O HOMEM DE NEANDERTAL E A MINERAÇÃO

Homem de Neandertal

Uma leitura apressada do título desta postagem poderá transmitir uma informação incorreta aos leitores – não, os pobres Homens de Neandertal, uma raça extinta de seres humanos, considerada “prima” dos homens modernos, nunca utilizou nenhuma forma de mineração desastrosa nos recantos em que viveu até seu desaparecimento da face da Terra há aproximadamente 40 mil anos atrás. Como outras espécies “primitivas”, eles utilizavam fragmentos de rocha para a confecção de toda uma gama de ferramentas para uso em suas caçadas e em atividades do dia a dia – nada mais do que isso. 

Na postagem de hoje, vamos mostrar os impactos da mineração de calcário no vale de Neander e suas consequências na descoberta dos fósseis do Homem de Neandertal

O rio Dussel é um pequeno afluente do alto rio Reno, no Sudoeste da Alemanha. Foi na confluência desses dois rios que surgiu uma pequena vila entre os séculos VII e VIII, que passou a ser conhecida na região como Vila de Dussel ou, em alemão, Dusseldorf. Os primeiros documentos escritos que falam de Dusseldorf datam do ano 1135.  

A moderna Dusseldorf é uma das mais importantes cidades da Alemanha, abrigando o segundo maior centro financeiro do país e concentrando as empresas de propaganda e de moda. Nos últimos anos, a cidade foi transformada no maior centro de telecomunicações da Alemanha, sediando a maior parte das empresas e provedores de internet do país. A cidade tem hoje uma população de 2,8 milhões de habitantes. 

A cerca de 15 km do centro de Dusseldorf existia uma grande formação de pedra calcária que, desde os primeiros tempos da fundação deste assentamento humano, vinha sendo explorada pelas populações. O calcário é um mineral com largas aplicações em nosso dia a dia: a cal é um exemplo. Esse produto é usado na produção de argamassa para assentamento de tijolos e reboco de paredes. Na produção do cimento Portland, o calcário é a principal matéria prima. Essas duas aplicações já mostram a sua importância para a construção de qualquer cidade. 

Outra aplicação importante do calcário é na metalurgia, onde é usado como fundente dos metais. Na agricultura, o calcário é usado como corretivo do Ph (potencial hidrogeniônico) dos solos e também como um dos ingredientes de adubos. Também é usado na fabricação do vidro, um material de múltiplos usos e aplicações. Por fim, pedras calcárias recortadas são usadas como elementos estruturais e decorativos em construções

O rio Dussel cortava esse bloco rochoso, onde formava um pequeno canyon cercado por altos paredões de pedra calcária. Esse trecho era chamado pelos locais como Dusseltal – a palavra “tal” (na antiga grafia alemã, anterior a 1904, se escrevia “thal“) é usada para designar o vale de um rio, no caso, o vale do rio Dussel. Um detalhe histórico levou à mudança do nome do lugar: um compositor e pregador religioso do século XVII, chamado Joachim Neander, pregava para seus seguidores neste local. Com o passar dos anos, o local passou a ser conhecido como Neandertal

Pois bem: em 1856, os trabalhadores de uma das muitas pedreiras que exploravam o calcário no local encontraram alguns ossos e um grande fragmento de crânio em uma gruta conhecida pelo nome de Feldhofer. Os trabalhadores entregaram os ossos ao dono da pedreira, que por sua vez os entregou a Johann Carl Fuhlrott, um naturalista amador que lecionava em uma escola da região. Inicialmente, se suspeitava que esses ossos eram despojos de vítimas humanas atacadas por ursos selvagens da região. 

O professor Fuhlrott ficou impressionado com os ossos, especialmente com o fragmento do crânio, no qual era possível verificar que pertencera a uma pessoa com a testa baixa e com as arcadas do supercílio bastante proeminentes. Os ossos do braço e do antebraço também se mostravam muito mais curtos do que numa pessoa normal. As primeiras impressões fizeram o professor Fuhlrott deduzir que esses ossos deveriam ter pertencido a uma espécie primitiva de seres humanos. Os ossos foram levados ao famoso anatomista Hermann Schaaffhausen, que em 1857 fez a publicação conjunta da descoberta – surgia assim a primeira descrição científica do Homem de Neandertal (ou, Neanderthal na grafia alemã antiga, palavra que você vai encontrar frequentemente em uso). 

Ossadas semelhantes dessa “antiga espécie humana” já haviam sido encontradas décadas antes em Gibraltar e na Bélgica, porém, o receio de confronto com o forte pensamento religioso da época, que pregava que “Deus criou o homem à sua imagem”, impediu que outros cientistas afirmassem se tratar de outra linhagem de seres humanos. Também é importante lembrar que o revolucionário livro de Charles Darwin A Origem das Espécies, só seria publicado em 1859. Esses fatos mostram o quanto a divulgação da descoberta dos professores Fuhlrott Schaaffhausen foi corajosa e importante numa época em que as ciências ainda se submetiam aos dogmas religiosos. 

Infelizmente, as pesquisas sobre o homem de Neandertal não puderam ser aprofundadas no local da descoberta – a gruta de Feldhofer. Poucas semanas após o achado dos ossos, a gruta simplesmente desapareceu, desmontada pela retirada das pedras calcárias. Aliás, a maior parte da formação rochosa que existia no local desapareceu por força da mineração. Visitando hoje o local, você poderá conhecer o Neandertal Museum e um parque ecológico linear que foi criado às margens do rio Dussel. Além disso, você encontrará diversas lagoas formadas nas crateras abertas pela mineração e muitas fazendas. A mineração também alterou completa e irremediavelmente as características primitivas do rio Dussel

Os antigos paredões de pedra calcária ainda resistem na tradição oral das populações locais e em gravuras e pinturas antigas, além de algumas fotografias. Tudo o que se descobriu posteriormente sobre a vida e os hábitos dos Homens de Neandertal vem de achados feitos em outros sítios paleontológicos, em diferentes regiões da Europa e da Ásia. Podemos, literalmente, afirmar que a mineração de calcário varreu os vestígios da presença dessa antiga espécie “humana” do vale de Neander

Neandertal

Entre os anos de 1997 e 2000, foram realizadas algumas pesquisas científicas no vale de Neander. Usando algumas novas tecnologias de estudo de solos, os pesquisadores conseguiram determinar com exatidão o local onde ficava a gruta de Feldhofer. Também foram realizadas buscas arqueológicas em depósitos de rejeitos minerais que restaram no local, onde foi possível encontrar alguns fragmentos de ossos da antiga população “humana” que ali viveu. Por pura obra do acaso, nem tudo estava perdido.  

Como se vê, a mineração não causa apenas impactos ambientais e sociais – ela também pode comprometer, irremediavelmente, estudos sobre a origem e a cultura da humanidade. 

PS: A imagem que ilustra esse post é do filme AO, O ÚLTIMO NEANDERTAL.

RUINA MONTIUM – A DEVASTADORA TÉCNICA DE MINERAÇÃO CRIADA PELO IMPÉRIO ROMANO

Las Médulas

Ao ver as imagens da destruição provocada pelo rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração como no recente caso de Brumadinho ou ainda revendo a tragédia de Mariana em 2015, você poderá ficar com a impressão que esses desastres são o resultado de processos de mineração irresponsáveis do mundo moderno. Ao contrário do que talvez aparente, a mineração em larga escala vem produzindo tais catástrofes há milhares de anos. As antigas minas de ouro do Império Romano em Las Médulas, na Província de León na Espanha, farão você mudar de ideia. 

