OS ALTOS E BAIXOS DA POLUIÇÃO NO RIO DAS VELHAS 

Cachoeiira das Andorinhas

O rio das Velhas é um dos mais importantes do Estado de Minas Gerais. Com sua nascente principal na cachoeira das Andorinhas em Ouro Preto (vide foto), o rio das Velhas percorre uma extensão total de 802 km até encontrar sua foz no rio São Francisco, do qual é o segundo tributário mais importante – só perde para o caudaloso rio Paracatu. A bacia hidrográfica do rio das Velhas ocupa uma área de mais de 29 mil km² dentro do Estado de Minas Gerais, onde se encontram 51 municípios, sendo que 47 estão totalmente inseridos na bacia hidrográfica e 7 parcialmente. Como acontece em outros grandes rios brasileiros, considerados altamente poluídos como o Tietê e o Iguaçu, o rio das Velhas apresenta variações na qualidade de suas águas em diferentes trechos da bacia hidrográfica. 

A bacia hidrográfica do rio das Velhas é dividida em trechos, segundo os cursos Alto, Médio e Baixo. O Alto rio das Velhas é o trecho onde encontramos a maior densidade populacional e, logo, a maior quantidade de problemas de qualidade das águas, classificada como Ruim. Este trecho vai de Ouro Preto até o trecho onde se encontra o rio Paraúna. Deste ponto até o córrego Salobinho na divisa dos municípios de Curvelo e Corinto fica o chamado trecho do Médio rio das Velhas, com água com qualidade considerada Média; o trecho final até a foz do rio no Rio São Francisco é conhecido como Baixo rio das Velhas e apresenta uma água considerada de Boa qualidade. Esses diferentes níveis de qualidade estão associados ao uso das águas, que varia muito ao longo da bacia hidrográfica em função dos diferentes processos de uso e ocupação do solo. Na região Metropolitana de Belo Horizonte, conforme apresentamos na última postagem, o rio das Velhas sofre com o lançamento de grandes volumes de esgotos domésticos, industriais e despejos de lixo e resíduos sólidos nas águas de muitos dos seus tributários; na região do Quadrilátero Ferrífero, como já diz o próprio nome, são as atividades ligadas à mineração as principais responsáveis pelos problemas que afetam a qualidade das águas, em especial o assoreamento por rejeitos da mineração e a contaminação por metais pesados e produtos químicos. O Quadrilátero Ferrífero tem o município de Ouro Preto no limite Sul dessa região e os municípios de Belo Horizonte, Contagem e Sabará como limite Norte. Desmatamentos, agricultura, poluição por agrotóxicos e pecuária são outras atividades desenvolvidas ao longo da bacia hidrográfica do rio das Velhas e que também contribuem, em diferentes graus, com os problemas ambientais das águas. 

As atividades ligadas a mineração estão entre as principais degradadoras da qualidade ambiental das águas do rio das Velhas.  Os solos da bacia hidrográfica apresentam grandes veios de minerais metálicos e não metálicos, especialmente no trecho do Alto rio das Velhas, entre São Bartolomeu e Sete Lagoas. Essa região, mais conhecida como Quadrilátero Ferrífero, é de extrema importância econômica para o Estado de Minas Gerais – ela representa mais de 90% da arrecadação do ICMS da atividade extrativa mineral no Estado. Os minerais mais importantes da região são o ferro, cobre, manganês, arsênio, urânio, alumínio e ouro. Uma espécie de subproduto das atividades mineradoras são os famosos rejeitos – os minerais nunca são encontrados em estado puro nos solos e precisam passar por processos que realizam a separação das impurezas, que formam os chamados rejeitos da mineração. Esses rejeitos minerais, juntamente com lama e areia, são armazenados em barragens, projetadas para permitir a percolação da água e a compactação da massa de resíduos sólidos. Além dos problemas ligados à contaminação dessa água percolada com metais pesados, que chegará aos rios, essas barragens de rejeitos de mineração podem apresentar riscos de rompimento, como o que aconteceu em Mariana e que destruiu o rio Doce em 2015. Além dos riscos das barragens chamadas ativas, existem diversas barragens abandonadas e sem manutenção, que apresentam riscos iminentes de rompimento – um exemplo citado em postagens anteriores são as barragens da extinta Mundo Mineração em Rio Acima, onde existem rejeitos contaminados com arsênio. O rio das Velhas atravessa uma parte da região do Quadrilátero Ferrífero e recebe uma classificação da Qualidade da Água Ruim no trecho. No médio curso do rio das Velhas existe a exploração de calcário, usado como matéria prima na indústria de cimento, enquanto a extração de areia ocorre ao longo de toda a bacia hidrográfica. 

