MINA ENGENHO: A BARRAGEM DE MAIOR RISCO EM MINAS GERAIS

minaengenho

Publicado em 24 de outubro de 2017 – ROMPIMENTO DE UM DUTO DE REJEITOS EM OURO PRETO, OU FANTASMAS DA BARRAGEM DE MARIANA 

Em matéria publicada hoje (31/01/2019), o jornal O ESTADO DE SÃO PAULO fala da barragem Mina Engenho, na cidade de Rio Acima, em Minas Gerais. Abandonada desde 2011, a barragem se encontra em ruínas e apresenta sérios riscos de rompimento. Essa barragem tem um agravante: entre os rejeitos, ela apresenta uma grande concentração de arsênico, um elemento químico altamente tóxico. Leia a seguir uma postagem que publicamos em 2017, onde falamos dos problemas e riscos dessa barragem: 

No início do último mês de maio (2017), ocorreu o rompimento de um duto de rejeitos da Mina de Fábrica, que ocupa uma área entre as cidades de Congonhas e Ouro Preto – o vazamento só foi identificado no dia 13. Com o vazamento, o Córrego Prata foi contaminado, atingindo depois o Córrego Almas e na sequência o Ribeirão Mata Porcos que se transforma no Rio Itabirito, afluente do rio das Velhas. 

Em 17 de agosto, um novo vazamento em uma tubulação da Mina de Fábrica atingiu cinco mananciais da região e só não teve consequências maiores porque a maior parte dos rejeitos acabou acumulada na represa da PCH – Pequena Central Hidrelétrica, Agostinho Rodrigues. Esta centenária geradora de energia elétrica já foi responsável pelo abastecimento da cidade de Itabirito e hoje é a responsável pelo abastecimento de energia elétrica para uma tecelagem. A represa, que já chegou a ter uma profundidade máxima de 14 metros, atualmente tem uma profundidade média de 4 metros – em alguns pontos esta profundidade não passa de 2 metros. A PCH opera hoje com uma capacidade de geração elétrica reduzidíssima. 

A barragem já sofreu enormes danos estruturais devido a sucessivos vazamentos de rejeitos e a situação é considerada tão crítica que os técnicos responsáveis afirmam que as comportas não podem ser abertas. A mancha de resíduos desse último vazamento atingiu 70 km de extensão no leito do rio das Velhas e chegou bem perto do ponto de captação de água para o abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte. O rio das Velhas é o maior manancial de abastecimento da Região Metropolitana, fornecendo até 70% do total de água usada pela cidade de Belo Horizonte e também 40% da água usada pelos demais municípios da Região. 

Em 10 de setembro de 2014, o rompimento de um dique de contenção da Mineração Herculano, que resultou na morte de três funcionários, trouxe uma imensa onda de rejeitos minerais para a represa. No ano seguinte, um erro de operação na Barragem Forquilha VI, da mesma Mina de Fábrica, trouxe uma outra grande onda de rejeitos minerais para a represa da PCH. Com o último vazamento de rejeitos em setembro, a situação da barragem atingiu um ponto crítico e, tanto a empresa responsável pela operação da PCH quanto a Defesa Civil de Itabirito, temem pelo rompimento da estrutura caso ocorram chuvas fortes na região. As autoridades ambientais do município afirmam ser necessária a elaboração de um plano para a retirada dos resíduos que ameaçam a represa. 

A proprietária da Mina de Fábrica é uma velha conhecida de todos vocês – a Vale do Rio Doce, que não por acaso é uma das proprietárias da Samarco Mineração em sociedade com a anglo-australiana BHP Billiton. Para quem não lembra, foi a barragem de rejeitos de mineração da Samarco na cidade de Mariana que se rompeu em 2015, matando 19 pessoas, arrasando o Distrito de Bento Rodrigues e destruindo o Rio Doce, naquela que é considerada a maior tragédia ambiental já ocorrida no Brasil. Passados dois anos desde o acidente, o rio Doce está longe de voltar aos níveis de qualidade existentes antes do acidente e as cidades das bacia hidrográfica continuam enfrentando sérios problemas para abastecer suas populações com água potável; agricultores, pescadores e demais antigos usuários das águas do rio Doce continuam sem alternativas para retomar as suas atividades. 

Esses exemplos mostram os problemas que a mineração vem causando ao rio das Velhas e as ameaças que representam para o abastecimento de água dos 6 milhões de habitantes da Região Metropolitana de Belo Horizonte e demais cidades e usuários ao longo das suas margens. 

Em Minas Gerais existem mais de 700 barragens, sendo que, pelo menos, 450 são utilizadas para o armazenamento de rejeitos de empresas de mineração, uma das principais atividades econômicas do Estado. Existem 46 barragens de rejeitos na região do Alto Rio das Velhas, de acordo com o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) – um acidente de grandes proporções em qualquer uma destas estruturas pode transformar o rio das Velhas em um curso de águas mortas, como aconteceu com o rio Doce, e levar a Região Metropolitana de Belo Horizonte e outras cidades que usam as águas do rio a ter sérios problemas para o abastecimento de suas populações. 

Uma das situações mais críticas poderá ser encontrada nas barragens da Mundo Mineração em Rio Acima, uma antiga mineradora que explorou ouro a céu aberto no local e que encerrou suas atividades em 2011. As duas barragens da antiga Mina Engenho utilizadas pela empresa estão cheias de resíduos dos processos da extração do ouro, especialmente arsênico, um metal pesado altamente tóxico. Sem receber manutenção há muito tempo, as barragens de terra compactada estão cobertas por mato e apresentam sinais de erosão. O arsênico (trióxido de arsênio) é carcinogênico para seres humanos e a sua ingestão oral é responsável por aumento na incidência de tumores no fígado, sangue e pulmões. Todos os compostos de arsênio são tóxicos. A dose letal para humanos é de 1 a 2 mg/kg por peso do corpo. 

As autoridades dos diversos níveis de governo vêm sendo alertadas sistematicamente por grupos ambientalistas sobre os riscos de rompimento das barragens e seus impactos na água utilizada para abastecimento de populações humanas. Suspeita-se, inclusive, que resíduos das barragens já estejam vazando e contaminando as águas lentamente. Os especialistas alertam que é preciso reforçar as barragens e manter um programa de monitoramento contínuo. Providências até o momento – nenhuma. 

Além das grandes mineradoras e suas problemáticas barragens de rejeitos de mineração, a bacia hidrográfica do rio das Velhas está cheia de pequenos mineradores ilegais, os famosos garimpeiros, que montam dragas nas águas dos rios e trabalham na busca do cobiçado ouro. Além dos grandes volumes de sedimentos lançados pelas dragas nas águas, os garimpeiros utilizam o mercúrio, um outro metal tóxico, para separar o ouro dos outros minerais. Além de provocar graves danos à saúde dos garimpeiros, o mercúrio pode contaminar o solo, as águas e se acumular ao longo da cadeia alimentar dos rios – peixes contaminados por mercúrio poderão contaminar as pessoas que venham a comer sua carne. 

As atividades mineradoras também afetam a flora e a fauna – trechos de matas são removidos para permitir o acesso aos veios minerais, provocando a fuga de animais silvestres pela destruição dos seus habitats. O carreamento de sedimentos gerados pelas escavações das mineradoras atinge as calhas dos rios, o que cria todas as condições para enchentes e transbordamentos nos períodos de chuva. Muitos trechos do rio das Velhas lembram muito a represa da PCH citada no início da postagem – há muito mais sedimento do que água na calha. 

 

 

 

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