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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

UMA OSCILAÇÃO NO MAGNETISMO DO PLANETA, MUDANÇAS CLIMÁTICAS E A EXTINÇÃO DOS HOMENS DE NEANDERTAL: UMA HIPÓTESE 

Um estudo realizado por cientistas de diversos países apresentou uma hipótese bastante interessante: uma grande oscilação no campo magnético de nosso planeta há cerca de 42 mil anos atrás desencadeou uma grande catástrofe ambiental. Isso resultou numa grande expansão do manto de gelo na América do Norte e na Europa, na extinção da megafauna da Austrália e também contribuiu para o desaparecimento dos homens de Neandertal, nossos desaparecidos “primos”. 

Vivemos em tempos de mudanças climáticas e de aquecimento global, tragédias que foram criadas pelas ações dos seres humanos. Essa crise ambiental está levando à extinção de diversas espécies animais e vegetais, não sendo nada difícil imaginar que nossa espécie, o Homo Sapiens, também poderia seguir um caminho semelhante e desaparecer para sempre como ocorreu com os Neandertais

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que se trata de uma hipótese, que nada mais é que uma “suposição, especulação ou formulação provisória, com intenções de ser posteriormente demonstrada ou verificada”. Os filósofos da antiguidade lançavam primeiro uma hipótese, que era debatida entre um grupo favorável à ideia – a tese, e um grupo contrário – a antítese. Dessas discussões surgia a síntese, uma proposta final que fundia ideias de ambos os grupos, passando a admitir que aquele conhecimento seria uma “verdade”. 

A metodologia científica moderna aperfeiçoou muito esses antigos conceitos. Hipóteses precisam ser demonstradas e comprovadas cientificamente, permitindo sempre o contraditório de outros pesquisadores e cientistas. Um experimento, por exemplo, precisa ser repetido em laboratório com a mesma metodologia por outros cientistas para ser confirmado. Somente depois de esgotadas todas as discussões, com prós e contras, é que se passa a admitir a ideia como um novo conhecimento científico.  

Um exemplo muito atual que podemos citar são os estudos sobre a Covid-19 e o desenvolvimento de vacinas e tratamentos. É possível observar claramente a diferença de opiniões entre os diversos grupos científicos, numa demonstração didática de como as coisas funcionam no campo das ciências. Vamos passar aos fatos dessa notícia:

Nosso planeta, como muitos já devem saber, possui um campo magnético que se estende desde as profundezas da terra até o espaço. Falando de uma forma bem simplificada, nosso planeta é um grande imã, com suas extremidades – Polo Norte e Polo Sul, apresentando diferentes polaridades magnéticas. É esse campo magnético que faz com que o ponteiro de uma bússola, importante instrumento de navegação, aponte sempre para o Norte magnético do planeta (existe sempre uma pequena diferença entre o Norte magnético e o Norte geográfico).

O magnetismo do nosso planeta é gerado a partir de correntes elétricas no núcleo da Terra criadas pelo movimento das correntes de convecção. O núcleo do nosso planeta é formado por grandes massas de ferro e níquel, parte em estado sólido e parte em estado líquido. Essas grandes massas metálicas estão em movimento contínuo, um processo natural chamado geodinamismo, o que gera correntes elétricas e essas, por sua vez, criam o campo magnético terrestre. 

O campo magnético terrestre forma uma barreira natural contra o chamado vento solar, um fluxo constante de partículas carregadas eletricamente que emanam do Sol. Caso consigam vencer essa barreira e entrar na atmosfera, essas partículas podem destruir a camada de ozônio, um manto de gases que filtra os raios ultravioletas do sol e protege a superfície do planeta. 

Pois bem – esses pesquisadores identificaram uma grande alteração no magnetismo terrestre ocorrida há 42 mil anos atrás. De acordo com os cálculos feitos, o campo magnético da Terra foi reduzido a cerca de 1/10 de seu nível energético por um longo período. Sem a proteção do magnetismo, a camada de ozônio foi praticamente destruída e a superfície do planeta passou a ser bombardeada com intensos níveis de radiação ultravioleta. 

Fortíssimas tempestades elétricas passaram a varrer as regiões tropicais e provocaram grandes incêndios florestais. As Auroras – boreais e austrais, grandes fenômenos de luzes na atmosfera e que são provocadas pelo magnetismo terrestre nas regiões polares, passaram a ser vistas por todo o planeta. Os mantos de gelo e as geleiras aumentaram drasticamente – especialmente no Hemisfério Norte, levando uma infinidade de espécies animais e vegetais à extinção. 

Uma das prováveis vítimas desse intenso período de mudanças climáticas foram os homens de Neandertal (Homo neandethalensis), espécie que é considerada “prima” dos seres humanos modernos (Homo sapiens). Os Neandertais surgiram há cerca de 400 mil anos atrás, sendo descendentes dos primeiros seres “humanos” que saíram da África em direção ao Oriente Médio, Ásia e Europa. A nossa espécie fez essa mesma migração, porém, centenas de milhares de anos mais tarde. 

Apesar de apresentaram algumas diferenças físicas, seres humanos modernos e Neandertais não são tão diferentes na genética (vide imagem). Aliás, europeus e povos da maior parte da Ásia possuem em seu genoma algo entre 2% e 5% de genes dos Neandertais. Isso comprova o inter-relacionamento que existiu entre as duas espécies. 

Um dos grandes enigmas da ciência é o de tentar achar uma explicação para o súbito desaparecimento do Neandertais da face da Terra, o que ocorreu entre 27 e 32 mil anos atrás. Existem diversas hipóteses, porém, nada foi comprovado. 

Esse novo estudo abre todo um novo conjunto de possibilidades para se explicar esse evento. O aumento da radiação ultravioleta pode ter destruído populações de plantas e animais que eram utilizados na alimentação dos Neandertais. Ou ainda – esse grupo humano, talvez por pré-disponibilidade genética, fosse intolerante ao excesso de radiação ultravioleta, desenvolvendo inúmeras doenças. 

Nossos ancestrais, Homo sapiens, também teriam enfrentado os mesmos problemas ambientais, porém, graças a um melhor desenvolvimento cultural e tecnológico, conseguiram sobreviver. Com armas mais eficientes, por exemplo, nossa espécie conseguia abater os poucos animais disponíveis para a caça. 

Outra possibilidade interessante – muitas tribos primitivas tinham (e muitas ainda tem) o hábito de pintar o corpo. Exemplos são os celtas que viviam nas ilhas Britânicas e que até o tempo da invasão romana em 43 a.C. tinham o hábito de pintar todo o corpo com um pigmento azul. Na Amazônia existem até hoje tribos indígenas que pintam o corpo com urucum e jenipapo. Essa pintura corporal pode ter funcionado como uma espécie de filtro solar primitivo. 

Esse período histórico também marca uma explosão no número de pinturas feitas em paredes de cavernas. Isso pode indicar uma mudança no hábito de vida das populações, que passaram a morar cada vez mais no interior das cavernas, ficando mais protegidas da forte radiação solar. 

Vejam que são inúmeras possibilidades e especulações que surgem, que poderão ser confirmadas ou não por novos estudos científicos. Para se fazer boa ciência é fundamental que se façam as perguntas certas e que se encontrem respostas adequadas. Isso até pode parecer óbvio, mas, em tempos de patrulhamento ideológico, as coisas ficaram um pouco mais difíceis para muitos pesquisadores científicos. 

Por partilharmos algumas características genéticas com nossos parentes distantes, os Neandertais, nós humanos modernos herdamos muitas de suas qualidades e também muitas de suas fraquezas. Os Neandertais sobreviveram por cerca de 400 mil anos, vivendo em condições climáticas extremas – isso é uma prova de sua força. Quais seriam então as fraquezas que os levaram à extinção? 

Se essas poderosas criaturas foram extintas por catástrofes climáticas, o que será de nós, um bando de “humanos modernos fracotes”? Estudar melhor e entender plenamente essas questões poderá ser fundamental para a nossa sobrevivência como espécie. Como é costume se afirmar, é importante conhecer o passado para entender melhor o presente e assim tentar antecipar o futuro. 

PEQUIM E NOVA DÉLI ESTÃO COBERTAS POR UMA DENSA NUVEM DE POLUIÇÃO

As cidades de Pequim, capital da China, e Nova Déli, capital da Índia, amanheceram cobertas por uma densa nuvem de poluição nesta sexta-feira, dia 05 de novembro. O fenômeno climático, que não é nada incomum nessas cidades, ocorre no momento em que líderes políticos, cientistas, empresários e jornalistas estão reunidos na cidade de Glasgow – Escócia, para os trabalhos da COP26 – Conferencia das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas de 2021.

