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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

LEMBRANDO DA REVOLUÇÃO VERDE, OU AINDA FALANDO DA CRISE DOS FERTILIZANTES 

Solos férteis, falando de uma forma bem simplificada, são os que permitem o desenvolvimento e a sustentação de vida vegetal. Esse tipo de solo reúne sedimentos minerais como areia, silte e argila; matéria orgânica resultante da decomposição de plantas e animais mortos; água e também ar. Também precisa reunir algumas formas de vida animal como as colônias de bactérias responsáveis pela decomposição da matéria orgânica. 

Insetos como as formigas e vermes como as minhocas também possuem um papel importante na fertilidade dos solos. As formigas carregam grandes quantidades de folhas e outras matérias orgânicas para suas colônias subterrâneas – essa matéria servirá para o “cultivo” de fungos, o alimento das formigas. A decomposição dessa matéria orgânica libera nitrogênio no solo, um elemento fundamental para a nutrição das plantas. As fezes das minhocas também liberam nitrogênio nos solos. 

Contando com sedimentos para dar sustentação às raízes, com nutrientes e água para “alimentar” as plantas e ainda com a energia da luz do sol, a vida vegetal consegue se desenvolver e sustentar a base da cadeia alimentar de um ecossistema. Em uma região de deserto de areias, como ocorre em grande parte do Deserto do Saara, os solos não reúnem todos esses elementos, por isso a raridade de vida vegetal. 

De outro lado encontramos florestas luxuriantes como a Amazônia, que aparentam possuir solos de altíssima fertilidade. Ledo engano – a maior parte dos solos da Amazônia apresentam uma alta acidez e uma baixíssima fertilidade. Toda a vida vegetal da grande floresta depende de uma grossa camada de matéria orgânica que cobre o solo e que provém da decomposição de restos de matéria orgânica da própria floresta e de animais mortos.  

Em vários locais da Amazônia, onde grandes extensões da floresta foram derrubadas para a implantação de campos agrícolas e pastos para o gado, a pouca fertilidade dos solos se perdeu dentro de poucos anos. Exposta às fortes chuvas da região, essa camada de matéria orgânica ou húmus acabou sendo carreada pelas águas, deixando solos onde mal crescem plantas rasteiras. Existem milhares de hectares desses solos abandonados na região, especialmente no Leste do Pará. 

Um caso bem interessante de perda de fertilidade dos solos de uma grande região foi o que ocorreu na América Central, que num passado já distante sustentou grandes impérios ameríndios como os maias, astecas e toltecas. Em um passado já bastante remoto, tribos indígenas que migraram de regiões desérticas do Norte do México e do Sudoeste dos Estados Unidos encontraram nas regiões dos planaltos centro-americanos uma espécie de gramínea que produzia saborosos grãos comestíveis.  

Domesticadas ao longo de muitas gerações, essas gramíneas foram transformadas no milho, um dos alimentos mais importantes do Novo Mundo. Grandes trechos das florestas da América Central passaram a ser queimadas para a formação de grandes plantações de milho, que sustentavam milhões de índios naqueles tempos. 

Essa queima das matas, que aqui no Brasil é conhecida como coivara, permite tanto a limpeza do terreno quanto uma adubação rudimentar pelas cinzas. Com o passar do tempo, esses solos perdem a fertilidade e outras áreas precisam ser queimadas para a formação de novos campos agrícolas. De acordo com vários estudos científicos, foi essa destruição de grandes áreas florestais a principal responsável pelo fim de algumas dessas civilizações indígenas, principalmente a maia. 

As dificuldades para a manutenção da fertilidade dos solos agrícolas ao longo de grandes períodos de tempo sempre foi um fantasma que acompanhou a humanidade desde o início da agricultura, surgida entre 10 e 12 mil anos atrás. Povos que viviam ao lado de grandes rios como o Tigre e o Eufrates na Mesopotâmia; o Nilo no Egito; o Ganges e o Indus no Subcontinente Indiano, ou ainda nas várzeas de grandes rios do Sudeste Asiático e Extremo Oriente, sempre podiam contar com o período das enchentes, quando uma grossa camada de nutrientes era trazida todos os anos pelas águas e recobria esses solos. 

Povos que não contavam com essa dadiva da natureza eram obrigados a se valer de uma série de artimanhas para garantir uma produção agrícola adequada. Uma dessas técnicas, que se manteve por vários milênios, era a rotação de terras. Enquanto um pedaço de uma área de terras estava sendo usado para a agricultura, outros trechos ficavam “descansando” por alguns anos, o que permitia que os solos recuperassem a sua fertilidade. 

As coisas, porém, nem sempre saíam do jeito que se esperava. Safras com baixa produtividade, secas, pragas agrícolas e ataques de gafanhotos, guerras, entre outros males, frequentemente assolavam povos inteiros e grandes contingentes populacionais sofriam com a fome e a desnutrição. Esse fantasma da insegurança alimentar ligada à produção agrícola (contra as guerras nunca houve muito o que se fazer) só passou a ser razoavelmente controlada há bem poucas décadas atrás. 

Um marco no aumento da produtividade agrícola data da década de 1930, quando o agrônomo norte-americano Norman Borlaug passou a realizar melhoramentos e a seleção de diferentes variedades de trigo, onde buscava plantas com maior produtividade, resistência a doenças e pragas. Plantações experimentais feitas anos depois no México resultaram em uma produtividade até sete vezes maior. O trabalho de Norman Borlaug para o aumento da produtividade na agricultura lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz de 1970. 

Outra fonte importante de inovações surgiu, surpreendentemente, de estudos feitos para a fabricação de gases venenosos para uso militar durante a Segunda Guerra Mundial. Muitas das moléculas que foram desenvolvidas viriam a ter um uso mais nobre como defensivos agrícolas para o controle de pragas, como fungicidas e também herbicidas. 

O desenvolvimento da indústria também resultou na criação de fertilizantes químicos baratos e de fácil produção, que revolucionariam para sempre a agricultura, inclusive em países pobres e que já tinham uma longa história de baixa produtividade agrícola e ciclos de fome. A mecanização da agricultura também foi um fator fundamental para o aumento da produtividade no campo. 

Em 1966, durante uma convenção das Nações Unidas sobre agricultura realizada na cidade de Washington, capital dos Estados Unidos, o pesquisador William Gown cunhou uma expressão que resumiria todas essas mudanças na agricultura – Revolução Verde

Um exemplo dessa Revolução Verde foi o que se passou aqui no Brasil na região do Cerrado. Conforme já comentamos em diversas postagens anteriores, essa grande região brasileira sempre foi considerada “inútil” para fins de agricultura. Os solos são extremamente ácidos e de baixíssima fertilidade. 

Com a criação da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, ainda na década de 1960, passaram a ser realizadas pesquisas para o desenvolvimento de grãos adaptados aos solos e ao clima do Cerrado brasileiro. Em 1975, a EMBRAPA apresentou as primeiras variedades de soja e de milho adaptadas para o plantio no Cerrado. 

Com o tratamento dos solos da região com calcário, processo conhecido como calagem, com as sementes adaptadas e com o uso intensivo de fertilizantes e defensivos químicos, o Cerrado se transformou no grande celeiro de grãos do Brasil. Processos semelhantes de grande aumento da produtividade agrícola ocorreram nessa mesma época na Índia, Paquistão e China, entre muitos outros países. 

Com todas as reservas que precisamos fazer sobre os impactos ambientais dos excessos praticados, é simplesmente impossível desenvolver uma agricultura moderna de grande produtividade sem o uso de fertilizantes e de defensivos químicos, especialmente em um mundo que tem 7,7 bilhões de bocas para alimentar. 

A CRISE ENERGÉTICA PODERÁ SE TRANSFORMAR EM UMA CRISE DE PRODUCÃO DE ALIMENTOS 

O mundo está vivendo uma grave crise enérgica nesses tempos em que a pandemia da Covid-19 parece estar se encaminhando para um sensível declínio. Aqui no Brasil assistimos a aumentos sucessivos nos preços da gasolina, do óleo diesel e do gás de cozinha.  

