A GERAÇÃO EMERGENCIAL DE ENERGIA EM CENTRAIS TERMELÉTRICAS NO BRASIL

No fatídico ano de 2001, devido a uma combinação de chuvas abaixo da média, falta de investimentos em sistemas de geração e distribuição de energia elétrica, além de muita incompetência por parte dos nossos governantes, o Brasil viveu um período de racionamento forçado de energia elétrica, que entrou para a história como o “apagão”. 

Passada a crise inicial, foi decidido que seria feita a contratação do fornecimento de energia elétrica gerada a partir de centrais termelétricas, unidades que seriam construídas e mantidas em stand by (espera), só sendo acionadas em novos momentos de crise na geração de energia elétrica. Desde então, em vários momentos em que houve uma redução maior dos volumes de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas, a geração de energia a partir das termelétricas passou a ser bastante utilizada aqui no Brasil em carater emergencial. 

Quando as usinas termelétricas entram em operação é acionada a chamada “bandeira vermelha” nas contas de energia elétrica – os consumidores são alertados que haverá um acréscimo no valor das suas contas, uma vez que a geração termelétrica é mais cara que a geração feita por usinas hidrelétricas.  

Esse ano, conforme estamos tratando na atual sequência de postagens, a falta de chuvas em extensas áreas das regiões Centro-Oeste e Sudeste deixou reservatórios de importantes unidades geradoras de energia elétrica com baixos níveis e a “bandeira vermelha” já foi acionada – preparem os bolsos porque as contas vão ficar “mais salgadas”. 

De acordo com dados de outubro de 2020 da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, o Brasil possui um total de 8.989 usinas geradoras de energia elétrica, com uma potência outorgada de 175.044.716,46 kW e uma potência fiscalizada de 173.214.363,64 kW. Essa geração inclui centrais hidrelétricas, que respondem por cerca de 60% da geração, além de centrais termelétricas, eólicas, fotovoltaicas e nucleares

As centrais termelétricas totalizam 3.168 unidades em todo o país, com uma potência outorgada de 51.797.907,79 kW e potência fiscalizada de 43,003.675,89 kW. Desse total, 41 empreendimentos ainda se encontram na fase de projeto e outros 67 estão em construção. Cerca de 65% dessas centrais termelétricas são movidas a partir da queima de combustíveis fósseis e 35% por queima de biomassa

Os combustíveis fósseis usados são gás natural, óleo diesel e outros derivados de petróleo, o altamente poluente carvão mineral, gases dos altos fornos de usinas siderúrgicas e de refinarias de petróleo, além de outras fontes de calor. Comparada à geração de energia por fontes hidrelétricas, qualquer uma dessas fontes de energia é muito mais danosa ao meio ambiente. 

Na geração termelétrica a partir da biomassa, o grande destaque é o bagaço da cana-de-açúcar, um subproduto da produção do açúcar e do etanol. As fontes agroindustriais e florestais fornecem também a casca de arroz, o capim elefante, o licor negro (subproduto da produção de papel e celulose), além de resíduos de florestas como lenha e carvão vegetal. Também podem ser utilizados como fonte de energia biocombustíveis líquidos de origem vegetal como óleos e etanol. 

Uma fonte energética importante e que pode ter o seu uso bastante ampliado é o biogás resultante do processo de decomposição de matéria orgânica em aterros sanitários (vide foto), em estações de tratamento de esgotos e também em fazendas que se dedicam a criação de animais como porcos – o esterco desses animais produz grandes volumes de biogás

A geração por fontes hidrelétricas é considerada uma das formas mais renováveis para a produção de energia elétrica. A água das chuvas é o resultado de processos naturais criados pela energia solar e pelos ventos (que também tem sua origem na energia solar). Essa água corre através dos rios e se acumula nas barragens das usinas hidrelétricas, onde o fluxo da água sob pressão aciona as turbinas geradoras. 

Aqui precisamos destacar alguns problemas – essa geração “sustentável” de energia nas usinas hidrelétricas exclui os graves impactos ambientais que são produzidos pelo alagamento de grandes áreas após o fechamento das comportas das barragens. Populações ribeirinhas precisam ser deslocadas, áreas de produção agrícola são perdidas e remanescentes florestais precisam ser derrubados antes do alagamento das terras (se a vegetação não é removida, ela apodrece sob as águas e se transforma numa grande emissora de gases de efeito estufa). 

Outro problema sério da geração hidrelétrica é a imprevisibilidade do clima, que de um ano para o outro pode mudar e gerar grandes secas em extensas regiões. Desde o ano passado, grandes áreas do território brasileiro já vinham sofrendo com chuvas abaixo da média. O problema foi amplificado a partir do final de 2020 devido a incidência do fenômeno climático La Niña, que afetou grandes áreas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste, justamente onde se encontram importantes usinas hidrelétricas do país. 

Para fugir dos “humores” do clima e da poluição gerada por fontes termelétricas, muitos países passaram a optar pela energia nuclear. Essa forma de geração, inclusive, passou a ser considerada altamente sustentável do ponto de vista ambiental nas últimas décadas. Nesse tipo de instalação, a energia térmica tem como origem a fissão nuclear de elementos radioativos como o urânio, um processo que gera muito calor. Esse calor é usado para ferver grandes volumes de água e o vapor resultante é direcionado para uma turbina a vapor ligada a um gerador elétrico. 

Na França, citando um exemplo, 86% de toda a energia elétrica produzida vem de centrais nucleares. São no total 19 usinas, onde 56 reatores nucleares estão em operação. O governo local considera esse tipo de instalação segura e muito menos impactante ao meio ambiente do que as usinas hidrelétricas e termelétricas. O maior problema desse tipo de instalação são os resíduos criados pela fissão dos elementos radioativos, que muitas vezes é chamado de “lixo nuclear”, e que necessitam de condições de armazenamento muito especiais. 

Existem atualmente cerca de 450 reatores em operação em usinas nucleares em 31 países do mundo. Apesar das insistentes manifestações e notícias sobre a segurança das operações nesse tipo de usina geradora, é difícil esquecer de grandes acidentes nucleares como os que ocorreram em Chernobyl, na Ucrânia em 1986, e em Fukushima, no Japão em 2011. 

No Brasil existem apenas duas centrais nucleares em operação – Angra I e II, além de uma terceira unidade em construção – Angra III. A contribuição das usinas nucleares brasileiras na matriz energética é de aproximadamente 3%, um valor que não ajuda muito em tempos de falta de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas. Dependemos quase que exclusivamente das usinas termelétricas nesses momentos de crise, além da providencial contribuição das centrais eólicas e fotovoltaicas já em operação no país. 

Desde o início desse mês de junho, após o comunicado de emergência hídrica pelo SNM – Sistema Nacional de Meteorologia, as unidades de geração de energia termelétrica disponíveis passaram a ser ligadas com o objetivo de economizar ao máximo a água dos reservatórios. De acordo com autoridades do setor elétrico, o país não corre o risco de passar por um novo “apagão”, mas, como diziam os antigos, “caldo de galinha e cautela não fazem mal a ninguém”. 

Até que as chuvas voltem no final do ano (o que é a esperança de todos) e os reservatórios das usinas hidrelétricas voltem a encher, é importante que todos fiquem de olho no valor de suas contas de energia elétrica. E sempre que possível, evitem gastar energia elétrica à toa. 

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