AS FLORESTAS SILENCIOSAS, OU CADA QUAL COM SEU PAPEL

eucalipto

Deixemos um pouco de lado a questão dos resíduos plásticos para falar de outros importantes problemas – papel e celulose.

Iniciei minha vida acadêmica na área de meio ambiente cursando uma pós graduação  em educação ambiental há quase quinze anos atrás. Na conclusão do curso apresentei uma dissertação falando do avanço da ocupação descontrolada das margens das represas do Sistema Cantareira e dos riscos que trariam no futuro ao abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo – para tristeza geral, a maior parte das previsões que fiz no meu texto se confirmaram em um prazo menor que as estimativas.

Durante os trabalhos em campo na região, percebi a invasão das plantações de eucaliptos, árvores usadas na produção da celulose, “ingrediente”principal para fabricação do papel. Imaginei que essas atividades poderiam afetar a qualidade e a quantidade da água dos reservatórios – meu professor orientador do trabalho de conclusão do curso afirmou que as plantações poderiam ser benéficas se devidamente manejadas, funcionando como um caminho de ligação entre os diversos fragmentos da cobertura florestal original que restaram nos topos das serras.

Vamos entender todas as relações entre as árvores de eucalipto, celulose, papel e meio ambiente:

Os papiros egípcios surgidos por volta do ano 3.000 A.C. são, com certeza, os mais famosos documentos da antiguidade escritos em um material parecido com o papel. O papiro é uma planta aquática muito abundante até hoje no Rio Nilo – as plantas eram colhidas e tinham os caules reduzidos a fibras que, depois de prensadas e secas, se transformavam em lâminas que permitiam que os escribas registrassem em tintas a vida e os costumes das inúmeras dinastias de faraós. Muitos destes documentos resistiram ao tempo e chegaram quase intactos aos nossos dias.

O papel com as características que conhecemos hoje foi inventado na China por volta do ano 105 de nossa era. Consta que T’sai Lun preparou uma mistura de cascas de amoreira, cânhamo e outras fibras vegetais, incluindo também restos de roupas. A massa foi batida e peneirada até formar uma camada bem fina, que foi colocada para secar ao sol. Esse processo original foi aperfeiçoado continuamente ao longo dos séculos, incorporando diferentes tipos de fibras vegetais. Em 1840 foi iniciado o uso da celulose na fabricação do papel, extraída da madeira de árvores, especialmente da família das coníferas, abundantes nas florestas do hemisfério Norte.

A celulose é um polímero natural das plantas, sendo o componente principal da parede celular vegetal e responsável pela manutenção da estrutura (espécie de esqueleto) que sustenta uma planta em pé. A celulose utilizada na produção do papel e papelão utilizados em nosso dia a dia é extraída da madeira de árvores da espécie eucalipto, de origem australiana, plantadas em imensas florestas artificiais conhecidas como “florestas silenciosas” – esse nome se deve ao fato dos animais e aves silvestres evitarem essas áreas pois as espécies de árvores cultivadas não são nativas da flora brasileira e, portanto, não produzem os alimentos das suas dietas naturais. Porém, como ensinou meu professor, essas florestas criam importantes corredores ecológicos de ligação entre fragmentos florestais, permitindo o contato entre populações isoladas de animais – esses animais são importantes dispersores de sementes de plantas: grupos isolados de plantas e de animais correm maiores riscos de extinção na natureza.

De acordo com dados do WWF-Brasil, uma organização não governamental brasileira participante de uma rede internacional comprometida com a conservação da natureza, a produção de uma tonelada de papel novo consome de 50 a 60 eucaliptos, 100 mil litros de água e 5 mil kW/h de energia, além de gerar resíduos, muitos resíduos. Contabilizando, entre outros resíduos, temos cascas das árvores (24%), a lama do cal (22%), lodos do tratamento dos efluentes (17%), fragmentos (14%) e as cinzas (11%), são 800 quilogramas de resíduos em média para cada tonelada de celulose produzida. É aqui que começam os problemas ambientais da produção do papel e do papelão, muito maiores inclusive que os problemas que serão gerados com os diversos tipos de papéis que usamos e descartamos diariamente em nossas casas, empresas, lojas, escolas e fábricas.

Continuaremos nesse assunto nos próximos posts.

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