Em países da Europa, na China e no Japão, o que tem tirado o sono dos Governantes são os aumentos explosivos nos preços do gás natural e do carvão, combustíveis essenciais para a produção de energia elétrica. O drama cresce a medida que o inverno do Hemisfério Norte se aproxima, época em que os países enfrentam uma demanda maior de energia para uso no aquecimento das casas. 

Na esteira dos problemas energéticos, o mundo poderá viver uma outra crise – a produção de alimentos poderá ficar comprometida devido à falta de fertilizantes. Vamos entender um pouco melhor essa situação. 

Fertilizantes são produtos e compostos químicos, de origem orgânica e inorgânica, que são utilizados na agricultura convencional para aumentar artificialmente a quantidade de nutrientes no solo e assim se conseguir uma maior produtividade. Entre os fertilizantes orgânicos podemos citar os estercos de animais, a farinha de osso, o húmus de minhoca, a farinha de mamona, entre outros. Entre os fertilizantes inorgânicos os mais usados são o nitrogênio, o fósforo e o potássio, mais conhecidos pela sigla NPK, entre muitos outros.  

Quem tem uma horta no fundo do quintal ou alguns vasos com plantas ornamentais em sua casa normalmente costuma se valer de adubos orgânicos, que garantem uma produção mais natural. Em grandes plantações comerciais, ao contrário, fertilizantes químicos são essenciais para uma alta produção. É justamente aqui onde o “perigo mora”. 

Nas últimas décadas, o Brasil se transformou em um dos maiores produtores agrícolas do mundo, notadamente nas culturas de grãos como a soja e o milho. No encalço da agricultura existem as atividades pecuárias, que dependem dos grãos para a produção das rações servidas aos animais. A agropecuária já responde por mais de 20% do PIB – Produto Interno Bruto, do país e alguns analistas acreditam que essa participação chegará a 30% em bem pouco tempo. 

De acordo com dados do Governo Federal, um em cada cinco pratos de comida servidos no mundo foi feito usando alimentos produzidos aqui no Brasil. Esse dado demonstra a importância dessas atividades econômicas para o Brasil e também para a segurança alimentar de boa parte da população mundial. 

Apesar de toda essa pujança no campo, a agricultura e, de quebra, a pecuária, tem um calcanhar de Aquiles – 85% de todos os elementos químicos usados na produção dos fertilizantes usados em nosso país são importados, especialmente os do grupo NPK. Aumentos nos custos desses insumos ou a falta deles, resultarão em sérios problemas para a agropecuária do Brasil e de muitos outros países pelo mundo afora. 

Entre os principais fornecedores de elementos químicos usados na produção de fertilizantes como potássio, enxofre, ureia, amônia anidra, ácido fosfórico, rocha fosfática e o NPK figuram países como Estados Unidos, Rússia, China, Canadá e Alemanha, entre outros. Muitos desses países estão passando por sérios problemas internos, o que tem reflexos diretos na produção e no preço dos insumos. 

A China, citando um exemplo, responde por 25% de todas as exportações mundiais de fósforo. Conforme comentamos em uma postagem anterior, o país está passando por uma grande crise de geração de energia elétrica por causa dos fortes aumentos nos preços do gás natural e do carvão. Sem contar com volumes adequados de energia elétrica, que em algumas regiões do país sofreu uma redução na oferta da ordem de 80%, muitas fábricas tem reduzido ou simplesmente parado a produção. 

Com o forte aumento na demanda por alimentos e as sucessivas altas nos preços de várias commodities agrícolas, muitos contratos para o fornecimento de fósforo tiveram seus preços duplicados, algo que vem criando um clima de muita especulação nos mercados. 

Outro elemento químico essencial para a agricultura é o potássio – o Brasil consome 18% de toda a produção de potássio do mundo. As maiores reservas desse elemento se encontram no Canadá, na Rússia e na Bielorrússia, país que está vivendo uma crise política grave e que poderá resultar em sérias dificuldades no mercado mundial. A Bielorrússia produz 20% do potássio consumido no mundo. O potássio já acumulou uma alta de preço de 200% apenas nesse último ano. 

O nitrogênio é outro elemento químico que está apresentando uma grande alta nos seus preços. O responsável aqui é o gás natural, combustível de onde se extrai o nitrogênio. O gás natural subiu muito nos últimos meses – na Inglaterra, o combustível aumentou cerca de 280%; na Alemanha esse aumento foi de 119% e na Franca de 149%. 

Além desses problemas específicos existem outros mais difusos – o custo dos transportes marítimos, por exemplo, aumentou muito nos últimos meses, o que tem se refletido em aumento dos preços de outros elementos químicos. Outro fator importante é a especulação de mercado – muitos empresários tem se aproveitado da situação para aumentar suas margens de lucro. 

O somatório de todos esses problemas poderá resultar em um aumento generalizado no preço de alimentos e de outras commodities agrícolas – ou seja, vai doer no bolso de todo mundo. Quem frequenta os supermercados com regularidade tem acompanhado com muita apreensão a disparada nos preços de produtos básicos do nosso dia a dia como o arroz, o feijão e as carnes. A simples possibilidade de aumentos de preços ainda maiores assusta muita gente. 

Nos últimos dias, o Governo Federal passou a anunciar o desenvolvimento de vários estudos para a ampliação da produção de elementos químicos para uso na produção de fertilizantes aqui no país. O Brasil possui diversas reservas desses minerais já em exploração e muitas outras já prospectadas e com grande potencial de produção. 

Aqui eu gostaria de destacar uma preocupação pessoal – foram citadas por algumas autoridades brasileiras a existência de reservas de fosfato na região da foz do rio Madeira e também na Ilha de Marajó, ambas na Amazônia. Atividades mineradoras sempre são problemáticas para o meio ambiente e não seria diferente na Amazônia. A urgência na obtenção desses elementos químicos poderá aumentar, e muito, os danos ambientais desencadeados pela mineração.

Vamos todos torcer para que os males que poderão ser desencadeados por essa crise na produção de alimentos sejam os menores possíveis, uma vez que os estragos serão inevitáveis. 

O JAPÃO E SUA DEPENDÊNCIA DOS COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS

Na tarde do dia 11 de marco de 2011, um forte terremoto com intensidade 8,9 graus na escala Richter sacudiu o leito marinho do Oceano Pacífico ao largo da Ilha Honshu, a maior do arquipélago do Japão. Diferente de outros fortes terremotos que atingem a região com relativa frequência, esse abalo sísmico resultou na formação de um grande tsunami, uma grande onda com altura entre 13 e 15 metros. 

Cerca de 50 minutos depois, essa grande onda chegou na região de Fukushima, atingindo em cheio a usina nuclear ali instalada. O avanço das águas do oceano encobriu o paredão de 5,7 metros da usina e inundou as instalações da unidade. Entre as áreas atingidas estava o prédio dos geradores, onde a água provocou o desligamento dos geradores de emergência. 

Entre outros problemas, a falta de energia elétrica provocou a interrupção do bombeamento da água usada no resfriamento dos reatores nucleares da usina e resultou num superaquecimento e fusão parcial dos núcleos dos reatores 1, 2 e 3. Se seguiram explosões de hidrogênio, o que danificou a estrutura de confinamento dos reatores (vide foto). Começava assim a saga de um dos maiores acidentes nucleares da história. 

Entre outros graves desdobramentos, o acidente nuclear na usina de Fukushima obrigou o Governo do Japão a interromper temporariamente toda a geração elétrica em seu parque nuclear e decretar uma revisão geral de todas as normas de segurança. Essa geração respondia por aproximadamente 25% de toda a energia elétrica do país. Centrais termelétricas a carvão e a gás natural, que há época respondiam por mais de 70% da geração elétrica no país, foram levadas à potência máxima para tentar garantir o abastecimento da população. 

Ao longo dos últimos dez anos, as fontes de energia renováveis cresceram bastante e já respondem por cerca de 17% da matriz energética do país – a geração por centrais nucleares representa cerca de 9% de toda a geração elétrica. A maior parte de toda a energia elétrica consumida no Japão, entretanto, continua dependendo de centrais termelétricas, o que é um grande problema num momento de forte alta nos preços dos combustíveis. 

