UM NOVO RÉVELION E A VELHA POLUIÇÃO NA BAIA DA GUANABARA

BAIA DE GUANABARA

A cidade e o Estado do Rio de Janeiro tem sofrido muito nestes últimos tempos devido ao desgoverno geral que tomou conta da administração pública. Funcionários públicos com salários atrasados, escolas sendo obrigadas a fechar por causa de tiroteios, tropas federais deslocadas para ajudar no policiamento de ruas e de bairros, políticos tradicionais presos por causa de denúncias de corrupção, fuga de empresas e de investimentos em todo o Estado. O tradicional bom humor dos cariocas e fluminenses, por razões mais que óbvias, já não é o mesmo de antigamente.

Uma boa notícia divulgada hoje informa que a tradicional comemoração do Révelion este ano deve marcar um “ponto de virada” no desempenho da rede hoteleira da cidade do Rio de Janeiro. Os hotéis estão projetando uma taxa de ocupação de 75% durante o Verão, um volume que era comum antes da crise econômica que se abateu sobre o Estado. Durante o período das festas de fim de ano, a projeção indica uma taxa de ocupação próxima dos 90%. Em bairros mais tradicionais como Ipanema e Leblon, a taxa de ocupação poderá atingir a marca de 97%. Que lotem as praias durante a tradicional queima de fogos.

Como sempre acontece todos os anos, milhões de olhos vão ficar voltados para as águas do Oceano Atlântico e, infelizmente, serão poucos os que vão olhar para um problema que se arrasta há décadas na região: a poluição da Baia da Guanabara. Para lembrar somente um dos muitos projetos e planos assumidos pelas autoridades locais para a despoluição da Baía da Guanabara, havia o compromisso de reduzir em 80% o volume de esgotos lançados nas águas como parte integrante do Projeto Olímpico da Cidade do Rio de Janeiro – o ano de 2016 e a sua Olimpíada já ficaram para trás e até agora nada

Um outro grande projeto, anunciado com muita pompa e confetes foi o PDBG – Programa de Despoluição da Baía da Guanabara, que vigorou entre 1995 e 2006. Com investimentos de mais de R$ 2,5 bilhões do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento e do JICA, Banco de Desenvolvimento do Japão, os resultados obtidos se mostraram um verdadeiro fracasso. Existem inúmeras explicações técnicas e burocráticas para esse verdadeiro papelão. Na minha opinião, o problema maior (sem levar em conta os desvios de verbas e a corrupção) foi a prioridade dada à construção das ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos, obras mais complexas e caras, deixando a construção das redes coletoras de esgotos em segundo plano – sem conseguir transportar os esgotos para tratamento nas ETEs, o sistema inteiro não vale nada. Essas ETEs acabaram abandonadas e os esgotos continuaram a fluir na direção da Baía da Guanabara através de rios e córregos.

Lembro que durante as competições de vela na Olimpíada, batalhões de embarcações foram contratadas pelas autoridades para “pescar” todo o lixo flutuante que estivesse sobre as águas e assim diminuir um pouco a imagem de poluição na Baía da Guanabara. Redes de contenção foram montadas em inúmeros rios e córregos com foz na Baía, de forma a evitar que lixo e resíduos sólidos chegassem às águas, porém sem qualquer efeito no bloqueio dos esgotos e demais efluentes contidos nas águas – algumas estimativas afirmam que são 10 mil litros de esgotos a cada segundo.

