos mais caros do Brasil. Morar por lá não fica muito distante do padrão de uma 5ª Avenue em Nova York ou de uma Champs Élysées de Paris. 

Pois bem – eu fiquei assustado com a quantidade de água acumulada nas calçadas, sendo que passei em alguns pontos onde a lâmina chegava perto dos 20 cm. No meu bairro, que é paupérrimo quando comparado aos Jardins e fica perto da periferia (ou subúrbio) da cidade, as ruas não empoçam desse jeito. 

O “conjunto da obra”, que afeta tanto os milionários quanto as camadas mais pobres da população paulistana e da maioria das cidades brasileiras, é resultado da falta de preparo de nossas cidades para os momentos de chuva forte. Nunca é demais repetir que vivemos em um país de climas predominantemente tropical e equatorial. Temporadas de chuvas fortes sempre fizeram parte de nossas paisagens. 

E, nessas horas, sempre temos a certeza que a nossa infraestrutura urbana não está preparada para suportar grandes volumes de água caindo do céu em um curto espaço de tempo. Também é importante lembrar que falta uma manutenção mais frequente naquilo que já existe. 

Em minha aventura de pouco mais de 15 minutos de caminhada até a estação do trem (que, aliás, estava trafegando em velocidade bastante reduzida), pude perceber claramente que a maioria das “bocas-de-lobo” (nome que nós paulistanos damos aos pontos de drenagem de águas pluviais que ficam no meio-fio ou sarjeta das ruas) estavam entupidas. 

Para quem nunca viu um desses dispositivos abertos, ele possui uma caixa de desarenação que serve para acumular areia, pedras e lixo arrastados pelas enxurradas. Essa caixa precisa ser limpa regularmente, especialmente antes da chegada do período de chuva, de modo a estar totalmente funcional na hora dos temporais. 

Se está faltando uma limpeza adequada das bocas-de-lobo dos Jardins, pensei cá com “meus botões”, fico imaginando a situação do resto da “matilha” nos bairros mais pobres da cidade. Conforme falei em uma das primeiras postagens aqui do blog em 2016, esses dispositivos são o “bê-á-bá” dos sistemas de drenagem de águas pluviais – se o básico não funciona, o que esperar de dispositivos mais complexos? 

A Rede de Drenagem de Águas Pluviais, o nome técnico dado ao conjunto desses dispositivos, utiliza toda a “infraestrutura natural” do relevo de uma região para escoar os excedentes de água que são precipitados nos dias de chuva. Falo aqui dos canais de córregos, ribeirões, rios e lagoas.  

Além dos meios naturais, as cidades precisam investir em canais artificiais de drenagem – sarjetas nas ruas, bueiros, grelhas, tubulações subterrâneas de grande porte, piscinões, bacias de detenção abertas, solos permeáveis, áreas verdes, entre outros dispositivos. Quando uma cidade teve seus canais naturais destruídos devido ao crescimento da mancha urbana ou não investiu na construção de sistemas artificiais, temos as enchentes

Quando assistimos um telejornal na TV e ouvimos o apresentador/apresentadora falar que choveu o equivalente a 20 mm, por exemplo, isso quer dizer que o volume de chuva que caiu sobre uma área com um metro quadrado formou uma lâmina de água com 20 mm de altura (ao longo do tempo de duração da chuva). Trocando em miúdos, isso indica que caiu um volume de 200 litros de água a cada metro quadrado da cidade. 

Se o terreno da sua casa possui 250 metros quadrados, por exemplo, ele recebeu um volume de água de 50 mil litros nessa chuva. Essa mesma chuva caiu sobre os imóveis dos seus vizinhos, sobre as ruas e avenidas, prédios públicos, praças e demais logradouros da sua cidade. Somando-se tudo, chega-se bem fácil a dezenas de milhões de litros de água em poucas horas. 

Caso a drenagem das águas pluviais da sua cidade não estiver devidamente dimensionada ou seus dispositivos não estão funcionando corretamente, com certeza a população sofrerá as consequências na forma de enchentes, alagamentos, deslizamentos de encostas, entre outras tragédias. 

Desgraçadamente, o descaso com a drenagem das águas pluviais é uma espécie de regra aqui em nosso país. Raras são as cidades que estão preparadas para suportar de maneira adequada um grande volume de chuva sem apresentar maiores problemas. 

Além de danos materiais, que bem ou mal sempre podem ser resolvidos com o tempo, esses temporais costumam matar pessoas. Até onde eu pude ver nos noticiários, a forte enxurrada formada pela chuva dessa tarde arrastou um morador em Osasco, cidade vizinha a São Paulo. Com certeza, teremos notícias de outras vítimas fatais nas próximas horas. 

Entra verão, sai verão e as coisas não mudam… 

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UMA PASTILHA QUE EVITA A EMISSÃO DE GÁS METANO POR BOVINOS

Os seres humanos são, por definição biológica, onívoros. Trocando em miúdos, somos animais – altamente racionais, é claro, que comem de tudo: frutas, verduras, legumes, cereais e, especialmente, carnes e outros tipos de alimentos de origem animal. 

De acordo com um estudo publicado na revista científica Nature em 2016, o consumo de carne foi decisivo na evolução humana. A ingestão frequente de proteínas dos diferentes tipos de carnes foi fundamental para o desenvolvimento de nossos cérebros.  

A captura e a caça organizada dos animais, pratica que começou há pelo menos 2,6 milhões de anos, motivaram uma organização cada vez maior dos grupos humanos, influenciando diretamente sua forma de vida. Também forçou o desenvolvimento de armas cada vez mais sofisticadas para a caça, além de estimular a criação de ferramentas adequadas para o corte e a desossa dos animais abatidos. 

O uso do fogo para o cozimento, iniciado há cerca de 500 mil anos, também contribuiu para mudanças em nossa anatomia, levando ao desenvolvimento de dentes menores e a uma necessidade de músculos faciais menos desenvolvidos para a mastigação. 