No total, o Japão possui atualmente 140 usinas termelétricas a carvão em operação e existem outras 10 em fase de projeto. Juntas, essas unidades respondem por cerca de 1/3 de toda a energia elétrica consumida no país. A geração em centrais térmicas a gás são responsáveis por 38% de toda a geração elétrica. Juntas, essas usinas geram mais de 70% de toda a energia elétrica consumida no Japão. 

Essa forte dependência de combustíveis fósseis para a geração de energia elétrica torna o Japão alvo de fortes críticas entre os ambientalistas. Porém, não custa lembrar que o país é um arquipélago formado por quatro grandes ilhas, seiscentas ilhas menores e perto de oitocentas ilhotas, uma geografia que exige um sem número de unidades de geração elétrica independentes. Centrais térmicas a gás e a carvão ainda são as melhores opções técnicas para o país. 

De acordo com informações divulgadas pela imprensa local, o Governo japonês tem planos para desativar 100 das 114 usinas térmicas a carvão mais antigas até o ano de 2030. As demais 26 usinas desse tipo em operação utilizam uma tecnologia mais moderna, sendo bem mais eficientes em termos de produção de energia e também bem menos poluentes que as antigas termelétricas, apesar de poluírem o dobro quando comparadas a uma central térmica a gás. 

Nesse mesmo prazo, os japoneses pretendem aumentar a participação de fontes de geração renováveis como a fotovoltaica, eólica e de queima de biomassa a valores próximos de ¼ da matriz energética do país. Também esperam aumentar a participação da geração nuclear a valores entre 20 e 22% da matriz energética, um percentual que ainda continuaria abaixo do que era gerado antes do acidente nuclear de Fukushima

Falar de energia atômica no país é um tema delicado. O Japão foi o único país do mundo a ser atacado por armamentos nucleares na história – falo aqui das bombas atômicas lançadas sobre as cidades de Hiroshima Nagasaki, eventos que culminaram com a rendição incondicional do país e marcaram o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.  

Além das centenas de milhares de mortes provocadas logo após esses ataques, outras centenas de milhares de pessoas sofreram ao longo das décadas seguintes por causa dos efeitos da radiação. Energia nuclear é um tema que divide opiniões no país até hoje. O acidente com a usina nuclear de Fukushima reacendeu antigos medos e trouxe à tona trágicas lembranças. 

Para muitos japoneses, especialmente para os mais idosos, qualquer outra forma de geração de energia – mesmo em se tratando de fontes fósseis poluentes, é melhor do que um aumento do uso de fontes nucleares. Apesar das limitações que isso pode causar para a terceira maior economia do mundo, isso abre a possibilidade de uma busca cada vez maior por fontes renováveis como as eólicas, fotovoltaicas, queima de biomassa, entre outras. 

Apesar dos enormes impactos econômicos da forte alta nos custos da energia elétrica nos últimos meses, os japoneses tem um trunfo a seu favor – o setsuden, um movimento civil de estímulo a conservação e economia de energia elétrica. Esse movimento surgiu imediatamente após o acidente com a usina nuclear de Fukushima, quando a população ficou preocupada com possíveis blecautes. 

Além de todo o esforço da população civil, o Governo japonês tomou uma série de medidas para estimular as empresas a buscar alternativas para a redução do consumo de energia. A combinação de todos os esforços resultou numa redução do consumo de energia elétrica de 8% no Japão entre 2011 e 2018. Essa mesma consciência social poderá fazer toda a diferença nesse momento de crise energética. 

Da mesma forma que vem acontecendo em outros países, a atual crise energética no Japão vai levar a um aumento das emissões de gases de efeito estufa nos próximos meses – muito carvão será queimado ao longo desse inverno. 

A esperança é que isso resulte em um aumento cada vez maior da consciência ambiental entre os governantes e que resulte em ações e buscas por fontes cada vez mais sustentáveis de geração de energia elétrica num futuro bem próximo. Como é corrente na cultura do Extremo Oriente, toda crise gera novas oportunidades! 

A CRISE ENERGÉTICA NO REINO UNIDO

Nas postagens anteriores falamos dos problemas energéticos que estão tirando o sono de muitos governantes pelo mundo afora. Aqui no Brasil, como é do conhecimento de todos, estamos convivendo com sucessivas altas nos preços dos derivados de petróleo – especialmente o diesel e o gás de cozinha. 

Nossos problemas ganham maior corpo quando incluímos na equação a grave crise hídrica que está assolando grande parte do Brasil Central. Sem poder contar apenas com a geração hidrelétrica, uma infinidade de usinas termelétricas foram acionadas, lembrando que os combustíveis usados por essas unidades são o carvão, o gás natural e o óleo diesel, insumos que encareceram bastante nos últimos meses. 

Na China e na Europa os problemas estão concentrados em torno do gás natural e do carvão. Após uma brusca redução do consumo por cerca de um ano e meio devido a pandemia da Covid-19, as economias desses países começaram a crescer mais rápido do que se esperava – quanto mais forte o crescimento econômico maior é a demanda por combustíveis. Como todas as cadeias de produção e de distribuição estavam em marcha lenta, começou a faltar combustíveis e os preços subiram muito. 

Um dos países europeus que mais tem enfrentado problemas nessa área é a Inglaterra. Além da alta no preço do gás natural no país – que já chegou próximo dos 280%, e que tem reflexos diretos no custo da geração de energia elétrica e em diversos processos industriais, os ingleses estão sofrendo com a falta de combustíveis nos postos de gasolina. Esse último problema é resultado do Brexit

Relembrando, a população do Reino Unido decidiu em um polemico plebiscito pela saída da União Europeia em 2016. A União Europeia é um grupo formado por 28 países, onde o transito de pessoas e de mercadorias é livre. O Reino Unido entrou no bloco em 1973. A saída oficial dos britânicos da União Europeia se deu em 31 de janeiro de 2020. 

Além de todos o problemas práticos criados pelas novas regras alfandegárias para a importação e exportação de produtos, a saída do bloco europeu implicou em inúmeros problemas de mão de obra. Centenas de milhares de trabalhadores da Europa continental estavam trabalhando nas Ilhas Britânicas e, com a mudança nas regras de trabalho e imigração, grande parte dessa mão de obra se viu obrigada a sair do Reino Unido. 

O êxodo de mão de obra foi agravado com a chegada da pandemia da Covid-19 – com a restrição de circulação de pessoas e o fechamento de empresas, muitos estrangeiros que ainda permaneciam trabalhando no Reino Unido se viram obrigados a retornar aos seus países de origem. Conclusão – está faltando mão de obra em diversas áreas. Somente no setor de transporte de cargas, as estimativas falam que faltam 200 mil caminhoneiros. 

Com as rede de transporte e de distribuição com grandes problemas, lojas, supermercados e postos de combustíveis estão deixando de ser abastecidos e a população está sofrendo as consequências. Uma imagem que se tornou comum são as grandes filas de carros nos postos de gasolina, com motoristas desesperados para encher o tanque (vide foto). Disputas acirradas, inclusive com agressões físicas, também se tornaram comuns. 

Além da falta de combustíveis no varejo, que é a parte mais visível da crise energética, os problemas também são enormes no atacado, principalmente para o setor de geração de energia elétrica. Existem perto de 50 empresas de geração e de distribuição de energia elétrica no Reino Unido, grande parte delas usuárias de gás natural para geração termelétrica.  

O custo do gás representa a maior parte do custo operacional dessas empresas e, como não seria diferente, os aumentos do combustível foram repassados para os consumidores. A conta de energia elétrica dos consumidores já subiu 250% apenas neste ano

O Reino Unido, a exemplo da maioria dos países europeus, vinha investindo pesado em fontes renováveis para a geracão de energia elétrica, especialmente a partir de fontes eólicas. Neste último ano, as fontes eólicas responderam por 25% de toda a geração de energia elétrica nesses países (o Reino Unido é formado pela Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). 