Uma das principais discussões do encontro são as emissões de gases de Efeito Estufa, um dos grandes vilões do clima mundial, e as tratativas para que os países acelerem a redução de suas emissões. Um dos principais gases emitidos pelos países é o dióxido de carbono (CO2), liberado principalmente pela queima de carvão mineral. Esse combustível fóssil é usado, principalmente, em centrais térmicas de geração de energia elétrica, em processos industriais como a siderurgia e também para o aquecimento de residências em países de clima temperado.

China e Índia estão entre os maiores consumidores de carvão mineral do mundo e, não por acaso, figuram na lista dos maiores emissores mundiais de gases de Efeito Estufa. Conforme comentamos em uma postagem anterior, o Governo da Índia se recusou a aumentar as suas reduções de emissões para além dos valores acordados anteriormente. Havia uma forte pressão para que o país reduzisse suas emissões em 40% até 2030. A China também sinalizou que não pretende reduzir o ritmo de suas emissões e informou que só deverá atingir a neutralidade das suas emissões em 2070.

De acordo com dados divulgados por reportagens, a concentração de material particulado na atmosfera de Pequim hoje é de 220 microgramas para cada metro cúbico de ar. Em Nova Déli, essa concentração está bem mais alta – são mais de 400 microgramas para cada metro cúbico de ar. De acordo com as recomendações da OMS – Organização Mundial da Saúde, a concentração máxima recomendável é de 25 microgramas de material particulado para cada metro cúbico de ar.

A China, conforme comentamos em uma postagem recente, está sofrendo com uma fortíssima crise energética. Inúmeras centrais termelétricas a carvão foram reativadas emergencialmente para compensar as perdas de geração em centrais térmicas a gás natural, combustível que sofreu um enorme aumento de preços nos últimos meses e que está em falta no país. Na Índia, onde a queima de carvão para a geração de energia elétrica sempre foi muito grande, o principal responsável pela alta concentração de poluentes na sua capital são as condições climáticas.

A trágica coincidência desses eventos com a COP26 não deixa de ser didática para muita gente – é preciso reduzir as emissões de gases de Efeito Estufa ou vamos todos sofrer com eventos muito parecidos em nossas grandes cidades dentro de muito pouco tempo.

A “GUERRA” EM BUSCA DA REDUÇÃO DAS EMISSÕES MUNDIAIS DE GASES DE EFEITO ESTUFA 

O Efeito Estufa é um processo natural de nosso planeta. Durante o dia, ou seja, quando parte do planeta fica voltada diretamente para o sol, a atmosfera reflete uma parte da radiação solar de volta para o espaço e parte dessa energia chega até a superfície do planeta. Os chamados gases de Efeito Estufa retém essa energia térmica, evitando que as temperaturas da superfície baixem demais durante a noite. Isso mantém a temperatura do planeta relativamente estável.

Na Lua, o satélite natural do nosso planeta, não existe uma atmosfera que controle a radiação solar na sua superfície. Durante o dia, a temperatura na superfície lunar chega aos 214° C e cai para -184° C durante a noite. Nas regiões polares da Lua, a temperatura é constante e fica na casa de -96° C. Mesmo que a tecnologia permita a colonização da Lua num futuro relativamente próximo, essa brutal variação das temperaturas entre o dia e a noite continuará sendo um grande desafio.

Os principais gases de Efeito Estufa são o dióxido de carbono (CO2), o Metano (CH4), o Óxido Nitroso (N2O) e o Hexafluoreto de Enxofre (SF6), além do vapor de água. As concentrações naturais desses gases na atmosfera se mantiveram estáveis durante dezenas de milhões de anos. Foram as ações humanas, que se intensificaram muito nos últimos 250 anos, que aumentaram muito as concentrações desses gases. Como resultado, as temperaturas na superfície do planeta não param de subir e mudanças climáticas são visíveis. 

Um dos grandes vilões do clima mundial, sobre o qual já falamos em postagens anteriores, é o carvão. Esse mineral é de origem fóssil e foi formado ao longo de dezenas de milhões de anos a partir da sedimentação de restos de matéria orgânica, principalmente madeira. Árvores em processo de crescimento acumulam grandes volumes de carbono, elemento esse que é abundante no carvão. Com a queima do combustível, todo esse carbono que ficou acumulado é liberado na atmosfera. 

Cerca de 40% da toda a energia elétrica usada no mundo é gerada a partir da queima do carvão. A queima desse combustível responde por um volume entre 30 e 35% das emissões mundiais de dióxido de carbono. O consumo mundial atual de carvão mineral é da ordem de 5,5 bilhões de toneladas. 

A metalurgia e todas as atividades associadas, onde há necessidade de altíssimas temperaturas para a fundição dos metais, também necessita de grandes volumes de carvão para alimentar seus altos-fornos. Também precisamos incluir nessa lista o uso do combustível para calefação ou aquecimento de residências em países de clima temperado, onde os invernos são muito rigorosos. Citamos em uma postagem anterior o caso de Ulan Bator, a capital da Mongólia, onde essa queima de carvão nas residências responde por 80% da gravíssima poluição da cidade. 

Historicamente, o maior consumidor mundial de carvão e também maior emissor de dióxido de carbono foi os Estados Unidos– o país produziu cerca de 415 bilhões de toneladas métricas desde 1750. A China vem em segundo lugar com 220 bilhões de toneladas métricas, com a antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e a Alemanha vindo na sequência. 

A partir da década de 1980, com seu fortíssimo crescimento econômico, a China assumiu o posto de maior emissor mundial de dióxido de carbono – são mais de 14,1 bilhões de toneladas métricas/ano ou cerca de 27% das emissões mundiais. Os Estados Unidos estão em segundo lugar com 5,7 bilhões de toneladas métricas ou 11% das emissões globais. Na sequência vem a Índia, com 3,4%, a União Europeia, com 3,3%, Indonésia, com 1,8%, Arábia Saudita, com 1,6% e o Brasil com 1,5% das emissões mundiais. 

Uma das características do dióxido de carbono é a sua longa permanência na atmosfera. Para que todos tenham uma ideia do que estamos falando – calcula-se que 40% de todo o dióxido de carbono emitido pela humanidade nos últimos 150 anos ainda está na atmosfera. Caso se consiga reduzir as emissões desse gás, o que é uma das principais discussões hoje na COP26, serão necessárias várias décadas até que resultados climáticos comecem a ser percebidos. 

A redução das emissões de gases de Efeito Estufa é um desafio ambiental que vem sendo perseguido pela humanidade já há vários anos. O Protocolo de Kyoto, assinado por mais de 175 países em 1997, foi uma das tentativas. Esse frustrado acordo previa uma redução das emissões de gases de Efeito Estufa pelos países signatários entre 2008-2012 para uma média de 5% em relação aos níveis de 1990. Num segundo momento, as nações signatárias assumiriam o compromisso de reduzir as emissões entre 2013-2020 em pelo menos 18% abaixo das emissões de 1990. 

Apesar de ter sido considerado um marco na defesa do meio ambiente, os resultados obtidos ficaram abaixo das expectativas. Em 2015, durante a COP21 em Paris, foi discutido um novo compromisso mundial em substituição ao Protocolo de Kyoto, que recebeu o nome de Acordo de Paris. Assinado por 195 países, esse Acordo entrou em vigor em 2016, tendo como principal meta limitar o aumento da temperatura global abaixo dos 2º C até o final deste século.  

A luta atual na COP26 é a de se conseguir um acordo para limitar o aumento das temperaturas do planeta em 1,5º C. Os países tem apresentado propostas de redução de suas emissões até 2030, além de estabelecer uma data limite para zerar essas emissões. O Brasil, citando um exemplo, está se comprometendo a reduzir suas emissões em 37% até 2025, 43% até 2030 e a alcançar a neutralidade nas emissões até 2050. É uma proposta ousada

Infelizmente, não são todos os países que estão assumindo essa importante responsabilidade para com o planeta. A Índia já avisou que não vai limitar as suas emissões além do que já havia se comprometido e afirma que só deverá atingir a neutralidade do carbono em 2070. A China e a Rússia também estão se recusando a aumentar a velocidade das reduções de suas emissões de gases de Efeito Estufa. 

