A CARTA DO CHEFE SEATTLE E O NASCIMENTO DO MITO DOS ÍNDIOS AMBIENTALISTAS

Chief_seattle

Um nome bastante conhecido e propagado por ambientalistas de todo mundo é o do Chefe Seattle da tribo Suquamish, nativo do Estado de Washington, no Noroeste dos Estados Unidos. A cidade de Seattle, capital deste Estado, foi batizada com o seu nome. Em 1855, o Chefe Seattle proferiu um discurso dirigido aos governantes “brancos” da cidade de Washington, capital dos Estados Unidos, em resposta a uma proposta de compra de territórios dos indígenas pelo governo americano na época. Este discurso foi transcrito posteriormente e, com o passar dos anos, foi transformado numa verdadeira bandeira pelos ambientalistas, que enxergavam nas suas palavras toda a sabedoria de um povo que vivia em perfeita harmonia e com respeito ao meio ambiente. 

Nas últimas décadas, com o avanço dos movimentos ambientalistas em todo o mundo, a Carta do Chefe Seattle foi transformada em um verdadeiro “evangelho”, lido e recitado repetidamente. Um dos maiores entusiastas do texto é o ambientalista e antigo vice-presidente Al Gore, que produziu inúmeros documentários sobre o aquecimento global e a devastação das florestas em todo o mundo. Para ele, a Carta que nos foi legada pelo Chefe Seattle é um exemplo “vivo” de que é possível viver valendo-se dos recursos ambientais fornecidos pela natureza, sem a necessidade de se devastar florestas, rios e mares, garantindo assim que as futuras gerações “herdem a Terra”. Infelizmente, e aqui peço desculpas a muitos ambientalistas, a Carta do Chefe Seattle que conhecemos hoje é na verdade uma ‘peça de ficção” baseada em fatos reais. Grande parte do mito que atribui aos indígenas americanos esse perfil de protetores da natureza veio dessa carta. Vamos entender a história: 

Com o avanço da colonização sobre os antigos territórios indígenas na direção do Oeste americano, os conflitos armados de brancos contra índios pela disputa da terra se tornaram frequentes. Os sucessivos governos da época se valeram de diferentes estratégias para garantir a ocupação dessas terras por colonos “brancos”. Operações de “limpeza” (extermínio puro e simples de populações indígenas) feitas pelo exército, contratação de “comancheiros”, caçadores que recebiam um determinado valor para cada índio morto, transferência de grupos indígenas para reservas e, em alguns casos, o governo se oferecia para comprar as terras dos indígenas, evitando conflitos com os brancos. A história do Chefe Seattle tem a ver com essa última questão. 

O governo dos Estados Unidos encaminhou uma carta ao chefe da tribo Suquamish no então Território do Noroeste, propondo a compra de suas terras. A região estava sendo ocupada rapidamente por colonos brancos e os governantes temiam represálias dos indígenas contra os invasores. O chefe da tribo Suquamish, o cacique Seattle (a foto que ilustra este post, tirada em 1880, é sua única foto conhecida), proferiu um discurso público em 1855 em resposta a essa proposta de compra das terras indígenas. Na plateia havia autoridades civis e militares, indígenas de diversas tribos da região e cidadãos comuns – entre esses encontrava-se um certo Dr. Henry Smith

Em 1887, cerca de trinta e dois anos depois, o Dr. Smith escreveu de memória o discurso do Chefe Seattle, colocando no papel a poderosa mensagem que havia ouvido no passado. É aqui que começam os problemas da Carta do Chefe Seattle – o documento original não foi escrito ou transcrito a partir de uma narrativa direta do cacique: o texto foi escrito muito posteriormente por um dos ouvintes, que se valeu apenas de sua memória. Pode-se imaginar a quantidade de distorções que a mensagem sofreu nesse processo. 

Existe, porém, um problema muito mais grave: o Chefe Seattle não falava inglês – ele fez o discurso em Lushootseed, a língua do seu povo, que foi traduzida por um interprete para o Chinook Jargon, uma língua franca comercial que misturava o inglês, o francês e diversas línguas nativas. De acordo com vários linguistas, o Chinook Jargon era uma língua que permitia a troca de informações básicas entre os falantes de línguas diferentes da região e não apresentava uma estrutura gramatical que permitisse a troca de mensagens abstratas ou complexas. O Dr. Smith ouviu o discurso traduzido nessa língua, onde grande parte da mensagem original do cacique Seattle já havia se perdido. 

Durante várias décadas, a Carta do Chefe Seattle escrita pelo Dr. Smith ficou restrita aos círculos acadêmicos. O texto só passaria a ser conhecido pelo grande público em 1972, quando foi lançado o documentário de temática ambiental “Home”. O roteirista, Ted Perry, adaptou livremente a Carta do Chefe Seattle, transformando o já problemático texto escrito em 1886 pelo Dr. Smith em uma verdadeira peça de ficção. O roteiro de Ted Perry foi adaptado posteriormente no formato de um livro infantil – Brother Eagle, Sister Sky (Irmão Águia, Irmã Estrela), livro que ocupou a quinta posição na lista dos bestsellers do New York Times. 

Um exemplo das distorções contidas no texto: o Chefe Seattle fala que encontrou uma enorme quantidade de búfalos mortos nas Pradarias. Segundo sua descrição, homens armados que viajavam num trem começaram a disparar contra os búfalos, como se estivessem brincando de tiro ao alvo. Não é impossível que fato semelhante tenha acontecido – seres humanos, não raras vezes, fazem coisas estúpidas; seres humanos armados, as vezes fazem coisas mais estúpidas ainda. O problema dessa passagem é que o Chefe Seattle sempre viveu na região Noroeste dos Estados Unidos, que além de distante da região das Pradarias tem no caminho as Grandes Montanhas Rochosas, uma grande cordilheira que corta a região Oeste dos Estados Unidos de Norte a Sul. Naqueles tempos, existiam poucos caminhos para atravessar as “Rochosas”, caminhos esses que eram bastante difíceis. Não há notícias de qualquer visita do cacique Seattle à região das Pradarias. Um outro detalhe – à época do seu famoso discurso, o Chefe Seattle já tinha quase setenta anos de idade, uma pessoa extremamente idosa para os padrões da época, e as ferrovias ainda estavam chegando ao Oeste americano naqueles tempos.

É verdade que a devastação ambiental é um dos maiores problemas da humanidade em nossos dias e, todos nós, precisamos fazer a nossa parte na defesa e proteção do que ainda resta do mundo natural. Agora, nada justifica que se utilize uma peça de ficção, o que é na verdade essa versão da Carta do Chefe Seattle que é divulgada por todos os cantos, como parte desses esforços. 

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