A geração eólica offshore, ou seja, em alto-mar, merece destaque e representa cerca de 8% de toda a energia elétrica produzida. A meta do Reino Unido é garantir que 1/3 de toda a sua produção de energia venha de fontes eólicas até 2030. É possível, inclusive, se atingir uma geração eólica correspondente até 80% da matriz energética até 2050. Porém, conforme já comentamos em postagem anterior, essa geração de energia é intermitente. 

No último verão, citando um exemplo, a redução da velocidade média dos ventos provocou uma redução de 7% na geração eólica no Reino Unido. Ao longo do dia e da noite a geração eólica também sofre oscilações, sendo necessário o acionamento constante da geração térmica a gás ou a carvão para compensar os volumes de energia demandados pela população. 

No total, as fontes de geração de energia renovável no Reino Unido somam 42 GW de acordo com relatórios do final de 2018. Desse total, a geração eólica responde por 20 GW e a geração fotovoltaica por 13 GW. A geração em centrais hidrelétricas e por queima de biomamassa somam 9 GW. Já a geração termelétrica a gás natural e a carvão responde por 20,6 GW. Essa geração a partir de combustíveis fósseis caiu em um terço desde 2013

O brusco aumento da demanda de energia elétrica no Reino Unido e a alta expressiva nos custos do gás natural abriram as portas para o aumento da queima do carvão nas centrais termelétricas. O Reino Unido possui grandes reservas desse combustível, o que facilita, e muito, a ampliação do seu uso para a geração de energia. Porém, não custa lembrar, a queima do carvão é uma das principais fontes de gases de efeito estufa. 

Esse problema atual ( a médio e longo prazo, as cadeias de produção e de abastecimento de combustíveis, e os preços devem se normalizar) poderá se consolidar num grande problema. Desligado da União Europeia, o Reino Unido está legalmente livre de cumprir uma série de acordos ambientais assinados com o bloco, com destaque aqui para a ampliação do uso de energias renováveis. 

Sem uma forte pressão dos cidadãos, especialmente os britânicos, o Governo local poderá se sentir tentado a estimular um uso cada vez maior do carvão “nacional” para geração de energia elétrica, algo que seria bastante benéfico para a economia local nesse momento de transição econômica pós-Brexit, e lamentável para o meio ambiente. 

Como todos sabem, o dinheiro sempre acaba falando mais alto e a tentação será grande… 

O USO DO CARVÃO EM UMA EUROPA “ECOLOGICAMENTE CORRETA” 

Nos últimos anos, países da Europa têm feito enormes esforços para tornar as suas respectivas matrizes energéticas cada mais sustentáveis. Fontes renováveis como a eólica, solar, hidráulica e biomassa cresceram muito e já representam mais de 38% de toda a energia elétrica gerada no continente. Entre os anos de 2019 e 2020, essa geração cresceu 3,4%. 

Combustíveis fósseis – especialmente o poluente carvão e os derivados de petróleo, ao contrário, tiveram seu consumo substancialmente reduzido. No mesmo período entre 2019 e 2020, o uso desses combustíveis sofreu uma redução de 37%. O gás natural vem aumentando sua participação na matriz energética e viu seu consumo crescer 15% desde 2015. Apesar de também ser um combustível de origem fóssil, o gás é bem menos nocivo ao meio ambiente.

Plantas de geração de eletricidade através de painéis solares e geradores eólicos (a foto que ilustra esta postagem mostra aerogeradores no Mar do Norte) foram as que mais cresceram, especialmente em países como a Holanda, a Bélgica e a Suécia. Apesar do enorme sucesso dessas fontes de energia renovável, elas são intermitentes – sistemas solares não geram energia a noite e os ventos não são constantes. A geração térmica a gás e a carvão, e também as centrais hidrelétricas e as nucleares são essenciais para complementar o fornecimento de energia elétrica dessas fontes renováveis 

Um país que vem se destacando nos últimos anos pela descarbonização da sua matriz energética é a Espanha. Em 2020, o país anunciou o fechamento de 7 de suas 15 centrais termelétricas a carvão, empreendimentos que chegaram a produzir cerca de 5 GW. Os espanhóis planejavam fechar outras 4 termelétricas agora em 2021, planos que atrasaram por causa da pandemia da Covid-19. A ambiciosa meta da Espanha é atingir 75% de geração elétrica a partir de fontes renováveis até 2030. 

Outro país que vem pensando “grande” nessa área é a Alemanha, o maior consumidor de carvão da Europa. A meto do país é se livrar totalmente da geração de energia elétrica em centrais termelétricas a carvão até 2038. Esse processo está sendo implementado de forma progressiva e o programa prevê um pacote de 40 bilhões de Euros para a transição econômica das regiões carvoeiras. 

Já na Franca, a situação é um pouco diferente – mais de 75% da energia elétrica consumida no país é gerada em usinas nucleares. São 19 empreendimentos com 59 reatores nucleares instalados. Apesar de ser uma das formas de geração de eletricidade mais eficientes e de baixo impacto ambiental existentes, essas instalações causam enormes preocupações em grande parte da população francesa. 

Depois do acidente com a usina nuclear de Fukushima no Japão, que foi atingida primeiro por um terremoto e depois por um tsunami em 2011, muitos ambientalistas passaram a pressionar o Governo francês na busca de fontes de geração elétrica mais seguras e sustentáveis como as usinas hidrelétricas, solares e eólicas. Em 2020, inclusive, a usina nuclear de Fessenheim, a mais antiga da França e que estava em operação desde 1977, começou a ser desativada, um processo que será concluído até 2023. A usina deverá estar totalmente desmontada até o ano de 2040. 

Outros países europeus como Inglaterra, Polônia e Grécia também vem trabalhando intensamente para adequar suas respectivas matrizes energéticas aos termos do Acordo de Paris, assinado por mais de 195 países em 2015. Esse acordo tem como principal objetivo reduzir as emissões de gases de efeito estufa e limitar o aumento médio de temperatura global a 2ºC, quando comparado a níveis pré-industriais. 

Uma das grandes apostas desses países europeus para atingir as metas ambientais pactuadas no Acordo de Paris foi estimular o uso do gás natural como substituto do carvão mineral. O gás polui menos, é mais eficiente e mais fácil de transportar que o carvão, sendo também mais vantajoso do ponto de vista econômico. 

Tudo ia bem até que, no final de 2019, surgiu na China a epidemia da Covid-19, que em poucos meses foi elevada à categoria de pandemia pela OMS – Organização Mundial da Saúde. A grande velocidade de propagação da doença e a falta de tratamentos adequados assustou o mundo e Governos passaram a defender a restrição da circulação de pessoas como forma de conter o avanço da doença. 

Com o “fique em casa”, os países entraram em forte contração econômica, reduzindo substancialmente o consumo de combustíveis derivados do petróleo, do gás natural e também do carvão. Com a queda no consumo, os produtores e distribuidores desses combustíveis reduziram a suas respectivas produções. Esse ritmo em “marcha lenta” se manteve por cerca de um ano e meio. 

Nos últimos meses, felizmente, a pandemia da Covid-19 passou a dar sinais claros de que está se aproximando de um final. Essa maravilhosa notícia, entretanto, passou a cobrar um preço alto dos países – a atividade econômica começou a crescer num ritmo maior do que se previa, gerando uma enorme demanda por produtos, matérias primas, transportes e combustíveis, pressão essa que gerou grandes aumentos de preços. 

Entre os campeões nos aumentos de preços se destaca o gás natural, que teve seu preço majorado em 280% na Europa e em 100% nos Estados Unidos. Mais de 65% do gás natural utilizado na Europa vem da Rússia, país que também fornece grandes volumes do produto para a China. Conforme comentamos na postagem anterior, a China está tendo sérios problemas com a geração de eletricidade e tem pressionado a Rússia para aumentar suas exportações de gás e carvão para o país. 

