A POLUIÇÃO QUE ESTÁ DESTRUINDO A BAÍA DE SEPETIBA

Baía de Sepetiba

Na minha última postagem falei da visível melhoria na qualidade das águas de algumas praias da Ilha do Governador, bairro insular da cidade do Rio de Janeiro cercado pelas águas poluídas da Baía da Guanabara. Símbolo do descaso e da má gestão ambiental, a maravilhosa Baía da Guanabara agoniza a olhos vistos há várias décadas, diante da perplexidade das populações que habitam nas diversas cidades do seu entorno e da incompetência das autoridades estaduais, que já deveriam ter solucionado ou, pelo menos, minimizado este problema. Autoridades dos Governos do Estado e da Cidade do Rio de Janeiro, só para relembrar, haviam assinado termos de compromissos para solucionar os problemas até a véspera dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 – o evento internacional já entrou para a história, mas os problemas continuaram. Infelizmente, os gravíssimos problemas de poluição na Baía da Guanabara não são um caso isolado – na mesma região Metropolitana do Rio de Janeiro existe uma outra baía maravilhosa que, desgraçadamente, sofre dos mesmos males: a Baía de Sepetiba.

A Baía de Sepetiba tem aproximadamente 305 km², algo equivalente a ¾ da Baía da Guanabara. Suas águas salobras e salgadas são delimitadas por diferentes formações geológicas: a Serra do Mar ao Norte, a Baixada Fluminense a Nordeste, o Maciço da Pedra Branca a Sudeste e a Restinga de Marambaia ao Sul, abrangendo um total de 12 municípios fluminenses. As águas protegidas e tranquilas da Baía de Sepetiba foram, ao longo de milhares anos, uma espécie de refúgio para a vida marinha, especialmente para os botos-cinza: esta Baía costumava abrigar a maior concentração de indivíduos da espécie de todo o mundo.

A flexão do verbo costumar que eu usei (3ª pessoa do singular do Pretérito Imperfeito do Indicativo) foi proposital: a intensa poluição das águas da Baía de Sepetiba está, literalmente, dizimando a população local de botos-cinza e mostrando ao mundo a triste sina de mais uma das baías do Estado do Rio de Janeiro. Além dos botos, as populações de um sem número de espécies marinhas como peixes e crustáceos estão se reduzindo e desaparecendo. Espécies que eram muitos comuns nas águas da Baía de Sepetiba como cavalas, sororocas, cações, camarões e mariscos, estão ficando cada vez mais raras – a diversidade de espécies nestas águas está cada vez menor. Os cerca de oito mil pescadores registrados na Associação dos Pescadores Artesanais, que vivem e/ou trabalham na região, penam cada vez mais para retirar seu sustento das águas – muitos deles acabaram transformando seus antigos barcos de pesca em embarcações adaptadas para o transporte de turistas: a belíssima paisagem do entorno ainda permite alguns ganhos.

Uma parte importante dos problemas ambientais da Baía de Sepetiba está ligada ao despejo de grandes volumes de esgotos domésticos in natura. O famoso e poluído Rio Guandu, responsável pelo fornecimento de 80% da água consumida pela cidade do Rio de Janeiro, tem sua foz na Baía de Sepetiba. Calcula-se que a bacia hidrográfica do Rio Guandu receba aproximadamente 4 bilhões de litros de esgotos todos os dias, a maior parte despejada sem qualquer tipo de tratamento por cidades da Baixada Fluminense, sendo que uma grande parte destes poluentes acaba carreada até as águas da Baía. Outras cidades da região do entorno também dão sua contribuição e despejam seus próprios esgotos em córregos e rios com deságue na Baía de Sepetiba.

O esgoto doméstico, porém, não é a única fonte de problemas – existem mais de 450 instalações potencialmente poluidoras na região de entorno, incluindo indústrias, portos, siderúrgicas, aterros sanitários, entre outras, que geram diariamente grandes volumes de esgotos industriais com altos níveis de contaminação por metais pesados como cádmio, zinco e chumbo. Estimativas de pesquisadores da UFF – Universidade Federal Fluminense, indicam que existem concentrações de até 8 mg/kg de cádmio nas águas da Baía de Sepetiba – em condições naturais, está concentração não passaria de 0,2 mg/kg; outro grave problema são os níveis de zinco, estimados em valores entre quatrocentas e oitocentas vezes acima do nível máximo recomendado por organizações ambientais internacionais.

A prática em gestão ambiental demonstra que quando um problema de poluição envolve diversas cidades, a solução é bastante complicada: haverá sempre a tendência de uma cidade afirmar que as outras são as responsáveis pelos problemas e pelos custos para a resolução da questão (o famoso empurra-empurra que todos conhecemos). Numa situação como a da Baía de Sepetiba, da mesma forma que na Baía da Guanabara, caberia às autoridades do Governo do Estado do Rio de Janeiro o comando das ações para o controle das fontes poluidoras e a implantação de medidas para a gradual recuperação da qualidade ambiental das suas águas. Sem nos prendermos ao atual caos administrativo que tomou conta do Governo Estadual (inclusive com a prisão de ex-governadores e diversas autoridades, crise fiscal sem precedentes e fuga de investimentos), vou citar um único exemplo da falta de responsabilidade na gestão ambiental: a implantação do aterro sanitário de Seropédica.

Em operação desde 2011, o aterro sanitário de Seropédica foi construído com o objetivo de substituir o “quase lendário” lixão do Jardim Gramacho, desativado pelas autoridades ambientais como parte do PRBG – Programa de Recuperação da Baía da Guanabara. O aterro sanitário de Seropédica passou então a receber 10 milhões de toneladas diárias de resíduos sólidos gerados pelas cidades de Seropédica, Itaguaí e Rio de Janeiro. Em tese, não haveria qualquer problema em fechar um lixão irregular e passar a utilizar um aterro controlado – aliás, esse é um dos objetivos principais da PNRS – Política Nacional de Resíduos Sólidos. Um dos grandes problemas do empreendimento é que o terreno de 2 milhões de m² escolhido para a implantação do aterro fica sobre o aquífero Piranema, uma reserva estratégica de água que poderá ser fundamental para o abastecimento futuro da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Um outro gravíssimo problema, já flagrado diversas vezes, são os lançamentos clandestinos de chorume (líquido resultante da decomposição de resíduos orgânicos) gerados no aterro nas águas da Baía de Sepetiba. As “otoridades” transferiram (para falar o mínimo) o problema de uma Baía, a da Guanabara, para outra, a de Sepetiba.

E assim, mais um maravilhoso cartão postal do litoral brasileiro está a um passo do desastre completo ou, como dizemos aqui no meu bairro, a Baía de Sepetiba está “indo para o vinagre”.

Lamentável!

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