O USO DO CARVÃO EM UMA EUROPA “ECOLOGICAMENTE CORRETA” 

Nos últimos anos, países da Europa têm feito enormes esforços para tornar as suas respectivas matrizes energéticas cada mais sustentáveis. Fontes renováveis como a eólica, solar, hidráulica e biomassa cresceram muito e já representam mais de 38% de toda a energia elétrica gerada no continente. Entre os anos de 2019 e 2020, essa geração cresceu 3,4%. 

Combustíveis fósseis – especialmente o poluente carvão e os derivados de petróleo, ao contrário, tiveram seu consumo substancialmente reduzido. No mesmo período entre 2019 e 2020, o uso desses combustíveis sofreu uma redução de 37%. O gás natural vem aumentando sua participação na matriz energética e viu seu consumo crescer 15% desde 2015. Apesar de também ser um combustível de origem fóssil, o gás é bem menos nocivo ao meio ambiente.

Plantas de geração de eletricidade através de painéis solares e geradores eólicos (a foto que ilustra esta postagem mostra aerogeradores no Mar do Norte) foram as que mais cresceram, especialmente em países como a Holanda, a Bélgica e a Suécia. Apesar do enorme sucesso dessas fontes de energia renovável, elas são intermitentes – sistemas solares não geram energia a noite e os ventos não são constantes. A geração térmica a gás e a carvão, e também as centrais hidrelétricas e as nucleares são essenciais para complementar o fornecimento de energia elétrica dessas fontes renováveis 

Um país que vem se destacando nos últimos anos pela descarbonização da sua matriz energética é a Espanha. Em 2020, o país anunciou o fechamento de 7 de suas 15 centrais termelétricas a carvão, empreendimentos que chegaram a produzir cerca de 5 GW. Os espanhóis planejavam fechar outras 4 termelétricas agora em 2021, planos que atrasaram por causa da pandemia da Covid-19. A ambiciosa meta da Espanha é atingir 75% de geração elétrica a partir de fontes renováveis até 2030. 

Outro país que vem pensando “grande” nessa área é a Alemanha, o maior consumidor de carvão da Europa. A meto do país é se livrar totalmente da geração de energia elétrica em centrais termelétricas a carvão até 2038. Esse processo está sendo implementado de forma progressiva e o programa prevê um pacote de 40 bilhões de Euros para a transição econômica das regiões carvoeiras. 

Já na Franca, a situação é um pouco diferente – mais de 75% da energia elétrica consumida no país é gerada em usinas nucleares. São 19 empreendimentos com 59 reatores nucleares instalados. Apesar de ser uma das formas de geração de eletricidade mais eficientes e de baixo impacto ambiental existentes, essas instalações causam enormes preocupações em grande parte da população francesa. 

Depois do acidente com a usina nuclear de Fukushima no Japão, que foi atingida primeiro por um terremoto e depois por um tsunami em 2011, muitos ambientalistas passaram a pressionar o Governo francês na busca de fontes de geração elétrica mais seguras e sustentáveis como as usinas hidrelétricas, solares e eólicas. Em 2020, inclusive, a usina nuclear de Fessenheim, a mais antiga da França e que estava em operação desde 1977, começou a ser desativada, um processo que será concluído até 2023. A usina deverá estar totalmente desmontada até o ano de 2040. 

Outros países europeus como Inglaterra, Polônia e Grécia também vem trabalhando intensamente para adequar suas respectivas matrizes energéticas aos termos do Acordo de Paris, assinado por mais de 195 países em 2015. Esse acordo tem como principal objetivo reduzir as emissões de gases de efeito estufa e limitar o aumento médio de temperatura global a 2ºC, quando comparado a níveis pré-industriais. 

Uma das grandes apostas desses países europeus para atingir as metas ambientais pactuadas no Acordo de Paris foi estimular o uso do gás natural como substituto do carvão mineral. O gás polui menos, é mais eficiente e mais fácil de transportar que o carvão, sendo também mais vantajoso do ponto de vista econômico. 

Tudo ia bem até que, no final de 2019, surgiu na China a epidemia da Covid-19, que em poucos meses foi elevada à categoria de pandemia pela OMS – Organização Mundial da Saúde. A grande velocidade de propagação da doença e a falta de tratamentos adequados assustou o mundo e Governos passaram a defender a restrição da circulação de pessoas como forma de conter o avanço da doença. 

Com o “fique em casa”, os países entraram em forte contração econômica, reduzindo substancialmente o consumo de combustíveis derivados do petróleo, do gás natural e também do carvão. Com a queda no consumo, os produtores e distribuidores desses combustíveis reduziram a suas respectivas produções. Esse ritmo em “marcha lenta” se manteve por cerca de um ano e meio. 

Nos últimos meses, felizmente, a pandemia da Covid-19 passou a dar sinais claros de que está se aproximando de um final. Essa maravilhosa notícia, entretanto, passou a cobrar um preço alto dos países – a atividade econômica começou a crescer num ritmo maior do que se previa, gerando uma enorme demanda por produtos, matérias primas, transportes e combustíveis, pressão essa que gerou grandes aumentos de preços. 

Entre os campeões nos aumentos de preços se destaca o gás natural, que teve seu preço majorado em 280% na Europa e em 100% nos Estados Unidos. Mais de 65% do gás natural utilizado na Europa vem da Rússia, país que também fornece grandes volumes do produto para a China. Conforme comentamos na postagem anterior, a China está tendo sérios problemas com a geração de eletricidade e tem pressionado a Rússia para aumentar suas exportações de gás e carvão para o país. 

De acordo com a famosa “lei da oferta e da procura”, um dos fundamentos mais elementares da economia, sempre que um produto ou uma matéria prima fica escasso (a), seu preço sobe. A intensa disputa entre europeus e chineses conta com um agravante – o inverno está chegando e os países vão precisar aumentar a geração de energia elétrica para garantir o funcionando dos sistemas de aquecimento nas residências dos seus cidadãos. 

Segundo as informações divulgadas, os estoques de gás na Europa estão na casa dos 75% e há riscos de faltar combustível para atender a demanda de energia elétrica no continente ao longo do inverno. Muitos países estão tentando comprar volumes maiores de carvão de forma a utilizar (em muitos casos reativar) emergencialmente suas boas e velhas usinas termelétricas a carvão. 

Esse movimento pode soar como uma tremenda hipocrisia num continente que se esforça para descarbonizar as suas economias. Porém, como eu comentei numa postagem anterior, entre ser ecologicamente correto e morrer de frio ou poluir a atmosfera com gases de efeito estufa em uma casa bem quentinha, melhor ficar com a última opção. 

Logo depois que o inverno passar, essa turma vai voltar a falar das queimadas na Amazônia… 

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