A análise de fezes fossilizadas do homem de Neandertal, nosso parente extinto mais próximo, encontradas em cavernas da Espanha e datadas em mais de 40 mil anos, mostrou que sua dieta era composta por mais de 80% de carne. Entre os da nossa espécie, o Homo Sapiens, esse consumo não era muito diferente à mesma época. 

Com o desenvolvimento da agricultura há pelos menos 10 mil anos, as populações se tornaram sedentárias e teve início um longo processo de domesticação de animais como galinhas, porcos, vacas, cabras e carneiros, entre muitos outros. Além de garantir o suprimento de carne, a criação desses animais permitiu o acesso a leite e ovos, além de outros produtos como a lã das ovelhas. 

Existem cerca de 1,5 bilhão de bovinos criados para o abate pastando em algum lugar do mundo nesse momento. Essa lista deve incluir outras centenas de milhões criados para a produção de leite e também grandes quantidades de porcos, galinhas, cabras, ovelhas, entre outras espécies. Grande parte dos cerca de 8 bilhões de habitantes de nosso planeta costumam consumir alguma quantidade de carne e outros produtos de origem animal ao longo do dia. 

Uma discussão que vem crescendo ao longo dos últimos anos são as emissões de metano, um gás que é gerado naturalmente durante o processo de digestão de animais como bovinos e ovinos. O metano é um dos principais GEE – Gases de Efeito Estufa, que são os grandes responsáveis pelo aumento das temperaturas do planeta. 

Muitos ecologistas defendem a redução do consumo de carne – alguns, mais radicais, pedem o fim desse consumo, como forma de frear o aquecimento global. Muitos Governos, inclusive, vêm estimulando o uso de proteínas alternativas como insetos para consumo humano.   

Existem muitos movimentos e iniciativas internacionais que lutam contra o consumo da carne. Um deles é o “Segunda Sem Carne“, uma iniciativa existente em 35 países do mundo e apoiada por inúmeros líderes internacionais. Um dos grandes líderes do movimento é o ex-Beatle Paul Mccartney, que pede que os consumidores deixem de comer carne as segundas-feiras, reduzindo assim a demanda pelo alimento. Esse grupo alega que grande parte da produção de cereais do mundo como a soja e o milho é usada para a produção de carne para exportação. 

Na contramão do que querem esses grupos, o consumo de carnes vem aumentando progressivamente nas últimas décadas. Países com gigantescas populações como a China e a Índia estão puxando esse consumo devido a uma série de medidas econômicas – um número cada vez maior de suas populações estão saindo da miséria e assumindo posições sociais melhores. 

Essa mudança no perfil social resulta, entre outras coisas, num melhor acesso a alimentos, especialmente alimentos de melhor qualidade como carnes, ovos, leite e seus derivados. Isso resulta, falando a grosso modo, em pessoas mais saudáveis e menos sujeitas a doenças. 

Um exemplo interessante é a Índia, país sempre esteve associado a uma alimentação vegetariana, onde o consumo de carne bovina está crescendo de forma surpreendente. Cerca de 80% da população do país, que conta atualmente com 1,17 bilhão de habitantes, segue o Hinduísmo, uma religião que combate o consumo da carne há vários séculos.  

Com o forte crescimento econômico que a Índia vem experimentando nos últimos anos e com a ascensão de uma forte classe média, comer carne vermelha deixou de ser um tabu e se transformou num símbolo de status social.   

Muitos criadores de gado da Austrália vinham adicionando algas marinhas da família das Asparagopsis na ração servida aos animais como forma de reduzir as emissões de gás metano. Segundo estudos, a ingestão dessas algas ajuda a reduzir a produção de metano nos processos digestivos dos animais em até 98%. 

Apesar de comprovadamente eficiente, esse método não era nada barato, uma vez que o cultivo das algas feito em mar aberto é bastante dispendioso. Para desespero dos ambientalistas, uma empresa sediada na cidade de Perth – a Rumin8, conseguiu sintetizar em laboratório o princípio ativo dessas algas – o bromofórmio. 

A empresa está colocando no mercado uma série de produtos veterinários que contém o princípio ativo, onde se incluem pastilhas de liberação lenta, suplementos minerais em pó, líquido à base de óleo para ser misturado à ração e também um produto solúvel para ser misturado na água servida aos animais. 

Para a felicidade dos apreciadores de um bom churrasco, que poderão comer carne à vontade sem sentir peso na consciência por causa de problemas ambientais, a empresa garante que seus produtos reduzem a liberação de gás metano nos rebanhos em até 95%.  

São soluções inteligentes e eficientes como essa que o nosso mundo precisa!

ESPECIAL: GUARAPIRANGA – A GÊNESE

Nas últimas décadas do século XIX, a cidade de São Paulo experimentou um surto de desenvolvimento econômico e social nunca visto na história do Brasil. Esse desenvolvimento foi resultado direto da cultura do café que, desde meados daquele século, mudaça radicalmente as paisagens do interiro paulista.

As mudanças na cidade começaram na década de 1860, quando foi concluída a Ferrovia Santos-Jundiaí, importante meio para o escoamento da produção do café. Localizada no meio do caminho, a pequena cidade de São Paulo, que então tinha apenas 30 mil habitantes, foi transformada em um importante centro comercial e logístico do Estado.

O susrto de desenvolvimento culminou com a chegada da energia elétrica nos últimos anos do século XIX, primeiro com geração descentralizada em máquinas movidas a vapor e depois com uma geração de maior potência na Usina Hidrelétrica de Santana de Paranahyba, empreendimento localizado na calha do rio Tietê e inaugurado em 1901.

Problemas no funcionamento dessa hidrelétrica levariam à construção de uma grande represa na cidade de São Paulo – a Guarapiranga.

Ver também: ESPECIAL: GUARAPIRANGA – A CONSTRUÇÃO

GOVERNO DE SÃO PAULO NÃO UTILIZA INTEGRALMENTE AS VERBAS APROVADAS PARA O COMBATE AS ENCHENTES 

Um levantamento feito pelo canal de notícias GloboNews, com base na Execução Orçamentária disponibilizada pela Secretaria Estadual da Fazenda e Planejamento, revelou um dos mais conhecidos segredos de polichinello – há 12 anos o Governo do Estado de São Paulo não vem utilizando integralmente as verbas orçamentárias aprovadas para ações de combate às enchentes

No ano fiscal de 2022, citando um exemplo, o orçamento estadual para a área de Infraestrutura Hídrica e Combate a Enchentes contou com uma verba aprovada de R$ 1,99 bilhão, um valor modesto para o tamanho da população de São Paulo. 