Outra grande fonte de degradação ambiental, comentada na última postagem, são os lançamentos de esgotos domésticos e industriais nas águas do rio das Velhas. Os municípios que mais contribuem com esses efluentes são Nova Lima, Belo Horizonte, Caeté, Sabará, Pedro Leopoldo, Santa Luzia, Lagoa Santa, Sete Lagoas, Baldim e Santana do Pirapama. Além de apresentarem baixos índices de coleta ou de tratamento dos esgotos domésticos, estes municípios apresentam importantes polos com indústrias de adubos e fertilizantes, bebidas, matadouros, fábricas de papel e papelão, leite e laticínios. Este trecho do rio das Velhas, que recebe toda esta carga de poluentes através de ribeirões como o Arrudas, o Onça e o Matadouro, além dos os córregos Caeté e Diogo, recebe a classificação de Qualidade da Água Muito Ruim

De acordo com dados fornecidos pela COPASA – Companhia de Saneamento de Minas Gerais, no município de Belo Horizonte são coletados 96% dos esgotos gerados e 70% deste volume recebe o tratamento. Conforme comentado na postagem anterior, a empresa admite que mais de 25 mil imóveis na bacia hidrográfica do Ribeirão Arrudas não estão ligados na rede coletora de esgotos já instalada, o que contribui para os altos índices de poluição nas águas. De acordo com dados da FEAM – Fundação Estadual do Meio Ambiente, existem diversos municípios com índices muito baixo de tratamento de esgotos na região. O município de Sete Lagoas coleta 97,5% dos esgotos, porém, só trata 15% deste volume. Em Caeté, a situação é ainda pior: 90% dos esgotos são coletados e somente 3% recebem o tratamento. No município de Santa Luzia são tratados cerca de 21% dos 78% dos esgotos coletados; em Baldim coleta-se 99% do esgoto gerado, mas não há estação de tratamento de esgoto; em Funilândia coleta-se 38,52% do esgoto gerado e não há tratamento. 

A produção agropecuária se concentra nas regiões do Médio e Baixo rio das Velhas, com destaques para a produção de soja, milho, feijão, cana-de-açúcar, mandioca, café e tomate. A área ocupada pelas atividades agropecuárias corresponde a 1% da área total da bacia hidrográfica. A silvicultura, especialmente a produção de eucalipto, ocupa uma área equivalente a 4,1% da bacia hidrográfica. Já as áreas de pastagens usadas pela pecuária extensiva ocupam 45,6% da área da bacia, senda a atividade mais importante do trecho do Médio Rio das Velhas. As atividades agropecuárias representam baixos impactos para as águas do rio das Velhas. A enorme capacidade de autodepuração dos rios, associada aos grandes volumes de águas que o rio das Velhas recebe de muitos dos seus tributários, se reflete na qualidade das águas: no Médio rio das Velhas a Qualidade é considerada Média e no Baixo rio das Velhas é considerada de Boa Qualidade, o que é fundamental para ajudar na combalida “saúde” ambiental do rio São Francisco. 

Entre altos e baixos, o rio das Velhas segue na sua luta pela sobrevivência.

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