O JAPÃO E SUA DEPENDÊNCIA DOS COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS

Na tarde do dia 11 de marco de 2011, um forte terremoto com intensidade 8,9 graus na escala Richter sacudiu o leito marinho do Oceano Pacífico ao largo da Ilha Honshu, a maior do arquipélago do Japão. Diferente de outros fortes terremotos que atingem a região com relativa frequência, esse abalo sísmico resultou na formação de um grande tsunami, uma grande onda com altura entre 13 e 15 metros. 

Cerca de 50 minutos depois, essa grande onda chegou na região de Fukushima, atingindo em cheio a usina nuclear ali instalada. O avanço das águas do oceano encobriu o paredão de 5,7 metros da usina e inundou as instalações da unidade. Entre as áreas atingidas estava o prédio dos geradores, onde a água provocou o desligamento dos geradores de emergência. 

Entre outros problemas, a falta de energia elétrica provocou a interrupção do bombeamento da água usada no resfriamento dos reatores nucleares da usina e resultou num superaquecimento e fusão parcial dos núcleos dos reatores 1, 2 e 3. Se seguiram explosões de hidrogênio, o que danificou a estrutura de confinamento dos reatores (vide foto). Começava assim a saga de um dos maiores acidentes nucleares da história. 

Entre outros graves desdobramentos, o acidente nuclear na usina de Fukushima obrigou o Governo do Japão a interromper temporariamente toda a geração elétrica em seu parque nuclear e decretar uma revisão geral de todas as normas de segurança. Essa geração respondia por aproximadamente 25% de toda a energia elétrica do país. Centrais termelétricas a carvão e a gás natural, que há época respondiam por mais de 70% da geração elétrica no país, foram levadas à potência máxima para tentar garantir o abastecimento da população. 

Ao longo dos últimos dez anos, as fontes de energia renováveis cresceram bastante e já respondem por cerca de 17% da matriz energética do país – a geração por centrais nucleares representa cerca de 9% de toda a geração elétrica. A maior parte de toda a energia elétrica consumida no Japão, entretanto, continua dependendo de centrais termelétricas, o que é um grande problema num momento de forte alta nos preços dos combustíveis. 

No total, o Japão possui atualmente 140 usinas termelétricas a carvão em operação e existem outras 10 em fase de projeto. Juntas, essas unidades respondem por cerca de 1/3 de toda a energia elétrica consumida no país. A geração em centrais térmicas a gás são responsáveis por 38% de toda a geração elétrica. Juntas, essas usinas geram mais de 70% de toda a energia elétrica consumida no Japão. 

Essa forte dependência de combustíveis fósseis para a geração de energia elétrica torna o Japão alvo de fortes críticas entre os ambientalistas. Porém, não custa lembrar que o país é um arquipélago formado por quatro grandes ilhas, seiscentas ilhas menores e perto de oitocentas ilhotas, uma geografia que exige um sem número de unidades de geração elétrica independentes. Centrais térmicas a gás e a carvão ainda são as melhores opções técnicas para o país. 

De acordo com informações divulgadas pela imprensa local, o Governo japonês tem planos para desativar 100 das 114 usinas térmicas a carvão mais antigas até o ano de 2030. As demais 26 usinas desse tipo em operação utilizam uma tecnologia mais moderna, sendo bem mais eficientes em termos de produção de energia e também bem menos poluentes que as antigas termelétricas, apesar de poluírem o dobro quando comparadas a uma central térmica a gás. 

Nesse mesmo prazo, os japoneses pretendem aumentar a participação de fontes de geração renováveis como a fotovoltaica, eólica e de queima de biomassa a valores próximos de ¼ da matriz energética do país. Também esperam aumentar a participação da geração nuclear a valores entre 20 e 22% da matriz energética, um percentual que ainda continuaria abaixo do que era gerado antes do acidente nuclear de Fukushima

Falar de energia atômica no país é um tema delicado. O Japão foi o único país do mundo a ser atacado por armamentos nucleares na história – falo aqui das bombas atômicas lançadas sobre as cidades de Hiroshima Nagasaki, eventos que culminaram com a rendição incondicional do país e marcaram o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.  

Além das centenas de milhares de mortes provocadas logo após esses ataques, outras centenas de milhares de pessoas sofreram ao longo das décadas seguintes por causa dos efeitos da radiação. Energia nuclear é um tema que divide opiniões no país até hoje. O acidente com a usina nuclear de Fukushima reacendeu antigos medos e trouxe à tona trágicas lembranças. 

Para muitos japoneses, especialmente para os mais idosos, qualquer outra forma de geração de energia – mesmo em se tratando de fontes fósseis poluentes, é melhor do que um aumento do uso de fontes nucleares. Apesar das limitações que isso pode causar para a terceira maior economia do mundo, isso abre a possibilidade de uma busca cada vez maior por fontes renováveis como as eólicas, fotovoltaicas, queima de biomassa, entre outras. 

Apesar dos enormes impactos econômicos da forte alta nos custos da energia elétrica nos últimos meses, os japoneses tem um trunfo a seu favor – o setsuden, um movimento civil de estímulo a conservação e economia de energia elétrica. Esse movimento surgiu imediatamente após o acidente com a usina nuclear de Fukushima, quando a população ficou preocupada com possíveis blecautes. 

Além de todo o esforço da população civil, o Governo japonês tomou uma série de medidas para estimular as empresas a buscar alternativas para a redução do consumo de energia. A combinação de todos os esforços resultou numa redução do consumo de energia elétrica de 8% no Japão entre 2011 e 2018. Essa mesma consciência social poderá fazer toda a diferença nesse momento de crise energética. 

Da mesma forma que vem acontecendo em outros países, a atual crise energética no Japão vai levar a um aumento das emissões de gases de efeito estufa nos próximos meses – muito carvão será queimado ao longo desse inverno. 

A esperança é que isso resulte em um aumento cada vez maior da consciência ambiental entre os governantes e que resulte em ações e buscas por fontes cada vez mais sustentáveis de geração de energia elétrica num futuro bem próximo. Como é corrente na cultura do Extremo Oriente, toda crise gera novas oportunidades! 

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