CAPARAÓ: A SERRA DO BOI BRAVO

A Serra do Caparaó

Conta um antigo “causo” popular, daqueles que se conta e reconta de geração para geração, que existia numa região serrana um boi selvagem e muito bravo, que os locais chamavam de “Ó”. Esse boi aterrorizava e atacava qualquer viajante desavisado que, porventura, se atrevesse a cruzar por qualquer um dos muitos caminhos da região. Cansados de ouvir relatos dos ataques covardes desse boi selvagem, três destemidos boiadeiros resolveram colocar um ponto final nessa história – eles se embrenharam nas matas da serra, laçaram o boi e o caparam. Com o passar do tempo, a descrição do triste fim do boi correu por todos os lados da serra – “caparam o Ó”.  Dizem que vem daí a origem do nome que foi dado àquelas montanhas – Serra do Caparaó. 

Localizada na divisa dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a Serra do Caparaó apresenta a segunda maior quota de altitudes do Brasil e possui a terceira montanha mais alta do país, o Pico da Bandeira, que tem 2.892 metros em relação ao nível do mar. A Serra também é palco de belíssimas paisagens, com montanhas, rios, cachoeiras e vales, além de possuir as maiores plantações de café arábica do país. 

A Serra do Caparaó é considerada a “capital” dos montanhistas do Brasil, país que apresenta pouquíssimas regiões com elevações superiores aos 2 mil metros. Além do famoso Pico da Bandeira, a Serra possui outras montanhas cobiçadas por esses esportistas: o Pico do Calçado, com 2.849 metros, e o Pico do Cristal, com 2.770 metros, no lado mineiro da Serra. No lado capixaba, que concentra 80% da formação geológica, os destaques são: o Morro da Cruz do Negro, com 2.658, o Pico da Pedra Roxa, com 2.649 metros, o Pico dos Cabritos ou do Tesouro, com 2.620 metros, o Pico do Tesourinho, com 2.584 metros e a Pedra da Menina, com 2.037 metros de altitude. 

As encostas e vales da Serra do Caparaó abrigam alguns dos mais representativos fragmentos preservados da Mata Atlântica no Estado do Espírito Santo, onde são encontradas diversas espécies animais e vegetais endêmicas do bioma. Entre essa vegetação nativa se destacam os campos de altitude, um tipo de vegetação que ocorre nos platôs e encostas mais altas da Serra do Caparaó. Na formação geológica também se encontram inúmeras nascentes associadas a três importantes bacias hidrográficas: dos rios Itabapoana, Itapemirim e Doce.

A importância ambiental das áreas florestais e formações geológicas da região levou à criação do Parque Nacional da Serra do Caparaó através de Decreto Federal de 1961. A história da proteção ambiental da área é, porém, mais antiga e data de 1911, quando os maciços de grande altitude da região começaram a ser estudados e se determinou, pela primeira vez, a altitude do Pico da Bandeira. As diversas expedições científicas brasileiras e estrangeiras que se sucederam, especialmente a partir de 1922, observaram a grande concentração de espécies animais e vegetais em uma área relativamente pequena. Diversas reportagens sobre as descobertas nessa região criaram uma mobilização social no sentido da criação de uma área de preservação ambiental. Em 1948, um Decreto Estadual do Espírito Santo criou a Reserva Florestal do Pico da Bandeira, que foi o embrião para a futura criação do Parque Nacional. 

O Parque Nacional da Serra do Caparaó ocupa uma área de 31.800 hectares e se encontra sob a administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade, e se distribui entre os municípios de Alto Caparaó, em Minas Gerais, e Dores do Rio Preto, no Espírito Santo. A principal atração do Parque, como não poderia deixar de ser, é o Pico da Bandeira. Entretanto, ele não é a única: o visitante encontrará diversos mirantes, cachoeiras, piscinas naturais e vales, abertos para visitação pública durante o ano todo. Outra grande atração, conforme já comentamos, são diversas outras montanhas com altitudes acima dos 2 mil metros, que fazem a alegria de turistas, aventureiros e montanhistas de todo o Brasil. 

O Parque está organizado através de um sistema de trilhas bem sinalizadas, que permitem que os turistas encontrem as principais atrações sem maiores dificuldades. As principais trilhas são as que levam ao Pico da Bandeira, que pode ser alcançado tanto pelo lado mineiro, pela Trilha Tronqueira – Terreirão – Pico da Bandeira, quanto pelo lado capixaba do Parque, conhecida como Trilha Casa Queimada – Pico do Calçado – Pico da Bandeira. Outras trilhas permitem a visitação às diferentes formações vegetais do Parque, especialmente os campos de altitude. Os visitantes têm à sua disposição quatro áreas de acampamento, dotadas de banheiros, lava-pratos, mesas e bancos. Alguns desses acampamentos possuem quiosques e churrasqueiras. 

Durante séculos, toda a região da Serra do Caparaó foi habitada por agrupamentos indígenas das etnias dos Botocudos, Puris e Tapuias; posteriormente, a região passou a ser ocupada por índios Tupis. Os primeiros aventureiros de origem europeia chegaram na região no início do século XVII em busca de ouro e pedras preciosas; os povoados  locais surgiram em função da mineração. A partir do século XVIII, com o esgotamento das reservas de ouro, a região passou a assistir ao início do cultivo do café arábica e de outras culturas de subsistência.  

Foi a partir do início do século XIX, quando o café passou a conquistar o paladar de europeus e norte-americanos e a commodity passou a ser altamente valorizada, que a Serra do Caparaó começou a ganhar destaque na cafeicultura. Também foi no final desse século que a região passou a atrair grandes contingentes de imigrantes estrangeiros como italianos, alemães, suíços, espanhóis e portugueses. 

Há uma particularidade histórica importante na Serra do Caparaó – os tropeiros mineiros. Conforme já comentamos em uma postagem anterior, a região da foz do rio Doce era controlada pelos ferozes índios antropófagos da tribo dos Botocudos. Os ataques desses índios impediram, por mais de dois séculos, o uso da navegação fluvial para o transporte de mercadorias e de pessoas por esse rio para as regiões de mineração nas Minas Geraes. As comunicações entre o interior e o litoral só podiam então ser feitas por via terrestre.

Os transportes de pessoas e de produtos, incluindo-se aqui o café, passou a ser feito com animais de carga através de trilhas pela Serra do Caparaó, que se tornaram uma das poucas opções para as comunicações entre importantes regiões dos sertões das Minas Gerais e o litoral do Espírito Santo. Essas rotas tropeiras influenciaram consideravelmente o povoamento e a cultura de toda a região serrana do Caparaó. 

Como se vê, não é de hoje que os mineiros têm essa preferência pelas belas praias capixabas… 

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