Até dezembro foram gastos R$ 1,72 bilhão, um investimento considerado recorde, porém, o órgão deixou de gastar R$ 271 milhões do orçamento. Ou seja – apesar de todos os problemas enfrentados pelas cidades paulistas no período das chuvas, apenas 86% do orçamento para esse fim foi efetivamente utilizado. 

A única exceção dentro de um período de 13 anos analisado foi o ano de 2010, que bem por acaso foi um ano eleitoral. Naquele ano, a Assembleia Legislativa havia aprovado uma verba de R$ 200,6 milhões e o valor gasto chegou aos R$ 282,5 milhões. Em todos os demais anos da série histórica analisada os gastos ficaram abaixo da verba orçamentária. 

E o descaso com esse problema não se limita apenas ao Governo do Estado de São Paulo – pesquisando sobre esse mesmo tema é bem fácil encontrar outras reportagens falando da subutilização de verbas públicas para obras de combate às enchentes em outros Estados e importantes cidades do país. 

Um exemplo – em uma reportagem publicada no início do mês de dezembro de 2012, encontramos a notícia que a Prefeitura de São Paulo só havia gasto 43% das verbas do orçamento dessa área para aquele ano. Não custa lembrar que a temporada de chuvas na Região Centro Sul do país começa justamente em dezembro. 

Essa falta de prioridade, ou simplesmente descaso do Poder Público, ajuda a explicar a sucessão de tragédias que assistimos, anos após ano, nas cidades brasileiras. Desde que criamos o blog em 2016, publicamos dezenas de postagens falando dos graves problemas criados por enchentes, alagamentos e desmoronamentos de encostas de morro no período do verão. 

As causas das enchentes são diversas. A principal delas decorre da ocupação desordenada de áreas de várzea e margens de rios e córregos. Nas áreas urbanas, esses terrenos, por razões óbvias, costumam ser baratos ou, por se tratarem de áreas públicas, acabam sendo invadidos e ocupados por populações pobres. 

Dentro de sistemas naturais, esses terrenos funcionam como áreas para o amortecimento em eventos de cheias dos rios e, por puro bom senso, deveriam ser mantidos desocupados. O exemplo mais clássico da ocupação desse tipo de área foi o que aconteceu na cidade de São Paulo, onde importantes áreas de várzea dos grandes rios que cortam a cidade foram aterradas para a expansão imobiliária. 

O caso mais dramático foi o da ocupação da enorme várzea do rio Tamanduateí, que corta toda a Zona Leste e a área Central da cidade. Até meados do século XIX, as águas do rio Tamanduateí eram utilizadas para o abastecimento da população. Com o rápido crescimento de São Paulo a partir da década de 1860, áreas dessa várzea passaram a ser aterradas e usadas para a construção de casas, lojas e galpões de fábrica. 

Esse processo se intensificou muito no início do século XX, levando a ocupação total da antiga várzea já na década de 1930. Na esteira dessa ocupação irracional, grandes fragmentos de mata que ainda existiam ao redor foram destruídos e ocupados por construções. Não por acaso, toda a região dessa antiga várzea apresenta gigantescas enchentes na atualidade. 

O crescimento da mancha urbana das cidades cria um outro problema – a impermeabilização dos solos com construções, concreto e asfalto. Num meio natural, onde seres humanos não criaram nenhum tipo de interferência, uma parte importante dos volumes de água das chuvas é absorvido pelo solo. 

Em regiões de clima tropical e subtropical como é o caso de grande parte do Brasil, o verão costuma ser acompanhado por uma forte e consistente temporada de chuvas. Nesses momentos, é fundamental a presença da vegetação e de solos permeáveis para absorver grandes volumes de chuva. 

Quando uma grande cidade impermeabiliza seus solos, a parte das chuvas que seria absorvida passa a correr na superfície e corre, com grande velocidade, na direção dos canais de drenagem – córregos, riachos e rios. Apenas isso já geraria enormes enchentes e transbordamentos. 

Mas o problema não para por aí – como as margens dos rios, córregos e riachos foram ocupadas com construções e avenidas, deixou de existir a área de amortecimento das antigas várzeas, o que leva a enchentes cada vez mais catastróficas. 

É aqui que as ações de Prefeitura e dos Governos Estaduais fazem diferença na forma de obras para o combate às enchentes. Falamos aqui da construção de piscinões (estruturas que armazenam grandes volumes de água), bacias de detenção abertas, aprofundamento e alargamento de canais de córregos e rios, construção de muros de arrimo, permeabilização de solos, criação de áreas verdes, entre muitas outras ações. 

Em grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, citando como exemplo, onde os problemas com as enchentes já são enormes, essa tarefa já seria hercúlea mesmo com a disponibilização de grandes volumes financeiros. 

O que assistimos, ao contrário, são orçamentos públicos cada vez mais exíguos diante do tamanho dos problemas, e, ainda assim, as “otoridades” não conseguem executar integralmente tudo o que foi proposto pelos governos. Como nós caipiras aqui do meu bairro costumamos falar, “isso é o fim da picada”. 

Além dos grandes prejuízos financeiros que as enchentes provocam nas cidades e, principalmente, na vida dos cidadãos, frequentemente testemunhamos a morte de pessoas por afogamento ou por soterramento de encostas de morros durante fortes chuvas. 

Será que não estarei na hora de começar a prender esses “gestores” públicos incompetentes sob a acusação de assassinato? 