Se assumirmos que o Brasil consiga cumprir os compromissos assumidos, as emissões de gases de Efeito Estufa passarão a representar cerca de 0,7% do total mundial em 2050, o que, apesar de se mostrar um avanço importante para o país, representaria muito pouco dentro do contexto mundial. 

Um caminho alternativo que restará para a humanidade será um esforço concentrado do maior número possível de países para o reflorestamento de áreas degradadas. Apesar de todas as críticas que o Brasil recebe, cerca de 60% da vegetação nativa do país ainda está preservada. Se outros país conseguirem restaurar parte do que já destruíram, ajudará bastante. 

Outra medida fundamental é estimular ao máximo o uso de fontes de geração de energia elétrica renováveis como a hidrelétrica, a eólica e a solar. Nesse quesito, os países ricos, que são os que, aparentemente, mais se preocupam com o aquecimento global e com as mudanças climáticas, precisam ajudar os países pobres e em desenvolvimento, especialmente com tecnologia e recursos financeiros. 

Ficar falando apenas das queimadas da Amazônia não vai ajudar muito…

QUEM MATA MAIS AVES: AS PÁS DAS TURBINAS EÓLICAS, AS TORRES DE TELEFONIA CELULAR, AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS OU OS GATOS?

Vivemos em um mundo cada vez mais dependente da eletricidade – essa é uma verdade que deixa muito pouco espaço para discussões. Por outro, grande parte das fontes geradoras de energia elétrica se valem da queima de combustíveis fósseis como o carvão mineral e os derivados de petróleo. 

Em tempos de graves problemas criados pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas, a geração e o consumo da energia elétrica acabam sendo colocados no olho do furacão. Os gases de efeito estufa liberados pelas centrais geradoras de energia elétrica são alguns dos maiores vilões do clima mundial. O que fazer? 

As chamadas fontes de energia renováveis, onde se incluem a geração hidrelétrica, a fotovoltaica, a eólica, a queima de biomassa, entre muitas outras, vem crescendo vigorosamente nas últimas décadas e estão suprindo uma boa parte das necessidades de energia elétrica da humanidade. 

Nosso país, que na opinião de muitos críticos (locais e internacionais) é o grande vilão do clima, gera mais de 80% de toda a sua energia elétrica a partir dessas fontes. As centrais hidrelétricas do Brasil respondem por mais de 60% de nossa geração. A geração eólica responde por cerca de 10% e a fotovoltaica por outros 7%. Outra importante fonte de geração de energia elétrica aqui em nosso país é a da queima da biomassa, especialmente do bagaço da cana-de-açúcar. 

Outra contribuição ambiental importante de nosso país para o mundo é o uso em larga escala do etanol ou álcool como combustível de veículos. Desde a década de 1970, quando foi criado o Pró-Álcool – Programa Nacional do Álcool, o uso desse combustível renovável ganhou uma enorme importância no país. Com o lançamento dos motores flex, que funcionam tanto com gasolina quanto etanol, no início da década de 2000, essa importância foi renovada. 

O uso de energias renováveis, entretanto, nem sempre acaba sendo uma unanimidade. Citando o exemplo do Pró-Álcool, não são poucos os que o criticam por ocupar parte importante das terras mais férteis do país com a produção da cana-de-açúcar. Segundo esse grupo, seria muito mais vantajoso usar essas áreas para a produção de grãos como a soja e o milho, commodities que renderiam bilhões de dólares em exportações. 

Uma questão que vem despertando embates acalorados nos últimos anos são as centrais de geração de energia eólica. Muitos críticos se incomodam com a “poluição visual” criada pelas altas torres, instaladas muitas vezes em locais paradisíacos como praias, na plataforma marítima ao longo da costa ou no alto de serras. Além de “feias”, essas turbinas também são consideradas muito barulhentas. 

Outro foco importante das críticas é o grande número de pássaros que morrem ao colidir com as pás em movimento. Aqui se incluem aves migratórias, as quais não tem um registro em sua memória desses obstáculos em suas tradicionais rotas de migração, e principalmente espécies de aves sob risco de extinção. 

De acordo com um estudo feito pelo American Wind Wildlife Institute, as turbinas eólicas instaladas em território norte-americano causam entre 214 e 368 mil mortes de aves todos os anos. Algumas fontes falam de mais de 500 mil pássaros mortos. Essas mortes incluem espécie seriamente ameaçadas de extinção como a águia-careca (Haliaeetus leucocephalus), ave símbolo dos Estados Unidos (vide foto). 

Essa questão é muito importante para os norte-americanos por uma particularidade do país: cerca de 47 milhões de pessoas se dedicam a atividade recreativa de observação de pássaros. Existem centenas de clubes desse tipo no país, uma atividade que emprega mais de 600 mil pessoas e movimenta mais de US$ 100 bilhões a cada ano. 

Os membros dos clubes de observadores de pássaros concentram um grande poder econômico e, consequentemente, também possuem um grande poder político. Muitos senadores e deputados dos Estados Unidos recebem importantes doações desses grupos e, em troca, costumam propor leis cada vez mais rigorosas para a proteção das aves. Uma dessas propostas em discussão prevê pesadas multas para os fazendeiros que arrendam parte de suas terras para a instalação das turbinas eólicas nos casos de morte de aves em risco de extinção em choques com as pás geradoras. 

A morte de animais selvagens em decorrência das atividades humanas é sempre lamentável. Porém, os grupos ambientalistas defensores das fontes alternativas de energia elétrica vêm contra-atacando, com argumentos bastante convincentes. Vejam: 

As pás das turbinas dos geradores eólicos matam muitos pássaros todos os anos, porém, nossos fofos e queridos gatos domésticos causam um estrago muito maior para esses animais. De acordo com estudos de várias organizações, os gatos domésticos causam a morte de 1,4 a 3,7 bilhões de aves nos Estados Unidos a cada ano

Os estragos causados pelos bichanos não se limitam apenas as aves – gatos costumam caçar esquilos, filhotes de mamíferos como gambás e guaxinins, anfíbios, répteis como lagartos e cobras, entre muitos outros animais. Mesmo tendo fartura de comida em suas casas, os gatos saem em seus passeios noturnos, onde seus instintos primitivos de caçador afloram. Aqui é importante lembrar que o declínio de qualquer população animal causa enormes desequilíbrios dentro de um nicho ecológico ou ecossistema.

Alguém teria coragem de propor o envenenamento dos gatos para salvar as populações de pássaros e de outros animais? 

Outro tipo importante de armadilha para as aves são as torres com antenas de sistemas de telefonia celular e outros equipamentos usados em sistemas de telecomunicações. Os estudos indicam que cerca de 7 milhões de aves morrem após colidirem com essas estruturas. Para evitar as mortes dessas aves, as populações precisariam ficar sem seus telefones celulares e acesso à internet. Alguém acha isso possível? 

O dado mais alarmante, porém, vem da National Audubon Society, uma tradicional organização ambientalista não governamental norte-americana. Estudos patrocinados pelo grupo indicam que metade de todas as espécies de aves dos Estados Unidos estão ameaçadas em consequência das mudanças climáticas

E como se combatem as mudanças climáticas? 

Entre outras medidas importantes, com a redução das emissões de gases de efeito estufa gerados pela produção de energia elétrica, o que inclui a instalação de turbinas de geração eólica, as mesmas que matam os passarinhos. 

Essa apresentação, um tanto desconcertante, mostra a complexidade das questões ambientais em nossos dias e confirma que não existem respostas simples para os nossos grandes e urgentes problemas ambientais. 

Reuniões como a COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, são importantíssimas para que se encontrem soluções para o meio ambiente mundial. Essas soluções precisam envolver desde os donos dos gatos até os dirigentes políticos mais poderosos do mundo. Sem a união de todos, as coisas não vão andar… 

COCA-COLA: A MAIOR POLUÍDORA POR PLÁSTICOS DO MUNDO

De alguns anos para cá, a Floresta Amazônica passou a ocupar uma posição central nas discussões ambientais. A preservação da maior floresta equatorial do mundo e também a mais preservadas (cerca de 85% de sua área ainda mantem as condições naturais originais) virou um mantra dos ecologistas mundo a fora. 

Entre os muitos exageros nos discursos dos grupos ambientalistas, de famosos e de autoridades, aparece com enorme frequência a afirmação que a Amazônia é o pulmão do mundo. Apesar de toda a importância do bioma na regulação do clima mundial, a grande floresta está longe de ser o pulmão do mundo, papel cumprido com enorme competência pelos oceanos. 