A exploração de ouro nesta região, que fica próxima da cidade de Ponferrada, surgiu por volta do ano 25 a.C, poucas décadas depois da conquista da Hispânia pelas tropas do Império Romano. A partir de trabalhos de prospecção mineral em montanhas da região, os governantes romanos descobriram que os solos locais abrigavam fabulosos veios de ouro e não pouparam esforços para a mineração do precioso metal. Ao longo dos dois séculos seguintes, os romanos empregaram cerca de 60 mil trabalhadores livres em operações de lavra, retirando cerca de 1,65 milhão de quilos de ouro da região

Sem contar com explosivos para o desmonte das rochas, os engenheiros romanos utilizaram seus conhecimentos em obras hidráulicas para desenvolver uma técnica de exploração mineral que passou a ser conhecida como Ruina Montium, que significa literalmente “destruição da montanha”. Utilizando a força hidráulica de grandes volumes de água, os trabalhadores forçavam a erosão das rochas e o carreamento de grandes volumes de sedimentos, que eram vasculhados minuciosamente na busca por pepitas e resíduos de ouro, numa técnica que lembra muito a exploração de ouro de aluvião aqui no Brasil. 

Essa água era coletada em fontes localizadas em montanhas próximas e transportada até as minas através de complexos sistemas de aquedutos e canais, que numa extensão total somada tem aproximadamente 300 km. A água era armazenada em grandes tanques, em uma quota de mais de 250 metros acima do nível das minas – era essa altura que gerava a poderosa pressão hidráulica para o desmonte das rochas. Conforme as necessidades da mineração iam surgindo, os trabalhadores cavavam túneis através das rochas, que seriam usados para direcionar fluxos violentos de água com alta pressão contra áreas de interesse. A cada uma dessas operações, trechos inteiros das montanhas ruíam. Uma dessas montanhas, o monte Medilianum, praticamente desapareceu. 

No ano 77 d.C, Caio Plínio, um dos mais importantes naturalistas da antiguidade, visitou as minas de Las Médulas e ficou chocado com a devastação dos solos que lá encontrou: 

 “O que acontece é muito além do trabalho de gigantes. As montanhas estão rasgadas com corredores e galerias feitas pelas luzes de lamparinas, que duram até a troca de turnos. Por meses, os mineradores não podem ver a luz do sol e muitos deles morrem dentro dos túneis. A esse tipo de mina tem sido dado o nome de Ruina Montium. As rachaduras feitas nas entranhas das pedras são tão perigosas que seria mais fácil achar purpurina e pérolas no fundo do mar que fazer cicatrizes na rocha. Como fizemos perigosa a terra!” 

No século II d.C., após o esgotamento das reservas de ouro em Las Médulas, os romanos abandonaram a região. A paisagem deixada para trás mais parecia com a superfície do planeta Marte – grandes crateras e rochas vermelhas espalhadas por uma extensa região despida de qualquer traço de vegetação. As antigas montanhas cobertas por florestas e toda a vida animal local simplesmente desapareceu, como se nunca tivesse existido. A antiga rede de nascentes de água das montanhas e os rios em uma área com milhares de quilômetros quadrados, foi substituída por poças de lama e grandes montes de pedra, tornando os solos locais praticamente imprestáveis para qualquer futura atividade agropecuária. 

Em 1997, as ruínas das minas de ouro de Las Médulas foram transformadas em Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO – Órgão das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura: uma trágica lembrança de quão destrutiva a humanidade pode ser. A devastação ambiental em larga escala deixada pelos antigos romanos é hoje um importante destino turístico da Província de León. Como praticamente não houve qualquer ocupação humana posterior na região, as ruínas das minas, dos aquedutos e de outras construções romanas permanecem praticamente intactas. 

Com o passar do tempo, e falamos aqui de vários séculos, a região de Las Médulas conseguiu recuperar parte de suas características naturais, voltando a ser coberta por bosques e passando a abrigar novamente vida animal. Uma característica interessante desses novos bosques é a grande presença de castanheiras, uma árvore que não pertencia à flora original e que passou a colonizar os solos graças à intervenção humana. Os romanos consumiam castanhas trazidas de outras regiões do seu Império e, acidentalmente, muitas dessas dessas caíram no chão e brotaram.

Esses novos bosques se transformaram em refúgios para espécies animais que perderam espaço em outras regiões da Espanha. O lugar é hoje lar de espécies como o javali (Sus scrofa), a corsa europeia (Capreolus capreolus) e o gato-montês (Felis silvestris), um felino raro que pode pesar até 7 kg. Perto de uma centena de espécies de aves, além diversas outras espécies de répteis e anfíbios, completam a fauna local. 

Essa recolonização dos solos por árvores exóticas tem um paralelo interessante com a faixa Leste do litoral do Nordeste brasileiro. Essa faixa era coberta originalmente pela Mata Atlântica, uma densa formação vegetal que se estendia desde o Rio Grande do Sul até algumas áreas do interior do Ceará; em alguns trechos, ela entrava pelo interior do Brasil chegando até o Paraguai. A chamada Zona da Mata nordestina sucumbiu a ferro e a fogo diante da cultura da cana-de-açúcar. Ao longo de quase três séculos, as matas foram derrubadas e queimadas para expansão dos canaviais e produção do açúcar, restando ao final uma terra arrasada e a nua. Coqueirais surgidos a partir de cocos trazidos por maus portuguesas desde a Índia passaram a ocupar o litoral do Nordeste, criando paisagens que mais lembram as ilhas do Oceano Pacífico. 

Imagino que, em séculos futuros, arqueólogos e outros estudiosos venham a se espantar com a fauna e a flora que surgiu em áreas destruídas por atividades mineradores irresponsáveis desses nossos dias. Quem sabe o que o futuro reservará para os desolados vales dos rios Doce e Paraopeba, entre outros, destruídos por nossa gananciosa e  irresponsável geração… 

O DESAPARECIMENTO DO LAGO POOPÓ NA BOLÍVIA POR CAUSA DE REJEITOS DE MINERAÇÃO

Lago Poopó

Numa postagem publicada aqui no blog em 13 de abril de 2017, divulgamos uma das notícias mais terríveis da área dos recursos hídricos – o desaparecimento do Lago Poopó, no Altiplano boliviano. A notícia não tratava de um lago qualquer, mas sim do segundo maior corpo d’água da Bolívia, um lago de água salgada, com um tamanho equivalente a seis vezes a Baía da Guanabara ou três vezes o tamanho da cidade de São Paulo, que, literalmente, desapareceu no ar.  

O “finado” Lago Poopó ficava (é estranho usar esse tempo passado) no departamento de Oruro, região que faz divisa com o Chile, onde o espelho d’água se espalhava por uma área que podia chegar a 2.500 km² nos períodos de cheia. O nível do lago se encontrava numa altitude de 3.686 metros acima do nível do mar, com uma profundidade média de 2,5 metros, podendo chegar em alguns trechos a 6 metros. O Altiplano é um extenso planalto com altitudes acima dos 3.500 metros, que se estende entre as montanhas dos Andes, ocupando partes do Norte do Chile e da Argentina, do Oeste da Bolívia e no Sul do Peru. 