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HUNGA TONGA: A CURTÍSSIMA HISTÓRIA DE UMA ILHA QUE SURGIU NO PACÍFICO SUL 

Uma notícia bem interessante para quem se interessa por temas da área do meio ambiente e que mostra o quanto precisamos aprender sobre o nosso planeta: 

Após a erupção de um vulcão submarino no arquipélago polinésio de Tonga no Sul do Oceano Pacífico em 2015 (vide foto), os cientistas perceberam a formação de uma pequena ilha no local. A ilhota, que tinha 2 km de comprimento e 1 km de largura, recebeu o nome de Hunga Tonga e sobreviveu ali até 2022, quando foi destruída por uma nova erupção do mesmo vulcão. 

Essa foi a terceira vez em um período de 150 anos em que a ciência pode acompanhar o nascimento de uma ilha vulcânica. No caso de Hunga Tonga, sua brevíssima existência pode ser acompanhada de diversos estudos científicos nas áreas de geologia, vulcanologia, biologia e meio ambiente. 

Processos vulcânicos semelhantes a esse foram responsáveis pela formação de diversas ilhas em todo o planeta. Aqui no litoral do Brasil podemos citar como exemplos as ilhas dos arquipélagos de Fernando de Noronha e da Trindade. Também podemos citar o caso das ilhas do Havaí, onde o vulcão Kilauea continua ativo e despejando sucessivas ondas de lava. 

Falando de uma forma bem resumida, a lava expelida pelo vulcão se espalha ao redor da cratera e se transforma em rocha sólida após esfriar. A paisagem é árida e completamente sem vida, uma vez que a grande maioria das plantas não sobrevive sobre essas rochas ígneas. 

Uma das únicas espécies vegetais que consegue colonizar esses locais são os líquens. Os líquens são organismos simbióticos, formados por um fungo associado a uma alga verde ou azul, com grande capacidade de sobrevivência em locais inóspitos. Os líquens gradativamente começam a criar uma finíssima camada de material orgânico sobre a superfície rochosa.  

As rochas também passam a sofrer desgastes – as alterações da temperatura provocam expansão e contração das camadas superficiais, provocado trincas e desfolhamentos de finas placas de rocha. Com a exposição às chuvas e ao vento, essas camadas de rocha vão se fragmentando e se juntando aos pequenos depósitos de matéria orgânica criados pelas colônias de líquens.  

Conforme essa camada de solo fértil vai aumentando, sementes de outras plantas que chegam arrastadas pelo vento ou pelas correntes marítimas conseguem germinar e há uma aceleração no processo de formação de matéria orgânica. É esse processo lento e gradativo, chamado de gênese dos solos, o responsável pela formação das terras férteis dos solos das florestas, matas e outras formações vegetais, que algum dia serão usadas pela agricultura.  

O processo de formação dos solos e surgimento de vida vegetal nessas ilhas é acompanhado é pelo aparecimento de vida biológica, a começar pela formação de colônias de bactérias, além do aparecimento de aves, crustáceos, moluscos, insetos e até mesmo répteis e mamíferos, que costumam chegar a essas ilhas sobre vegetação flutuante. 

No caso da ilha Hunga Tonga, os cientistas foram surpreendidos ao encontrar colônias de bactérias capazes de metabolizar enxofre e gases atmosféricos, uma forma de vida totalmente inesperada. Esse tipo de bactéria costuma ser encontrada ao lado de fontes termais e hidrotermais localizadas no fundo dos oceanos. 

A principal suspeita dos cientistas é que essas bactérias foram carregadas até a superfície por meio de sedimentos do fundo marinho que foram soerguidos por meio dos derramamentos de lava vulcânica. Os cientistas imaginavam até então que as primeiras bactérias chegariam de “carona” nas fezes de pássaros. 

Durante a curta existência da ilha Hunga Tonga, os cientistas recolheram amostras de solos em 32 locais diferentes, em altitudes desde o nível do mar até 120 metros, onde ficava o cume do vulcão. Os estudos desses solos e, principalmente, o sequenciamento genético do DNA dessas bactérias, serão fundamentais para o entendimento do processo de formação de ilhas vulcânicas e de sua colonização por vida animal e vegetal. 

Apesar da ilha ter desaparecido sob as águas do oceano, todo esse conjunto de informações e amostras recolhidas renderá inúmeros estudos ao longo dos próximos anos, especialmente nas áreas de geologia. 

Processos vulcânicos foram os responsáveis pela formação de importantes paisagens e habitats de nosso planeta. Vou usar como exemplo o Derrame de Trapp, um conjunto de erupções vulcânicas que aconteceram aqui na América do Sul e no Sudoeste da África no Período Cretáceo, entre 137 e 127 milhões de anos atrás. 

Esse processo foi uma consequência da ruptura continental que fragmentou o antigo Supercontinente de Gondwana e levou ao surgimento da África, América do Sul, Antártida, Ilha de Madagascar, Índia, Austrália, Nova Zelândia e outras ilhas menores. 

Os derramamentos de lava aqui na América do Sul foram calculados em 650 mil km³e cobriram uma área de aproximadamente 1,2 milhão de km², especialmente na região onde encontramos hoje a bacia hidrográfica do rio Paraná. Em Angola e na Namíbia, países do Sudoeste da África, também se encontram rochas de origem vulcânica associadas ao Derrame de Trapp.  

E qual a importância desse evento em nossas vidas? 

Os férteis solos de terra roxa que se estendem desde a região Oeste do Estado de São Paulo até o Rio Grande do Sul, com alguns trechos na Argentina e no Paraguai, foram originadas há milhões de anos a partir da degradação das rochas ígneas formadas a partir do Derrame de Trapp. Esses solos estão classificados como um dos mais férteis do mundo.

Uma vida longa à memória da Ilha Hunga Tonga

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SISTEMA CANTAREIRA ESTÁ OPERANDO COM MAIS DE 50% DA SUA CAPACIDADE 

Uma boa notícia para os moradores das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas: o Sistema Cantareira atingiu a marca de 51% de sua capacidade de armazenamento, o melhor nível para um mês de janeiro dos últimos 6 anos. Em janeiro de 2022, citando um exemplo, o Sistema operava com 30% de sua capacidade de armazenamento. 