Os oceanos e mares cobrem 71% da superfície do planeta Terra, o que corresponde a cerca de 362 milhões de km², onde encontramos aproximadamente 1,3 bilhão de km³ de água. Nesse mundo de águas encontramos a maior “floresta” do mundo, formada pelas mais diferentes espécies de algas e microalgas. Essas plantas geram perto de 54% do oxigênio liberado na atmosfera do planeta. Se existe algum pulmão no planeta, esses são encontrados nos oceanos. 

Desde meados do século XX, quando o consumo de plásticos começou a crescer em escala exponencial, os oceanos e mares foram se transformando numa espécie de lixeira do mundo. Pecas plásticas de todos os tipos, especialmente embalagens de alimentos e de bebidas, passaram a ser arrastados pelas chuvas primeiro para as calhas dos rios e depois chegavam aos oceanos. 

De acordo com estudos da organização ambientalista WWF – World Wildlife Fund, cerca de 10 milhões de toneladas de resíduos de plástico chegam aos oceanos todos os anos. Esse volume corresponde a 1/10 de toda a produção de plástico do mundo. 

Estudos do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, indicam que existem atualmente 18 mil fragmentos visíveis de plásticos flutuando em cada quilômetro de mar – é indeterminada a quantidade de resíduos que está submersa nos oceanos. As sacolas plásticas, como as de supermercados tão presentes em nosso dia a dia, representam até 27% desse lixo flutuante dos oceanos, segundo algumas medições já feitas

Em uma postagem publicada no final de 2016 aqui no blog, falamos de uma gigantesca ilha flutuante formada por resíduos de plástico no Oceano Pacífico. Segundo cálculos de oceanógrafos feitos há época, essa “ilha” ocupava uma de área de cerca de 1.000 km², com uma massa de 4 milhões de toneladas de resíduos. Esse é apenas um exemplo da grandiosidade do problema.

Além de todos os danos causados para a fauna marinha – animais como as tartarugas, citando um exemplo, comem sacolas plásticas imaginando serem lulas, esses resíduos de plástico prejudicam o ciclo de vida das algas e microalgas, organismos que precisam receber luz solar para sobreviver. Somado a outros problemas como os resíduos flutuantes de óleo nas águas, essa poluição está destruindo gradativamente parte importante da produção de oxigênio do planeta. 

Entre todos os tipos de resíduos plásticos encontrados nos oceanos, as embalagens do tipo PET, usadas no envase de refrigerantes, sucos e água mineral, são as mais comuns. Em 2010, navegando num rio escondido no meio da Floresta Amazônica, encontrei uma dessas embalagens flutuando no meio da correnteza. Se no meio de uma mata densa e longe de tudo encontramos esse tipo de resíduo, dá para imaginar a quantidade dessas embalagens que chegam aos mares e oceanos todos os anos. 

Há poucos dias atrás, assistindo uma reportagem da BBC News, fiquei sabendo que a Coca-Cola Company, uma das maiores e mais famosas empresas mundiais, foi apontada como a maior empresa poluidora por plástico do mundo, um título péssimo para os negócios da empresa. 

Até umas poucas décadas atrás, quem é um pouco mais velho vai se lembrar, a maior parte dos produtos da empresa era vendido em garrafas de vidro. Essas garrafas eram recolhidas e levadas de volta para a empresa, onde eram lavadas, esterilizadas e colocadas mais uma vez na linha de produção. Garrafas quebradas ou muito desgastadas eram enviadas para reprocessamento nas fábricas de vidro. 

Esse tipo de operação, conhecida atualmente como logística reversa, acabava encarecendo a produção e reduzindo a margem de lucro do fabricante. Em um determinado momento, os dirigentes da empresa descobriram que o uso de embalagens plásticas descartáveis era muito mais rentável e as tradicionais garrafas de vidro foram abandonadas. 

A estratégia foi muito bem sucedida quando analisamos o lucro da empresa – todos os custos envolvidos com o recolhimento e reprocessamento das garrafas sumiu das planilhas de custos. Porém, o imenso volume de embalagens descartadas, pouco a pouco passou a se voltar contra a imagem da empresa. 

De acordo com a citada reportagem da BBC News, a empresa colocou no mercado cerca de 156 bilhões de embalagens plásticas apenas nos últimos três anos. Depois de consumida a bebida, essas embalagens eram descartadas e levadas para aterros sanitários e lixões. Muitas acabaram simplesmente abandonadas em vias públicas e arrastadas pelas enxurradas na direção de córregos, rios e, por fim, chegando aos oceanos. 

Os executivos da empresa, que sempre se mostraram verdadeiros mestres na arte do marketing, rapidamente encontraram uma saída para o problema – eles criaram o programa Mundo Sem Resíduos. A empresa assumiu o compromisso público de recolher e dar uma destinação adequada as embalagens vazias. Entretanto, como nada é perfeito, o programa da Coca-Cola tinha uma cláusula em letras bem miúdas – as garrafas são recicláveis apenas onde existe infraestrutura

Com fábricas em dezenas de países e com centenas de milhares de pontos de venda em todo o mundo, é evidente que o número de localidades sem infraestrutura para a reciclagem das garrafas plásticas era enorme. E assim, dezenas de milhões de embalagens continuaram a ser descartadas sem maiores cuidados, grande parte delas chegando às águas dos oceanos. 

Para tentar resolver esse impasse, a empresa criou programas para o estímulo da coleta de embalagens. Em muitos locais, a Coca-Cola passou a pagar US$ 1.00 para cada kg de garrafas PET recolhidas. Além de não resolver o problema, essa política passou a estimular o trabalho infantil – muitas crianças deixam de ir a escola e passam o dia, muitas vezes ao lado dos pais, recolhendo embalagens da bebida em aterros sanitários. 

Uma estratégia relativamente recente que a marca passou a adotar são as embalagens reutilizáveis. Essas novas embalagens são feitas com um plástico mais grosso que, segundo a empresa, poder ser reutilizado até 25 vezes. Sempre que o cliente entrega uma embalagem vazia num ponto de venda, ele ganha um desconto na compra de um novo refrigerante da marca. Essa estratégia está sendo usada em países como o Brasil e a África do Sul, apresentando bons resultados. 

Se uma empresa grande e poderosa como a Coca-Cola não consegue lidar com o imenso volume de resíduos plásticos dos seus produtos, imaginem então a enorme quantidade de problemas enfrentados por um sem número de empresas que fabricam alimentos, sucos, produtos de limpeza, remédios e outros produtos que usam plástico em suas embalagens.  

Soma-se a isso outras tantas empresas que produzem brinquedos, utilidades domésticas, peças para veículos e tantos outros produtos feitos a base de plásticos. Todos esses produtos tem um final de ciclo de vida, que normalmente os levará para um aterro sanitário ou descarte em um terreno baldio ou rua, faltando muito pouco para caírem num curso d’água e atingirem as águas dos oceanos em algum momento. 

Muito se fala da emissão de gases de efeito estufa e do aumento das temperaturas do planeta. A poluição das águas dos oceanos por resíduos plásticos também é muito grave e urgente! 

A GERAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA, A QUEIMA DO CARVÃO, OS GASES DE EFEITO ESTUFA E AS MUDANCAS CLIMÁTICAS

Líderes mundiais, empresários, ambientalistas e jornalistas de todo o mundo estão reunidos em Glasgow, na Escócia, para os trabalhos da COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021. Um dos pontos centrais dessa edição do encontro são as mudanças climáticas. 

Imagino que a maioria dos leitores esteja acompanhando os noticiários e que tenha consciência dos imensos problemas ambientais que estão sendo criados pelo aumento das temperaturas em todo o planeta. Calotas polares e geleiras em altas cadeias montanhosas estão derretendo, as chuvas estão se tornando escassas em algumas regiões e excessivas em outras, o nível dos oceanos está subindo, entre muitos outros problemas. 

Na raiz de todos estes problemas estão as ações humanas, especialmente a emissão maciça de grandes volumes de gases de efeito estufa. Altas concentrações de alguns desses gases na atmosfera, principalmente o dióxido de carbono (CO2), o Metano (CH4), o Óxido Nitroso (N2O) e o Hexafluoreto de Enxofre (SF6), intensificam o efeito estufa, um fenômeno natural, e produzem um aumento das temperaturas na superfície da terra. 