A hidrologia do Lago Poopó estava ligada diretamente ao Lago Titicaca, o maior corpo de água da América do Sul, localizado ao Norte, na divisa da Bolívia com o Peru. Um conjunto de aproximadamente vinte e cinco rios, formados a partir do degelo de glaciares no alto dos Andes, corre para as terras mais baixas do Altiplano alimentando o Lago TiticacaUma fenda natural na parte Sul do Titicaca, conhecida como rio Desaguadero, funcionava com uma espécie de “ladrão”, escoando todo o excedente de água na direção do Lago Poopó, localizado num trecho mais baixo, que funcionava como lago terminal da bacia hidrográfica. Ciclos de evaporação das águas e realimentação via drenagem do Lago Titicaca mantinham a estabilidade do Lago Poopó

O destino do Lago Poopó começou a ser selado a partir da redução do nível do Lago Titicacaque baixou cerca de 1 metro nos últimos anos, o que reduziu a quantidade de água drenada pelo rio Desaguadero. Para aumentar o problema, o Governo local realizou obras no Desaguadero, desviando as águas para outras regiões, para usos em sistemas agrícolas e abastecimento de comunidades (o Titicaca tem água doce). Sem receber os despejos sistemáticos de água do Lago Titicaca, o Lago Poopó começou a secar

A tragédia ambiental que se abateu sobre o Lago Poopó, porém, tem outro componente bombástico – a mineração predatória e intensa realizada na região desde o tempo dos conquistadores espanhóis. Usando técnicas das mais rudimentares, os mineiros da região nunca se preocuparam com a construção de barragens de rejeitos minerais, assunto que temos falado bastante nas últimas postagens. O Lago Poopó foi transformado “na barragem de rejeitos” do Altiplano, recebendo sedimentos arrastados pelas escassas chuvas ao longo dos séculos. O acúmulo desses rejeitos reduziu gradativamente a profundidade do lago e amplificou os efeitos da evaporação das águas.  

O nível de contaminação das águas do Lago com metais pesados chegou a um nível altamente crítico, resultando na mortandade de 30 milhões de peixes em um único dia – milhares de aves, que se alimentavam destes peixes envenenados tiveram o mesmo fim. As aves e animais que conseguiram fugir a tempo, ganharam uma sobrevida em outras regiões – os flamingos rosados do Poopó, por exemplo, migraram para o pequeno Lago Oruro em uma região próxima, um corpo d’água que também está secando. Nesse novo ambiente, a carência de nutrientes está afetando a saúde dessas aves – as vistosas penas rosas passaram a apresentar uma cor branca. Especialistas da Bolívia calculam que cerca de 200 espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis e anfíbios, além de uma grande variedade de plantas, desapareceram junto com o Lago Poopó

O desastre também teve um custo humano. Cerca de 350 famílias das comunidades indígenas locais, em sua maioria pescadores do lago, foram afetadas. Os Urus eram os donos do lago e tiravam o seu sustento das águas do Poopó, o seu “território”. Essas comunidades tinham como fonte principal de alimentos um grupo com 38 espécies de animais entre peixes, aves e mamíferos: nada sobrou. De acordo com as leis bolivianas, o território dos Urus é formado pelo espelho d’água dos diversos lagos do país e eles não podem cultivar as terras, um território que pertence aos indígenas da etnia Aymaras

O desaparecimento do Lago Poopó foi um longo e contínuo processo de degradação ambiental, denunciado sistematicamente por anos a fio por ambientalistas e especialistas em recursos hídricos da Bolívia. Essas denúncias contaram com forte apoio de órgãos de imprensa opositores ao Governo do Presidente Evo Morales. Dentro da forte ideologia política do Governo boliviano, a sistemática redução dos níveis do Lago Poopó “foi uma consequência do aquecimento global, um fenômeno provocado pelas grandes nações capitalistas do Hemisfério Norte.” Nenhuma providência prática para controlar ou reduzir o problema foi tomada. 

A Bolívia tem uma longa história de exploração selvagem dos seus recursos naturais, uma trágica herança do período colonial. O antigo Vice-Reino do Peru, do qual a Bolívia fazia parte, se mostrou, já nos primeiros anos após a conquista pela Espanha, como uma das mais promissoras províncias minerais do Novo Mundo. A descoberta das minas de prata de Potosí, em 1545, consolidou ainda mais essa realidade. Em 1611, a cidade homônima que surgiu no local já tinha uma população de 150 mil habitantes, a segunda cidade mais populosa do mundo, só ficando atrás de Paris. De acordo com dados oficiais, saíram das minas de Potosí, entre os séculos XVI e XIX, cerca de 31 mil toneladas de prata, metal que enriqueceu a Espanha e condenou a Bolívia ao subdesenvolvimento atual. Para efeito de comparação, o Ciclo da Mineração no Brasil  Colonial produziu cerca de mil toneladas de ouro.

Usando a farta mão de obra indígena local, escravizada e explorada aos limites das suas forças, a mineração da prata utilizou milhares de toneladas de mercúrio, um elemento altamente tóxico, para separar o metal precioso dos rejeitos minerais, entre esses o chumbo e o arsênico. O resultado de séculos dessa mineração predatória: altíssimos níveis de contaminação dos solos, o que tornou a agricultura impraticável na região, além de fontes de água com alarmantes concentrações de metais pesados e contaminantes diversos. Inúmeros casos doenças como o câncer e a má formação de fetos assombram as populações locais, que ainda dependem fortemente da mineração da pouca prata que restou na região. 

Como se vê, o desrespeito ao meio ambiente e a Cordilheira dos Andes no Altiplano são, desgraçadamente, lados diferentes de uma mesma paisagem… 

ÁGUA E MINERAÇÃO

Água e Mineração

O rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho – Minas Gerais, expôs, da forma mais dramática possível, os riscos que são criados, dia após dia, pelas atividades mineradoras. Esses riscos incluem a segurança de comunidades humanas, danos aos recursos naturais e prejuízos econômicos – o tripé da sustentabilidade é colocado sistematicamente em xeque.

Por outro lado, nosso mundo moderno e nossas vidas “confortáveis” dependem, como em nenhum outro período da história, dos recursos minerais. Citando um único exemplo: em nossos cotidianos não podemos dispor da presença de smartphones e computadores – as baterias desses equipamentos são construídas usando minerais, notadamente o lítio, um metal com grande capacidade para o armazenamento de energia elétrica. 

Nossas casas e apartamentos foram construídos usando matérias primas oriundas da mineração: argila para os tijolos e blocos, calcário para a produção da cal e do cimento, areia para produção de argamassa, concreto e também usada para a produção do vidro. E não menos importante, ferro e aço para a construção das armaduras e estruturas de sustentação, além de alumínio e outros metais que são usados para a fabricação de portas, janelas e metais sanitários. 

Nos meios de transporte que usamos diariamente, os metais ocupam os papéis mais essenciais: ferro e aço para a montagem de carros, motocicletas e trens; alumínio, um metal leve e resistente, essencial para a produção dos aviões; e aços especiais para a construção de navios de todos os tipos. Para se produzir todas essas máquinas maravilhosas, gigantescos parques industriais, onde os mais diferentes tipos de metais formam todos os tipos de máquinas e equipamentos de produção. Os serviços de comunicação, essenciais em nosso mundo moderno, dependem dos mais diferentes tipos de metais para a fabricação de equipamentos e redes de comunicação. 

Até mesmo a produção dos diferentes tipos de alimentos que consumimos depende da mineração: fertilizantes e corretivos de solos utilizam matérias primas de origem mineral; para a produção de carnes e ovos, a ração dos animais é complementada com vitaminas produzidas a partir de sais minerais criados a partir de diferentes processos de mineração. 

Nessa busca frenética e, não raramente, irresponsável, os rios acabam transformados em verdadeiras latrinas devido ao lançamento direto ou acidental de rejeitos de mineração. A tragédia ambiental no rio Doce, ocorrida em 2015, e o recente acidente no rio Paraopeba em Brumadinho, estão entre as mais evidentes entre nós. Existem várias outras calamidades ambientais ao nosso redor que, de tão acostumados que estamos, mal nos damos conta da sua existência.  