De acordo com a famosa “lei da oferta e da procura”, um dos fundamentos mais elementares da economia, sempre que um produto ou uma matéria prima fica escasso (a), seu preço sobe. A intensa disputa entre europeus e chineses conta com um agravante – o inverno está chegando e os países vão precisar aumentar a geração de energia elétrica para garantir o funcionando dos sistemas de aquecimento nas residências dos seus cidadãos. 

Segundo as informações divulgadas, os estoques de gás na Europa estão na casa dos 75% e há riscos de faltar combustível para atender a demanda de energia elétrica no continente ao longo do inverno. Muitos países estão tentando comprar volumes maiores de carvão de forma a utilizar (em muitos casos reativar) emergencialmente suas boas e velhas usinas termelétricas a carvão. 

Esse movimento pode soar como uma tremenda hipocrisia num continente que se esforça para descarbonizar as suas economias. Porém, como eu comentei numa postagem anterior, entre ser ecologicamente correto e morrer de frio ou poluir a atmosfera com gases de efeito estufa em uma casa bem quentinha, melhor ficar com a última opção. 

Logo depois que o inverno passar, essa turma vai voltar a falar das queimadas na Amazônia… 

CHINA: UM GIGANTE ECONÔMICO “ALIMENTADO” A CARVÃO

A China possui enormes reservas minerais, onde se destacam os grandes volumes de carvão. As maiores reservas desse combustível fóssil são encontradas no Norte do país – as estimativas indicam que a província de Shanxi possui metade das reservas de carvão do país. Também se destacam com importantes reservas as províncias de Heilongjiang, Liaoning, Jilin, Hebei e Shandong

De acordo com dados de 2018, a China ocupava a primeira posição mundial na produção de carvão com um volume total de 3,5 bilhões de toneladas. Mesmo com essa produção fabulosa, o país também ocupava a posição de maior importador mundial desse combustível com um volume de 285 milhões de toneladas. Os principais fornecedores há época eram a Indonésia e a Austrália. 

Todo esse imenso volume de carvão alimenta uma parte considerável da economia chinesa – aliás, não é exagero afirmar que o dragão gigante da Ásia é alimentado a carvão. A queima do combustível gera a energia necessária para impulsionar siderúrgicas, indústrias, centrais termelétricas para a geração de energia elétrica, além de prover aquecimento para centenas de milhões de residências no rigoroso inverno local. 

Até o ano de 2014, cerca de 80% de toda a energia elétrica gerada na China provinha de centrais termelétricas a carvão, 17% de centrais hidrelétricas e o restante de outras fontes como usinas nucleares. Nesse ano foi estabelecido um plano de ação emergencial para a redução da poluição atmosférica no país.  

Foram estabelecidas reduções de 15% nas emissões de dióxido de enxofre e óxidos de nitrogênio em relação aos níveis de 2015 e estabelecido que as 80 maiores cidades do país tenham 80% dos dias com bons níveis de qualidade do ar. Um dos mecanismos para se conseguir essa redução nas emissões passou a ser a substituição do carvão pelo gás natural. Apesar dessa redução, o carvão ainda continuou reinando como a principal fonte energética da China. 

O “ponto fora da curva” para a economia da China e do mundo como um todo começou no final de 2019, época em que começaram a surgir as primeiras notícias da pandemia da Covid-19. A cidade de Wuhan na província de Hubei na China é considerada como o berço da pandemia que paralisou o mundo a partir do início de 2020. 

Sem maiores conhecimentos sobre a doença e seus mecanismos de disseminação, dos tipos de tratamentos e também dos medicamentos que poderiam ser usados no tratamento das vítimas, Governos de grande parte do mundo passaram a adotar políticas de restrição da circulação de pessoas e de produtos – o famoso “fique em casa – a economia a gente vê depois”. 

Sem nos atermos muito a detalhes desse verdadeiro “samba do crioulo doido” que a maioria dos leitores conhece muito bem, as economias dos países entraram num ciclo contínuo de “desligamento” – sem produção e com a redução drástica do comércio mundial, a demanda por combustíveis caiu bastante, o que resultou numa importante redução da produção de petróleo, gás e carvão

Nesses últimos meses, com o arrefecimento da pandemia da Covid-19, a economia mundial passou a apresentar sinais de rápido aquecimento, com um aumento brusco do consumo de combustíveis. Com a produção e a distribuição totalmente desorganizadas, os preços do petróleo, do gás natural e do carvão dispararam no mercado internacional. A economia chinesa está sofrendo como nenhuma outra com a falta de combustíveis, principalmente para a geração de energia elétrica. 

A China caminha a passos rápidos para se tornar a maior economia do mundo. Porém, ao contrário do que todos nós estamos acostumados aqui em nosso país e em países do Ocidente, a economia chinesa possui um planejamento central. Todas as necessidades de produção da economia – matérias primas, recursos energéticos, obras de infraestrutura, sistemas de transporte, entre outros, dependem do trabalho de planejadores do Governo Central. 

Para se calcular a necessidade de combustíveis em um determinado período, esses planejadores avaliam toda a demanda pelas indústrias, usinas termelétricas, sistemas de transporte, entre outras necessidades. Uma vez determinado volume necessário, é dada uma ordem de produção para as empresas de mineração e para os sistemas de importação, transporte e distribuição dos combustíveis por todo o país. Todo o processo demanda vários meses para seu planejamento e execução. 

A paralização da economia mundial por quase dois anos comprometeu todo esse planejamento estatal e agora, com o brusco reaquecimento da economia mundial, a máquina chinesa está com dificuldades para retomar o ritmo normal. Está faltando gás natural, petróleo e, principalmente, carvão para saciar o apetite energético do dragão chinês, produtos que além de raros estão caros. Serão necessários vários meses, talvez anos, para o mercado mundial se normalizar. 

A poluição criada em toda a China por essa fabulosa queima de carvão e de outros combustíveis fósseis gera inúmeros problemas de saúde nas populações, especialmente das grandes cidades (que no país são muitas). Em grandes regiões metropolitanas como Pequim, Hebei e Tianjin já foram detectados níveis de poluição do ar por partículas resultantes da queima de combustíveis fósseis em níveis até 40 vezes acima do máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde. 

De acordo com a OMS, a quantidade de partículas microscópicas de poluentes com tamanho até 2,5 micrômetros – conhecidas como PM2.5, deve ser no máximo da ordem de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Estudos conjuntos feitos por universidades americanas e chinesas indicam que a intensa poluição do ar nas grandes cidades da China resulta em 177 mil mortes prematuras a cada ano

A redução forçada das emissões de poluentes na China durante esse período da pandemia da Covid-19 salvou milhares de vidas. De acordo com algumas projeções, cerca de 4 mil crianças e 73 mil adultos com idade acima de 70 anos tiveram suas vidas poupadas devido a redução da poluição do ar em grandes cidades chinesas nos primeiros meses da pandemia. Esses números deverão ser bem maiores quando todo o período for devidamente avaliado

Será uma questão de uns poucos meses até que o fornecimento carvão e de outros combustíveis fósseis seja normalizado em toda a China. Muitas das usinas termelétricas movidas a carvão que até hoje estavam sendo mantidas desativadas provavelmente voltarão a operar, dando um folego extra nessa reativação da economia da China. O poderoso dragão chinês voltará a esbanjar saúde em breve. 

Já o povo, esse voltará a sofrer com os dramáticos efeitos da gravíssima poluição do ar nas grandes cidades chinesas. Lamentável! 

UMA CRISE ENERGÉTICA MUNDIAL

Quem tem acompanhado os noticiários dos últimos dias com alguma atenção deve ter percebido a grande quantidade de notícias que tratam dos grandes aumentos nos preços da gasolina e do óleo diesel. Mesmo quem não um veículo que use esses combustíveis sabe que esses aumentos serão repassados aos preços do transporte público, dos alimentos e de outras mercadorias transportadas por via rodoviária. 

Outro insumo essencial para grande parte das famílias é o gás de cozinha, produto que está com um preço demasiadamente alto para os padrões salariais de grande parte da população. Por trás dessa elevação dos preços desses produtos está uma forte alta no preço do petróleo nos mercados internacionais. Na última semana, o preço do barril do petróleo Brent, que é usado como uma referência no mercado internacional, superou a marca dos US$ 80.00. 