Entre as principais fontes emissoras de gases de efeito estufa destacamos a queima do carvão mineral, principalmente em usinas termelétricas. Conforme comentamos na postagem anterior, grande parte da população de nosso planeta, especialmente a que vive nas áreas urbanas, depende da eletricidade para o seu dia a dia. 

Um exemplo dos problemas criados pela queima do carvão, além da extrema dependência da eletricidade e dos enormes problemas criados para a sua geração é o que encontramos na cidade de Ulan Bator, a capital da Mongólia. A cidade é considerada uma das mais poluídas do mundo. 

A Mongólia possui um território com mais de 1,5 milhão de km², com grandes extensões de estepes, desertos e montanhas, e está localizada entre o Norte da China e a região siberiana da Rússia. Apesar do seu imenso tamanho, a Mongólia possui menos de 3 milhões de habitantes. A capital do país é Ulan Bator (ou Ulaanbaatar), cidade que tem 1,45 milhão de habitantes, metade da população total do país. Cerca de um terço dos atuais mongóis vive da mesma forma que seus antepassados como nômades e seminômades, cuidando de seus rebanhos de carneiros e cavalos.  

O grande momento na história da Mongólia se deu a partir da ascensão de Gengis Khan (1162-1227) à liderança das diferentes tribos em 1206. Comandando milhares de implacáveis guerreiros/cavaleiros, Gengis Khan conquistou rapidamente enormes extensões de terras para os mongóis, formando o maior império com terras contíguas da história. O Império Mongol (1206-1368) se estendia desde as estepes da Ásia Central até a Europa Central e Oriente Médio a Oeste, ao Norte da Sibéria e a Leste até o Mar do Japão.  

Ao Sul, englobava uma faixa de terras entre o antigo Império Persa (atual Irã) e a Indochina, região do Sudeste Asiático formada pelo Vietnã, Laos, Camboja, Tailândia e Myanmar. Os domínios dos mongóis também incluíam o Subcontinente Indiano, onde se incluem os territórios atuais da Índia, Paquistão e Bangladesh. Passado esse breve momento histórico de glória, os mongóis se recolheram ao seu grande território e, muito raramente, notícias vindas daquela região circulam pelo mundo ocidental.  

Sem contar com caudalosos rios para a construção de grandes complexos hidrelétricos e sem ter recursos para investir em centrais de energia nuclear, a Mongólia se vale das grandes reservas de carvão mineral do país para a geração de energia elétrica e para aquecimento doméstico nos rigorosos invernos do país. As médias térmicas nessa época oscilam entre -20° C e -40° C. A temperatura média anual é -2,4 ° C.

Diversas centrais de geração térmica a carvão foram construídas ao longo dos anos ao redor do núcleo urbano de Ulan Bator com o objetivo de garantir o fornecimento de energia elétrica para a população. Como é usual nesses empreendimentos, a proximidade entre essas centrais geradoras e os consumidores evitou a construção de longas e dispendiosas linhas de transmissão, como é o caso das usinas hidrelétricas aqui no Brasil. 

Entretanto, com o crescimento acelerado da mancha urbana, muitas dessas usinas termelétricas acabaram sendo “engolidas” pela cidade, colocando populações em contato direto com os poluentes gerados pela queima do carvão (vide foto).  

A população também sofre com os gases liberados pela queima do carvão usado no aquecimento das casas e tendas. Cerca de metade dos habitantes de Ulan Bator são antigos nômades e seminômades que foram obrigados a desistir de seu modo de vida tradicional e acabaram por migrar para a cidade grande em busca de melhores condições de vida – essa população mora nas mesmas tendas que usavam nos tempos do nomadismo.  

As mudanças climáticas globais já mostram seus efeitos na Mongólia, onde a temperatura média já subiu 2,2° C nas últimas décadas. O clima ficou mais chuvoso em algumas épocas do ano e mais seco em outras, o que tem inviabilizado as tradicionais atividades de pastoreio de ovelhas, cabras e cavalos.  

Esses recém chegados das estepes buscam terrenos livres nas colinas ao redor de Ulan Bator, onde montam suas tendas típicas, as iurtas. Sem acesso a lenha para queimar em suas fornalhas tradicionais, esses migrantes se valem da queima do carvão mineral, um produto barato e facilmente encontrado com vendedores de rua. Os habitantes dos gers, assentamentos formados pelas barracas tradicionais, já correspondem a cerca da metade do número total de habitantes da capital mongol.  

De acordo com números do Governo Central, a queima de carvão mineral pelos habitantes dos gers é responsável por cerca de 80% da poluição de Ulan Bator. Nos meses de inverno, quando há um expressivo aumento da queima de carvão, os níveis de poluição de ar na cidade atingem níveis estratosféricos. Medições da concentração de partículas finas em suspensão no ar – os chamados PM2.5, tem atingido a impressionante marca de 999 partículas por metro cúbico de ar. Essa medição só não atinge valores maiores porque os medidores locais só marcam 3 dígitos.  

Conforme já comentamos em postagens anteriores, a OMS – Organização Mundial da Saúde, recomenda como limite máximo uma concentração de 25 partículas de poluentes para cada metro cúbico de ar. A OMS declarou em 2013 que 10% das mortes registradas na cidade estavam diretamente relacionadas com a poluição do ar. Um estudo anterior feito pela entidade já havia afirmado que entre 2004 e 2008 houve um aumento de 45% nos casos de doenças respiratórias. De acordo com o Banco Mundial, a situação caótica de Ulan Bator provoca um gasto adicional ao sistema de saúde da ordem de US$ 1 bilhão por ano.  

Ulan Bator é uma espécie de microcosmo, que resume bem o que está acontecendo como o nosso planeta. Imensos volumes de carvão estão sendo queimados diariamente, em especial em usinas termelétricas, e lançando milhões de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera. 

O conforto e a qualidade de vida que a energia elétrica traz às nossas vidas tem um altíssimo custo ambiental. Uma das melhores formas de combatermos o aquecimento global e seus danosos efeitos é encontrar, rapidamente, fontes alternativas e renováveis para a geração de energia elétrica. 

UM MUNDO MOVIDO A ENERGIA ELÉTRICA? 

A foto que ilustra esta postagem circulou nas redes sociais há alguns meses atrás e causou muita polemica. Nela aparece um carro elétrico sendo reabastecido por um gerador a diesel, o que seria um enorme contrassenso ambiental. 

Segundo o que foi possível apurar, a foto é verdadeira, porém, ela foi retirada de um contexto muito específico. Ela mostraria o teste de um carregador para carros elétricos que foi levado a cabo em uma localidade no interior da Austrália em 2018. Essa localidade não dispunha de rede de abastecimento de eletricidade – por isso o gerador a diesel, algo que não é tão incomum num país tão grande e com uma população bastante rarefeita. 

A irônica imagem, entretanto, pode ser usada de forma metafórica para falarmos de um problema real que vem acontecendo em muitos países do mundo – grande parte da valiosa e limpa energia elétrica usada no dia a dia de milhões de pessoas está sendo gerada a partir da queima de combustíveis fósseis, principalmente o poluente carvão mineral. Ou seja: inúmeros carros elétricos altamente eficientes e ecologicamente corretos estão mesmo sendo recarregados com uma “energia suja” do ponto de vista ambiental. 

Observações sobre os fenômenos elétricos remontam a antiguidade clássica. Um dos relatos mais antigos vem de Tales de Mileto, um filósofo, matemático, engenheiro e astrônomo grego que viveu por volta do século VI a.C. Ao esfregar um pedaço de âmbar, um tipo de resina fossilizada, com uma pele de carneiro, Tales observou que pedaços de palha eram atraídos. Elektron, a palavra grega que designa um tipo de âmbar, foi a base para a criação da palavra eletricidade. 

Ao longo dos séculos foram muitos os estudiosos e cientistas que se dedicaram ao estudo dos fenômenos elétricos e ao desenvolvimento das tecnologias que permitiram à humanidade usufruir dessa fantástica forma de energia. Citando rapidamente alguns desses grandes homens:  Luigi Galvani, Alessandro Volta, Benjamin Franklin, Michael Faraday, James Clerk Maxwell, Heinrich Hertz, entre muitos. 

Um nome que merece destaque nessa lista é o do inventor e empresário Thomas Edison, que ganhou notoriedade ao popularizar o uso da energia elétrica. Em 1879, Edison conseguiu fabricar a primeira lâmpada elétrica funcional se valendo de experiências fracassadas de outros inventores. Pouco tempo depois, a empresa de Thomas Edison ganhou a concessão para instalar suas lâmpadas elétricas nas ruas da cidade de Nova York, substituindo assim a antiga iluminação a gás. 