A extração de areia para a construção civil em importantes cidades como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, destruiu e continua destruindo importantes trechos dos rios Tietê, Iguaçu e Paraíba do Sul. Outro exemplo drástico – montanhas de rejeitos minerais e de escória de altos fornos ameaçam desmoronar sobre o rio Paraíba do Sul na cidade de Volta Redondo, com potencial para comprometer todo o abastecimento de água na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

Essas agressões se multiplicam em diferentes regiões do mundo. Diversas fontes de água e rios sofrem com a contaminação originada pela exploração de carvão, um combustível fóssil essencial em diversas regiões do mundo. Acidentes em poços de petróleo e vazamentos em refinarias são praticamente diários. De quando em vez, se transformam em verdadeiras tragédias ambientais, como no caso do acidente do navio petroleiro norte-americano Exxon Valdez no Alasca em 1989, de onde vazaram 36 mil toneladas de petróleo e 1.800 km² de praias foram contaminados.  

A exploração de produtos minerais ocorre em praticamente todas as regiões do mundo – felizmente, devido ao Tratado da Antártida, o grande continente gelado ainda está livre dessa “praga”. Mais raros, os grandes veios com alta concentração de metais se encontram em apenas algumas regiões do globo, onde grandes empreendimentos mineradores a céu aberto arrancam dezenas de milhares de toneladas de minerais dos solos a cada dia. No Brasil, três dessas províncias minerais se destacam – o Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, a Serra dos Carajás, no Pará e a reserva de Urucum no Mato Grosso do Sul. Dos seus solos “jorram”, à força, minério de ferro, níquel, manganês, estanho e cobre, entre outros metais, além de ouro em quantidades bem menores. 

As minas subterrâneas, aparentemente menos destrutivas que suas congêneres a céu aberto, também dão sua importante quota na produção de minerais importantes para o nosso cotidiano. A busca insana nas estranhas da Terra, porém, cobra regularmente altos preços em vida humanas e em agressões ambientais.  As notícias de acidentes em minas subterrâneas, com trabalhadores presos em profundidades cada vez mais insanas, são cada vez mais regulares. No exato momento em que estou escrevendo essas palavras, um grupo de quatro mineiros está preso em uma mina no interior do Peru – o teto de uma galeria desabou, bloqueando o acesso à saída. 

As necessidades mundiais de metais não param de crescer e a produção do aço é um indicador dos mais importantes – a produção atual supera a casa de 1,7 bilhão de toneladas/ano, com a China respondendo por cerca de metade dessa produção. Outro importantíssimo metal, com uso nos mais diferentes campos, é o alumínio, com uma produção superior a 800 mil toneladas ano. Em 2008, a produção desse metal bateu um recorde e atingiu a marca de 1,6 bilhão de toneladas. Esses números demonstram quão grandes são os esforços e os problemas da mineração em todo o mundo. 

Na lista dos maiores produtores minerais do mundo, o Brasil apresenta a sua própria quota de problemas ambientais ligados às atividades mineradoras. As principais reservas lavráveis do país se encontram em Minas Gerais, Pará e Mato Grosso do Sul, com reservas calculadas em 9,5 bilhões, 1,2 bilhões e 710 milhões de toneladas, respectivamente. Ao ritmo atual de produção, essas reservas vão se esgotar em pouco mais de 30 anos em Minas Gerais, em 140 anos em Mato Grosso e em 15 anos no Pará. Até lá, vamos assistir a muitas e muitas agressões ambientais. Pelo triste andar da carruagem, assistiremos ainda à morte de muitos rios como visto com o Doce e Paraopeba. 

A partir das próximas postagens, vamos falar em detalhes sobre os principais problemas ligados aos diferentes setores da mineração e suas consequências sobre as reservas mundiais de água. 

A RESILIÊNCIA DA VIDA

A tragédia de Brumadinho

Há exatamente uma semana, as primeiras notícias sobre o rompimento da barragem do Córrego do Feijão começaram a circular nos meios de comunicação. As primeiras imagens mostravam a lama avançando pela calha do rio Paraopeba e algumas pessoas andando com marcas de lama até o meio da canela. Com as lembranças do acidente com a barragem de Fundão, em Mariana, ainda vívidas na mente, todos esperávamos por notícias ruins. 

E uma verdadeira enxurrada de más notícias passou a tomar conta dos noticiários – a mais terrível de todas essas notícias informava que todo o prédio do centro administrativo da mina foi, literalmente, arrastado pela onda de lama. No local funcionava o refeitório e, segundo cálculos da própria empresa, cerca de 400 pessoas se encontravam no local no horário do rompimento da barragem. 

Não tardou muito a se descobrir que uma famosa pousada, localizada numa das margens do rio Paraopeba, foi completamente arrasada e que dezenas de hóspedes sumiram sem deixar rastros. Pouco a pouco, notícias de vilas de casas e de propriedades rurais destruídas a jusante da barragem começaram a ser divulgadas, o que nos ajudou a compor um quadro inicial da tragédia de Brumadinho. 

Os números oficiais do momento confirmam que 110 pessoas morreram e que, pelo menos, 238 pessoas ainda se encontram desaparecidas. Dadas as condições da calha do rio, que em alguns pontos apresenta uma camada de lama e de rejeitos de mineração com mais de 10 metros de espessura, serão necessários vários meses de trabalho até que se saiba exatamente o número de vítimas do acidente. Para se conhecer e “digerir” todos os números da tragédia, serão necessários vários anos. 

Para marcar essa primeira semana desde o rompimento da barragem, as equipes de busca fizeram uma pequena pausa nos seus exaustivos trabalhos para assistir uma cerimônia religiosa. Um helicóptero sobrevoou a calha do rio e fez “chover” pétalas de rosa em homenagem a todas as vítimas da tragédia. 

Serão muitos os desdobramentos e as histórias que serão contadas e recontadas daqui para frente. Esperamos também que surjam respostas, se é que isso será possível, que expliquem como mais uma tragédia desse porte pode acontecer na pacata Brumadinho.  

Pessoalmente, gostaria que registrar a minha indignação com mais essa tragédia humana e ambiental. Desde 2016, quando comecei a publicar diariamente os meus comentários e informações sobre os recursos hídricos e o saneamento básico, foram muitas as postagens onde falei dos problemas criados pela mineração e dos riscos da repetição da tragédia de Mariana, que em 2015 destruiu o rio Doce. Desgraçadamente, a ganância de uns poucos destruiu mais um rio e arrasou para sempre a vida de inúmeras famílias, que perderam os seus entes queridos e/ou as suas propriedades. Faço votos que, dessa vez, se faça verdadeiramente a justiça. 

A única certeza que nós temos, por hora, é que a vida é resiliente e vai encontrar os seus caminhos em meio aos escombros dessa tragédia

MINA ENGENHO: A BARRAGEM DE MAIOR RISCO EM MINAS GERAIS

minaengenho

Publicado em 24 de outubro de 2017 – ROMPIMENTO DE UM DUTO DE REJEITOS EM OURO PRETO, OU FANTASMAS DA BARRAGEM DE MARIANA 

Em matéria publicada hoje (31/01/2019), o jornal O ESTADO DE SÃO PAULO fala da barragem Mina Engenho, na cidade de Rio Acima, em Minas Gerais. Abandonada desde 2011, a barragem se encontra em ruínas e apresenta sérios riscos de rompimento. Essa barragem tem um agravante: entre os rejeitos, ela apresenta uma grande concentração de arsênico, um elemento químico altamente tóxico. Leia a seguir uma postagem que publicamos em 2017, onde falamos dos problemas e riscos dessa barragem: 

No início do último mês de maio (2017), ocorreu o rompimento de um duto de rejeitos da Mina de Fábrica, que ocupa uma área entre as cidades de Congonhas e Ouro Preto – o vazamento só foi identificado no dia 13. Com o vazamento, o Córrego Prata foi contaminado, atingindo depois o Córrego Almas e na sequência o Ribeirão Mata Porcos que se transforma no Rio Itabirito, afluente do rio das Velhas. 