Como se não bastasse esse grande aumento nos custos dos derivados de petróleo, vivemos uma outra crise enérgica – a de geração de energia elétrica. Toda a região Central do Brasil está enfrentando uma forte seca, o que tem reflexos em grandes reservatórios de importantes centrais hidrelétricas que estão com baixíssimos níveis de água.  

Sem essa fonte de geração hidráulica, nosso país teve de acionar as centrais de geração termelétrica emergenciais movidas a carvão e a óleo diesel, insumos que estão com preços nas nuvens devido ao aumento dos custos do petróleo no mercado internacional. 

Aqui vale um lembrete – sempre que as centrais de geração termelétrica são acionadas, os valores das contas de energia elétrica dos consumidores são acrescidos de uma taxa extra, que no momento é chamada bandeira vermelha patamar 2. Segundo dados da ANEEL – Agencia Nacional de Energia Elétrica, o valor dessa taxa é de R$ 9,49 para cada 100 kW/hora consumido. Há estudos com o objetivo de aumentar o valor dessa taxa nesse momento de crise hídrica

Apesar do forte uso político desses aumentos nos preços dos combustíveis e da energia elétrica contra o atual Governo do país – lembrando que ano que vem teremos eleições presidenciais, essa é uma crise mundial que tem afetado países de forma diferente. A Europa e a China são as regiões onde a situação é mais grave. 

Vamos começar falando da China, a economia que mais cresceu nas últimas décadas e que, dentro da nossa área de interesse, é a que mais polui o planeta. Apesar da forte pressão internacional para a redução do carvão como uma das principais fontes de geração de energia elétrica no país, a economia chinesa ainda é fortemente dependente desse insumo.  

Num esforço para tentar tornar a economia da China “mais verde e ecologicamente correta”, o Governo local tem tomado medidas para reduzir a mineração e o consumo do carvão ao mesmo tempo em que vem estimulando o uso cada vez mais intensivo do gás natural, um combustível também de origem fóssil, mas muito menos poluente

Foi aqui que apareceu um enorme problema – depois de quase dois anos de forte retração por causa da pandemia da Covid-19, a economia mundial começou a retomar o crescimento num ritmo muito mais forte do que se esperava. Importantes combustíveis como o petróleo, o gás natural e o carvão passaram a sofrer fortes aumentos nos seus preços, o que está criando problemas no mundo inteiro. 

Vamos citar como exemplo o Brasil, onde apesar de todos os problemas que estamos vivendo, há uma perspectiva de crescimento da ordem de 5% este ano. Esse crescimento gera o aumento do consumo de energia – principalmente elétrica, de matérias primas, de mão de obra, de transportes e tudo mais. 

Transformada já há muitos anos na “fábrica do mundo”, a economia chinesa vem sendo cada vez mais pressionada a fornecer produtos e componentes para inúmeras empresas ao redor do mundo. Para atender essa demanda as fábricas chinesas precisaram aumentar o seu próprio consumo de energia e de matérias primas. Conclusão – está faltando gás natural para a geração de energia elétrica e também falta carvão para acionar todas as antigas unidades de geração de energia elétrica do país

O Governo chinês já está racionando o fornecimento de energia elétrica. Estão ocorrendo cortes de luz programados e até mesmo apagões em fábricas e residências por todo o país. A situação é particularmente grave em três províncias no Norte onde vivem 100 milhões de pessoas. Essa pressão chinesa pelo aumento do consumo de gás natural e de carvão está criando graves problema para a Europa. 

Sempre que a oferta de um determinado produto é reduzida, seu preço acaba subindo. Essa é a boa e velha “Lei da Oferta e da Procura” da economia, que países da Europa estão sentindo na própria pele. O custo do gás natural aumentou quase 300% em alguns países como a Alemanha e a Inglaterra. A razão é simples – a Rússia, país que fornece grande parte do gás natural consumido na Europa, aumentou suas vendas para a China e tem pouco produto extra para fornecer para os europeus. Também alegam dificuldades no transporte de maiores volumes de gás pelos gasodutos já existentes. 

A situação da Europa está ficando tão complicada que muitos Governos tem solicitado à Rússia aumentos nos volumes de carvão comprados do país. Com políticas ambientais extremamente vigorosas, os países europeus vinham reduzindo significativamente os volumes de energia elétrica produzidos através da queima do carvão em usinas termelétricas e migrando essa geração para centrais térmicas a gás. 

Com o inverno se aproximando, época do ano em que há um aumento expressivo do consumo de eletricidade por causa dos sistemas de aquecimento das casas, muitos países europeus pretendem “esquecer” temporariamente seus compromissos ambientais e gerar o máximo possível de energia elétrica com base no carvão. Entre ser ecologicamente correto e morrer de frio ou poluir a atmosfera com gases de efeito estufa em uma casa bem quentinha, melhor ficar com a última opção. 

Essa demanda dos países da Europa por mais carvão da Rússia esbarra num grande problema – a China também tem um clima temperado em grande parte do seu território e também precisa aumentar a sua geração de energia elétrica no período do inverno. Os russos alegam que já comprometeram toda a sua produção excedente com os chineses, inclusive a infraestrutura de transporte. 

Os norte-americanos, por enquanto, ainda estão numa posição confortável. O país atingiu um grau de auto suficiência na produção de petróleo e gás, além de produzir grandes volumes de energia elétrica em centrais nucleares, algo que muitos países da Europa sempre abominaram. O Brasil, inclusive, fechou um grande contrato para a compra de gás natural dos Estados Unidos – segundo alguns analistas, essa compra ajudou a desestabilizar ainda mais o mercado mundial do gás. 

Os próximos meses serão bastante complicados, tanto aqui no Brasil quanto em grande parte do mundo. Essa é aquela parte do mantra que ouvimos à exaustão nos últimos meses – “a economia a gente vê depois“. 

O tal do “depois” chegou… 

A GRALHA-AZUL E A ARAUCÁRIA, OU FALANDO DA INTERDEPENDÊNCIA ENTRE AS ESPÉCIES

O pica-pau-bico-de-marfim (Campephilus principalis), espécie que inspirou o personagem Pica-Pau dos desenhos animados, passou a ser considerada uma espécie extinta desde o último dia 29 de setembro. Desde 1944, não ouve nenhum avistamento do animal, apesar das intensas buscas realizadas em matas e florestas dos Estados Unidos por cientistas, observadores de pássaros e público em geral.  

Dentro de 60 dias, a contar da data do informe do Fish and Wildlife Service – Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos Estados Unidos, na sigla em inglês, a espécie será considerada oficialmente extinta caso não surjam evidencias ou informações que indiquem a existência de algum espécime vivo. É uma perda lastimável para a vida selvagem e também para a cultura popular mundial. 

Mas, afinal de contas: o que é que se perde com o desaparecimento para sempre de um simples “passarinho”? 

Se perde muito – nenhuma espécie animal ou vegetal vive isoladamente. Diferentes espécies mantem relações de benefício e de associação para a sobrevivência mútua. Uma árvore, por exemplo, pode abrigar diversas outras plantas – bromélias e orquídeas por exemplo, que por sua vez alimentam diversas espécies de insetos, que por sua vez são predados por aves. Se a árvore cair ou for cortada, as perdas se estenderão a todas as outras espécies associadas. Essa relação entre as árvores e as plantas é chamada de inquilinismo. 

