AS NASCENTES DE ÁGUAS NAS MINAS GERAIS

Belo Horizonte

A bacia hidrográfica do Rio São Francisco abrange uma área total de 639.217 km² e se estende por sete unidades da federação, englobando um total de 521 municípios, o que corresponde a cerca de 9% do total de municípios do país – mais de 15 milhões de brasileiros vivem na região, o que equivale a 7,5% da população do Brasil. Uma característica interessante da bacia hidrográfica é que ela tem aproximadamente 37% de sua área dentro das fronteiras do Estado de Minas Gerais, porém a contribuição de águas que ela recebe dos inúmeros rios tributários mineiros corresponde a aproximadamente 75% do total de caudais do Rio São Francisco. Para efeito de comparação, o trecho baiano do médio São Francisco desde a divisa de Minas Gerais e Bahia até a cidade de Juazeiro, que representa 45% da área total da bacia hidrográfica, possui afluentes que contribuem com apenas 20% das águas do Velho Chico. Logo, a responsabilidade maior pela qualidade e quantidade das águas da bacia hidrográfica se dá em terras mineiras.

Tomemos como exemplo o Rio das Velhas, o mais extenso e um dos mais importantes afluentes do Rio São Francisco. Durante o histórico Ciclo do Ouro, que já tratamos em post anterior, o Rio das Velhas foi um dos principais eixos da mineração na região central de Minas Gerais, ligando as regiões de Ouro Preto, onde fica a nascente do Rio, Sabará e Santa Luzia ao Rio São Francisco. A importante cidade histórica de Ouro Preto é um marco importante na história do saneamento básico no Brasil – foi uma das primeiras cidades brasileiras a implantar um sistema de águas e esgotos com estações de tratamento, a partir da década de 1870. O Museu da Inconfidência que fica na cidade tem entre suas peças em exposição algumas curiosas manilhas de esgotos antigas, feitas em pedra sabão, datadas do século XVIII. Infelizmente, essa iniciativa pioneira do saneamento básico não avançou e os cuidados com as preciosas águas ficaram muito aquém do que seria esperado.

A bacia hidrográfica do Rio das Velhas abrange 34 municípios, com destaque para grandes cidades como Belo Horizonte (vide foto), Contagem, Betim Nova Lima e Lagoa Santa. A Região tem forte concentração industrial – somente nas sub-bacias dos Ribeirões Arrudas e do Onça existem mais de 3.100 indústrias, das quais metade são consideradas poluidoras, uma vez que as indústrias não realizam um adequado tratamento dos efluentes. Além dos esgotos industriais, as águas recebem enormes quantidades de esgotos domésticos e resíduos da mineração, além de resíduos sólidos descartados de forma inadequada pelas cidades.

O Rio das Velhas é hoje um corpo hídrico altamente poluído e malcheiroso, especialmente a jusante da Região Metropolitana de Belo Horizonte, apresentando altos volumes de esgotos nas suas águas barrentas e em tons vermelhos, cores resultantes da grande quantidade de resíduos de mineração, atividade econômica das mais importantes do Estado de Minas Gerais e causadora de inúmeros problemas ambientais. O alto grau de assoreamento da calha do rio das Velhas também é marcante.

Com uma população de mais de 6 milhões de habitantes, os municípios da Região Metropolitana mineira têm o Rio das Velhas como um dos seus principais mananciais de abastecimento. A água é captada a montante da região, em um trecho onde a água apresenta condições de qualidade um pouco mais favoráveis. A água tratada e potabilizada é distribuída para a população e, após o uso, é devolvida para a bacia hidrográfica do Rio das Velhas com muito esgoto in natura, despejados em afluentes como o Ribeirão Arrudas e Ribeirão do Onça, . Esta situação se repete em centenas de rios que abastecem pequenas e médias cidades em toda a região das Geraes, onde a água dos rios é tratada da mesma maneira. Grandes volumes de esgotos são lançados in natura nos leitos dos rios, se misturando aos resíduos da mineração e da agricultura e degradando cada vez mais os caudais que chegam ao Rio São Francisco.

A cobertura vegetal do Estado de Minas Gerais vem sofrendo um intenso processo de destruição ao longo da história, o que se traduz em impactos importantes nos rios, riachos e demais corpos d’água, especialmente na forma de assoreamento. É importante lembrar que a preservação da cobertura vegetal também é fundamental para a proteção das nascentes e essencial para a recarga dos aquíferos. Dos três biomas originais do Estado, o cerrado é o que mais perdeu vegetação, restando apenas 40% da cobertura original. Da Mata Atlântica e da Caatinga restam, respectivamente, 23% (algumas fontes citam valores menores) e 57%. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco em Minas Gerais está localizada, predominantemente, em áreas de cerrado – o grau de devastação deste bioma no Estado, se reflete na situação degradante das águas do Velho Chico.

No próximo post vamos avaliar a situação das áreas do cerrado, bioma conhecido como o “berço das águas” e que concentra grande parte das nascentes da bacia hidrográfica do Velho Chico, que vem sofrendo um intenso processo de destruição devido ao avanço da agricultura nas últimas décadas.

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