Em 17 de agosto, um novo vazamento em uma tubulação da Mina de Fábrica atingiu cinco mananciais da região e só não teve consequências maiores porque a maior parte dos rejeitos acabou acumulada na represa da PCH – Pequena Central Hidrelétrica, Agostinho Rodrigues. Esta centenária geradora de energia elétrica já foi responsável pelo abastecimento da cidade de Itabirito e hoje é a responsável pelo abastecimento de energia elétrica para uma tecelagem. A represa, que já chegou a ter uma profundidade máxima de 14 metros, atualmente tem uma profundidade média de 4 metros – em alguns pontos esta profundidade não passa de 2 metros. A PCH opera hoje com uma capacidade de geração elétrica reduzidíssima. 

A barragem já sofreu enormes danos estruturais devido a sucessivos vazamentos de rejeitos e a situação é considerada tão crítica que os técnicos responsáveis afirmam que as comportas não podem ser abertas. A mancha de resíduos desse último vazamento atingiu 70 km de extensão no leito do rio das Velhas e chegou bem perto do ponto de captação de água para o abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte. O rio das Velhas é o maior manancial de abastecimento da Região Metropolitana, fornecendo até 70% do total de água usada pela cidade de Belo Horizonte e também 40% da água usada pelos demais municípios da Região. 

Em 10 de setembro de 2014, o rompimento de um dique de contenção da Mineração Herculano, que resultou na morte de três funcionários, trouxe uma imensa onda de rejeitos minerais para a represa. No ano seguinte, um erro de operação na Barragem Forquilha VI, da mesma Mina de Fábrica, trouxe uma outra grande onda de rejeitos minerais para a represa da PCH. Com o último vazamento de rejeitos em setembro, a situação da barragem atingiu um ponto crítico e, tanto a empresa responsável pela operação da PCH quanto a Defesa Civil de Itabirito, temem pelo rompimento da estrutura caso ocorram chuvas fortes na região. As autoridades ambientais do município afirmam ser necessária a elaboração de um plano para a retirada dos resíduos que ameaçam a represa. 

A proprietária da Mina de Fábrica é uma velha conhecida de todos vocês – a Vale do Rio Doce, que não por acaso é uma das proprietárias da Samarco Mineração em sociedade com a anglo-australiana BHP Billiton. Para quem não lembra, foi a barragem de rejeitos de mineração da Samarco na cidade de Mariana que se rompeu em 2015, matando 19 pessoas, arrasando o Distrito de Bento Rodrigues e destruindo o Rio Doce, naquela que é considerada a maior tragédia ambiental já ocorrida no Brasil. Passados dois anos desde o acidente, o rio Doce está longe de voltar aos níveis de qualidade existentes antes do acidente e as cidades das bacia hidrográfica continuam enfrentando sérios problemas para abastecer suas populações com água potável; agricultores, pescadores e demais antigos usuários das águas do rio Doce continuam sem alternativas para retomar as suas atividades. 

Esses exemplos mostram os problemas que a mineração vem causando ao rio das Velhas e as ameaças que representam para o abastecimento de água dos 6 milhões de habitantes da Região Metropolitana de Belo Horizonte e demais cidades e usuários ao longo das suas margens. 

Em Minas Gerais existem mais de 700 barragens, sendo que, pelo menos, 450 são utilizadas para o armazenamento de rejeitos de empresas de mineração, uma das principais atividades econômicas do Estado. Existem 46 barragens de rejeitos na região do Alto Rio das Velhas, de acordo com o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) – um acidente de grandes proporções em qualquer uma destas estruturas pode transformar o rio das Velhas em um curso de águas mortas, como aconteceu com o rio Doce, e levar a Região Metropolitana de Belo Horizonte e outras cidades que usam as águas do rio a ter sérios problemas para o abastecimento de suas populações. 

Uma das situações mais críticas poderá ser encontrada nas barragens da Mundo Mineração em Rio Acima, uma antiga mineradora que explorou ouro a céu aberto no local e que encerrou suas atividades em 2011. As duas barragens da antiga Mina Engenho utilizadas pela empresa estão cheias de resíduos dos processos da extração do ouro, especialmente arsênico, um metal pesado altamente tóxico. Sem receber manutenção há muito tempo, as barragens de terra compactada estão cobertas por mato e apresentam sinais de erosão. O arsênico (trióxido de arsênio) é carcinogênico para seres humanos e a sua ingestão oral é responsável por aumento na incidência de tumores no fígado, sangue e pulmões. Todos os compostos de arsênio são tóxicos. A dose letal para humanos é de 1 a 2 mg/kg por peso do corpo. 

As autoridades dos diversos níveis de governo vêm sendo alertadas sistematicamente por grupos ambientalistas sobre os riscos de rompimento das barragens e seus impactos na água utilizada para abastecimento de populações humanas. Suspeita-se, inclusive, que resíduos das barragens já estejam vazando e contaminando as águas lentamente. Os especialistas alertam que é preciso reforçar as barragens e manter um programa de monitoramento contínuo. Providências até o momento – nenhuma. 

Além das grandes mineradoras e suas problemáticas barragens de rejeitos de mineração, a bacia hidrográfica do rio das Velhas está cheia de pequenos mineradores ilegais, os famosos garimpeiros, que montam dragas nas águas dos rios e trabalham na busca do cobiçado ouro. Além dos grandes volumes de sedimentos lançados pelas dragas nas águas, os garimpeiros utilizam o mercúrio, um outro metal tóxico, para separar o ouro dos outros minerais. Além de provocar graves danos à saúde dos garimpeiros, o mercúrio pode contaminar o solo, as águas e se acumular ao longo da cadeia alimentar dos rios – peixes contaminados por mercúrio poderão contaminar as pessoas que venham a comer sua carne. 

As atividades mineradoras também afetam a flora e a fauna – trechos de matas são removidos para permitir o acesso aos veios minerais, provocando a fuga de animais silvestres pela destruição dos seus habitats. O carreamento de sedimentos gerados pelas escavações das mineradoras atinge as calhas dos rios, o que cria todas as condições para enchentes e transbordamentos nos períodos de chuva. Muitos trechos do rio das Velhas lembram muito a represa da PCH citada no início da postagem – há muito mais sedimento do que água na calha. 

 

 

 

O VAZAMENTO DE MAIS DE 1 BILHÃO DE LITROS DE “LICOR NEGRO” EM CATAGUASES, MINAS GERAIS, EM 2003

licor negro em cataguases

Postagem publicada em 25 de novembro de 2016: O VAZAMENTO DA BARRAGEM EM CATAGUASES: LEMBRA?

Os acidentes em barragens de rejeitos de mineração e de resíduos químicos são bem mais frequentes do que todos podem imaginar. A maioria dos acidentes com essas estruturas ou são pequenos e não chamam muito a atenção das comunidades, ou acontecem em regiões distantes do Brasil e não chegam às redações dos grandes veículos de comunicação – os casos relatados nas últimas postagens sobre vazamentos em Barcarena, no Estado do Pará, são grandes exemplos disso. 

Um caso que fugiu a estas regras foi o vazamento de uma barragem de rejeitos químicos resultantes da produção de celulose na cidade de Cataguases, Em Minas Gerais. Nesse acidente, houve o rompimento de uma barragem de lixívia ou licor negro – as fontes divergem sobre o volume total, que está entre 1 e 1,4 bilhão de litros. Leia o texto: 

Há pouco mais de um ano (lembrando que esta postagem é de 2016), uma barragem de rejeitos de mineração rompeu em Mariana, Estado de Minas Gerais – 62 milhões de m³ de rejeitos vazaram, destruindo o distrito de Bento Rodrigues, onde morreram 19 moradores e poluindo a maior parte da extensão do Rio Doce, desde o Estado de Minas Gerais até a sua foz no Espírito Santo. Essa notícia deve estar bem fresca em sua mente. 