O Sistema Cantareira é um velho conhecido dos leitores aqui do blog, que, aliás, foi criado em 2016, logo após a grande seca que deixou as represas do Sistema no volume morto entre os anos de 2014 e 2016. Desde 2011, último ano em que as represas do sistema chegaram próximas ao nível máximo, que o Sistema vem sofrendo com chuvas abaixo da média. 

Desde o último mês de dezembro, as chuvas na região onde ficam as represas do Sistema Cantareira estão acima da média, o que vem se refletindo em um aumento lento e gradual dos volumes de água armazenada. 

O Cantareira responde pelo abastecimento da Zonas Norte, Central e parte da Zona Leste da cidade de São Pulo, além de abastecer os municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Carapicuíba e São Caetano do Sul. Também abastece parcialmente os municípios de Guarulhos, Cajamar, Barueri, Itapevi, Jandira, Santana de Parnaíba e Santo André. 

As águas liberadas pelas represas do Sistema Cantareira também alimentam os rios da bacia hidrográfica do rio Piracicaba, sendo usadas para o abastecimento de diversas cidades da Região Metropolitana de Campinas. 

Na Região Metropolitana de São Paulo, a Estação de Tratamento de Água do Guaraú, na Zona Norte de São Paulo, é a maior do sistema. A água tratada por essa unidade abastece cerca de 7,5 milhões de pessoas, o que corresponde a 46% da população da Região Metropolitana.  

Há época da crise hídrica 2014/2016, as águas do Sistema Cantareira atendiam cerca de 60% da população da Região Metropolitana, o que ajuda a explicar o grande impacto da seca naquele momento. Nos últimos anos, diversos sistemas de adutoras passaram a interligar esse sistema com os demais mananciais da Região Metropolitana, o que vai ajudar em casos de futuras crises hídricas. 

As represas do Sistema Cantareira ficam localizadas na Região Nordeste do Estado de São Paulo, bem próximas à divisa com Minas Gerais. Aliás, grande parte das nascentes dos rios que alimentam as represas ficam na Serra da Mantiqueira, dentro do território mineiro. 

Na década de 1960, o acelerado crescimento da população da Região Metropolitana de São Paulo forçou o Governo Estado a estudar a construção de um novo grande sistema produtor de água. Entre as principais propostas estavam o Sistema Cantareira, que acabou sendo aprovado e construído, e o Sistema Juquiá, que seria construído no Sul do Estado de São Paulo na bacia hidrográfica do rio Ribeira de Iguape. 

Apesar de algumas das represas do Sistema Cantareira ficarem localizadas a mais de 160 km da cidade de São Paulo, essa solução ainda foi muito mais barata que trazer a água do Vale do Ribeira, a mais 250 km de distância e de uma altitude próxima ao nível do mar, o que encareceria, e muito,os custos para o bombeamento da água. 

O Sistema Cantareira possui cinco reservatórios: Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Atibainha (na Bacia do Rio Piracicaba) e Paiva Castro (na bacia do Alto Tietê), além de uma pequena represa no alto da Serra da Cantareira no município de Caieiras, a Águas Claras.  

O Sistema foi projetado com as represas em altitudes diferentes em função da topografia da região. Graças a essas diferenças de altitude, o Sistema Cantareira utiliza a força da gravidade para conduzir as águas desde as represas de Jaguari e Jacareí, na região de Bragança Paulista, passando para as represas de Cachoeira, Atibainha (vide foto) e Paiva Castro.  

Um sistema de túneis conduz a água até Estação Elevatória Santa Inês, que bombeia as águas para a represa de Águas Claras na Serra da Cantareira. De Águas Claras a água é enviada para a Estação de Tratamento do Guaraú, na zona norte da cidade de São Paulo, e depois distribuída a milhões de consumidores.   

Em 2018, o Governo do Estado de São Paulo concluiu as obras de um sistema de bombeamento que passou a permitir a transposição de águas da bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul para o Sistema Cantareira. Esse sistema interliga as represas Jaguari e Atibainha, tendo como principal objetivo aumentar a segurança de milhões de paulistas e paulistanos. 

Essa obra, apesar de respeitar o acordo de partilha das águas do rio Paraíba do Sul firmado entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, é bastante polêmica. Cerca de 80% da água consumida pela população da cidade do Rio de Janeiro e de grande parte dos municípios da Baixada Fluminense, é retirada do rio Paraíba do Sul através de sistemas de transposição entre bacias hidrográficas. 

Na faixa Leste do Estado de Minas Gerais dezenas de cidades dependem dessas mesmas águas para o abastecimento de suas populações. A eventual segurança hídrica de moradores das Regiões Metropolitanas de São Paulo e Campinas, poderá, eventualmente, colocar em risco a mesma segurança de mineiros e fluminenses. 

A última vez que as represas do Sistema Cantareira atingiram o nível máximo de armazenamento foi em 2011. Desde então, a região onde ficam as represas e seus rios formadores tem recebido volumes de chuva abaixo da média histórica. 

De acordo com especialistas em recursos hídricos, o nível de segurança ideal do Sistema Cantareira é uma operação com um volume acima de 60% de sua capacidade total. Como estamos chegando ao fim do primeiro mês do verão 2022/2023, ainda poderão cair bons volumes de chuva na região das represas e essa meta poderá ser atingida. 

Que as chuvas “continuem chovendo”… 

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A “MISTERIOSA” CONTAMINAÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO GORGULHO EM TOCANTINS

O rio Gorgulho era, até quinze dias atrás, um ilustre desconhecido. O rio, que nos mapas do Estado de Tocantins aparece como um ribeirão, é um dos muitos pequenos tributários da bacia hidrográfica do rio Tocantins 

O rio Gorgulho está localizado na zona rural do município de Tocantínea, a cerca de 100 km da cidade de Palmas, capital do Tocantins. O rio corta três aldeias do povo Xerente, sendo a única fonte de abastecimento de água dessas populações. 

Os indígenas perceberam que alguma coisa estava errada com o rio devido a enorme quantidade de peixes mortos que passou a ser encontrada nas suas margens (vide foto). Os indígenas imediatamente deixaram de recolher água no rio, deixando também de tomar banhos e pescar. O incidente foi então comunicado as autoridades estaduais. 

