ARAGUAIA: UM RIO QUE PODERÁ DESAPARECER EM 40 ANOS

Xambioá

O rio Araguaia nasce no Estado de Goiás e segue rumo ao Norte, fazendo primeiro a divisa entre o Tocantins e Mato Grosso, seguindo depois para o Pará, até desaguar no rio Tocantins, num curso de aproximadamente 2,1 mil quilômetros. Na cidade de Xambioá, no Norte do Estado do Tocantins, a pesca nas águas do rio Araguaia costumava ser a principal atividade econômica – no final de 2016, os 250 pescadores da cidade retiraram 17,5 toneladas de peixes das águas do rio; passado um ano, a pescaria não chegou a 7 toneladas. De acordo com as informações fornecidas pela Secretaria de Meio Ambiente da pequena cidade, distante 480 km da capital Palmas, o rio Araguaia baixou 2 metros entre os meses de janeiro e outubro, ficando com uma lâmina d’água de apenas 20 cm em muitos trechos. A travessia do rio, que nesta época do ano só podia ser feita de barco, agora pode ser facilmente feita a pé (vide foto).

A desolação que se vê em Xambioá não é exceção – é a regra em toda a calha do rio Araguaia. Um estudo publicado em 2014 pela DEMA – Delegacia Estadual de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente, do Estado de Goiás, concluiu que, a se manter o atual grau de degradação que se observa em suas margens, o Araguaia deixará de existir em até 40 anos. Na opinião da maioria dos especialistas, a causa principal da redução cada vez maior dos caudais do rio Araguaia está no desmatamento de extensas áreas do Cerrado, o que vem ocorrendo desde a década de 1950, mas que aumentou substancialmente nos últimos anos devido ao avanço das fronteiras agrícolas. A principal responsável por esse avanço tem nome e sobrenome: a soja Doko, uma variedade da oleaginosa de origem chinesa desenvolvida pela Embrapa Cerrados.

Os solos do Cerrado sempre foram considerados muito pobres e extremamente ácidos para o cultivo em larga escala. O primeiro passo para a solução destes problemas foi o desenvolvimento de técnicas agrícolas como a calagem, onde é feita a correção do solo a partir da aplicação de calcário, a adubação fosfatada e a adubação potássica, entre outras. O grande salto da agricultura na região se deu mesmo em 1980, quando foi lançada a soja Doko. Resultado de mais de 10 anos de trabalhos de pesquisa e cruzamento de milhares de variedades de soja, a Doko se adaptou perfeitamente ao solo e ao clima do Cerrado. Em poucas décadas, surgiram imensos campos de cultivo da variedade em áreas do Cerrado nos Estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; em anos mais recentes, a cultura se expandiu para a região Oeste da Bahia e em partes do Piauí e do Maranhão. As estimativas de produção da safra 2016/2017 são de 114 milhões de toneladas, com uma área plantada de aproximadamente 34 milhões de hectares, o que coloca o Brasil como o segundo maior produtor mundial da oleaginosa, muito próximo de alcançar o primeiro colocado, os Estados Unidos.

Todo esse sucesso, que faz a alegria dos grandes produtores e proporciona enormes saldos comerciais na balança de exportação do país, teve um alto custo ambiental, que pouco a pouco começa a enviar a “fatura” a todos nós: calcula-se que metade da vegetação nativa do Cerrado sucumbiu ao avanço da agroindústria – a forte estiagem que passamos a observar nos rios da região no período da seca, inclusive com alguns rios secando completamente, é uma das consequências mais visíveis de todo este desmatamento. Conforme comentei em minha última postagem, as árvores e arbustos raquíticos do Cerrado não nos impressionam à primeira vista, especialmente quando comparados à vegetação de grande porte da Amazônia e da Mata Atlântica; é inclusive corriqueiro se confundir a vegetação do Cerrado com a Caatinga. Apesar da aparente fragilidade, as árvores e arbustos do Cerrado possuem um enorme e profundo sistema de raízes, adaptadas para captar a água em grandes profundidades no subsolo – é esse sistema radicular o responsável pela infiltração no solo de grandes volumes de água no período das chuvas, contribuindo assim para a recarga dos depósitos subterrâneos. Quando a temporada das chuvas se encerra, serão estes lençóis e aquíferos que fornecerão a água para as nascentes dos riachos e rios que brotam por todos os cantos do Bioma, acertadamente chamado de Berço das Águas do Brasil.