Agora eu pergunto: algum de vocês se lembra do rompimento de uma barragem de rejeitos da produção de celulose em Cataguases, também no Estado de Minas Gerais, em 2003? 

Para quem não lembra (provavelmente todo mundo), a barragem de uma indústria de celulose rompeu e vazaram cerca de 1,4 bilhão de litros de lixívia ou licor negro, um rejeito tóxico do processo de produção da celulose (algumas fontes consultadas falam de um vazamento na ordem de 1 bilhão de litros).  O vazamento atingiu primeiro o córrego do Cágado, atingindo na sequência os rios Pomba e Paraíba do Sul, provocando fortes danos ao meio ambiente e causando muitos prejuízos para as populações ribeirinhas de cidades nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. A contaminação química da água foi tão grande que as autoridades ambientais proibiram a captação das águas do Rio Paraíba do Sul para abastecimento, deixando 600 mil pessoas sem água nas suas torneiras. 

O caso teve repercussão imediata: a imprensa dizia se tratar do maior acidente ambiental já ocorrido no Brasil até aquele momento. As equipes de reportagem mostravam imagens de famílias com as torneiras secas nas casas, pescadores de braços cruzados observando os peixes mortos nas águas dos rios e, especialmente, autoridades ambientais dos diversos níveis batendo cabeça, sem saber exatamente o que fazer. Uma das poucas providências que foram tomadas foi a aplicação de uma multa pelo IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, no valor de R$ 50 milhões contra a empresa responsável pela operação da barragem de rejeitos. O processo jurídico foi tão confuso que, passados treze anos, ainda não houve uma conclusão definitiva e a empresa responsável pelo acidente luta na justiça para reaver o valor da multa. 

Enquanto as autoridades discutiam o que fazer e as populações afetadas pelo vazamento continuavam atônitas, a natureza silenciosamente fez a sua parte: diferente do acidente no Rio Doce, a correnteza do rio Paraíba do Sul diluiu gradativamente o licor negro, empurrando vagarosamente as águas poluídas e as carcaças dos peixes mortos para longe; com a melhoria da qualidade das águas, as sucessivas cidades foram restabelecendo os sistemas de captação, tratamento e distribuição de água potável.   

A empresa conteve o vazamento e recuperou a barragem em três dias; a unidade de produção foi fechada e os rejeitos industriais que restaram nos reservatórios foram tratados e gradativamente lançados nas águas dos rios, sem chamar muita atenção – o solo do fundo dos reservatórios recebeu um tratamento com gesso, argila e adubos, recebendo a seguir o plantio de vegetação. A memória curta de nosso povo fez a sua parte e o acidente foi sendo esquecido: os mais jovens da cidade de Cataguases mal sabem descrever o que aconteceu naquele dia do ano de 2003. 

O Brasil é líder mundial na produção de celulose de fibra curta de eucalipto, produzindo atualmente 15 milhões de toneladas – as projeções indicam que o país se tornará o segundo maior produtor mundial de celulose no ano de 2020, com cerca de 20 milhões de toneladas. A exportação de celulose, papel e chapas de fibra de madeira responde por 4% da pauta de exportações brasileiras, gerando milhares de empregos e quase US$ 8 bilhões em receitas para o país (2015). Apesar destes números vistosos, existem dezenas de barragens de rejeitos químicos semelhantes àquela da cidade de Cataguases, que merecem atenção e monitoramento constante da sociedade. 

Gerar receitas e empregos para o país é fundamental; os diversos tipos de papéis e produtos da indústria madeireira produzidos são importantes no nosso dia a dia, porém não é possível admitir que essa produção continue a deixar a qualidade das águas dos nossos rios em risco constante. 

 

 

AS LAMBANÇAS DA NORSK HYDRO EM BARCARENA, PARÁ

norsk hydro em barcarena

Postagem publicada em 26 de fevereiro de 2018 – O VAZAMENTO DE REJEITOS DE MINERAÇÃO EM BARCARENA, OU A CASA DA MÃE JOANA

Uma mineradora multinacional, um vazamento de rejeitos de mineração e populações ribeirinhas sofrendo com a contaminação das águas pelos mais diferentes tipos de minerais tóxicos. 

Quem acompanha as postagens aqui no blog já viu esse mesmo roteiro em outras tragédias ambientais: vazamentos de rejeitos de mineração no rio Doce, em Mariana; no rio Pomba em Cataguases e no rio Itabirito, na divisa entre os municípios de Congonhas e de Ouro Preto, todas no Estado de Minas Gerais. Neste Estado existem mais de 700 barragens, sendo que ao menos 450 destas estruturas são utilizadas para o armazenamento de rejeitos de mineração – logo, não há como se estranhar o grande número de “acidentes”. 

Em novembro de 2016, tratei de um “acidente” envolvendo caulim, um mineral utilizado na produção de papel, que vazou dos tanques de rejeitos de uma empresa e contaminou inúmeros igarapés no município de Barcarena, no Pará. Apesar do forte impacto para as comunidades locais, a notícia teve repercussão apenas em veículos de comunicação do Estado. A mesma Barcarena agora é manchete em todo o mundo graças a um novo vazamento, agora de resíduos de uma empresa multinacional produtora de alumina. 

O Estado do Pará é o segundo maior produtor de minérios do Brasil, só perdendo para Minas Gerais. A atividade gera aproximadamente 300 mil empregos diretos e indiretos, numa cadeia produtiva que corresponde a 20% do PIB estadual e a mais de 80% das suas exportações. As duas maiores jazidas minerais são Oriximiná, grande produtora de bauxita, a matéria prima para a produção do alumínio, e a Serra dos Carajás, onde se encontra uma das maiores reservas de minério de ferro do mundo, além de minerais como manganês, cobre, bauxita, níquel e ouro. O município de Barcarena concentra um grande número de empresas processadoras de minérios e há muitos anos vem registrando uma série de vazamentos de rejeitos de mineração, com a contaminação de igarapés e lençóis subterrâneos de água. O drama vivido pela população local raramente consegue ultrapassar os limites do Estado. 

Na última semana começaram a pipocar notícias na imprensa nacional e internacional, com informações sobre vazamentos de rejeitos minerais de barragens da empresa multinacional Norsk HydroA unidade industrial da empresa de origem norueguesa, registrada como Alumina do Norte do Brasil S.A, está sediada desde 1995 em Barcarena, sendo considerada a maior processadora de alumina do mundo, com uma capacidade de produção anual de 6 milhões de toneladas. As fortes chuvas que vêm castigando toda a Região Amazônica neste verão, com índices acima da média, elevaram perigosamente os níveis das barragens de rejeitos. De acordo com denúncias feitas pela população que vive nas circunvizinhanças,  essas barragens passaram a liberar a perigosa “lama vermelha”, contaminada com altos níveis de resíduos minerais. Inicialmente, a empresa emitiu nota negando qualquer vazamento de lama ou rejeitos minerais a partir de suas instalações. 

Um relatório do Instituto Evandro Chagas, instituição federal de pesquisas científicas sediada na cidade de Belém, identificou graves danos ao meio ambiente, com modificações drásticas das características físico-químicas e biológicas das águas superficiais e subterrâneas da região de entorno da unidade da Alumina. O laudo técnico atestou a presenças de altos níveis de produtos químicos como fósforo, alumínio, nitrato e sódio nas águas, que também sofreram uma forte elevação no pH (potencial hidrogeniônico), passando a alcalina e imprópria para o consumo. Os níveis de alumínio encontrados na água, para citar um único exemplo, estavam 25 vezes acima do nível máximo permitido pela legislação

Durante as vistorias realizadas pelas autoridades ambientais, uma nova e gravíssima irregularidade foi encontrada – uma tubulação clandestina despejava irregularmente água contaminada com rejeitos minerais da empresa em um igarapé. Rapidamente, o discurso de negação da empresa mudou, passando a admitir a existência dos vazamentos. A empresa também se disse “surpreendida” pela descoberta da tubulação clandestina de drenagem e informou que estava abrindo uma auditoria interna para identificar e punir os responsáveis pela instalação irregular. 