As inter-relações entre as espécies recebem diferentes classificações – alguns exemplos: 

Mutualismo: ocorre quando duas espécies são beneficiadas e a associação garante a sobrevivência de ambas. Um caso clássico é o dos líquens, onde uma alga e um fungo que se associaram, o que garantiu a sobrevivência mútua; 

Protocooperação: nesse caso, indivíduos de espécies diferentes vivem de modo interdependente sem prejuízo a nenhuma das espécies. Um exemplo são os pássaros que se alimentam de carrapatos que atacam os grandes mamíferos; 

Colônias: são os casos de indivíduos da mesma espécie ou de espécies diferentes que vivem agrupadas para proteção e benefício mútuo; 

Comensalismo: Nesse caso, apenas uma das espécies é beneficiada, porém, é gerado um benefício indireto para outras espécies. É o caso dos urubus que se alimentam de restos de animais mortos, o que mantém o ambiente saudável para outras espécies; 

Além dessas relações harmônicas, onde nenhuma das espécies é prejudicada, existam as chamadas relações não harmônicas. Exemplos: 

Competição: Nesse caso, diferentes espécies disputam recursos limitados como alimentos, territórios, parceiros sexuais e luminosidade. Esse é o típico processo que beneficia os indivíduos mais fortes e melhor adaptados; 

Canibalismo: uma relação que envolve indivíduos da mesma espécie, onde uma mata o outra para se alimentar, a exemplo da fêmea do louva-a-deus ou da aranha viúva-negra; 

Predatismo: É a relação entre espécies diferentes onde uma delas caça outra, no caso de carnívoros, ou de herbívoros que se alimentam de plantas como bois, cavalos e gafanhotos. 

Os pica-paus se enquadram no grupo dos predadores – essas aves são ávidas comedoras de insetos. Elas usam seus fortes bicos para atacar formigas e cupins que vivem nos troncos de árvores. Atuando como um verdadeiro formão, ferramenta muito usada pelos marceneiros, o bico da ave é usado para arrancar a casca e para furar a madeira, expondo os insetos que são capturados pela língua grudenta. 

Além de insetos, os pica-paus também se alimentam de frutas, nozes e castanhas. Algumas espécies de regiões de clima temperado, inclusive, usam os buracos que foram abertos nos troncos das árvores para estocar nozes e bolotas de carvalho para consumo nos meses de inverno. Aqui no Brasil, a gralha-azul tem um comportamento muito parecido. 

A gralha-azul (Cyanocorax caeruleus) é uma ave com aproximadamente 40 cm de envergadura, com coloração das penas do corpo de um azul vivo e com a cabeça, a parte frontal do pescoço e partes do peito na cor preta (vide imagem). Essas aves costumam viver em pequenos bandos, se alimentando de frutas, insetos e, especialmente, dos pinhões das araucárias, uma espécie de pinheiro nativo das regiões de clima subtropical do Sul e Sudeste do Brasil, além de países vizinhos como a Argentina e o Uruguai. 

A semente da araucária, o pinhão, é um alimento extremamente importante na culinária da região Sul e também em extensas áreas do Estado de São Paulo. Ele pode ser comido puro após ser cozido em água ou ser incluído em inúmeras receitas de carnes, sopas, pães e bolos, entre uma infinidade de receitas. Os índios das etnias do grupo linguístico jê, que possuíam diversas tribos na região Sul do Brasil, eram grandes comedores de pinhão e, com a chegada dos colonizadores portugueses e espanhóis, acabaram ensinando muitos desses hábitos alimentares aos recém chegados.  

Muitos animais como pacas e cotias também consomem o pinhão. Assim que caem das araucárias, os pinhões apresentam uma castanha com enorme acidez e são necessários vários dias até que a semente “amadureça” e fique apetitosa para o consumo. Um dos mais ávidos comedores de pinhão da natureza são a gralhas-azuis, aves que desenvolveram uma estratégia especial para armazenar as sementes. 

Durante os meses de outono, época em que as araucárias produzem os pinhões, as gralhas-azuis coletam os pinhões e os “estocam” em áreas delimitadas do solo ou os encravam em troncos caídos no solo, criando assim uma reserva de alimentos para o período do inverno. Esse período em que os pinhões ficam estocados também ajuda a resolver o problema da acidez da semente.  

É aqui que desponta a importância ambiental da relação entre as gralhas-azuis e as araucárias: muitos desses pinhões acabam esquecidos pelas aves e germinam, produzindo novos exemplares de araucárias. Ou seja, as gralhas-azuis são as grandes plantadoras de araucárias, a mesma relação que algumas espécies de pica-paus de países como os Estados Unidos e do Canadá mantém com árvores como os carvalhos e nogueiras. 

Infelizmente, esse fantástico mecanismo de interdependência entre as araucárias e as gralhas-azuis, um processo evolutivo de milhões de anos, está seriamente ameaçado – a Mata das Araucárias, um subsistema florestal da Mata Atlântica, está reduzida a cerca de 4% da sua antiga área original.  Com a destruição do seu habitat e sem um dos seus mais importantes alimentos – o pinhão, as populações de gralha-azul encontram-se ameaçadas de extinção e está sendo cada vez mais difícil encontrar grupos dessas aves livres na natureza. 

A extinção do pica-pau-bico-de-marfim, fatalmente, trará graves impactos em outras espécies que compartilham o mesmo nicho ecológico – populações de insetos que eram predadas pelas aves poderão aumentar sem controle e passar a ameaçar outras espécies. Árvores que dependiam das aves para dispersas suas sementes, ficarão com seus territórios limitados ou terão a sobrevivência ameaçada. Como esses pica-paus não eram vistos já há várias décadas, esses impactos já podem estar ocorrendo silenciosamente. 

Concluindo: não foi apenas uma espécie de pássaro que desapareceu – inúmeras outras espécies associadas poderão seguir brevemente pelo mesmo caminho… 

AVE QUE INSPIROU A ANIMAÇÃO “O PICA-PAU” É DECLARADA EXTINTA NOS ESTADOS UNIDOS 

Uma notícia triste, ao menos para os fãs de desenhos animados, e altamente didática sobre a dramática realidade da degradação do meio ambiente: o Fish and Wildlife Service – Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos Estados Unidos, na sigla em inglês, anunciou hoje, dia 29 de setembro, a extinção de 21 espécies animais e de uma planta. 

Entre os animais está o pica-pau-bico-de-marfim, a espécie que inspirou o icônico e malcriado personagem dos desenhos animados – o Woody Woodpecker, ou, Pica-Pau, como o conhecemos aqui no Brasil. Eu cresci assistindo e me divertindo com as aventuras do personagem e lembro que minha mãe comentava que assistia seus filmes nas matines dos cinemas lá pelos idos da década de 1940. 

O último avistamento de um pica-pau-bico-de-marfim foi em 1944, cerca de quatro anos depois do lançamento da animação do Pica-Pau pelos Estúdios Walter Lantz. Há muitos anos, cientistas, pesquisadores, observadores de pássaros e cidadãos comuns vasculham florestas e matas tentando avistar um exemplar da espécie, o que infelizmente nunca aconteceu. 

Fish and Wildlife Service abriu uma consulta pública com 60 dias de duração, prazo destinado a cientistas, pesquisadores e cidadãos comuns fornecerem evidências ou dados relevantes sobre o pica-pau e as outras espécies. Caso não surjam informações que indiquem que ainda existem exemplares vivos dessas espécies, o órgão irá oficializar a extinção desses animais e da planta. 

A razão para o trágico desaparecimento dessas espécies e de milhares de outras são bem conhecidas por todos nós: desmatamentos para a abertura de campos agrícolas e pastagens, extração de madeira, mineração, construção de grandes obras como represas e rodovias, incêndios florestais (muitos deles intencionais), caca ilegal, entre muitos outros. 

O pica-pau-bico-de-marfim (Campephilus principalis) era considerada a maior ave do gênero dos Estados Unidos, podendo atingir uma envergadura de até 53 cm e um peso de 570 gramas. A espécie era encontrada principalmente em áreas de antigas florestas e pântanos do Sudeste do país. 

Um detalhe intrigante que liga a criatura ao personagem: em um dos episódios – Dumb Like a Fox, que foi traduzido como “Esperto contra Sabido”, um museu oferecia uma recompensa de US$ 25 para quem capturasse um Campephilus principalis. O Pica-Pau, é claro, deu um jeito de capturar a si mesmo para conseguir receber a recompensa. 