A Baía da Guanabara ocupa uma área com aproximadamente 400 km² e acumula um volume de água com cerca de 3 bilhões de m³. A área de influência direta é bem maior e ocupa algo em torno de 4.000 km², onde estão incluídos os maciços e as colinas da Serra do Mar, a Baixada Fluminense, extensas áreas de manguezais e uma rede hidrográfica com aproximadamente 50 rios e córregos que despejam, em média, 200 mil litros de água por segundo na Baía da Guanabara. Essa grande região incorpora um total de 16 municípios, sendo que 10 estão totalmente inseridos na bacia hidrográfica (Duque de Caxias, Mesquita, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis, São Gonçalo, Magé, Guapimirim, Itaboraí e Tanguá) e 6 de forma parcial (Rio de Janeiro, Niterói, Nova Iguaçu, Cachoeiras de Macacu, Rio Bonito e Petrópolis). Nesta região vive 80% da população do Estado do Rio de Janeiro, estimada em 17 milhões de habitantes de acordo com o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Diferente de outras grandes Regiões Metropolitanas brasileiras que dispõem de grandes rios como o Tietê e o Iguaçu para dispersar seus esgotos e demais efluentes, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro se utiliza dos inúmeros rios e córregos da sua rede hidrográfica para lançar a maior parte dos seus efluentes diretamente nas águas da Baía da Guanabara. Em áreas mais urbanizadas das cidades, tubulações de emissários de esgotos se juntam aos cursos naturais, poluindo as águas de forma difusa. Como se já não bastasse toda a poluição lançada por via hídrica, a Bacia da Guanabara também recebe o lançamento diário de dezenas de toneladas de resíduos sólidos dos mais diferentes tipos, que descartados de maneira irregular em ruas, avenidas e em terrenos baldios, acabam carreados para dentro de rios e córregos, alcançando assim as águas da Baía.

A situação da Baía da Guanabara só não é mais crítica devido ao seu contato com o Oceano Atlântico, que com suas correntes marinhas consegue renovar completamente as águas da Baía a cada duas semanas, Mesmo com toda esta ajuda da natureza, a qualidade das águas na Baía não é das melhores e a maioria das 44 praias é considerada imprópria para banhos. Existem alguns pontos onde a poluição das águas é considerada crítica: a Península do Caju, o Canal do Fundão e o Porto do Rio de Janeiro, além da foz dos rios Irajá, Sarapui e Iguaçu. O trecho com os melhores índices de qualidade ambiental é a região do fundo da Baía da Guanabara, onde fica a APA – Área de Proteção Ambiental, do Guapimirim.

O contato de banhista, pescadores, velejadores ou qualquer outra pessoa com as águas da Baía da Guanabara pode levar a uma exposição a bactérias, vírus e protozoários. Entre as doenças mais comuns que podem ser desencadeadas por este contato estão as gastroenterites, que podem provocar vômitos, enjôos, dores no estômago, diarreia, dores de cabeça e febres. Também podem ocorrer infecções nos olhos, ouvidos, nariz e garganta. Com menor frequência podem ocorrer doenças mais graves como Hepatite A, cólera e febre tifóide. A melhor coisa a se fazer é evitar o contato com estas águas.

Lembrando de diversas espécies de golfinhos que estão sendo afetados pela poluição de rios e mares, sobre os quais tratamos em postagem anterior, a Baía da Guanabara já foi um habitat importante para os botos-cinza. De acordo com estudos da Faculdade de Oceanografia de UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a população deste cetáceo sofreu uma redução de 90% nos últimos 30 anos devido ao alto grau de degradação ambiental das águas.

Considerada por especialistas como uma das quatro mais belas baías de todo o mundo, a Baía da Guanabara agoniza a olhos vistos, com autoridades de todos os níveis de governo “batendo cabeça” e sem conseguir controlar a poluição. E, nesse caso específico, a solução do problema não se deveu à falta de recursos. Tudo isto é lamentável para as cidades da região – centenas de milhares de turistas que irão passar o período das festas de fim de ano no Rio de Janeiro, por exemplo, poderiam incluir passeios, pescarias e prática de esportes náuticos nas águas da Baía da Guanabara, assim como fazem em outras importantes baías do mundo como a de Sidney, na Austrália, e na de Nápoles, na Itália, entre muitas outras mundo afora. Esta seria uma forma de aumentar o período de estadia dos turistas na região e levar os recursos financeiros gerados pelas atividades turísticas para outros municípios da Região Metropolitana, especialmente aqueles com seus territórios voltados para a Baía da Guanabara.

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