Apesar da enorme repercussão provocada pelo acidente nos últimos dias, as primeiras notícias sobre o vazamento foram divulgadas ainda no dia 12 de fevereiro por um site de notícias de Belém – há rumores deste vazamento circulando nas redes sociais desde dezembro. Naquela data, a população já reclamava da cor e do gosto da água usada no abastecimento de suas casas. Na ocasião, as barragens de rejeitos de mineração já ameaçavam transbordar e as equipes da empresa passaram a utilizar sacos de areia para elevar a altura das barragens e tentar assim evitar o transbordamento. De acordo com informações dos habitantes da região, as barreiras com sacos de areia não foram eficazes o suficiente para impedir o vazamento da lama vermelha. 

Barcarena é uma espécie de “casa da mãe Joana” das empresas de mineração. Contando com enorme apoio e incentivos dos Governos Estadual e Federal, além de energia elétrica farta (e com preços subsidiados) produzida pela Usina Hidrelétrica de Tucuruí, o município se tornou grande produtor e exportador de produtos minerais. Graças à industria da mineração, o Pará ocupa a 11° posição no PIB nacional, porém apenas a 22° posição em distribuição de renda, o que mostra claramente as distorções econômicas da atividade. A exploração e a produção mineral, como é do conhecimento de todos, são altamente degradantes e potencialmente poluidoras do meio ambiente, exigindo das empresas um alto comprometimento em relação ao atendimento de uma rigorosa legislação ambiental.  

Apesar dos discursos ambientalmente engajados das grandes empresas do segmento, especialmente das multinacionais, os desrespeitos no cumprimento da legislação ambiental são notórios em grandes complexos minerais pelo país afora e os chamados “acidentes de produção” tem se tornado cada vez mais frequentes. Em Barcarena, graças ao relativo isolamento do município em relação aos principais centros urbanos do país e da falta de fiscalização das autoridades, os problemas costumam ser mais frequentes do que a média nacional. 

Além das evidentes consequências negativas do acidente ambiental, que deixou centenas de famílias sem abastecimento de água potável – para falar o mínimo, causou maior espanto a postura da empresa, que negou categoricamente qualquer irregularidade, só passando a admitir o acidente após a divulgação da descoberta da tubulação clandestina. A Noruega, nação a que pertence a controladora da empresa, é referência mundial em qualidade de vida, tecnologia, educação, governança pública, energias alternativas e produção limpa, ética e sustentabilidade ambiental – nós brasileiros, sistematicamente, somos apontados por dedos noruegueses e acusados de todos os tipos de agressões ambientais e da destruição da Floresta Amazônica. Era de se esperar uma postura mais ética da empresa escandinava. Vou falar disto na minha próxima postagem

Ironizando o drama: derramamento de rejeitos de mineração na Amazônia dos outros é refresco.

RELEMBRANDO O VAZAMENTO DE CAULIM EM UM IGARAPÉ DO PARÁ

vazamento de caulim no pará

Postagem publicada em 28 de novembro de 2016 : O VAZAMENTO DA BARRAGEM EM CATAGUASES: LEMBRA?

Desde a última sexta-feira, quando começaram a ser divulgadas as primeiras notícias sobre o rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho, Minas Gerais, as visitas ao blog aumentaram consideravelmente. Entre os assuntos mais pesquisados, postagens sobre acidentes com barragens dispararam na liderança. Em sintonia com todo esse interesse, vou republicar a partir de hoje algumas das postagens mais relevantes sobre esse assunto. 

Vamos começar falando sobre inúmeros vazamentos de produtos e rejeitos minerais no município de Barcarena, no Pará. Talvez pelo isolamento do Pará, muitos desses acidentes ficaram restritos aos noticiários das TVs e dos jornais locais da Amazônia. Entre os muitos acidentes já ocorridos em Barcarena, destacam-se os sucessivos vazamentos de caulim – entre os anos 2000 e 2016, foram registrados 7 acidentes com esse mineral no município. 

O caulim é um minério composto de silicatos hidratados de alumínio, como a caulinita e a haloisita, e possui larga utilização nas indústrias de cerâmica, de tintas e de papel. A produção de papel responde por 45% do consumo mundial de caulim, que é usado para dar maior alvura, maior durabilidade, maior brilho e melhor resultado na impressão de todo o tipo de documentos. Do total de rejeitos da fabricação do papel, os resíduos de caulim respondem por 22% do volume. As maiores reservas e minas para a exploração do caulim no Brasil são encontradas nos Estados do Amapá e do Pará

A região Amazônica, como todos devem lembrar, concentra a maior rede hidrográfica do mundo – 70% das reservas superficiais de água doce do Brasil estão na região. Apesar da aparente farta disponibilidade, a água usada diariamente pelas famílias ribeirinhas não vem dos grandes e famosos rios, que carreiam grandes quantidades de argila e precisam passar por tratamento antes do seu uso para o abastecimento – é a água limpa e clara dos igarapés que abastece essa população. Quando a população pobre da Amazônia não dispõe de um igarapé nas proximidades de suas casas, é preciso recorrer a um poço para o abastecimento de água. Os igarapés são afloramentos das águas subterrâneas dos lençóis freáticos e aquíferos, e são contados aos milhares em toda a Amazônia. 

No início deste mês (01/11/2016) houve um novo vazamento de caulim, atingindo os igarapés Dendê, Curuperé e São João, todos em Barcarena. Centenas de famílias da região, que são abastecidas com a águas desses igarapés, estão tendo de buscar fontes alternativas para o abastecimento de suas casas. Uma nota publicada pelo Ministério Público informou: “Há fortes indícios de contaminação das águas por substâncias poluentes, cujo consumo pelo ser humano pode ocasionar danos irreversíveis a saúde, por isso, há necessidade de confirmação técnica de tais fatos danosos ao meio ambiente”. 

A cidade de Barcarena é um importante pólo industrial regional, onde diversos minerais produzidos em toda a região Amazônica passam por beneficiamento e industrialização. Entre esses minerais e produtos temos o caulim, a alumina e o alumínio, cabos metálicos para transmissão de energia elétrica, entre outros produtos. Na cidade está localizado o maior porto do Estado do Pará, a partir do qual esses produtos são exportados para outras regiões brasileiras e para mercados consumidores em todo o mundo. Essa é a razão de tantos acidentes ambientais e, graças ao forte lobby de industriais e políticos, da tão escassa divulgação desses problemas para o restante do Brasil. 

Observem que uma simples e inocente folha de papel branco que você vai utilizar no seu dia a dia, já carrega em seu “DNA” toda uma carga de agressões ambientais, seja nas plantações de eucalipto em larga escala, seja no uso desta matéria prima nas fábricas produtoras de celulose e papel ou ainda na produção dos insumos como o caulim que serão usados no beneficiamento do papel. Essa pequena incursão em um acidente ambiental num igarapé nos confins da Amazônia mostra que os problemas da produção do papel são bem mais profundos do que se pode imaginar e começam bem antes do início da produção do papel propriamente dita. 

