A BOA E VELHA SERRA DA MANTIQUEIRA

Cão-pastor-da-Mantiqueira

Em dezenas de postagens deste blog falamos do famoso Sistema Cantareira, o maior e mais importante conjunto de reservatórios que garantem o abastecimento de boa parte das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas. Nestas postagens sempre falamos que muitos dos rios formadores dessas represas têm suas nascentes no Sul do Estado de Minas Gerais, na Serra da Mantiqueira, tema da nossa postagem de hoje. 

A Serra da Mantiqueira é uma extensa cadeia de montanhas com altitudes entre 1.000 e 3.000 metros, localizada na divisa dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. O maciço montanhoso tem cerca de 500 km de extensão, indo da região de Barbacena, na região Sudeste de Minas Gerais, em direção da divisa com o Estado do Rio de Janeiro e depois seguindo na direção Oeste, fazendo a divisa dos Estados de Minas e São Paulo. Cerca de 60% da formação ocupa terras mineiras, 30% fica em terras paulistas e os 10% ocupam terras fluminenses. A Serra da Mantiqueira é rica em recursos hídricos e possui diversas Unidades de Conservação (UC) com vistas à proteção ambiental. 

A origem geológica da Serra da Mantiqueira, conforme comentamos em postagem anterior, está ligada à de outras importantes Serras: da Canastra, do Espinhaço, do Mar e de Maracaju. Falando de forma bastante simplificada, todas estas formações faziam parte de uma grande cadeia montanhosa, que tinha cerca de 800 km de extensão e 500 km de largura, que estava localizada bem próxima do centro do antigo supercontinente de Gondwana. Com a separação da América do Sul da África, um processo que começou há cerca de 160 milhões de anos, essa grande cadeia montanhosa foi se fragmentando e suas “partes” foram acompanhando a movimentação dos terrenos e acabaram formando todas essas Serras. 

Há um detalhe curioso nessa história – a separação do grande bloco que formava a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar levou à formação do Vale do Paraíba, no Leste do Estado de São Paulo, e também ao nascimento do rio Paraíba do Sul. A separação dessas duas massas de montanhas formou o que se chama em geologia estrutural de Graben ou fossa tectônica – um vale alongado com um fundo plano, resultado do afundamento de um grande bloco do território devido aos movimentos combinados de falhas geológicas paralelas ou quase paralelas. Sem entrar em maiores detalhes, esse tipo de afundamento ocorreu devido à movimentação das Placas Tectônicas, também conhecida como Tectônica Global. 

As grandes altitudes dos morros e montanhas da Serra da Mantiqueira resultam numa temperatura amena nos meses de calor e de baixas temperaturas no inverno – nos terrenos mais elevados é comum o registro de temperaturas negativas; nos picos das montanhas mais altas há registros de precipitação de neve. Essas características climáticas, somadas às belas paisagens serranas e a relativa proximidade das três maiores cidades brasileiras: São Paulo, que fica a 90 km ao Sul; Rio de Janeiro, a 200 km, e Belo Horizonte, localizada a 170 km de Barbacena, transformou toda a Serra da Mantiqueira em um dos mais importantes destinos turísticos do Brasil.

Um exemplo é a cidade de Campos do Jordão, no lado paulista da Mantiqueira. Localizada numa altitude de 1.650 metros acima do nível do mar, Campos do Jordão é considerada a cidade mais fria do Estado de São Paulo. No inverno de 1979, os termômetros da cidade registraram a temperatura de –7,3° C. Durante as primeiras décadas do século XX, a cidade abrigou diversos sanatórios para tratamento de doenças pulmonares como a tuberculose – de acordo com as práticas médicas da época, o ar frio das montanhas era bastante benéfico para os portadores dessas doenças. Com o crescimento da cidade, especialmente a partir da década de 1950, Campos do Jordão foi se consolidando como imperdível destino para as férias de meio de ano, que na Região Centro-Sul é Inverno. 

No lado fluminense da Serra da Mantiqueira podemos destacar a região de Visconde de Mauá, um distrito do município de Resende. A pequena vila tem cerca de 6 mil habitantes, que têm no turismo a sua principal atividade econômica. De acordo com dados oficiais, a vila possui mais de 100 hotéis e pousadas, além de dezenas de restaurantes e bares, alguns especializados em receitas com trutas e pinhões.  Além dos prazeres da boa mesa, os turistas fluminenses se esbaldam com os rios, corredeiras, cachoeiras e vales de toda essa belíssima região.  

No lado mineiro da Mantiqueira, são dezenas e mais dezenas de pequenas cidades encravadas no meio das montanhas, onde além de todas as belezas naturais dos cenários, se encontra a maravilhosa cozinha típica das Minas Gerais. Alguns exemplos são as cidades de Extrema, Gonçalves, Monte Verde (distrito de Camanducaia), Passa Quatro e Alagoa, conhecida como a Terra do Queijo Parmesão

Uma característica da vegetação da Serra da Mantiqueira é que ela mescla elementos típicos da vegetação da Mata Atlântica com fragmentos da Mata das Araucárias – essa é uma das razões da presença do pinhão, semente da Araucária, como um ingrediente típico da culinária da Serra da Mantiqueira.

O relevo acidentado, com a presença de grandes áreas cobertas por vegetação, criou grandes refúgios para a vida natural em toda a Serra da Mantiqueira. Espécies que estão ameaçadas de extinção em outras áreas da região Sudeste encontraram ali bons refúgios. Entre essas espécies podemos destacar o veado-campeiro, onças-pardas, lobos-guará, jaguatiricas, sauás, bugios, esquilos, ouriços-caixeiro e muriquis, um dos maiores primatas das Américas. 

Um detalhe curioso sobre a Serra da Mantiqueira, que eu desconhecia até hoje, é que a partir de cruzamentos entre as diversas espécies de cães dos moradores e sitiantes da região, se formou uma raça de cães de pastoreio com reconhecimento pelo The Kennel Club – o cão-pastor-da-Mantiqueira (vide foto). Ou seja, além de belas paisagens, fabulosos recursos hídricos e ótima comida, a Serra da Mantiqueira também possui sua raça própria de cães.

Show! 

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