A CRISE ENERGÉTICA NO REINO UNIDO

Nas postagens anteriores falamos dos problemas energéticos que estão tirando o sono de muitos governantes pelo mundo afora. Aqui no Brasil, como é do conhecimento de todos, estamos convivendo com sucessivas altas nos preços dos derivados de petróleo – especialmente o diesel e o gás de cozinha. 

Nossos problemas ganham maior corpo quando incluímos na equação a grave crise hídrica que está assolando grande parte do Brasil Central. Sem poder contar apenas com a geração hidrelétrica, uma infinidade de usinas termelétricas foram acionadas, lembrando que os combustíveis usados por essas unidades são o carvão, o gás natural e o óleo diesel, insumos que encareceram bastante nos últimos meses. 

Na China e na Europa os problemas estão concentrados em torno do gás natural e do carvão. Após uma brusca redução do consumo por cerca de um ano e meio devido a pandemia da Covid-19, as economias desses países começaram a crescer mais rápido do que se esperava – quanto mais forte o crescimento econômico maior é a demanda por combustíveis. Como todas as cadeias de produção e de distribuição estavam em marcha lenta, começou a faltar combustíveis e os preços subiram muito. 

Um dos países europeus que mais tem enfrentado problemas nessa área é a Inglaterra. Além da alta no preço do gás natural no país – que já chegou próximo dos 280%, e que tem reflexos diretos no custo da geração de energia elétrica e em diversos processos industriais, os ingleses estão sofrendo com a falta de combustíveis nos postos de gasolina. Esse último problema é resultado do Brexit

Relembrando, a população do Reino Unido decidiu em um polemico plebiscito pela saída da União Europeia em 2016. A União Europeia é um grupo formado por 28 países, onde o transito de pessoas e de mercadorias é livre. O Reino Unido entrou no bloco em 1973. A saída oficial dos britânicos da União Europeia se deu em 31 de janeiro de 2020. 

Além de todos o problemas práticos criados pelas novas regras alfandegárias para a importação e exportação de produtos, a saída do bloco europeu implicou em inúmeros problemas de mão de obra. Centenas de milhares de trabalhadores da Europa continental estavam trabalhando nas Ilhas Britânicas e, com a mudança nas regras de trabalho e imigração, grande parte dessa mão de obra se viu obrigada a sair do Reino Unido. 

O êxodo de mão de obra foi agravado com a chegada da pandemia da Covid-19 – com a restrição de circulação de pessoas e o fechamento de empresas, muitos estrangeiros que ainda permaneciam trabalhando no Reino Unido se viram obrigados a retornar aos seus países de origem. Conclusão – está faltando mão de obra em diversas áreas. Somente no setor de transporte de cargas, as estimativas falam que faltam 200 mil caminhoneiros. 

Com as rede de transporte e de distribuição com grandes problemas, lojas, supermercados e postos de combustíveis estão deixando de ser abastecidos e a população está sofrendo as consequências. Uma imagem que se tornou comum são as grandes filas de carros nos postos de gasolina, com motoristas desesperados para encher o tanque (vide foto). Disputas acirradas, inclusive com agressões físicas, também se tornaram comuns. 

Além da falta de combustíveis no varejo, que é a parte mais visível da crise energética, os problemas também são enormes no atacado, principalmente para o setor de geração de energia elétrica. Existem perto de 50 empresas de geração e de distribuição de energia elétrica no Reino Unido, grande parte delas usuárias de gás natural para geração termelétrica.  

O custo do gás representa a maior parte do custo operacional dessas empresas e, como não seria diferente, os aumentos do combustível foram repassados para os consumidores. A conta de energia elétrica dos consumidores já subiu 250% apenas neste ano

O Reino Unido, a exemplo da maioria dos países europeus, vinha investindo pesado em fontes renováveis para a geracão de energia elétrica, especialmente a partir de fontes eólicas. Neste último ano, as fontes eólicas responderam por 25% de toda a geração de energia elétrica nesses países (o Reino Unido é formado pela Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). 

A geração eólica offshore, ou seja, em alto-mar, merece destaque e representa cerca de 8% de toda a energia elétrica produzida. A meta do Reino Unido é garantir que 1/3 de toda a sua produção de energia venha de fontes eólicas até 2030. É possível, inclusive, se atingir uma geração eólica correspondente até 80% da matriz energética até 2050. Porém, conforme já comentamos em postagem anterior, essa geração de energia é intermitente. 

No último verão, citando um exemplo, a redução da velocidade média dos ventos provocou uma redução de 7% na geração eólica no Reino Unido. Ao longo do dia e da noite a geração eólica também sofre oscilações, sendo necessário o acionamento constante da geração térmica a gás ou a carvão para compensar os volumes de energia demandados pela população. 

No total, as fontes de geração de energia renovável no Reino Unido somam 42 GW de acordo com relatórios do final de 2018. Desse total, a geração eólica responde por 20 GW e a geração fotovoltaica por 13 GW. A geração em centrais hidrelétricas e por queima de biomamassa somam 9 GW. Já a geração termelétrica a gás natural e a carvão responde por 20,6 GW. Essa geração a partir de combustíveis fósseis caiu em um terço desde 2013

O brusco aumento da demanda de energia elétrica no Reino Unido e a alta expressiva nos custos do gás natural abriram as portas para o aumento da queima do carvão nas centrais termelétricas. O Reino Unido possui grandes reservas desse combustível, o que facilita, e muito, a ampliação do seu uso para a geração de energia. Porém, não custa lembrar, a queima do carvão é uma das principais fontes de gases de efeito estufa. 

Esse problema atual ( a médio e longo prazo, as cadeias de produção e de abastecimento de combustíveis, e os preços devem se normalizar) poderá se consolidar num grande problema. Desligado da União Europeia, o Reino Unido está legalmente livre de cumprir uma série de acordos ambientais assinados com o bloco, com destaque aqui para a ampliação do uso de energias renováveis. 

Sem uma forte pressão dos cidadãos, especialmente os britânicos, o Governo local poderá se sentir tentado a estimular um uso cada vez maior do carvão “nacional” para geração de energia elétrica, algo que seria bastante benéfico para a economia local nesse momento de transição econômica pós-Brexit, e lamentável para o meio ambiente. 

Como todos sabem, o dinheiro sempre acaba falando mais alto e a tentação será grande… 

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