A reciclagem e reutilização dos papéis são atividades fundamentais para a redução do volume de resíduos que seriam destinados aos lixões e aterros sanitários, temas que ainda trataremos nesta série de posts. Porém é fundamental reduzir sempre que possível o uso do papel, especialmente nos dias atuais em que as mensagens podem ser transmitidas exclusivamente através de meio eletrônico com leitura em tela. Lembro do início da era dos computadores pessoais na década de 1980 (quando meu departamento recebeu um “poderosíssimo” computador Apple II Plus para automatizar todo o controle do estoque de peças da empresa) – os gurus da época falavam que os computadores iriam acabar com o uso do papel nas empresas: em realidade, aconteceu justamente o contrário e o uso do papel no mundo não parou de crescer, inclusive nos escritórios. 

Ao repensar se é realmente necessário usar alguma folha de papel para uma determinada atividade, você estará contribuindo tanto para a redução dos resíduos sólidos na sua cidade quanto para a redução da poluição de caulim em um pequeno igarapé na Amazônia e ajudando uma família a garantir o seu abastecimento diário de água. 

Que mundo maluco e complexo é esse nosso… 

O VAZAMENTO DE BARRAGENS DE REJEITOS E OS RISCOS PARA O ABASTECIMENTO DE ÁGUA NO RIO DE JANEIRO

rio de janeiro

Desde a tarde da última sexta-feira, dia 25 de janeiro, todos estamos acompanhando os desdobramentos do acidente com a barragem de rejeitos em Brumadinho, Minas Gerais. Infelizmente, o número de mortos na tragédia não para de crescer e as consequências ao meio ambiente ainda são uma incógnita. As equipes de busca ainda terão muito trabalho pela frente e os ambientalistas tempo de sobra para avaliar os impactos ao meio ambiente. Todos esperamos que, desta vez, os culpados paguem por crimes. 

Esse novo acidente com uma barragem de rejeitos de mineração reacende uma questão que levantei há bastante tempo – os riscos para o abastecimento de 16 milhões de cariocas e fluminenses. Deixem-me explicar o case

Cerca de 85% da água consumida pelas populações das cidades do Rio de Janeiro e da maior parte das cidades da Baixada Fluminense são captadas no rio Paraíba do Sul. Um engenhoso sistema de transposição de águas entre diferentes bacias hidrográficas, criado originalmente para permitir a geração em usinas hidrelétricas no interior do Estado do Rio de Janeiro, retira grande parte das águas do leito do rio Paraíba do Sul e as direcionam para o rio Guandu, responsável por conduzir essas águas na direção da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

Considerado o 5° rio mais poluído do Brasil, o Paraíba do Sul nasce nas Serra do Mar, no Estado de São Paulo. Em tempos geológicos distantes, ele era um dos muitos afluentes formadores do Tietê. Graças ao afundamento de um grande bloco de rochas por forças tectônicas, o que resultou na atual configuração física atual do Vale do Paraíba, o rio mudou o seu curso para o Norte e depois para o Leste, passando a correr na direção do Rio de Janeiro, onde se tornou o mais importante curso d’água do Estado. No seu caminho em direção ao Oceano Atlântico, o rio delimita grande parte da divisa entre os Estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. 

Apesar de poluídas, as águas do rio Paraíba do Sul passaram a ser cada vez mais disputadas pelos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Essa questão, que se desenrolou por vários anos, só chegou a bom termo no final de 2015, quando o STF – Superior Tribunal Federal costurou um acordo para o compartilhamento das águas. Os Estados aceitaram o acordo e acertaram com o Governo Federal e com a ANA – Agência Nacional de Águas, as regras para a gestão compartilhada das águas do Rio Paraíba do Sul, estabelecendo vazões mínimas para os reservatórios e mudando a prioridade do uso das águas do rio para o abastecimento e não mais para a geração de energia elétrica.  

Pois bem – vamos ao problema: grande parte da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul é ocupada por regiões com forte atividade mineradora, especialmente em regiões no Sul e Sudeste do Minas Gerais. Os minérios extraídos do solo raramente se apresentam puros, mas são acompanhados por diversas impurezas e precisam passar por um processo de beneficiamento. É aqui que surgem os famosos “rejeitos da mineração”, que precisam ser acumulados em barragens específicas. Uma das técnicas mais usadas para a construção das barragens de rejeitos é o alteamento a montante, onde os próprios rejeitos minerais são compactados para a formação de uma barragem. Conforme o volume de rejeitos vai aumentando, essa barragem vai sendo aumentada em degraus.  

Por razões de segurança, essas barragens de rejeitos precisam ser monitoradas constantemente por pessoal técnico especializado, ocasiões onde são emitidos laudos que comprovam a sua estabilidade e segurança. Infelizmente, mesmo com todo o cuidado do mundo, existem inúmeros fatores que podem levar uma barragem ao colapso – movimentações de solo, excesso de fluidez nos rejeitos, temporais, terremotos, etc. Tanto a barragem de Fundão em Mariana, quanto a barragem do Córrego do Feijão em Brumadinho, destruída na última sexta-feira, foram construídas usando essa mesma técnica, o que comprova que os riscos de acidentes são reais e a destruição dos rios Doce e Paraopebas estão aí para confirmar isso. 

Um exemplo dos riscos enfrentados pelas populações que dependem das águas do rio Paraíba do Sul foi o rompimento de uma barragem de rejeitos da produção de celulose em Cataguases, ocorrido em 2003. Nesse acidente, vazou 1,4 bilhão de litros de lixívia ou licor negro, um rejeito tóxico do processo de produção da celulose (algumas fontes consultadas falam de um vazamento na ordem de 1 bilhão de litros).  O vazamento atingiu primeiro o córrego do Cágado, atingindo na sequência o rio Pomba e, por fim, o rio Paraíba do Sul, provocando fortes danos ao meio ambiente e causando muitos prejuízos para as populações ribeirinhas de cidades nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. A contaminação química da água foi tão grande que as autoridades ambientais proibiram a captação das águas do Rio Paraíba do Sul para abastecimento, deixando 600 mil pessoas sem água nas suas torneiras

Felizmente para cariocas e fluminenses, esse vazamento ocorreu a jusante (rio abaixo) da barragem da Usina Elevatória de Santa Cecília, responsável por desviar parte das águas do rio Paraíba do Sul na direção da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Agora, imaginem se o rio Pomba tivesse sua foz algumas dezenas de quilômetros a montante e se parte desses rejeitos tóxicos fossem bombeados para o Estado do Rio de Janeiro? 

É claro que numa situação como essa, bastaria que se desligasse o bombeamento da usina elevatória por alguns dias, até que os rejeitos tóxicos fossem diluídos e as águas do rio voltassem a apresentar uma qualidade melhor. Além disso, a Represa do Funil, já no Estado do Rio de Janeiro, poderia manter as águas fluindo na direção do rio Guandu por um bom tempo. Mas, e se fosse uma torrente de rejeitos de mineração como o que atingiu o rio Doce? Passados mais de três anos desde o fatídico rompimento da barragem de Fundão, as águas do rio ainda apresentam altos níveis de contaminantes. Como ficaria o abastecimento da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro numa situação como essa? 

Além de barragens de rejeitos em regiões dos Estados de Minas Gerais e de São Paulo, existem inúmeras indústrias instaladas na região do Vale do Paraíba em São Paulo, montanhas de rejeitos e escórias de metais na região de Volta Redonda entre muitas outras fontes potenciais de poluição. Um descuido na fiscalização de uma barragem de rejeitos ou nos depósitos de uma indústria química, ou ainda uma temporada de chuvas mais forte, bastaria para iniciar uma grande tragédia ambiental. 

Sem outras fontes de abastecimento de água com produção suficiente para substituir as águas do rio Paraíba do Sul numa situação de emergência, uma opção a se pensar com muito carinho seria a construção de uma grande usina de dessalinização de água do mar na região.

Pena que as baías da Guanabara e de Sepetiba estão poluídas demais para sediar uma planta dessas…