Com o sucesso dessa empreitada, Edison passou a instalar sistemas de iluminação em residências, lojas e indústrias. Ao longo das décadas seguintes começaram a surgir os motores elétricos e uma série de eletrodomésticos como ventiladores, ferros de engomar, rádios, sistemas de aquecimento de água e de calefação de residências, entre outras das chamadas “modernidades” que funcionavam a partir do uso da energia elétrica. 

A produção e a distribuição da energia elétrica passariam por uma grande revolução a partir do final da década de 1880, quando a empresa Westinghouse passou a desenvolver sistemas que utilizavam a corrente elétrica alternada. Diferente do sistema de corrente elétrica contínua usada por Thomas Edison, a corrente alternada podia ser transmitida por fios e cabos a longas distancias com poucas perdas. Um dos gênios científicos por trás dessa grande empreitada foi o engenheiro sérvio Nicola Tesla

Em 1901, a Westinghouse inaugurou uma usina hidrelétrica ao lado das Cataratas do Niágara, no Norte do Estado de Nova York na divisa com o Canadá. A energia produzida por essa usina passou a ser distribuída por grande parte da região Nordeste dos Estados Unidos e ajudou a popularizar a eletricidade. O sistema de corrente elétrica alternada passou a ser o mais utilizado em todo o mundo. A corrente contínua é usada principalmente em circuitos elétricos, especialmente em produtos que usam pilhas e baterias.

A energia elétrica é bastante segura (desde que um leigo não tente segurar fios desencapados com as mãos), não gera resíduos ou fumaça como a lenha e o carvão e pode ser transmitida a longas distancias através de fios metálicos. Com o desenvolvimento cada vez maior de novos eletrodomésticos e eletroeletrônicos como as geladeiras, as máquinas de lavar, os televisores, computadores e videogames, os consumidores descobriram que não poderiam mais viver sem as maravilhas da eletricidade. 

Se em um dos extremos das redes elétricas encontramos felizes consumidores, do outro lado, a geração da eletricidade passou a acarretar uma série de desafios para as empresas do ramo e os governos. Quanto mais gente passava a ligar suas casas, comércios e indústrias nas redes elétricas, maiores passaram a ser os desafios para a geração e distribuição da eletricidade. 

Lembrando de uma definição que aprendi nas aulas de eletrônica na universidade, a corrente elétrica é um fluxo ordenado de elétrons que percorre um condutor ou fio elétrico. Aparelhos e dispositivos elétricos ligados a esse fio utilizam a eletricidade para gerar calor, movimento, refrigerar alimentos, receber música e imagens, etc. Agora, para fazer essa corrente de elétrons fluir através de um sistema de fios elétricos é necessária alguma outra fonte de energia – por exemplo energia mecânica. 

Um exemplo são os geradores elétricos ou dínamos, dispositivos que uma vez ligados a um motor a combustão interna (a gasolina, diesel ou óleo combustível), passam a produzir uma corrente elétrica. Esse dispositivo também pode ser ligado a turbina movida pela força da água, como são os casos das usinas hidrelétricas. 

Uma outra forma bastante comum de se gerar energia elétrica é o uso da queima do carvão mineral. O calor produzido faz a água de um reservatório ferver e o vapor gerado move uma turbina ligada ao gerador. As centrais nucleares utilizam esse mesmo princípio, porém, a fonte do calor é a fissão de material nuclear. 

Nas últimas décadas, sistemas de geração eólicos, ou seja, que usam a força dos ventos passaram a se popularizar em várias regiões do mundo. O grande desenvolvimento tecnológico também vem permitindo o uso cada vez maior das placas solares ou fotovoltaicas. 

Que a energia elétrica se tornou altamente popular e indispensável para a vida moderna é ponto passivo. Os grandes problemas para a humanidade são as infraestruturas necessárias para a geração da energia elétrica pelos quatro cantos do mundo e os impactos ambientais que são criados. O grande apetite das populações por quantidades cada vez maiores desse tipo de energia está tornando esses impactos ambientais cada vez maiores. 

Nos tempos de nossos avós, quando muito, as casas tinham alguns pontos ou ¨bicos¨ de luz, um rádio e um ferro de engomar. Nos dias atuais, até as casas das pessoas mais humildes possuem uma lista enorme de eletrodomésticos e aparelhos elétricos. E não param de surgir novos dispositivos alimentados por energia elétrica. 

Um dos grandes sonhos de consumo de muita gente atualmente são os carros elétricos. Em um mundo altamente poluído e passando por inúmeros problemas ambientais, ter um carro elétrico parece ser uma ótima ideia – eles não poluem o ar, são silenciosos e podem ser recarregados a partir de uma simples tomada elétrica. 

Mas será que as coisas são tão simples assim? 

Continuaremos a falar disso na próxima postagem. 

ÍNDIA SE RECUSA A DIMINUIR AINDA MAIS AS SUAS EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA

Pegando emprestada uma expressão muito usada por colegas jornalistas que cobrem o dia a dia e a vida das celebridades – olhem só que babado: a Índia, terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, acaba de rejeitar os apelos de outros países para anunciar uma meta líquida de zero emissões de carbono na COP26. 

De acordo com os compromissos assumidos em 2015, quando mais de 195 países assinaram o Acordo de Paris, a Índia assumiu o compromisso de reduzir as suas emissões entre 33% e 35% até 2030, tomando-se como base os valores de 2005. Para muitos especialistas, o país teria condições de elevar essa redução para 40%. 

A Índia responde por 6,8% do total de emissões mundiais de gases de efeito estufa, ficando atrás da China, que emite 23,9%, e dos Estados Unidos, com 13,6% das emissões mundiais. Para efeito de comparação, as emissões do Brasil são da ordem de 2,9%, a menor entre todos os grandes países do mundo. 

Com a aproximação da COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, marcada para acontecer entre os dias 1º e 12 de novembro, na cidade de Glasgow na Escócia, o Governo da Índia vinha sendo pressionado para anunciar planos para tornar o país neutro nas emissões de carbono até 2050. 

De acordo com declarações de autoridades do Governo indiano, se limitar a anunciar uma meta de zero emissões de carbono não vai diminuir a crise climática. Para os indianos o mais importante são os volumes de gases de efeito estufa que serão lançados na atmosfera pelos países até meados deste século. 

De acordo com cálculos feitos pelos indianos, a China irá emitir 450 Giga toneladas de carbono na atmosfera antes de atingir a neutralidade nas emissões em 2050. Nesse mesmo período de tempo, os Estados Unidos e a União Europeia vão liberar, respectivamente, 92 e 62 Giga toneladas de carbono até 2050. Do ponto de vista dos indianos, esses volumes mostram o real problema ambiental do planeta. 

De acordo com estudos da ONU – Organização das Nações Unidas, cerca de 1/3 da população mundial que se encontra em situação de pobreza extrema vive na Índia. São cerca de 400 milhões de pessoas que sobrevivem com menos de US$ 1.00 por dia. Esses números assustadores já foram bem maiores, mas a Índia vem conseguindo melhorar as condições de vida da sua população pouco a pouco. 

É justamente a manutenção desse crescimento econômico contínuo e da melhoria das condições sociais da população o que impede o Governo indiano de reduzir ainda mais as suas emissões de gases de efeito estufa. Um exemplo a ser citado é a queima de carvão para a geração de energia elétrica, uma das maiores fontes de emissões de gases do país e ao mesmo tempo a mola propulsora da economia da Índia. 

Mais de 60% da energia elétrica consumida na Índia vem de centrais termelétricas a carvão. O potencial de geração hidrelétrica é limitado e o país tem feito investimentos, dentro dos seus limites orçamentários, para ampliação da geração de energia elétrica em centrais nucleares (a Índia possui 21 unidades em operação e tem outras 6 em projeto ou construção), além da busca por fontes renováveis como a energia solar.   

O consumo per capita de energia elétrica das famílias indianas que têm acesso à rede elétrica e que tem condições de arcar com os custos dessa energia (20% dos indianos não tem acesso à energia elétrica) é muito baixo, equivalente a apenas 7% do que gasta uma família típica dos Estados Unidos. A precária rede elétrica do país sofre frequentemente com apagões e muitas empresas não conseguem trabalhar com a produção a plena carga devido às limitações no fornecimento de eletricidade.   