Fiscais do Naturatins – Instituto Natureza do Tocantins, órgão estadual responsável pela área do meio ambiente, estiveram nas aldeias para verificar in loco o problema. Diversas amostras de água foram recolhidas e enviadas para análises em laboratório. 

Por razões de segurança, o consumo da água do rio Gorgulho está proibida até que saiam os laudos técnicos dessas amostras. As aldeias estão sendo abastecidas através de caminhões pipa enviados pelo Governo do Estado. O Ministério Público abriu um processo para investigar o caso. 

A suspeita inicial recai sobre inúmeras fazendas produtoras de grãos que ocupam todas as terras no entorno do rio. Resíduos de fertilizantes e de agrotóxicos utilizados nas plantações podem ter sido carreados na direção da calha dos rios pelas chuvas. Como o Gorgulho é um corpo d’água muito pequeno, essa contaminação pode ter atingido altos níveis, sendo fatal para toda a vida aquática. 

Essa, por enquanto, é apenas uma hipótese, mas, dado ao histórico lcal, é uma explicação bastante plausível nessa região de Cerrado. Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, o Cerrado vem concentrando as frentes de expansão da fronteira agrícola aqui no Brasil nas últimas décadas. 

Os solos do Cerrado sempre foram considerados como pobres e de baixíssima fertilidade. Os solos do bioma são extremamente ácidos e possuem altas concentrações de alumínio. Esses problemas só começariam a ser solucionados a partir da década de 1950, quando foram desenvolvidas técnicas de correção através de calagem, a aplicação de calcário nos solos. 

Outro enorme avanço para a agricultura nesse bioma se deu em meados da década de 1970, quando a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, conseguiu desenvolver sementes de grãos adaptadas para se desenvolver nos solos e no clima da região

Os técnicos da Embrapa selecionaram sistematicamente as melhores sementes e fizeram o cruzamento de plantas – principalmente de soja e milho, que melhor se adaptavam ao bioma. Através desses melhoramentos genéticos se chegou a diversas variedades ou cultivares de plantas que se desenvolviam perfeitamente nas condições do Cerrado. 

Contando com um fabuloso estoque de terras baratas em toda a região central do Brasil, não demorou muito para que se iniciasse uma verdadeira corrida de agricultores em busca de novas oportunidades. Grande parte desses pioneiros vieram do Sul do país. Essa ocupação começou pelo Estado de Goiás, passando a seguir para o Mato Grosso. 

A ocupação de áreas do Centro e do Norte do Brasil era estratégica para o Governo Federal, que, desde o começo do século XX, vinha desenvolvendo inúmeros programas de ocupação e colonização. Até então, mais de 80% da população do Brasil ocupava uma faixa de 300 km a partir da costa, o que deixava o território extremamente vulnerável a invasões por parte de nações estrangeiras. 

O Estado do Tocantins surgiu a partir do desmembramento das terras do Norte de Goiás em 1988. Sua área é de 277 mil km² e sua população é de pouco mais de 1,6 milhão de habitantes. A base da economia local é a agricultura e a pecuária. A imensa maioria de suas cidades são bem pequenas e, justamente por causa disso, raramente ouvimos notícias sobre o que anda acontecendo por lá. 

Do ponto de vista político e econômico, essa estratégia de ocupação do chamado Oeste Brasileiro e da Amazônia foi bem sucedido. Foram criadas inúmeras cidades até nos rincões mais distantes, além de construídas inúmeras rodovias de acesso. Nós já publicamos uma série de postagens aqui no blog falando dessas rodovias. 

Infelizmente, toda essa expansão das frentes agrícolas vem sendo acompanhada de inúmeros problemas ambientais. Calcula-se que metade do Bioma Cerrado já tenha desaparecido ante o avanço das plantações, o que tem afetado bastante as espécies animais e vegetais. 

Outro gravíssimo problema é a degradação de importantes rios da região. O Cerrado sempre foi considerado como o “berço das águas” do Brasil. O bioma concentra um número importante de nascentes e de aquíferos como o Guarani, o Urucuia e Bambuí. 

Nascentes de águas de importantes rios que formam 8 grandes bacias hidrográficas brasileiras ficam dentro do Cerrado: Paraguai, Paraná, Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste e Atlântico Nordeste Ocidental, além de parte da Bacia Amazônica. 

Notícias sobre problemas em rios do Bioma Cerrado estão se tornando cada vez mais frequentes. Essas notícias falam de contaminação de águas, redução do volume dos caudais, ameaças para a fauna aquática e até do desaparecimento completo das águas de alguns rios no período da seca, algo comum na Caatinga Nordestina, mas inédito no Cerrado. 

Ainda é cedo para se afirmar o que de fato aconteceu com o rio Gorgulho, mas, como eu sempre costumo afirmar: se tem rabo de gato, bigode de gato e mia como gato, é muito difícil que seja um cachorro… 

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ESPECIAL: REPRESA GUARAPIRANGA

A Represa Guarapiranga é o maior manancial da cidade de São Paulo. Ocupa uma área com aproximadamente 26 km² e fica localizada na Zona Sul da cidade, tendo capacidade para armazenar ate 191 bilhões de litros de água.

O empreendimento foi concluído entre os anos de 1908 e 1909, tendo como objetivo a regularização dos caudais do rio Tietê que alimentavam a Usina Hidrelétrica de Santana de Parnahyba, concluída em 1901. Durante os meses de seca, os volumes de água no rio Tietê caíam drasticamente, compromentendo o funcionamento da usina.

A Represa Guarapiranga tinha a função de armazenar água durante os meses de chuva, liberando esse volume gradativamente durante os meses de seca, função que ela cumpriu até 1928, ano em que teve sua função alterada para manacial de abastecimento de água da cidade de São Paulo.

O impacto da construção da represa foi muito além de suas funções técnicas – ela se transformou em uma importante área de lazer para a população da cidade, se transformando numa verdadeira praia urbana.