Além do popular pica-pau, a lista de espécies animais declaradas extintas inclui o Kauai O’o, um pássaro que era nativo das florestas do Havaí e o toutinegra de Bachman, uma ave canora de peito amarelo, além de outras oito espécies de pássaros, duas espécies de peixes, oito mexilhões de água doce e uma espécie de morcego. 

Segundo um estudo recente feito por pesquisadores da Universidade de Tel Aviv e do Instituto Weizmann de Ciência, ambos de Israel, algo entre 10% e 20% de todas as espécies de aves foram levadas a extinção ao longo dos últimos 50 mil anos devido a ações dos seres humanos. A caça dos animais e a coleta de ovos são as principais causas dessa verdadeira tragédia. 

A maior parte dessas extinções ocorreu em ambientes de ilhas, onde um dos mais significativos exemplos foram as moas que existiam na Nova Zelândia. Segundo a pesquisa, 68% das espécies de aves que não voam conhecidas pela ciência, como era o caso das moas, já foram extintas. Desgraçadamente, o pica-pau-bico-de-marfim veio se juntar a essa lista de animais levados à extinção por nós humanos. 

Sempre que uma espécie animal ou vegetal é levada a extinção – por fatores naturais ou por mãos humanas, toda uma jornada evolutiva de milhares, quiçá, milhões de anos, chega ao fim. Essas espécies deixem um vazio em seu nicho ecológico, podendo levar outras espécies interdependentes pelo mesmo caminho como no desmoronamento de um castelo de cartas. 

A evolução e o desenvolvimento de uma única espécie é o resultado de uma enorme combinação de fatores naturais como temperatura, fontes de alimentação, habitat, competição com outras espécies, entre muitos outros. Para cada espécie que consegue se sair vencedora nesse processo de seleção natural, inúmeras outras sucumbiram ao longo do caminho. 

Um caso clássico de como funcionam esses processos evolutivos foi constatado por Charles Darwin durante a sua lendária viagem através do mundo no navio HMS Beagle da Marinha inglesa. Durante uma parada nas Ilhas Galápagos, território pertencente ao Equador, Darwin colheu inúmeros indivíduos da flora e fauna local. 

Entre as espécies coletadas se encontravam diversos tentilhões, pássaros que Darwin imaginou serem de espécies diferentes. Essas aves, recolhidas em diferentes ilhas do arquipélago, apresentavam claras diferenças morfológicas, principalmente no tamanho e no formato do bico. 

Estudos posteriores realizados por especialistas em aves na Inglaterra confirmaram que as aves eram da mesma espécie e que os diferentes formatos dos bicos foram uma adaptação aos diferentes tipos de alimentos encontrados nas diferentes ilhas. Darwin concluiu que, num passado distante, um único grupo de tentilhões chegou voando ao arquipélago e, ao se dispersarem pelas ilhas, os descendentes dessas aves foram se adaptando aos diferentes biomas.  

Essa descoberta foi chave na concepção da teoria da seleção natural apresentada no livro “A Origem das Espécies”, publicado por Charles Darwin em 1859. Essa nova concepção, que foi duramente atacada por grupos religiosos criacionistas, mudou os rumos da ciência e a forma que a maioria das pessoas enxerga o mundo. 

Uma das poucas esperanças que nos restam é a possibilidade de um grupo de pica-paus ter conseguido sobreviver em um recanto remoto, longe das vistas de todos. De quando em vez surgem notícias da descoberta de indivíduos vivos de espécies que estavam na lista de animais extintos. 

Um desses casos foi o do pássaro Malacocincla perspicillata, que foi encontrado por moradores de uma localidade remota da Ilha de Bornéu, na Indonésia, em 2020. Fazia cerca de 170 anos desde o último avistamento de uma dessas aves – os ornitólogos locais a consideravam extinta. Foi uma grata surpresa! 

Para nós, resta por enquanto o consolo de assistir a um ou outro desenho do Pica-Pau e torcer para que o esperto “passarinho” esteja só nos pregando uma peça… 

ERA UMA VEZ UM MAR DE MINAS

Uma inédita tempestade de areia assustou os moradores de cidades do Norte e Noroeste do Estado de São Paulo e também do Triangulo Mineiro – esse foi o tema de nossa última postagem. A raiz do problema é a forte seca que assola essa região e também uma extensa área do Brasil Central. 

Uma situação que permite entender claramente o que está acontecendo pode ser vista na Represa de Furnas. De acordo com informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 26 de setembro, o nível do reservatório atingiu a marca de 14,27% de sua capacidade máxima. Em agosto de 2020, o nível se encontrava em 49,27%. O momento é de grande preocupação.

A história de Furnas remonta ao início da década de 1950, quando a CEMIG – Centrais Elétricas de Minas Gerais, iniciou estudos para o aproveitamento energético do rio Grande. Esses estudos indicavam um potencial para a construção de até 14 usinas hidrelétricas, onde se alcançaria uma potência total instalada de 7,5 mil MW. Esses projetos ganhariam um forte impulso após a decisão da construção de Brasília e a necessidade de aumentar a geração de energia elétrica para alimentar a nova capital federal. 

A barragem de Furnas viria a ser concluída em 1961, inundando uma área total de 1.440 km² e se transformando no maior corpo d’água de Minas Gerais. Esse grande reservatório atingiu terras de 34 município e provocou o deslocamento de cerca de 35 mil pessoas, além de atingir grandes extensões de solos férteis. Esses impactos geraram uma forte convulsão social, além de exigir o pagamento de grandes indenizações. 

Com o início do enchimento do lago de Furnas, muitas famílias que resistiam em abandonar suas casas e propriedades acabaram forçadas a se mudar. Não é difícil encontrar fotos antigas de famílias em telhados de casas completamente cercadas pelas águas. Em várias situações, tropas do Exército precisaram ser usadas para remover famílias a força. Entre as áreas afetadas destacam-se a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra, que foram totalmente encobertas pelas águas do lago.  

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica de Furnas entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, levando a potência total para 1.216 MW. 

Lentamente, o indesejado lago passou a “conquistar” os corações das populações e Furnas foi se transformando no “Mar de Minas”, uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado, apresentando águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago, que se estendem por um perímetro com cerca de 3 mil km, apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“.  

Após a formação do grande lago de Furnas, as terras de suas margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do reservatório.  

Diversos municípios localizados às margens do lago assistiram a uma verdadeira revolução no seu perfil socioeconômico e passaram a lucrar substancialmente com a renda gerada pelo turismo, especialmente nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras. Em muitos lugares, o reservatório criou condições para o desenvolvimento de projetos de piscicultura. 

Infelizmente, a grande devastação da cobertura florestal, tanto em áreas do Cerrado quanto da Mata Atlântica (as nascentes do rio Grande ficam dentro desse bioma), passaram a cobrar o seu preço – os caudais dos rios e riachos formadores de Furnas passaram a minguar sistematicamente. 

Analisando um gráfico do ONS que apresenta os volumes de água armazenada em Furnas ao longo dos últimos 20 anos, podemos observar nitidamente que os volumes máximos atingidos estão se reduzindo gradativamente ao longo do tempo. Em agosto de 2004, citando um exemplo, o nível máximo atingiu a marca de 92,4%. Nos últimos 5 anos, o nível máximo que as águas do reservatório atingiram nesse mesmo mês foi 49,27%. 

Segundo informações da Eletrobrás, a Usina Hidrelétrica de Furnas continua produzindo energia elétrica, porém, a produção média está na casa de 500 MW, um volume equivalente a apenas 41% da capacidade total instalada. A dúvida que fica – com a redução contínua do nível do reservatório, até quando será possível manter a produção de energia elétrica? 

A seca que se abate sobre o rio Grande e Furnas também está afetando as turbinas geradoras de outras 12 usinas hidrelétricas. Todas essas usinas respondem por ¼ de toda a capacidade geradora do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. Isso nos dá uma boa ideia do tamanho do problema criado pela seca e dos impactos que poderão ser desencadeados em toda a economia do país. 

Fica fácil de notar que a tempestade de areia que tomou conta da região foi apenas a ponta de um grande iceberg – essa história terá muitos e muitos capítulos mais…