Além dos grandes volumes de carvão queimados a cada ano, o que corresponde a cerca de 40% da matriz energética do país, a Índia tem uma enorme dependência da queima de lenha e de resíduos. Cerca de 70% da população indiana depende destes combustíveis para cozinhar. Completando o caos, cerca de 16% da matriz energética depende dos derivados de petróleo, indo do querosene usado na iluminação das casas a gasolina, diesel e óleo combustível usado para mover uma imensa frota de veículos e centrais de geração termelétricas. 

As taxas de crescimento da Índia vêm se mantendo na casa dos 6% nos últimos anos, ficando atrás apenas da China. Com uma população gigantesca na casa dos 1,34 bilhão de habitantes, o país precisa gerar cerca de 1 milhão de empregos a cada mês somente para absorver a mão de obra dos jovens que estão entrando no mercado de trabalho.   

Para manter a sua gigantesca economia em funcionamento, a Índia precisa queimar mais de 600 milhões de toneladas de carvão por ano, o que coloca o país entre os maiores consumidores desse insumo do mundo e, de quebra, na posição de um dos maiores emissores de gases poluentes devido a queima do combustível. 

A mineração do carvão na Índia é extremamente problemática e altamente impactante ao meio ambiente. Cerca de 90% do carvão produzido no país vem de minas a céu aberto, que são as mais agressivas ao meio ambiente. A maior parte do carvão indiano tem baixo poder calorífico, o que o torna altamente poluente e emissor de grandes quantidades de cinzas, sendo considerado duas vezes mais poluente do que o carvão usado na Europa e nos Estados Unidos.  

Devido à alta densidade populacional na Índia, tanto as minas quanto as usinas termelétricas sempre ficam localizadas próximas a alguma cidade, onde as populações acabam sendo afetadas diretamente pelos poluentes gerados tanto pela extração quanto pela queima do carvão. A imagem que ilustra essa postagem mostra um dia de poluição extrema em Nova Déli, a capital do país. Um dos principais poluentes é o mercúrio, um metal pesado que causa inúmeros problemas à saúde humana.  

De acordo com estudos feitos em 2013, a poluição do ar gerada pela mineração e pela queima do carvão está associada a 20 milhões de novos casos de asma e de problemas cardíacos na Índia a cada ano. Também está associada a mais de 100 mil mortes prematuras de crianças (sendo que 10 mil dessas mortes são de crianças com menos de 5 anos de idade). Além de toda a tragédia humana, essas doenças geram um custo extra de US$ 4,6 bilhões ao sistema de saúde do país. 

Como diz um velho ditado, a Índia está entre a cruz e a espada. Os Governantes tem plena consciência dos males provocados pelas suas enormes emissões de gases de efeito estufa, que afetam tanto o país quanto o resto do mundo, ao mesmo tempo que dependem da energia gerada pela queima de combustíveis fósseis para garantir a melhoria das condições de vida de grande parte da sua população. 

E a Índia não está sozinha nessa situação – China, Indonésia e Paquistão, entre muitos outros países em desenvolvimento e que possuem grandes populações em situação de pobreza extrema, se valem dos mesmos argumentos para continuar emitindo grandes volumes de gases de efeito estufa e garantindo assim algum desenvolvimento econômico. 

Existe uma enorme lacuna econômica e social entre a França de Emmanuel Macron e a Suécia de Greta Thunberg em relação a países miseráveis como a Índia de Narendra Modi. Vamos acompanhar de perto a COP26 para conferir como vai ficar essa verdadeira queda de braços entre os países ricos, de um lado, e as nações pobres e em desenvolvimento do outro. 

FALANDO UM POUCO SOBRE A COP – CONFERÊNCIA DAS PARTES

Dentro de poucos dias terá início a COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021. No encontro deste ano, que se realizará na cidade de Glasgow na Escócia, delegados e líderes mundiais vão discutir inúmeros temas ligados à situação ambiental do planeta, e, em especial, as ações que devem ser implementadas pelos países contra os efeitos das mudanças climáticas. 

A COP – Conference of the Parties, ou Conferência das Partes, é uma associação formada pelos países membros signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas adotada em 1992. Após a ratificação da Convenção em 1995, os países membros passaram a se reunir anualmente a partir de 1996. 

Nos encontros anuais, que duram duas semanas, a situação das mudanças climáticas no planeta é avaliada e novos mecanismos para o controle da emissão de gases de efeito estufa e outras agressões ambientais são colocados em discussão. Nem sempre essas discussões encontram consenso entre todas as partes envolvidas, o que torna as decisões lentas e árduas. 

Uma questão que provavelmente fará parte das discussões dessa COP é o recente aumento do volume de carvão queimado em centrais termelétricas para a geração de energia elétrica. Conforme discutimos em postagens anteriores, o mundo está vivendo uma grave crise energética. Uma saída encontrada por muitos países foi a de aumentar a geração de eletricidade via queima de carvão, algo que foge completamente das metas para a redução das emissões de gases de efeito estufa. 

As preocupações climáticas se intensificaram nas últimas décadas e culminaram na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas em 1992 e, posteriormente na assinatura do Protocolo de Kyoto em 1997. Através deste Protocolo, os países que ratificaram o acordo assumiriam o compromisso de reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa entre 2008-2012 para uma média de 5% em relação aos níveis de 1990. Num segundo momento, as nações signatárias assumiriam o compromisso de reduzir as emissões entre 2013-2020 em pelo menos 18% abaixo das emissões de 1990. 

No total, mais de 175 países assinaram o Protocolo de Kyoto, inclusive o Brasil, assumindo o compromisso de reduzir as suas emissões. Apesar de ser considerado um marco na defesa do meio ambiente, os resultados obtidos ficaram abaixo das expectativas. Em 2015, durante a COP21 em Paris, foi discutido um novo compromisso mundial em substituição ao Protocolo de Kyoto

Em 12 de dezembro de 2015 foi aprovado esse novo compromisso, que recebeu o nome de Acordo de Paris. Assinado por 195 países, o Acordo entrou em vigor em 2016, tendo como principal meta limitar o aumento da temperatura global abaixo dos 2º C até o final deste século. Todos os países que ratificaram esse acordo têm metas ambientais a cumprir e os encontros nas reuniões da COP são o espaço para avaliar o cumprimento dessas metas e o estabelecimento de novos desafios. 

As mudanças climáticas e o aumento das temperaturas do planeta têm como origem as emissões de Gases de Efeito Estufa. Esse Efeito é um processo físico natural do planeta Terra que ocorre quando determinados gases presentes na atmosfera absorvem parte da irradiação infravermelha do sol, irradiando e retendo esse calor na superfície do planeta. Entre os principais gases causadores do Efeito Estufa estão o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), o óxido nitroso (N2O), hexafluoreto de enxofre (SF6) e duas famílias de gases, hidrofluorcarbono (HFC) e perfluorcarbono (PFC).  

O Efeito Estufa permitiu, ao longo dos vários ciclos da história geológica do planeta, a estabilização da temperatura dentro de uma faixa vital para a manutenção da vida e do clima. Essa estabilização permitiu o desenvolvimento dos sistemas florestais e a estabilização dos oceanos, com o consequente equilíbrio dos gases formadores da atmosfera e a explosão da vida biológica na Terra. 

Esse delicado e vital equilíbrio ambiental se manteve estável ao longo de milhões de anos, até que o crescimento das atividades humanas, notadamente nos últimos 300 anos, passou a afetar a composição dos gases da atmosfera e a estabilidade do clima. Um marco dessa mudança foi o início da Revolução Industrial a partir de 1750, quando volumes cada vez maiores de carvão passaram a ser queimados nas indústrias. 

Ao longo dos séculos XIX e XX, com a intensificação da queima de combustíveis fósseis, com as emissões atmosféricas das indústrias, das atividades agrícolas e pastoris, produziu-se gradativamente uma intensificação do Efeito Estufa, com consequências graves para a humanidade. Os efeitos das mudanças climáticas se tornaram bastante visíveis nas últimas décadas. 

Derretimento de grandes volumes de gelo em regiões polares e no alto de grandes cadeias de montanhas, aumento do nível dos oceanos e mudanças em correntes marítimas e de ventos, secas intensas em algumas partes do mundo e aumento das chuvas em outras, invernos rigorosos em alguns lugares e calor acima da média em outros. Em maior ou menor escala, todos os países do mundo já enfrentam as consequências das mudanças climáticas. 