Ver também: ESPECIAL: GUARAPIRANGA – A GÊNESE

A “FAST FASHION” E SEUS IMPACTOS AO MEIO AMBIENTE 

De acordo com dados do setor, a indústria de moda e vestuário aqui no Brasil possui cerca de 150 mil pontos de venda e teve um faturamento de R$ 208 bilhões em 2022. Esses números mostram que está ocorrendo uma gradual recuperação do setor depois do advento da pandemia da Covid-19 e com a política do fechamento – “fica em casa que a economia a gente vê depois”. Mesmo assim, muitas empresas fecharam as portas e outras vem apresentando gigantescos prejuízos.

A pandemia acabou sendo um golpe final para muitas empresas que já vinham sofrendo a alguns anos com a concorrência pesada de empresas especializadas na venda de roupas pela internet, além da importação de roupas baratas. A pandemia também acabou fortalecendo empresas internacionais especializadas no ecommerce de moda e vestuário e ajudou a consolidar uma nova tendência mundial – a “fast fashion”

Uma das principais referência nesse setor é a Shein, uma empresa chinesa que foi criada em 2008, tendo como foco a venda de vestidos de noiva. Com o passar do tempo, a empresa começou a enxergar grandes oportunidades no setor de moda feminina e acabou se especializando em vendas online

Se valendo de aquisições de outras empresas que já atuavam nessa área, a Shein cresceu muito e esse crescimento foi muito potencializado durante o fechamento da economia dos países por causa da pandemia a partir de 2020. No início de 2021, a empresa tinha um valor de mercado avaliado em US$ 15 bilhões – no final desse mesmo ano, o valor já tinha subido para US$ 30 bilhões. Hoje, a Shein vale cerca de US$ 100 bilhões. 

O segredo desse sucesso: roupas baratas, de qualidade mediana (para não falar que são de baixa qualidade) e semidescartáveis. De acordo com alguns documentários que encontrei durante a minha pesquisa, cada peça de roupa da marca é usada, em média, 3 vezes antes de ser descartada. 

A “mágica” por trás do sucesso da marca é o uso de toda uma rede de fornecedores terceirizados, onde os funcionários chegam a trabalhar até 18 horas por dia, sendo obrigados a produzir 500 peças de roupa a cada jornada de trabalho. De acordo com denúncias, esses trabalhadores ganham cerca de 4 centavos de dólar a cada peça produzida e só tem direito a uma única folga mensal. 

A empresa vem sofrendo inúmeras denúncias internacionais por trabalho análogo a escravidão. Além disso, a marca é acusada sistematicamente de copiar modelos de roupas de grandes grifes internacionais. A empresa, é claro, se defende, afirmando que procura adotar as melhores práticas na gestão do seu negócio. 

Dentro da nossa área de interesse, que é a questão ambiental, essa tendência de “fast fashion” é um verdadeiro desastre. Um exemplo dos problemas criados é o descarte de milhões de peças usadas em aterros sanitários ou em lixões a céu aberto. Um desses casos, que tratamos em uma postagem aqui do blog, é de uma grande área de descarte no Deserto do Atacama, no Chile. 

Os problemas da indústria têxtil, entretanto, vão muito além disso. Eles começam já na produção de matérias primas como o algodão, a fibra natural mais usada no mundo. Os maiores produtores de algodão são países pobres como a Índia, Paquistão, Egito, Repúblicas da Ásia Central, entre outros. A colheita nesses países é majoritariamente manual e os trabalhadores ganham salários miseráveis, além de trabalharem em condições deploráveis. 

Além do algodão, fios semissintéticos a base de viscose (polímeros naturais) e, mais recentemente, artificiais feitos de poliéster e de outros derivados de petróleo, vem sendo utilizados em escala cada vez maior pelas tecelagens. Como acontece com materiais a base de plástico, esses tecidos sintéticos levam milhares de anos para se decompor na natureza. 

A “cereja do bolo” da indústria têxtil em questões de problemas ambientais são os processos de tingimentos dos fios e dos tecidos, além dos diversos trabalhos para impressão de estampas e acabamentos. Esses processos utilizam uma infinidade de corantes artificiais e produtos químicos altamente poluentes, além de consumir muita água – algumas estimativas afirmam que o setor gasta quase 100 trilhões de litros de água a cada ano. 

Os trabalhos de corte e costura das peças e das roupas é sempre feito por populações miseráveis de países mais miseráveis ainda. Além da China, entram nessa lista países como Bangladesh, Índia, Paquistão, Indonésia, Tailândia, Malásia, Vietnã, entre muitos outros. 

Um dos casos que já tratamos em postagens aqui do blog é o da indústria têxtil Bangladesh, país onde o custo da mão de obra é menor que o da China. Isso transformou o país em uma imensa rede de pequenas oficinas de corte e costura de roupas e de pequenas tecelagens. O país é o segundo maior produtor mundial de têxteis do mundo – é comum encontrarmos roupas nas lojas das grifes mais sofisticadas do mundo com a inscrição “Made in Bangladesh”.   

O salário mínimo atual de Bangladesh é de US$ 68.00 (alguns anos atrás era de apenas US$ 37.00). Segundo dados do Banco Asiático de Desenvolvimento, 30% dos bangladeses (o termo bengali, que também pode ser usado, é impreciso, uma vez que também é usado para os indianos de Bengala Ocidental), sobrevivem com apenas US$ 1.00 por dia, o que é considerado o limite extremo da pobreza.  

Além dos inúmeros problemas ambientais e sociais que a salvadora indústria têxtil local gera, existe um outro ainda mais delicado – de acordo com estudos de entidades ligadas aos direitos humanos e ao mercado de trabalho, cerca de 15% das crianças de Dakha, a capital de Bangladesh, com idades entre 6 e 14 anos, deixam de ir para a escola para ajudar os pais com o trabalho nas confecções. É possível que nas cidades do interior do país, onde a “fiscalização” é bem menor, a situação seja ainda mais crítica. 

Diferente de setores como os da agricultura e da pecuária (em nossa postagem anterior falamos do consumo de alimentos à base de insetos como fonte alternativa de proteína animal), onde existe uma enorme pressão internacional em busca de uma sustentabilidade ambiental cada vez maior, a indústria da moda e, especialmente, a da “fast fashion”, vem saindo-se relativamente ilesa. 