Com o corte da vegetação do Cerrado e o plantio da soja, do milho ou da grama usada na formação das pastagens para os rebanhos, esse mecanismo de recarga dos aquíferos é interrompido – essa plantas possuem raízes “ridiculamente” curtas e não permitem a infiltração de grandes volumes de água no solo. O resultado é um aumento na velocidade superficial da água das chuvas sobre o solo, carreando grandes volumes de sedimentos e areia, que acabam lançados nas calhas dos rios. No período das chuvas, os rios ficam sujeitos a fortes enchentes; na época da seca, pela grande redução dos volumes de água armazenada no subsolo, os rios definham – alguns, como já citamos, passaram a se comportar como rios intermitentes como aqueles do Semiárido nordestino.

Com nascentes na Serra do Caiapó, na divisa entre Goiás e Mato Grosso, o Araguaia já foi considerado um dos rios mais piscosos do mundo, atraindo praticantes da pesca esportiva de todos os cantos do Brasil e do exterior. Com a inauguração da Usina Hidrelétrica de Tucuruí no sul do Estado do Pará em 1984, que não foi projetada de forma a permitir a migração dos peixes de piracema nos períodos de desova, teve início um processo de declínio da ictiofauna no rio Tocantins e, consequentemente, no rio Araguaia, seu maior tributário. De rio sem peixe a rio sem água, foi um “pulo”. A redução sistemática dos caudais do rio, que na época da seca mais parece um córrego em muitas regiões, tem afetado a economia e a vida de inúmeras comunidades ribeirinhas, que retiravam seu sustento das águas durante o ano todo com a pesca, com o transporte fluvial de mercadorias e com o turismo. Agora, com o rio apresentando bons volumes de água apenas nos períodos das chuvas, vivem numa espécie de “trabalho em meio período”, o que não é bom para ninguém.

Preocupações com a devastação ambiental no Araguaia existem desde o final da década de 1970, quando o rio tinha o apelido de “lixão” devido ao despejo de grandes quantidades de resíduos sólidos, tanto pelas cidades quanto pelos turistas, que corriam para a região em busca dos peixes e deixavam todo o seu lixo nos locais dos acampamentos. Uma das primeiras iniciativas com fins de preservação do rio Araguaia foi a criação do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (hoje ligado ao ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que mantém, entre outros, o Projeto Quelônios do Araguaia. Também surgiu Projeto “Araguaia Sustentável“, realizado há 27 anos pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios, além de inúmeras iniciativas de organizações não governamentais em toda a bacia hidrográfica. Todas essas maravilhosas iniciativas, infelizmente, correm o risco de se tornar inócuas caso o rio Araguaia continue em sua marcha rumo ao desaparecimento.

Muitos meses atrás eu escrevi um post falando do famoso rio Nilo do Egito – poucos sabem, mas, até uns 10 mil anos atrás, o Nilo tinha um curso bem mais longo – ele virava para o Leste e atravessava todo o Norte da África, desaguando no Oceano Atlântico. Uma drástica mudança climática fez o rio mudar seu curso, que passou a seguir direto rumo ao Norte e desaguando no Mar Mediterrâneo. Uma das consequências desta mudança de curso foi o surgimento do Saara, o maior deserto do mundo. Se o rio Araguaia vier a desaparecer, como dizem alguns estudos, as consequências ambientais não vão ficar muito distantes do que ocorreu com o Norte da África…

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