Um tema bastante sensível para nós brasileiros são as queimadas na região da Amazônia. Grande parte da opinião pública mundial, mal informada ou informada incorretamente sobre a realidade, foi levada a ver o nosso país como um “grande vilão do clima mundial”. E, mais uma vez, nossos representantes vão comparecer ao encontro em uma situação complicada. 

Conforme comentamos na postagem anterior, nosso país não é exatamente um santo quando se fala em preservação da natureza, todavia, estamos entre os “menos piores” quando se avalia o patrimônio ambiental que ainda possuímos. Algo entre 56% e 63% de nosso território ainda é coberto por florestas, um dos percentuais mais altos entre os grandes países do mundo, e nossas contribuições em emissões de gases de efeito estufa correspondem a 2.9% das emissões mundiais. 

Além disso, mais de 80% de toda a energia elétrica que consumimos no país vem de fontes renováveis, especialmente de fontes hidráulicas, solares e eólicas. Também somos pioneiros no uso em larga escala de combustíveis renováveis com o nosso etanol. 

Temos uma agricultura altamente eficiente e de altíssima produtividade que ocupa apenas 7,6% do nosso território de acordo com cálculos feitos pela NASA – Administração de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês. E o que é melhor: nossas safras agrícolas estão aumentando continuamente enquanto que a área plantada permanece praticamente inalterada.

Temos sim os nossos problemas ambientais, porém, estamos em condição de dar umas boas aulas para os “gringos”. 

FALANDO DO PROGRAMA NACIONAL DE CRESCIMENTO VERDE 

Entre os dias 1º e 12 de novembro, na cidade de Glasgow na Escócia, será realizada a COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021. No encontro, líderes mundiais vão discutir a situação ambiental do planeta e, especialmente, os efeitos das mudanças climáticas. Vamos tratar desse tema em uma outra postagem. 

Mais uma vez, nosso país vai chegar a esse encontro com um “telhado de vidro”. As grandes queimadas na Amazônia, que estão destruindo o “pulmão do mundo”, será uma espécie de mantra repetido incansavelmente contra nós. Segundo muitos críticos, celebridades e vários líderes mundiais, essas grandes queimadas estão na raiz das mudanças climáticas mundiais. 

Somos, é claro, responsáveis por muitos desses pecados ambientais, porém, não podemos assumir responsabilidades pelos grandes erros dos outros países. De acordo com dados da Climate Watch, as emissões de gases de efeito estufa no Brasil correspondem a 2,9% das emissões mundiais, muito abaixo das emissões de países como a China, Estados Unidos e Índia

De forma um tanto improvisada e as vésperas do início da COP26, o Governo Federal acabou de lançar o Programa Nacional de Crescimento Verde, uma parceria entre os Ministérios da Economia e do Meio Ambiente. A iniciativa vai incentivar propostas para o aumento da produção agropecuária com conservação ambiental. O Governo pretende vender a imagem de maior potência verde do mundo. 

Sem discutir ou entrar nos objetivos políticos do anúncio, essa é uma questão que já deveria estar em pauta há muito tempo. Apesar de toda a devastação ambiental que já se abateu sobre o nosso território desde o início de nossa colonização – o que se passou com a maioria dos países do mundo, ainda dispomos de um patrimônio natural invejável.  

Dependendo da fonte consultada, a cobertura florestal do Brasil está entre 56% e 63% do território, o que nos coloca no topo do ranking dos países com as maiores áreas florestais do mundo. Políticas governamentais que permitam desenvolver a agropecuária sem devastar ainda mais esse patrimônio natural serão sempre bem-vindas. 

A agricultura sempre ocupou uma posição de destaque na economia brasileira, a começar pela produção de cana e de açúcar no período colonial. Segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a safra agrícola de 2021 deverá superar a marca de 260 milhões de toneladas. Na produção de proteína animal destacam-se a carne de frango, com mais de 13,8 milhões de toneladas, carne suína com produção de 4,4 milhões de toneladas e a carne bovina com 9,5 milhões de toneladas. 

De acordo com cálculos feitos pela NASA – Administração de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, a área total ocupada por lavouras no Brasil corresponde a cerca de 64 milhões de hectares ou aproximadamente 7,6% do território do país. Um dado extremamente relevante é que vem sendo observado um aumento da produtividade agrícola nos últimos anos sem aumentos expressivos na área ocupada. A pecuária e a criação de animais ocupam cerca de 221 milhões de hectares no Brasil segundo o IBGE. 

Entretanto, a questão não fica limitada apenas à nossa eficiência na produção agrícola e pecuária. Já há muito tempo, nosso país adotou diversas políticas – especialmente na área energética, que nos colocam bem à frente de outras nações na questão ambiental. O uso do etanol ou álcool combustível é uma delas. 

Pró-Álcool – Programa Nacional do Álcool, foi criado em 1975 pelo Governo brasileiro como uma resposta ã grande crise do petróleo que o mundo vivia naquele período. Em outubro de 1973, os países membros da OPAEP – Organização dos Países Árabes Produtores de Petróleo, decretaram um grande embargo petrolífero, o que elevou rapidamente o preço do barril do produto de US$ 3.00 para US$ 12.00. Esse evento entrou para a história como o Primeiro Choque do Petróleo. Em 1979, o mundo viveria uma segunda crise, essa batizada de Segundo Choque do Petróleo

O Brasil, que naquele momento passava por um vigoroso crescimento econômico – o chamado Milagre Econômico Brasileiro, foi fortemente impactado por essa crise. Perto de 80% do petróleo consumido no país era importado, o que causava uma enorme sangria nas reservas financeiras do país. Com o lançamento do Pró-Álcool e com a produção em massa de carros com motores adaptados para o uso desse combustível, o país ganharia uma razoável autonomia em relação a importação do petróleo. 

No auge do Pró-Álcool, entre os anos de 1983 e 1988, mais de 90% de todos os automóveis vendidos no Brasil tinham motores a álcool. Estimativas falam que houve uma redução de até 40% na poluição do ar das grandes cidades há época por causa do uso crescente do etanol como combustível. O volume de recursos economizados com a importação de petróleo foi calculado em aproximadamente US$ 15 bilhões (em valores há época) ao longo dos dez primeiros anos de vigência do Pró-Álcool. 

Ao final da década de 1990, com o fim de inúmeros subsídios para a compra de carros a álcool, esse número caiu drasticamente e apenas 1% dos carros novos tinham motores a álcool. Em 2003, com o desenvolvimento de veículos com motores flex – que funcionam tanto com etanol quanto com gasolina, o álcool combustível voltou a ganhar destaque como um combustível renovável. 

Um outro importante aspecto da economia brasileira é o uso intensivo de energia elétrica produzida a partir de fontes hidráulicas. Contando com grandes rios e detendo cerca de 12% das reservas mundiais de água doce superficial (de rios e lagos), o Brasil sempre priorizou a construção de usinas hidrelétricas – 70% de toda a energia elétrica consumida no país vem de fontes hidroelétricas. Entre os grandes empreendimentos nesse setor destacamos as Usinas de Itaipu, Tucuruí e Ilha Solteira, entre muitos outros. 

Nos últimos anos, o país vem assistindo um crescimento vigoroso de novos empreendimentos para a geração de energia renovável. A geração eólica é uma das que mais crescem, respondendo por cerca de 10% de toda a energia elétrica gerada no país. De acordo com informações da ABEEÓLICA – Associação Brasileira de Energia Eólica, a capacidade instalada do setor em setembro de 2020, era de 16,68 GW, com expectativa de chegar a 25,5 GW até 2024. 

Outro destaque é a energia fotovoltaica. O Brasil atingiu a marca de 7,5 GW em 2020, o que equivale à metade da capacidade instalada da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Também é importante incluir nessa lista a geração de energia elétrica a partir da queima de biomassa – especialmente do bagaço da cana-de-açúcar, que já responde por mais de 7% de toda a matriz elétrica do Brasil. 

Apesar de todos os inegáveis problemas que temos na área ambiental, nosso país tem muito a ensinar aos outros países, especialmente em áreas como a produção de alimentos, geração de energia e também na produção e uso de combustíveis sustentáveis. Pena que somos absolutamente incompetentes na divulgação de nossos méritos. 

O lançamento de Programa Nacional de Crescimento Verde há poucos dias da COP26 é uma prova inequívoca dessa nossa incompetência.