A EPIDEMIA DA COVID-19 EM MADAGASCAR E OS RISCOS AOS LÊMURES

Nas postagens anteriores fizemos um rápido diagnóstico da situação ambiental em Madagascar, a maior ilha da África e a maior ilha do mundo. Dona de uma biodiversidade única, Madagascar vem sofrendo há vários séculos com a introdução de espécies exóticas – animais e vegetais, com desmatamentos para a abertura de campos agrícolas e aproveitamento das madeiras raras de suas florestas, além do uso menos nobre para a produção de carvão.

Isolada por mais de 88 milhões de anos de outras áreas continentais, as espécies de Madagascar evoluíram de forma independente, o que resultou em espécies únicas. Uma das formas de vida mais icônicas de Madagascar são os lêmures (vide foto), uma família de primatas arborícolas com feições simpáticas, focinhos largos e caudas peludas exclusivas da ilha. Existem 107 espécies de lêmures na ilha, das quais cerca de 1/3 estão criticamente ameaçados de extinção. A redução dos habitats e a caca predatória estão entre as principais causas do desaparecimento dos animais.

Restritos a um território que corresponde a meros 0,4% da superfície da Terra, os lêmures respondem por mais de 15% das espécies de primatas vivos do planeta. As diferentes espécies ocupam os mais diferentes nichos ecológicos nas matas malgaxes. A menor das espécies, o lêmure-rato (Microcebus berthae), tem um peso de apenas 60 gramas e cabe com folga na palma de nossa mão. Os animais da espécie Indri indri, ao contrário, podem atingir uma altura de 72 cm e um peso de 10 kg. Desde o início da colonização humana em Madagascar, que começou com a chegada de austronésios vindos da Ilha de Bornéu entre 350 a.C. e 550 d.C, pelo menos 17 espécies de lêmures já foram extintas.

O mais novo capítulo da epopeia dos lêmures começou em 2020 com o início da pandemia da Covid-19. Com a interrupção praticamente total dos voos internacionais e dos fluxos de turistas, a economia de Madagascar entrou em colapso. A receita anual gerada pelo turismo, cerca de US$ 900 milhões, formava a base da economia malgaxe e empregava cerca de 300 mil pessoas. Com a perda maciça de postos de trabalhos, centenas de milhares de pessoas abandonaram as cidades e buscaram refúgio nas áreas rurais do país.

Esse grande fluxo de pessoas retornando para uma vida agrícola levou a um aumento substancial nos desmatamentos – dados preliminares indicam um aumento de 10% desde o final de 2019. A derrubada das matas é feita num processo muito semelhante a coivara praticada pelos índios e agricultores pobres do Brasil, conhecida localmente como tavy. São lotes de terra com pouco mais de 2 hectares, que tem sua vegetação derrubada e queimada, preparando os solos para o plantio de culturas como arroz, amendoim e milho. Essas áreas conseguem produzir no máximo por 2 anos, quando são substituídas por terras “virgens”, ou seja, novos trechos de matas que são derrubados e queimados.

As matas também oferecem lenha para a produção de carvão vegetal, um combustível largamente utilizado pela população para cozinhar alimentos. As áreas desmatadas também criam espaços para a criação de animais domésticos como ovelhas, cabras, galinhas e porcos. Esse avanço contra os remanescentes florestais de Madagascar estão reduzindo e fragmentando cada vez mais os habitats dos animais silvestres, especialmente dos lêmures.

Um exemplo da situação crítica dos lêmures é Montagne des Francais, uma região que abriga o habitat do lêmure-desportista-do-norte, espécie que é muito conhecida por seus gritos estridentes. Essa espécie atinge uma altura de 18 centímetros e possui uma pelagem marrom-acinzentada. De acordo com organizações ambientalistas locais, mais de 80% das populações dessa espécie foram exterminadas nas duas últimas décadas por causa da derrubada das matas para a produção de carvão e da caca predatória. Segundo o último recenseamento, restam menos de 100 lêmures-desportistas-do-norte, o que coloca a espécie em situação de criticamente ameaçada.

A redução de habitats também cria problemas de isolamento de populações de animais, o que cria altos índices de reprodução de animais com elevado grau de parentesco. Essa consanguinidade aumenta os casos de nascimento de animais com problemas genéticos. A proximidade entre diferentes grupos de animais também resulta em ferrenhas disputas territoriais entre os machos, o que normalmente resulta na morte de animais mais jovens e mais fracos. Somando-se todos esses problemas, o resultado são populações de animais cada vez menores e com uma menor diversidade genética, algo que pode ser definido como a “metade do caminho” para a extinção de uma espécie.

Cerca de 90% das espécies animais e vegetais de Madagascar são exclusivas, o que torna a ilha um dos mais importantes hot spots da biodiversidade do mundo. Os riscos de extinção vividos pelos lêmures se estendem a outras espécies como pássaros, camaleões, mamíferos, insetos e plantas das mais diferentes espécies. O grande laboratório evolutivo que surgiu na ilha está a um passo da devastação completa.

Existem cerca de 400 mil pessoas ameaçadas pela sede e pela fome na faixa Sul de Madagascar por causa da seca sem precedentes que está assolando o país, além de outros milhões de malgaxes que foram empurrados para as áreas rurais por causa da pandemia da Covid-19. Todas essas pessoas precisam urgentemente de ajuda internacional para sobreviver. O mundo precisa olhar com muita atenção a tragédia humana e ambiental que está assolando Madagascar.

O dilema ético é cruel: qual das espécies de primatas devem ser priorizadas – criancinhas humanas ou lêmures?

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