Na minha humilde opinião, isso acontece por causa de uma certa “culpa no cartório” que grandes empresas do mundo da moda de países como França, Espanha, Itália, Alemanha, entre outros ditos de “primeiro” mundo – essas empresas ou compram matérias primas como fios, tecidos e acessórios fabricados em países da Ásia e do Sudeste Asiático, ou simplesmente centralizam a sua produção por lá, ganhando dezenas de milhões de euros e/ou dólares com a simples revenda em suas lojas chics nas grandes cidades do mundo. 

Assim é fácil ser ambientalista e sair condenando países como o Brasil a “torto e a direito”… 

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UNIÃO EUROPEIA LIBERA A COMERCIALIZAÇÃO DE FARINHA DE GRILO E OUTRAS PROTEÍNAS A BASE DE INSETOS

A partir desta terça-feira, dia 24 de janeiro, está liberada a comercialização de farinha de grilo (Acheta domesticus), parcialmente desengordurada, em países membros da União Europeia. O alimento vem se juntar a outros insetos e subprodutos já liberados para venda como alimento humano. 

Em junho de 2021, a União Europeia já havia liberado a venda da larva-da-farinha-amarela (Tenebrio molitor) na forma seca. Em março de 2022 foi autorizada a venda de grilos em pó, congelados ou seco, e também do gafanhoto-migratório (Locusta migratoria). A partir do próximo dia 26, estará liberada a venda de larvas de farinha (Alphitobius diaperinus) congeladas, em pasta, secas e em pó. 

Pode até parecer brincadeira que um blog especializado em educação ambiental divulgue esse tipo de notícia. Não é brincadeira e a questão tem tudo a ver com questões ambientais. 

Questões ligadas às mudanças climáticas e ao aquecimento global tornaram-se bastante frequentes aqui em nossas postagens. Esses graves problemas ambientais estão ligados diretamente as emissões dos famosos GEE – Gases de Efeito Estufa. Entre esses gases sempre destacamos o Dióxido de Carbono (CO2) e o metano (CH4). 

A queima de combustíveis fósseis derivados de petróleo como a gasolina, o querosene e o óleo diesel, além do carvão mineral, geram grande parte dos GEEs. Também é preciso incluir na lista de poluidores a agricultura e a criação de animais, entre outras atividades. 

Animais domésticos como bovinos, suínos, ovinos e caprinos, entre outros, liberam grandes volumes de gás metano durante o seu processo digestivo. Além disso, necessitam de grandes volumes de alimentos na forma de ração, atividades que também liberam gases de efeito estufa. 

Para aumentar o tamanho do problema, o mundo está entrando em uma fase crítica na produção de alimentos. Conforme já tratamos em outras postagens, a invasão da Ucrânia pela Rússia no ano passado desencadeou uma grande crise na produção de alimentos. A Ucrânia e a Rússia, citando um único exemplo, respondem por 1/3 da produção mundial de trigo. 

Muitos ecologistas defendem o fim do consumo de produtos de origem animal como carne e leite como forma de reduzir as emissões globais de GEEs. Em seu lugar, esses grupos (entre os quais eu não me incluo) defendem o consumo de alimentos à base de insetos como fonte alternativa de proteínas. 

Segundo esses “especialistas”, a criação de insetos como fonte de alimentos apresenta um custo muito menor que o das proteínas tradicionais de origem animal. Essas atividades também produzem emissões de gases de efeito estufa bem menores. O maior problema para adoção em larga escala dessas “proteínas alternativas” é de ordem cultural. 

Aqui na região do Vales do Rio Paraíba, no interior do Estado de São Paulo, muita gente se esbalda com a farofa de içá, uma iguaria que tem como ingrediente o abdome de formigas saúvas ou tanajuras. Essas populações herdaram o costume dos antigos indígenas que habitavam a região e vem o alimento com muita naturalidade. 

Na China e em países do Sudeste Asiático também é muito comum o consumo de insetos. Nos mercados populares não é nada difícil encontrar petiscos como espetinhos de grilo e gafanhotos, grilos fritos (vide foto), além de outros pratos onde algum tipo de inseto faz parte dos ingredientes. 

Uma outra citação rápida são as larvas de palmeira, uma iguaria muito apreciada por populações da Malásia, Nigéria, Papua Nova Guiné, além de muitas tribos indígenas aqui das Américas. As larvas são retiradas de troncos de palmeira apodrecidos. Segundo os apreciadores, as larvas cruas tem gosto de coco e, quando fritas, gosto de bacon. 

Aliás, existe um ramo da ciência conhecido como entomofagia que se dedica ao estudo de insetos que podem ser usados na alimentação humana. Segundo os levantamentos mais recentes existem cerca de 1.500 espécies de insetos comestíveis, que são consumidos por quase 3 mil grupos étnicos em mais de 120 países.  

Os grupos de insetos comestíveis mais populares são o dos coleópteros (besouros), com cerca de 443 espécies, seguido pelos himenópteros (vespas, abelhas e formigas), com 307 espécies, e pelos ortópteros (gafanhotos e grilos), com 235 espécies.  

De acordo com diversos estudos realizados por especialistas, esses insetos fornecem quantidades satisfatórias de proteínas e lipídeos, além de serem ricos em sais minerais e vitaminas. Na opinião desses cientistas, é essencial mudar os hábitos das populações e as ideias a respeito do consumo de insetos na alimentação diária.  

Os esforços da União Europeia visam a popularização desses alimentos “ecologicamente sustentáveis”. Visto que muitos europeus já estão habituados a consumir alimentos para os quais nós brasileiros costumamos torcer o nariz – cito como exemplo o escargot (que em Portugal é mais conhecido como caracol), talvez essa mudança de hábitos alimentares seja mais fácil. 

Para nós brasileiro e outros sul-americanos, acostumados que estamos a um bom churrasco ou parrilla de carnes de animais, uma suculenta feijoada ou uma moqueca de peixe, será bem mais difícil imaginar que uma mudança desse tipo venha a acontecer. 

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